quarta-feira, 11 de novembro de 2009

FLORENTINA ESTEVES: DIREITO E AVESSO DO MUNDO

“Florentina conhece o Acre. Não apenas por ser acreana
mas por compreendê-lo, interpretá-lo, por amá-lo”

Robélia Souza


Poucos são os escritores que nos causam calafrios quando os lemos. Florentina Esteves se inscreve no rol destes. Alguns de seus textos são tão instigantes, que possibilitam ao leitor vibrar com a própria personagem, sentir suas emoções, angústias, dores, alegrias, à medida que se avança na narrativa.

Um exemplo, nesse sentido, é quarto conto do livro Direito e Avesso, intitulado “O pensamento”, quando Juvenal “pensou o pensamento”, isto é, vê-se em confronto com seu próprio pensamento. Já possui sete filhos, e pensa que seria melhor que o oitavo, que a mulher está a esperar, morresse. Ele abomina esse pensamento, mas ao mesmo tempo não consegue fugir dele. Encontra-se num embate interno, meio psicológico. Para piorar a situação seu filho mais velho (Joel), que tanto lhe auxilia, cai doente e não quer que este morra de modo algum. Viaja à Rio Branco em busca de remédio para o filho. Nos últimos momentos do conto Juvenal sente seu coração acelerar, descompassadamente, quando do retorno, depara-se com cheiro de velas vindo de sua casa e no varal roupas de criança estendida. Angustia-se. Nenhum som provém da casa. Ao voltar o olhar para o interior de sua habitação, ver apenas seu filho Joel a balançar a rede: dentro dela seu irmão recém-nascido. Porém, ele, Juvenal, já não tem mais esposa.

Direito e Avesso (1998) é o segundo livro de contos de Florentina Esteves, e reúne 32 narrativas. Nesta obra, Esteves “conta diversas histórias do povo da mata, com destaque para as personagens femininas. Histórias da floresta e da cidade, registrando os costumes e crendices do Acre”. Na importante obra de autoria da profa Dra Margarete E. P. de Souza Lopes, Motivos de Mulher na Amazônia, esta faz uma importante análise da obra de Esteves focalizando de modo especial a questão da mulher. Todavia, os contos vão muito além da discussão mulher/sociedade, pois abre-se num caleidoscópico de emoções, possibilidades, angústias.

Como leitor, não vejo na obra de Esteves sentimentalismos. E sim, a realidade, muitas vezes, nua e crua, tal como é. Não há moralismo, há situações em que o ser humano deixa entrever seu lado sórdido. E seus contos estão repletos de experiências humanas, por isso, belas e trágicas. É impossível adentrar nos escritos de Esteves e não compreender um pouco mais do que é o ser humano, aquilo que o meio torna-o e as circunstâncias modelam.

Além do mais, Esteves escreve com uma propriedade estrondosa sobre a realidade do Acre: o linguajar, as lendas, e tantas outras coisas próprias da cultura acreana. Em muitos de seus contos temos como que uma pintura da realidade transposta em palavras. Assim é Florentina Esteves, redatora das coisas bonitas de sua terra, sua gente e sua cultura, sem saudosismo ou melancolismo, mas de forma lúcida e instigante, em que a vida sempre se afirma mesmo tendo que transpor os balseiros do sofrimento.


REFERÊNCIAS E SUGESTÕES

ESTEVES, Florentina. Direito e Avesso. Rio de Janeiro: Oficina do Livro,1998.
LOPES, Margarete Edul Prado de Souza. Motivos de mulher na Amazônia: produção de escritoras acreanas no século XX. Rio Branco: EDUFAC, 2006.

*
Sobre O EMPATE leia aqui.
Postar um comentário