sexta-feira, 26 de junho de 2009

LITERATURA REGIONALISTA ACREANA

A contribuição de José Inácio Filho

"Dessa união houve um casal de filhos. O menino foi chamado Xapuri, e a menina Tarauacá. Diz-se que os dois filhos deram os seus nomes a dois municípios do Acre."

José Inácio Filho / Fatos, cultos e lendas do Acre

Um livro, quando trata de assuntos acreanos, o meu dever é apresentá-los aos amigos. O Acre pouco a pouco começa a solidificar a sua história literária. Temos nomes significativos no passado e, no momento temos importantes expressões que traduzem os mais variados aspectos da vida acreana, sob as mais diversas formas literárias.

Ainda há de certa forma, uma visão preconceituosa em relação às literaturas regionalistas, que muitas vezes são ignoradas em razão do cânone já consagrado de autores e livros de grande circulação nacional, etc. Além de que, a maioria das obras não são, em grande parte, conhecidas em sua própria região de origem.

No Acre, há uma gama de obras de grande representatividade, indispensáveis para a compreensão da constituição de nosso próprio povo e de nossa história. Mas que, no entanto, são difíceis de serem encontradas, pois na maioria das vezes configuram como obra rara, já que muitas nunca tiveram uma reedição.

Em minhas modestas pesquisas, de apaixonado admirador das letras acreanas, tenho me deparado com uma enorme riqueza de fontes bibliográficas de ou referentes ao Acre. Isso mostra o quanto somos devedores daqueles que nos precederam e o quanto de trabalhos e desafios se descortinam em nosso horizonte quando a questão é: letras acreanas.

José Inácio Filho, natural de Brasiléia-AC, é um dos escritores acreanos que possui três obras muito interessantes, que abordam algumas peculiaridades da cultura acreana. No seu primeiro livro: Fatos, cultos e lendas do Acre, publicado em 1964, no Rio de Janeiro, ele retrata alguns aspectos do folclore acreano. A obra é composta por 27 narrativas, que vão desde a descrição de algumas lendas regionais como a da cobra encantada, da cruz milagrosa, do gogó-de-sola, até a descrição de alguns animais e aves que povoam o imaginário popular, pelo seu caráter supersticioso. Muitas das narrativas são frutos da própria vivência do autor, isto é, das estórias que ouvia de seringueiros e gentes mais vividas de sua região.

"Ainda hoje, quem for lá para as bandas do Acre e fizer visita a algum seringal é bem possível ouvir o canto melancólico da Acoã". (Acoã, fragmento de Fatos, cultos e lendas do Acre)

Publicado em 1968, no Rio, Capiongo – Romance da Amazônia Acreana é o único romance de José Inácio Filho. Integra a lista dos romances editados fora do estado, num momento de pouca publicação de romances na literatura acreana.

Já que no primeiro livro, José Inácio se deteve mais nos aspectos folclóricos, e depois romance, no terceiro voltou-se para o linguajar acreano. Trata-se do livro: Termos e Tradições populares do Acre, também publicado no Rio de Janeiro, no ano de 1969. O livro é uma espécie de dicionário que congrega palavras e expressões, que no Acre, assumem outra conotação. "Não foi sem muitos esforços, em contato direto, aqui e ali, com o povo de meu Acre que consegui reuni estes materiais de linguagem e de folclore [...]", ressalta o autor que na época vivia no Rio.

"MUCUMBUDO, d.j. Ancudo, quarteirudo: "A Joaquina é a mulher mais mucumbuda que já vi pisando o chão do Acre." (Fragmentos de Termos e Tradições Populares do Acre)

José Inácio Filho, hoje, reside no Ceará, onde é membro da Associação Cearense de Escritores. Lançou no início deste mês (Junho), no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura de Fortaleza, o livro de poesia "Canta Musa meus Versus e Rimas", obra que se abre num universo mágico de muitos personagens lendários e de diversas culturas, como Iracema, Uirapuru e o Boto Encantado, etc. Além desses livros, José Inácio é autor de outros dois: O bb e eu (RJ, 1975), e  Vocabulário de termos populares do Ceará (CE, 2001).

"Essa mão que te afaga

É a direita e não atraiçoa.

Essa boca que te beija,

Nunca te beija à-toa."

(Fragmentos de Canta Musa meus Versus e Rimas)

 

Assim como José Inácio Filho, há inúmeros outros autores acreanos ou não, que deixaram registrados sob a égide de suas penas, importantes narrativas de um passado e de uma história que, hoje, podem apenas ser conhecidas ao perlustrarmos as páginas de seus escritos.

