quarta-feira, 18 de novembro de 2009

TERRA ENCHARCADA

“Não é tristeza o que tenho mulher. É fervor. Fervor com que peço a Deus que nosso filho jamais conheça a afronta e as misérias que recebemos nestas terras encharcadas de água e de ódios e dominadas por homens maus. Que ele o poupe de tais sofrimentos e desenganos!”


Muitos costumam ter uma visão romântica ou até mesmo ingênua em relação à presença do homem na selva amazônica. Primeiro, porque a relação homem/selva nunca foi harmoniosa, pois, até certo ponto, o homem é dominado pela selva enquanto a selva também é explorada pelo homem. Em segundo lugar, devido o fato de que a relação do homem com o outro nos desbravamentos dessas terras se deu sob as mais violentas formas de exploração e injustiças como, muito bem, ressaltou Mavignier de Castro já na década de 50 ao dizer que, ao passo, em que a selva foi despojada pela exploração do homem, o homem também foi explorado por despojar a selva.

Dentre tantas literaturas amazônicas que dão enfoque a essas duas assertivas precedentes “Terra Encharcada” de Jarbas Passarinho desponta como uma daquelas que revelam de forma “realista” e com grande esmero literário o drama do homem com o próprio homem e com o meio em que vive. Diria que Terra Encharcada é o brado do ser humano por aquilo que sempre lhe foi tão caro e sagrado – a liberdade.

Terra Encharcada foi publicado primeiramente no Pará, tendo recebido na época o mais importante prêmio literário do Estado, o Prêmio Samuel Mac Dowell. Em 1968 a Editora Clube do Livro realizava uma nova edição de 30 mil exemplares. Se não é autobiográfico, como ressaltava Israel Novaes, a vivência amazônica do autor garantiu verossimilhança não, apenas, à história: impregnado daquele mundo caótico, barrento, onde, afinal, passou os anos de formação e cruzou de ponta a ponta na vinda inaugural do Acre para Belém.

Jarbas Gonçalves Passarinho nasceu em Xapuri-Ac, em 1920. Ainda pequeno mudou-se para Belém, onde realizou os estudos primários e secundários, e depois transferiu-se para o Sul do país, onde fez Escola Preparatória para Cadetes. Com grande capacidade intelectual Passarinho ascendeu rapidamente na política, tendo sido Governador, Senador e Ministro.

No enredo de Terra Encharcada temos o drama dos retirantes fugindo d’uma terra sem água para uma terra, abundantemente, encharcada. Duas situações limites, duas situações extremas. A narrativa gira em torno de Zé Luís, um jovem de 16 anos, que depois de uma série de incidentes, desde a saída do nordeste e o esfacelamento de sua família até sua ida para os seringais, vê-se como “brabo” no meio da floresta amazônica na extração do látex. Como tantos outros, descobre que o mundo que antes se apresentava como uma esperança converte-se, agora, na pior dor humana: a perda de sua liberdade mediante um sistema de exploração e violência, representado pelo seringalista. Embora seja central em Zé Luís, a narrativa, porém, se abre a partir de outros personagens, como é o caso de Cesário, que ocupa, praticamente, boa parte do livro e é responsável pelo ato que culminará com as suas liberdades.

Enfim, Terra Encharcada testemunha a condição paradoxal do ser humano: ser de bondade ao mesmo tempo em que não consegue conter o seu instinto “natural” que culmina com as piores formas de crueldade. Como se registra no prefácio da obra, ninguém emergirá incólume destas páginas, pois ganha-se o conhecimento daquela força, que levou Cesário a conduzir para fora do pântano, da miséria e da doença, o esmolambado exército de “brabos”.

Isaac Melo


REFERÊNCIA E SUGESTÃO
PASSARINHO, Jarbas G.. Terra Encharcada. São Paulo: Clube do Livro, 1968.
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