terça-feira, 7 de julho de 2009

O POETA, POR EXCELÊNCIA, DA AMAZÔNIA

Como um rio

Thiago de Mello*

Ser capaz, como um rio

que leva sozinho

a canoa que se cansa,

de servir de caminho

para a esperança.

E de lavar do límpido

a mágoa da mancha,

como um rio que leva,

                                   e lava.

 

Crescer para entregar

na distância calada

um poder de canção,

como o rio que decifra

o segredo do chão.

 

Se tempo é de descer,

reter o dom da força

sem deixar de seguir.

E até mesmo sumir

para, subterrâneo,

aprender a voltar

e cumprir, no seu curso,

o ofício de amar.

 

Como um rio, aceitar

essas súbitas ondas

feitas de águas impuras

que afloram a escondida

verdade nas funduras.

 

Como um rio, que nasce

de outros, saber seguir

junto com outros sendo

e noutros se prolongando

e construir o encontro

com as águas grandes

do oceano sem fim.

 

Mudar em movimento,

mas sem deixar de ser

o mesmo ser que muda.

Como um rio.

 

                        Na Freguesia do Andirá,

                        Janeiro de 1981.

 

 

REFERÊNCIA E SUGESTÃO:

MELLO, Thiago de. Vento Geral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.

* Thiago de Mello (1926-) é um dos mais expressivos nomes da poesia brasileira dessas últimas décadas e, sem dúvida, o poeta por excelência da Amazônia. Irrompera vigorosamente na poesia em 1951 com o livro SILÊNCIO E PALAVRA, que de pronto recebera a melhor acolhida da crítica, dentre eles, Álvaro Lins, Manuel Bandeira, Tristão de Ataíde, etc. Suas obras estão hoje incorporadas à consciência coletiva não só do povo amazônico, mas do mundo, como é o caso de Os Estatutos dos Homens que, em pôster, transformado em cantata e em ballet, é talvez o mais famoso de seus poemas. Thiago vive em plena floresta amazônica, na cidade de Barreirinha, Amazonas.

Foto: Odair Leal



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