 

 

Referências e sugestões:

FILHO, José Inácio Filho. Fatos, cultos e lendas do Acre. Rio de Janeiro: Cia Brasileira de Artes Gráficas, 1964.

FILHO, José Inácio Filho. Termos e Tradições Populares do Acre. Rio de Janeiro: Cia Brasileira de Artes Gráficas, 1969.



terça-feira, 23 de junho de 2009

ANÚNCIO DA ROSA

Carlos Drummond de Andrade


Imenso trabalho nos custa a flor.
Por menos de oito centavos vendê-la? Nunca.
Primavera não há mais doce, rosa tão meiga
onde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis.

Uma só pétala resume auroras e pontilhismos,
sugere estâncias, diz que te amam, beijai a rosa,
ela é sete flores, qual mais fragrante, todas exóticas,
todas históricas, todas catárticas, todas patéticas.

                                               Vede o caule,
                                               traço indeciso.

Autor da rosa, n'ao me revelo, sou eu, quem sou?
Deus me ajudara, mas ele é neutro, e mesmo duvido
que em outro mundo alguém se curve, filtre a paisagem,
pense uma rosa na pura ausência, no amplo vazio.

                                               Vinde, vinde,
                                               olhai o cálice.

Por preço tão vil mas peças, como direi, aurilavrada,
não, é cruel existir em tempo assim filaucioso.
Injusto padecer exílio, pequenas cólicas cotidianas,
oferecer-vos alta mercancia estelar e sofrer vossa irrisão.

                                               Rosa na roda,
                                               rosa na máquina,
                                               apenas rósea.

Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,
pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs na noite,
e não há oito contos. Já não vejo amadores de rosa.
Ó fim do parnasiano, começo da era difícil, a burguesia apodrece.

                                               Aproveitem. A última
                                               rosa desfolha-se.


ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. Rio de Janeiro: Record, 1984.

