Há tempo que ando com ideias de escrevinhar. Só persisto em escrever porque sei que escrevo pessimamente. Para saber que escrevo pessimamente é preciso escrever. Por isso escrevo. Tal é minha grandeza, e minha fraqueza, e meu desdém.
Ninguém aprende a escrever bem sem ler. É o que me disseram. Tanto li que me esqueci e esqueci de escrever. Ler bem é também escrever, não? Ler sem pensar, ler distraidamente, assertou Hermann Hesse, é como passear entre belas paisagens com os olhos vendados.
É possível que escrever seja mesmo uma arte. Ora, a arte não é propriamente aprimoramento do conhecimento científico, mas o pulsar do coração, cujo princípio é o amor. E como nos ensinou Oscar Wilde, revelar a arte e esconder o artista, tal é a finalidade da arte.
Escrever é despertar para a beleza, suprimir por um momento a feiúra da existência. É, no poetar de Helena Kolody, captar os seres em seu ínfimo instante de beleza. Por isso todo escrever é um maravilhar-se, porque aí o sublime toca e é tocado.
O escrever para alguns é como água de cachoeira, desce aos borbotões. Por minha vez, sofro, como em dores de parto, para conceber cada palavra. Pior é a depressão pós-parto. A insatisfação da cria. O esforço é grande e o homem é pequeno. Tem razão Fernando Pessoa.
Todo escrever há de ser poético. A palavra por si só é poesia. O poeta é o grande arquiteto da humanidade. E ai do país, sentenciou Dom Hélder Câmara, que deixa de ter poetas ou onde a poesia deixa de ser amada, entendida, discutida.
Aqui vale recordar Adélia Prado, isto é, se você for capaz de escrever como o sol batendo na pedra do anelzinho de vidro formou na parede onde a menina se esqueceu de si no só mirar aquelas constelações, você dá carne à palavra, sabe o que a palavra é, as poéticas.
Quem nasce à beira de rio, como eu, aprende a escrever sem escrever. Saber admirar é também escrever. Escreve-se com o canto dos passarinhos, o murmúrio das águas, o coaxarem dos sapos, a noite escura... Para Hermann Hesse, não é só o ser humano que escreve. O vento escreve, o mar, o rio e o regato, os animais escrevem, a terra escreve quando em algum lugar franze a testa e fecha o caminho de uma torrente, varre um pedaço de montanha ou uma cidade inteira.
Escrever é comunhão cósmica. É comunhão divina. É comunhão humana. Pois quando se escreve, escreve-se na solitude do mundo ou do coração. Mas não se escreve sozinho, em cada mão, a tecer palavras, pulsa a humanidade.
Às vezes me dá vontade de ri de tudo o que escrevi.

0 comentários:
Postar um comentário