quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O POETA CACHORRO LOUCO

Paulo Leminski


aqui

nesta pedra

alguém sentou
olhando o mar

o mar
não parou
pra ser olhado

foi mar
pra tudo quanto é lado


***


parar de escrever
bilhetes de felicitações
como se eu fosse camões
e as ilíadas dos meus dias
fossem lusíadas,
rosas, vieiras, sermões


***


entre a dívida externa
e a dúvida interna
meu coração
comercial
            alterna


***


não posso tanta distância
deixar entre nós
este sol
que se põe
entre uma onda
e outra onda
no oceano dos lençóis


***


moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia

vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia


***


coração
PRA CIMA
escrito embaixo
FRÁGIL


***


duas folhas na sandália

o outono
também quer andar


***


isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além


***


Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.


***


esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem



LEMINSKI, Paulo. Melhores poemas de Paulo Leminski. seleção Fred Góes, Álvaro Marins. São Paulo: Global, 1997.
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