terça-feira, 20 de outubro de 2009

SOPHIA DE MELLO

"De uma segurança fluente e escultural, os seus poemas transfiguram uma realidade muito concreta, em que o amor da vida e da exigência moral encontra símbolos marinhos e aéreos, [...] para exprimir uma atenta e tensa vivência de sentido trágico da existência e do convívio humano com as coisas naturais. A sua contenção de tom, a sua discreta fluidez, a simplicidade muito pura da expressão, qualidades suas das melhores, enganam quanto à energia, [...] que os seus poemas contêm, sob um paganismo ideal e visionário [...]".

Jorge de Sena acerca da grande poetisa
portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen.

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Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

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Se tanto me dói que as coisas passem

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

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25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
 
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Terror de te amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa



Referência e sugestão:
Andresen, Sophia de Mello Breyner. Obra Poética II. Porto: Caminho, 1995.
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