quinta-feira, 4 de junho de 2009

Consolo na praia

Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores...

A infância está perdida.

A mocidade está perdida.

Mas a vida não se perdeu.

 

O primeiro amor passou.

O segundo amor passou.

O terceiro amor passou.

Mas o coração continua.

 

Perdeste o melhor amigo.

Não tentaste qualquer viagem.

Não possuis casa, navio, terra.

Mas tens um cão.

 

Algumas palavras duras,

em voz, te golpearam.

Nunca, nunca cicatrizaram.

Mas, e o humour?

 

 A injustiça não se resolve.

À sombra do mundo errado

murmuraste um protesto tímido.

Mas virão outros.

 

Tudo somado, devias

precipitar-te, de vez, nas águas.

Estás nu na areia, no vento...

Dorme, meu filho.
 

O poema faz parte do livro A rosa do povo, publicado em 1945. O livro reflete um tempo, não só individual mas coletivo no país e no mundo. Escrito durante os anos cruciais da II Guerra Mundial, as preocupações então reinantes são identificadas em muito de seus poemas, através da consciência e do modo pessoal de Carlos Drummond de Andrade.



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