sexta-feira, 26 de junho de 2009

LITERATURA REGIONALISTA ACREANA

A contribuição de José Inácio Filho

"Dessa união houve um casal de filhos. O menino foi chamado Xapuri, e a menina Tarauacá. Diz-se que os dois filhos deram os seus nomes a dois municípios do Acre."

José Inácio Filho / Fatos, cultos e lendas do Acre

Um livro, quando trata de assuntos acreanos, o meu dever é apresentá-los aos amigos. O Acre pouco a pouco começa a solidificar a sua história literária. Temos nomes significativos no passado e, no momento temos importantes expressões que traduzem os mais variados aspectos da vida acreana, sob as mais diversas formas literárias.

Ainda há de certa forma, uma visão preconceituosa em relação às literaturas regionalistas, que muitas vezes são ignoradas em razão do cânone já consagrado de autores e livros de grande circulação nacional, etc. Além de que, a maioria das obras não são, em grande parte, conhecidas em sua própria região de origem.

No Acre, há uma gama de obras de grande representatividade, indispensáveis para a compreensão da constituição de nosso próprio povo e de nossa história. Mas que, no entanto, são difíceis de serem encontradas, pois na maioria das vezes configuram como obra rara, já que muitas nunca tiveram uma reedição.

Em minhas modestas pesquisas, de apaixonado admirador das letras acreanas, tenho me deparado com uma enorme riqueza de fontes bibliográficas de ou referentes ao Acre. Isso mostra o quanto somos devedores daqueles que nos precederam e o quanto de trabalhos e desafios se descortinam em nosso horizonte quando a questão é: letras acreanas.

José Inácio Filho, natural de Brasiléia-AC, é um dos escritores acreanos que possui três obras muito interessantes, que abordam algumas peculiaridades da cultura acreana. No seu primeiro livro: Fatos, cultos e lendas do Acre, publicado em 1964, no Rio de Janeiro, ele retrata alguns aspectos do folclore acreano. A obra é composta por 27 narrativas, que vão desde a descrição de algumas lendas regionais como a da cobra encantada, da cruz milagrosa, do gogó-de-sola, até a descrição de alguns animais e aves que povoam o imaginário popular, pelo seu caráter supersticioso. Muitas das narrativas são frutos da própria vivência do autor, isto é, das estórias que ouvia de seringueiros e gentes mais vividas de sua região.

"Ainda hoje, quem for lá para as bandas do Acre e fizer visita a algum seringal é bem possível ouvir o canto melancólico da Acoã". (Acoã, fragmento de Fatos, cultos e lendas do Acre)

Publicado em 1968, no Rio, Capiongo – Romance da Amazônia Acreana é o único romance de José Inácio Filho. Integra a lista dos romances editados fora do estado, num momento de pouca publicação de romances na literatura acreana.

Já que no primeiro livro, José Inácio se deteve mais nos aspectos folclóricos, e depois romance, no terceiro voltou-se para o linguajar acreano. Trata-se do livro: Termos e Tradições populares do Acre, também publicado no Rio de Janeiro, no ano de 1969. O livro é uma espécie de dicionário que congrega palavras e expressões, que no Acre, assumem outra conotação. "Não foi sem muitos esforços, em contato direto, aqui e ali, com o povo de meu Acre que consegui reuni estes materiais de linguagem e de folclore [...]", ressalta o autor que na época vivia no Rio.

"MUCUMBUDO, d.j. Ancudo, quarteirudo: "A Joaquina é a mulher mais mucumbuda que já vi pisando o chão do Acre." (Fragmentos de Termos e Tradições Populares do Acre)

José Inácio Filho, hoje, reside no Ceará, onde é membro da Associação Cearense de Escritores. Lançou no início deste mês (Junho), no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura de Fortaleza, o livro de poesia "Canta Musa meus Versus e Rimas", obra que se abre num universo mágico de muitos personagens lendários e de diversas culturas, como Iracema, Uirapuru e o Boto Encantado, etc. Além desses livros, José Inácio é autor de outros dois: O bb e eu (RJ, 1975), e  Vocabulário de termos populares do Ceará (CE, 2001).

"Essa mão que te afaga

É a direita e não atraiçoa.

Essa boca que te beija,

Nunca te beija à-toa."

(Fragmentos de Canta Musa meus Versus e Rimas)

 

Assim como José Inácio Filho, há inúmeros outros autores acreanos ou não, que deixaram registrados sob a égide de suas penas, importantes narrativas de um passado e de uma história que, hoje, podem apenas ser conhecidas ao perlustrarmos as páginas de seus escritos.

 

 

Referências e sugestões:

FILHO, José Inácio Filho. Fatos, cultos e lendas do Acre. Rio de Janeiro: Cia Brasileira de Artes Gráficas, 1964.

FILHO, José Inácio Filho. Termos e Tradições Populares do Acre. Rio de Janeiro: Cia Brasileira de Artes Gráficas, 1969.



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