sábado, 20 de junho de 2009

AINDA TEMOS PROFETAS

Pe. Paolino: 'Mesmo com saúde abalada eu farei Empate'
Oestadoacre.com
O vigário mais polêmico do Acre e envolvido completamente no socorro dos mais fracos está de novo às voltas na defesa dos seringueiros e posseiros de seringais do Iaco.
Padre Paolino Baldassari disse em entrevista exclusiva a oestadoacre.com que se o Instituto de Meio Ambiente do Acre [Imac] autorizar o Plano de Manejo nos seringais Campo Osório e Porongaba, ele e os moradores das localidades vão ressuscitar o Empate, ação de resistência contra a devastação das florestas que ficou mundialmente conhecida pelas mãos de Chico Mendes.
Nos próximos dias o Ibama concluirá os últimos estudos para enviar o projeto de Área de Conservação [as chamadas reservas] no Iaco e região para sanção pelo governo federal que, por praxe, só endossa a proposta se o governo local o fizer primeiro. Se os seringais dessas regiões forem alvos de manejo, como se propala nos quatros cantos de Sena Madureira, o decreto de consolidação da nova reserva legal estará ameaçado.
[Junho de 1997], casa do posseiro Brasilino:
-Queremos falar com o Pe Paolino.
-Quem são vocês? - indaga Brasilino que, naquele dia, hospedava em sua casa o vigário defensor da matas e florestas do Acre.
Paolino foi avisado que dois homens - 'mal encarados' e armados com armas de fogo - esperavam por ele na frente da casa de seu fiel escudeiro Brasilino. Paolino teve uma idéia:
-Não fui imediatamente conversar com os dois homens e pedi para um dos filhos de Brasilino convocar todos nas proximidades para uma novena na boca-da-noite. Reunimos dezenas de pessoas e fiz o que tinha de fazer. Rezei com os seringueiros e suas famílias. Na hora de dormir, Brasilino atou minha rede dentro do quarto dele para me proteger desses dois homens, que ficaram calados, mas observando toda a novena - contou Paolino ao oestadoacre.com.
-No outro dia, pela manhã, eles vieram conversar comigo e me chamaram de comunista, traidor, e que tinham mudado de igreja por conta das minhas posições e que eu deveria falar de Deus. Eu disse que eles é que não queriam saber de Deus porque tinha observado que eles não rezaram nada durante a novena da noite anterior - disse Paolino, mostrando toda a sua perspicácia para os momentos de iminente perigo.
Essa tem sido a vida de Pe Paolino, que afirmou à reportagem que não está com a saúde boa, mas que não irá tolerar que o seringal de suas primeiras batalhas, o Campo Osório, localizado no 'Médio Iaco', especialmente, seja entregue para empresas fazerem plano de manejo.
-Eu já mandei uma carta para o governador Binho (Marques) e dei uma cópia para o Anselmo (Forneck), do Ibama. Eu os avisei com antecedência. Estou escrevendo uma carta ao presidente Lula. Agora vem essa notícia de que o Imac autorizou o plano de manejo para esses seringais. Eu não vou aceitar - assevera Paolino da sua 'cadeira de macarrão' instalada na residência dele em Sena Madureira.
Voto de pobreza
As áreas dos seringais citados ainda vão gerar muitas notícias. Um dos seringais teria por muitos anos sido registrado em nome de uma freira de nome Adélia, que, morando no Rio de Janeiro, teria deixado um documento autorizando que as terras fossem repassadas para o nome de Pe Paolino. Por ter feito 'voto de pobreza' [não ter bens em seu nome], o velho padre não aceitou. E, não se sabe como, essas terras jáestão hoje sob o domínio das empresas que, em tese, vão levar adiante o tal plano de manejo.
-Até o Banco da Amazônia, à época me incentivou a ter essas terras em meu nome ou em nome da igreja, que seriam liberados recursos para isso e para aquilo - contou o sacerdote.
Paolino não sabe com precisão quem são as empresas que poderão explorar o potencial de mogno existente no Campo Osório. Mas fala sobre o alerta que recebeu do arcebispo de Porto Velho (RO), dom Moacyr Grechi.
-Dom Moacyr me disse que se a empresa Crocetta entrar no Acre as matas vão se acabar. Será o fim da floresta - relatou Paolino.
Ibama e Imac: opiniões divergentes
Ouvidos pela reportagem de oestadoacre.com, os dois institutos responsáveis pela fiscalização ambiental têm opiniões diferentes: o Ibama apóia a preservação dos seringais Campo Osório e Porongaba. Nessas regiões moram pelo menos 70 famílias. O gerente regional, Anselmo Forneck, instado a falar sobre uma possível autorização do Imac do plano de manejo desses seringais, foi categórico:
-Seria um equívoco. Onde moram populações tradicionais a lei não permite plano de exploração de madeira.
A dirigente do Imac, Cleísa Cartaxo, disse a oestadoacre.com, no primeiro contato, que não lembrava se nessas áreas o Imac havia concedido autorização para manejo. No segundo contato garantiu que não há autorização para exploração no Campo Osório e no Porongaba.
-Não há autorização do Imac para esses seringais. Mas se houver, as pessoas que vivem lá serão indenizadas - garantiu.
Indenização que não sensibiliza nem arrefece os ânimos de Pe Paolino em utilizar novamente o instrumento mais poderoso dos seringueiros do Acre contra os predadores do ambiente: o Empate.

Fonte: Biblioteca da Floresta


quarta-feira, 17 de junho de 2009

NOSSA POESIA DE PROTESTO

CADÊ A MACAXEIRA?

Silene de Farias*

 

É pouca a farinha no prato

E muita água na macaxeira.

É da gripe crônica

À falta de lambedor.

É um filho no peito,

Outro no bucho,

Outros quatro lambendo o dedo.

A rapadura foi pouca!

É a tristeza do companheiro,

A goteira que aumenta

E molha um outro filho

Que arde em febre...

É a peste!

É o andar curvado,

Do peso secular da carga.

É o brilho dos olhos desfeito

Pela fumaça do látex.

A memória é forte!

 

* Maria Silene de Farias Franca (1951-) é natural de Tarauacá-AC. Em 2002 organizou e publicou Bairro XV e Cidade Nova, por meio da Prefeitura Municipal de Rio Branco e Fundação Garibaldi Brasil, da qual ocupava o cargo de presidente. O poema acima foi retirado do livro da Profª. Dra. Margarete Edul Prado, "Motivos de Mulher na Amazônia: produção de escritoras acreanas no século XX" (EDUFAC: 2006). Segundo a pesquisadora, esse poema faz parte de uma coletânea de poemas publicado em 1981 pelo grupo denominado Cia Teatro 4º Fuso, sob a responsabilidade de Jorge Carlos. Este grupo se voltava para uma poesia de cunho social, tematizando acerca dos problemas do campo, da exploração, da miséria do seringueiro, etc. O livro, produção independente, em formato de brochura consta de 50 poemas, com desenhos, gravuras e reproduções de quadros de artistas locais, a saber, Hélio Melo, Dim (Raimundo Mendes), Carlos Mejido, Jorge Carlos e Saulo Ribeiro retratando cenas de queimadas, do cotidiano e moradia do seringueiro, da mata, das opressões. No livro Silene de Farias assina três poemas.



terça-feira, 16 de junho de 2009

O CANTO DOS URUS

 

O uru é uma ave pequena da região amazônica, pouco maior que um pinto, de cor parda, pintado de branco, muito comum no Acre.

