domingo, 21 de fevereiro de 2010

ENTENDA MELHOR UTOPIA

Isaac Melo***

Utopia é a cidade perfeita criada por Thomas Morus (1478-1535). Para fundamentar e estruturar a sociedade perfeita de Utopia, Morus se utiliza da reta razão, que é a faculdade que habilita os homens a distinguirem entre o bem e o mal com clareza intuitiva, isto é, a apreenderem a lei natural. Desta forma, defende a tese da primazia da razão, da lei natural, comum a todos os homens, que pode ser descoberta pela razão. Como todas as leis estão escritas na natureza, basta, com o uso da razão, lê-las para saber quais são os princípios morais e políticos que regem a natureza humana.
Mapa do que seria a ilha de Utopia imaginada por Morus.

A Utopia está inserida no contexto do Renascimento: desenvolvimento de novos conhecimentos e técnicas; período dos descobrimentos, das descobertas das novas rotas para o Oriente e da expansão europeia que alteraram a percepção dos homens do século XVI; e um campo fértil para o desenvolvimento de sonhos e mundos imaginários. Com o Renascimento adveio uma nova cosmovisão, fazendo a cultura política europeia tomar várias direções, inclusive a Inglaterra que apresentava um quadro sombrio da situação econômica e social, desgastada pelos impostos, pela miséria e pelos ladrões. A grande crítica de Morus era à esta sociedade que criava os seus próprios ladrões para depois executá-los. Morus, desta forma, parte da análise da sociedade e do momento em que vive, para compor sua obra.

As utopias, e de forma especial as do século XVI desejaram fazer o que era exagerado e o que contrariava frontalmente as duras regras da vida real, refletindo um forte pessimismo em relação ao presente e uma grande esperança no futuro. Lopes (2004) afirma, que a literatura criou uma infinidade de paraísos terrestres em que a vida era cor-de-rosa, onde só havia lugar para a diversão, a música e o amor. Refletindo, assim, a dimensão que as utopias tinham ganhado naquele momento da história renascentista, expressado tanto pelas artes quanto pela literatura. Neste sentido, pode-se dizer que as utopias representaram os anseios dos homens pobres do Renascimento e uma recusa, por meio da imaginação, da precariedade da vida. Ou até mesmo como uma compensação que opõe à fome e à pobreza, o luxo e a abundância de alimentos.

No entanto, na outra margem daqueles que pensaram utopias como fuga e compensação da realidade, encontram-se aqueles, que preferiram conceber sociedades perfeitas, utilizando-se da imaginação sem dúvida, mas tendo como base boa dose de pragmatismo e razão na construção da república ideal para o gênero humano, onde o trabalho assumia um papel relevante nessa nova concepção de utopia, contrária às anteriores. É neste gênero de utopia, que se inscreve a Utopia de Morus, uma mordaz crítica das questões sociais de sua época. Nela, Morus pretende eliminar a distância social entre as classes abastadas e os numerosos pobres de seu tempo. Na Utopia moreana, o problema da exclusão social seria resolvido definitivamente pela quebra da existência de privilégio e pela atuação de todos no trabalho, sendo todos os bens produzidos socialmente repartidos em igual proporção entre todos os habitantes. Com isso, sobraria mais tempo para o homem cultivar as virtudes do espírito por meio da leitura e reflexão.


REFERÊNCIAS

MORE, Thomas / Utopia. org. George M. Logan, Robert M. Adams; tradução Jefferson Luiz Camargo, Marcelo Brandão Cipolla. – 2 ed. – São Paulo: Martins Fontes, 1999;
LACROIX, Jean-Yves / A Utopia. Tradução Marcus Penchel; revisão técnica Geraldo Frutuoso. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996;
LOPES, Marcos Antônio. Uma história da idéia de utopia: o real e o imaginário no pensamento político de Thomas Morus (artigo). – Londrina: Ed. UFPR, 2004.

P.S. Este texto faz parte do artigo intitulado "A RAZÃO COMO BASE FORMADORA DO IDEAL POLÍTICO DE UTOPIA DE THOMAS MORUS", apresentado em 2007 na PUC-PR. Por ser longo, será postado em partes.

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