quarta-feira, 8 de julho de 2009

TARAUACÁ: UM PASSADO QUE SE APAGA

Isaac Melo

"Recordar a vida não significa estar preso ao passado. O passado não é uma lembrança estática, mas sim uma força que segue movendo cada indivíduo ao longo dos anos". Essas palavras que se encontram na orelha do livro de contos, A Figura Refletida, do ex-governador (63/67) do Acre Altino Machado, nos ajuda a refletir e situar a problemática acerca do passado tarauacaense. Isso também nos faz pensar numa distinção básica.

Há uma grande diferença entre: falta de recursos, sobretudo financeiro e incapacidade política. O primeiro, é algo externo, do qual uma administração depende de recursos oriundos, digamos, de cima (município>Estado>União). Enquanto que incapacidade política é algo que está atrelado especificamente a quem governa, em último caso, trata-se de competência do governante em aplicar aquilo que recebe. O problema de Tarauacá é incapacidade política. A cidade está às portas de seu centenário, e uma pergunta ainda não foi feita, muito menos respondida: que passado Tarauacá tem conservado? A resposta, deveras, não é das mais satisfatórias.

Não temos uma casa sequer tombada como patrimônio histórico da cidade, um centro de cultura, um arquivo público, que dirá um museu. Não creio que sejamos tão ingênuos assim para pensarmos que isso é coisa de cidade grande. O argumento de que a cidade não tem estrutura financeira para isso, não me é compreensível. O que ocorre é que a maioria daqueles que são eleitos para assumir uma função pública, não são inteligentes o suficiente para compreender que o passado não é algo descartável, mas fator imprescindível para a compreensão e a própria constituição da identidade de um povo. Passado apagado significa parte da memória histórica também apagado.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), diz que o "Patrimônio Histórico pode ser definido como um bem material, natural ou imóvel que possui significado e importância artística, cultural, religiosa, documental ou estética para a sociedade. Estes patrimônios foram construídos ou produzidos pelas sociedades passadas, por isso representam uma importante fonte de pesquisa e preservação cultural". Fato é que, cada cidade também pode criar regras baseadas no IPHAN para definir seu próprio patrimônio histórico, como fez Rio Branco-Ac, que tombou várias casas localizadas no centro da cidade, às margens do Rio Acre, formando assim o seu importante Centro Histórico.

Infelizmente, Tarauacá não tem mais quase nada de construções dos primeiros anos de sua história, e o pouco que ainda resta deteriora-se pela ação do tempo e pelo descaso humano. Salvo algumas exceções, como a restauração do Teatro José Potyguara, ainda na administração do prefeito Jasone Silva, notamos um grande descaso dos prefeitos, sobretudo do atual, pelo patrimônio histórico e cultural de Tarauacá.

Alguns não vêem valor algum nessas construções, que não passam de um amontoado de entulhos. Mas para quem ainda não perdeu a sensibilidade, há uma história, um tempo, uma vida. Não é tanto o valor material que está em jogo, é sentimental também, aquilo que mexe em nossas entranhas, que impulsiona a vida e nos faz olhar o passado não com melancolismo, mas com esperança de que hoje é o tempo de realizarmos o que ontem era uma utopia.

De tudo isso, fica-nos uma certeza e uma alerta: ou nos voltamos, urgentemente, para a conservação e resgate de nosso patrimônio histórico e cultural ou corremos o risco de os perdermos, definitivamente. Não queremos imaginar como foi o nosso passado, queremos que ele faça parte do presente, por meio de seus elementos conservados, e assim, podermos olhar para nossa história sem medo de continuarmos a repetir os erros de sempre.

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TEATRO JOSÉ POTYGUARA

Acima temos o Teatro José Potyguara, fundado em 1932. Constitui um dos símbolos mais vivos e importantes da cultura tarauacaense, frutos da bélle époque da borracha. Um dos únicos exemplos de conservação, apesar de que vive mudando de cor a bel prazer de cada prefeito.

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GRUPO ESCOLAR JOÃO RIBEIRO

O grupo escolar João Ribeiro, o primeiro de Tarauacá, foi nos seus primórdios um importante centro de cultura, onde aconteciam apresentações teatrais, eventos, saraus, etc. Nele estudou, por volta da década de 20, o ilustre escritor Leandro Tocantins. Arquitetura do Grupo é semelhante à de vários outros construídos em diversos municípios acreanos. Não tenho certeza, mas creio que foi fruto do governo Hugo Carneiro, que implantou diversas escolas no Acre em seu governo. Hoje o prédio está bem conservado. É administrado pelo Governo do Estado.

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BARRACÃO DE 1912

Esse barracão acima é um dos únicos que sobreviventes da era da borracha. Construído em 1912. Está localizado no Seringal Vitória Nova, subindo o Rio Muru, quase um dia de viagem em canoa grande. Esse barracão é a história viva, mas corre o risco de perder-se para sempre, se alguma medida de preservação não for feita rapidamente. (foto: Blog do Batista)

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BANCO DE CRÉDITO DA AMAZÔNIA

Esse foi um dos primeiros bancos de Tarauacá, Banco de Crédito da Amazônia S.A. Nele hoje funciona uma loja de materiais de construções, continua com a fachada original, apesar de ter recebido alguns toques "modernos", como portas de vidro.

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CASA DO POVO

Até hoje sinto apertos no coração quando passo em frente à Agência da Caixa Econômica e lembro que ali havia uma das construções mais belas de Tarauacá, a chamada Casa do Povo, que era casa e comércio de Sales Frota. Foi construída pelo mestre Benício, essa figura ímpar, da sociedade tarauacaense. Poderíamos ter os dois: Agência da Caixa e Casa do Povo. Tanto lugar santo Deus, dá-nos inteligência! (foto relíquia: Palazzo)

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CENTRAL ELÉTRICA DE TARAUACÁ

Esse prédio foi onde funcionou a primeira central Elétrica de Tarauacá. Hoje ela está assim, abandonada. Sem comentários.

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ANTIGA CADEIA PÚBLICA

Aqui, segundo os mais vividos, funcionava Antiga Cadeia Pública de Tarauacá. Cenário também da injusta condenação de Amin Kontar, torturado e assassinado na cadeia, pela acusação de ter lançado uma bomba contra casa do então prefeito José Tomaz da Cunha Vasconcelos, ferindo gravemente sua esposa, isso por volta de 1916. Funcionou no prédio, mais recentemente, a SUCAM. Hoje, também abandonado. Como ressaltou Chaga Batista em seu blog "não se resigne, se indigne". É pelo menos o primeiro passo.

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"Porque entrar para a história

é não esquecer a memória!"

Marina Silva



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