Vive pelo chão sobre pequenas moitas, sempre aos pares.

Seu canto, embora tão triste que chega a magoar a quem ouve, é belo, de uma magia estranha.

 Quase não se escuta outra voz senão a sua, em toda a mata, desde a boca dos varadouros até entrar-se nos atalhos, batidas ou pernas de estradas dos seringueiros.

É a primeira ave a dar os bons dias aos seringueiros.

É ela que o desperta e que, depois, o acompanha pelas picadas a caminho das seringueiras.

E o seu canto, espécie de fala dialogada, saudosa, cheia de ternura, encanta e magoa, ao mesmo tempo, os seus ouvidos, pelo dia todo:

- Quem... vai...?

- pô... tô... co...?

- Quem... vai...?

- pô... tô... co...?

É uma melodia de um efeito surpreendente, que jamais, poderá esquecer na vida esteja onde estiver, aquele que a ouvir.

Não há uma nota discordante, que entoe confusa, um engano entre os executantes.

É em a natureza virgem, fora da presença do homem, onde está a força viva, poderosa da grandeza de Deus.

Jamais os ouvidos acreanos foram embalados por toada mais bela e harmoniosa que a dos urus.

O seringueiro criou, até, a lenda de que toco, nome dado aos troncos das árvores em geral, recebeu essa denominação da fala dos urus.

 

Referência e sugestão:

FILHO, José Inácio. Fatos, cultos e lendas do Acre. Rio de Janeiro: Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1964.



quinta-feira, 11 de junho de 2009

OLHARES...

O sorriso da índia ashaninka é mais uma imagem do Acre e seus infinitos rostos. Singelo, espelha a diversidade étnica de um Estado que se transforma a cada dia num admirável processo de evolução. (Foto: Sérgio Vale/Secom)

O pequeno índio Ashaninka vive a tranqüilidade do lugar onde habita seu povo. Ainda criança aprende os costumes e valores vividos e cultivados por seu povo, afinal, ele é um dos responsáveis em levar adiante os ensinamentos dos mais velhos. (Foto: Sérgio Vale/Secom)

A beleza está nos pequenos detalhes. A casa de madeira simples, pintada de azul, e porta vermelha, ganha um toque especial com o jardim florido na frente. (Gleilson Miranda/Secom)

O beija-for é a única ave capaz de permanecer imóvel no ar. O batimento de suas asas é muito rápido – chega de 70 a 80 vezes por segundo. Isso para mantê-lo no ar, já que as patas dessa espécie são pequenas demais para caminhar sobre o solo. O nome faz referência ao seu trabalho de polinização. No registro de Sérgio Vale, o beija-flor passeia pelas flores do jardim do Parque do Tucumã. (Foto: Sérgio Vale/Secom)

A cortina de orvalho que chega junto com o sol anuncia que a noite se foi e que ali, naquele lugar, a vida como o rio corre sem pressa. O céu brinca com as cores antes de anunciar definitivamente o novo dia (Foto: Sergio Vale/Secom)

 
P.S. A Agência de Notícias do Acre tem belíssimas imagens, de onde estas acima foram retiradas, vale a pena conferir.


quarta-feira, 10 de junho de 2009

Richard Rorty: filósofo da cultura

"Mas é revoltante pensar que nossa única

esperança de uma sociedade decente consiste

em amolecer os corações auto-satisfeitos de

uma classe que se dedica ao lazer."

Richard Rorty

 

Pensar filosoficamente não é atributo exclusivo do filósofo nem tampouco de quem estuda filosofia. Por longos séculos, a filosofia foi vista como a mãe de todos os saberes e nessa condição, inúmeras tradições filosóficas, encerraram-na numa espécie de redoma de cristal, sendo alcançada apenas por nobres espíritos que por meio de pensamentos altamente elaborados atingiam a Verdade.

