terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

DISTINÇÃO DE UTOPIA, IDEAL E QUIMERA

Isaac Melo***
Utopia não é um desses países idílicos onde mulheres nascem em árvores, onde existem cisnes com cabeça de mulher, formigas-cavalos...

Definir utopia é tarefa que requer muito cuidado. Dessa forma, cabe-nos indagar o que seria utopia e mais propriamente a utopia de Morus. Segundo Lopes (2004), toda utopia representa uma contradição com as condições objetivas da existência, vinculando-se também ao mundo moral, transcendendo o seu momento histórico, tendo caráter de transformação e, por isso, propõe uma ordenação das estruturas sociais e das condições materiais de sua existência. Sendo assim, a utopia nasce de uma sociedade da qual ela é uma resposta. No entanto, faz-se necessário distinguir utopia de ideal, pois, o ideal reenvia sempre, de um modo ou de outro, para certas tendências do vigente, enquanto, que a utopia é completamente outra e repetição de uma base a partir da qual constrói a sua identidade.

Segundo Lacroix, a Utopia tem vocação de ser ideal, apenas quando a realização projetada de um conceito pensado como imagem estimula a ação real, ou seja, torna-se paradigma da ação, ou aquilo que pode desencadear uma ação. Lacroix afirma: “Se a Utopia é um ‘Ideal’, é então como ideia da razão, que só tem ser individual numa existência sensível possível” (LACROIX, 1996, p.99), o que para ele, é imaginariamente formulada na Utopia. Todavia, segundo Lacroix, ideal não num sentido kantiano, pois, o modelo como ideia da razão, não tem existência empírica possível para Kant, o que tornaria inviável como ideal, mesmo pela via do imaginário. Seria apenas, fora do sentindo kantiano que, portanto, é ao mesmo tempo “modelo” (ideia) e “exemplo” que utopia é um “Ideal” que pode motivar e regular a ação. Mas, ideal utópico como existência suposta, que só pode ser pensado imaginariamente.

A Utopia de Morus, que é contemporânea de O Príncipe de Maquiavel, por longo tempo, não foi lida como orientação pragmática e não teve o status de texto teórico, devido, inclusive, a seu caráter especulativo. O que é curioso notar, é que, o Contrato Social de Rousseau é uma concepção que projeta no passado a origem da sociedade, enquanto, a narrativa utópica projeta no futuro a possibilidade de sua realização ideal. Mas se ambas as explicações são míticas e provocadas pelo presente, porque, é então, que o Contrato Social é habitualmente tido como parte integrante da teoria social, ao passo, que a Utopia é menosprezada como ficção? Fica o registro apenas, pois não é mérito deste trabalho adentrar nesta questão.

Outro aspecto que é necessário ressaltar, é que Utopia não pode ser encarada como uma quimera, pois não é possível nenhuma fantasmagoria em Utopia, pois não se trata de imaginar monstros ou outros prodígios no delírio de uma produção sem regra nem verossimilhança, expressiva, transbordante, expansiva, de uma proliferação indeterminada. Para Lacroix, a quimera, figura de alhures, é de fato utopista pelo fato de que, por meio dela, se percebe o processo de destruição / reconstrução que leva de um mundo real a um outro mundo real (suposto). Mas Utopia não é uma quimera: ela é (imaginariamente) o tempo do processo, ou seja, uma nova realidade cuja essência aparece diretamente na existência. Segundo ele, a Utopia se dá pela via do imaginário, e é com ela que Morus faz Filosofia. Ressalta Lacroix: “Há, pois aqui uma ruptura com as representações fantásticas das Terras Desconhecidas propostas na Idade Média e que, à sua maneira, estimularam o espírito de descobrimento das grandes navegações” (LACROIX, 1996, p.65). O que para Lacroix confirma, então, que a Utopia não é um desses países idílicos onde mulheres nascem em árvores, onde existem cisnes com cabeça de mulher, formigas-cavalos, legumes alados, como era comum nos conteúdos da História verdadeira.


REFERÊNCIAS

MORE, Thomas / Utopia. Org. George M. Logan, Robert M. Adams; tradução Jefferson Luiz Camargo, Marcelo Brandão Cipolla. – 2 ed. – São Paulo: Martins Fontes, 1999;
LACROIX, Jean-Yves. A Utopia. Tradução Marcus Penchel; revisão técnica Geraldo Frutuoso. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996;
POLESI, Reginaldo. A Razão como Base para a Formação Moral em Tomas Morus na obra a Utopia (Monografia); Curitiba-PR: 1995;
OLIVEIRA, Renato José de. Utopia e Razão: pensando a formação ético-política do homem contemporâneo. – Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.
LOPES, Marcos Antônio. Uma história da idéia de utopia: o real e o imaginário no pensamento político de Thomas Morus (artigo). – Londrina: Ed. UFPR, 2004.
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