O pensamento filosófico de Richard Rorty (1931-2007) caminha na contramão da tradição que busca uma verdade redentora, uma essência real das coisas, um meta-vocabulário ou um vocabulário ideal que contenha todas as opções discursivas genuínas. O trabalho rortyano de crítica estende-se para incluir ainda a filosofia analítica contemporânea, e quer conduzir ao abandono, tanto do modo antigo (metafísico), quanto moderno (epistemológico), de fazer filosofia. Isto é, na proposta "não-fundacionista" de uma filosofia trazida inteiramente para dentro do mundo (de nossas práticas), como interpretação e como formação (ou edificação), e não mais como uma espécie de "dona da razão".

Rorty pertencia à tradição neo-pragmatista norte-americana e foi um dos mais importantes filósofos contemporâneos. Uma das características mais marcantes de sua reflexão intelectual é a capacidade de construir diálogos entre tradições filosóficas que costumam ser tomadas de modo independente, e sugerir leituras tão inovadoras de outros autores que a história das idéias e o mapa dos problemas filosoficamente relevantes se vê redesenhado.

Para Rorty, é necessário redescrever a filosofia e sua tarefa, na qual ela aponte para um horizonte de utopia e esperança liberal, de cultura aberta, onde a imaginação seja valorizada como caminho poético para a construção de um futuro diferente, aceitando radicalmente a contingência e a finitude. Sua proposta de filosofia é de uma filosofia da cultura, para a qual o filósofo deve estar disposto a dialogar com as várias áreas das chamadas ciências humanas, principalmente com a literatura e a história.

Segundo Rorty, devemos evitar encapsular a filosofia como muitos pensadores têm feito, por isso, se faz necessário mudar a concepção a respeito da utilidade da filosofia. Isso será alcançado, se algum dia o for, por um longo e lento processo de mudança cultural, ou seja, de mudança no senso comum, mudança nas percepções disponíveis para ser impulsionadas por argumentos filosóficos. Nesse sentido, é que Rorty sugere abandonarmos a terminologia absoleta da filosofia, pois ela progride ao se tornar não mais rigorosa, mas mais criativa. Abandonar essa terminologia absoleta, segundo Rorty, torna-nos mais sensíveis à vida ao nosso redor, pois nos ajuda a parar de tentar cortar materiais novos, recalcitrantes para atender a antigos padrões.

Como pragmatista, Rorty bebe bastante do pragmatismo de John Dewey que ressaltava que a filosofia não pode oferecer nada mais que hipóteses, e essas hipóteses têm valor apenas à medida que tornam as mentes humanas mais sensíveis à vida ao seu redor. Isso leva Rorty a dizer que o progresso filosófico ocorre à medida que encontramos uma maneira de integrar as visões de mundo e as percepções morais herdadas de nossos ancestrais às novas teorias científicas ou às novas teorias e instituições sociopolíticas ou a outras inovações.

Nossa relação com a tradição, ressalta Rorty, precisa ser uma nova escuta do que já não pode mais ser ouvido, ao invés de um discurso sobre o que ainda não foi dito. Para ele, a glória do pensamento de um filósofo não é a de que ele inicialmente torna todas as coisas mais difíceis, o que não deixar de ser verdade, mas a de que no fim o filósofo torna as coisas mais fáceis para todo mundo. Rorty pensa na superação da tradição da metafísica Ocidental que faz alusão a Uma Descrição Verdadeira e que exibe o padrão subjacente à aparente diversidade.

Rorty pretende, de certa forma, uma literalização da filosofia, pois ele a ver apenas como mais um gênero literário. A proposta de Rorty é que possamos escrever sobre filosofia de modo não-filosófico, chegar a ela a partir do exterior, ser um pensador pós-filosófico. A grande crítica de Rorty a filosofia é que ela muitas vezes tornou o filósofo insensível para perceber o mundo a sua própria volta. O que é cômico em nós, ressalta Rorty, é que estamos nos tornando incapazes de ver coisas que qualquer outra pessoa pode ver – coisas como o aumento ou a diminuição do sofrimento – à medida que nos convencemos de que essas coisas são "meras aparências". É como se a reflexão filosófica tivesse tornado o homem inapto para o mundo. 

Por sua vez, a literatura tem desempenhado um papel imprescindível para a reflexão moral. Para Rorty, a literatura, e não a filosofia é a única capaz de promover a verdadeira noção de solidariedade humana, pois as palavras de romancistas como George Orwell e Vladimir Nabokov foram mais eficazes na tentativa de nos sensibilizar diante da crueldade que as indagações de inúmeros filósofos. Ele afirma que narrativas dramáticas podem muito bem ser essenciais para a escrita da história intelectual. Em vez do filósofo, Rorty pensa no romancista como aquele capaz de nos sensibilizar para os casos de crueldade e humilhação que muitas vezes não percebemos.

A reflexão filosófica elaborada por Richard Rorty é imprescindível a todas as pessoas interessadas em filosofia contemporânea e no que ela pode fazer pelo mundo moderno. Rorty transita muito bem entre as diversas tradições filosóficas, com leituras totalmente originais acerca dos mais diferentes pensadores, fato que torna o seu pensamento um dos mais combatidos e apreciados na atualidade.

 

Referências e sugestões:

RORTY, Richard. Contingência, ironia e solidariedade. (Tradução Vera Ribeiro). São Paulo: Martins, 2007.

RORTY, Richard. Verdade e progresso. (Tradução de Denise R. Sales). Barueri, SP: Manole, 2005.

RORTY, Richard. Ensaio sobre Heidegger e outros: escritos filosóficos (2). (Tradução de Marco Antônio Casanova). Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999.

ARAÚJO, Inês Lacerda. Castro, Susana de (orgs). Richard Rorty: filósofo da cultura. Curitiba: Champagnat, 2008.

SOUZA, José Crisóstomo de (org.). Filosofia, racionalidade, democracia: os debates Rorty & Habermas. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
 

 

Isaac Melo



terça-feira, 9 de junho de 2009

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O POVO ACREANO

Océlio de Medeiros*

 

Sarapatel de tipos diferentes,

de raças e de sangues,

panelada da terra,

buchada ou maniçoba,

procede o povo do Acre da violência

da conquista da selva,

do domínio dos rios,

da ambição, da aventura.

Dos quatro cantos vieram várias levas

dos homens sem mulheres,

nortistas, nordestinos,

heróis do Paraguai,

foragidos do horror da Cabanagem,

da guerra de Canudos

e da maior das secas,

desde o devassamento.

Dos quatro cantos vieram logo atrás

dos homens da borracha

as caboclas e as brancas

para a rede das índias.

Os brabos e as mulheres que o seguiram,

as Donas do Ceará

e as Sinhás do Pará

abriram seringais.

Depois, quando a borracha foi pneu,

"polacas" foram polens,

sementes e matrizes,

que criaram raízes.

Foi assim que nasceu da descendência

da gente aventureira

o povo da fronteira

do noroeste acreano.

Nasceu mamando leite de seringa

e comendo borracha,

guerreando a Bolívia

e quebrando castanha.

 

Referência e sugestão:

MEDEIROS, Océlio de. Jamaxi: A Poesia do Acre. Rio de Janeiro: Arquimedes Edições, 1979.

 

* OCÉLIO DE MEDEIROS foi um dos intelectuais mais fantásticos e irreverentes que o Acre já teve. Nasceu em 1917 em Xapuri e faleceu em 2008. Escritor, poeta, professor, advogado e ex-deputado federal pelo Estado do Pará.

P.S. Estou lendo e pesquisando acerca de Océlio de Medeiros, assim que concluir estarei postando um pequeno artigo sobre esse grande humanista acreano.

Foto: Marcos Pasquim



quinta-feira, 4 de junho de 2009

Consolo na praia

Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores...

A infância está perdida.

A mocidade está perdida.

Mas a vida não se perdeu.

 

O primeiro amor passou.

O segundo amor passou.

O terceiro amor passou.

Mas o coração continua.

 

Perdeste o melhor amigo.

Não tentaste qualquer viagem.

Não possuis casa, navio, terra.

Mas tens um cão.

 

Algumas palavras duras,

em voz, te golpearam.

Nunca, nunca cicatrizaram.

Mas, e o humour?

 

 A injustiça não se resolve.

À sombra do mundo errado

murmuraste um protesto tímido.

Mas virão outros.

 

Tudo somado, devias

precipitar-te, de vez, nas águas.

Estás nu na areia, no vento...

Dorme, meu filho.
 

O poema faz parte do livro A rosa do povo, publicado em 1945. O livro reflete um tempo, não só individual mas coletivo no país e no mundo. Escrito durante os anos cruciais da II Guerra Mundial, as preocupações então reinantes são identificadas em muito de seus poemas, através da consciência e do modo pessoal de Carlos Drummond de Andrade.