terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

SOBRE O SENTIDO DA EXISTÊNCIA SEGUNDO NIETZSCHE

Dra. Inês Lacerda Araújo***


Trágico, esse é o conceito que melhor explica o modo como Nietzsche (1844-1900) entende o sentido da existência. Os seres humanos ao longo de sua história inventaram valores que oscilam entre a aceitação, a abnegação, a renúncia, o conformismo e a fraqueza de um lado, e de outro lado a não aceitação, deplorar e renunciar a todos os valores de obediência, a todas as regras herdadas e não avaliadas, à humildade hipócrita, ao "eu sou bonzinho". E por que?

É que a primeira atitude, a do conformismo, é a daquele que encontra desculpa para tudo, ele se justifica apelando para sua "natureza" boa, ele é o cordeiro que o lobo irá engolir.

O animal que representa a outra atitude, a de reavaliação permanente dos valores, sem precisar de nada superior, ou natural, ou inconsciente para justificar sua existência, é a da águia. Ela contempla do alto, não rasteja. Em seu ciclo vital a águia se refugia para se renovar, arranca as penas, as garras e, por último cai o bico. Ela espera que penas, garras e bico renasçam para alçar voo novamente.

O trágico está nessa reavalição dos valores pela "Vontade de Poder". Se eles foram inventados por circunstâncias simplesmente humanas, então devem e podem ser rediscutidos. Se é tudo obra humana, então tudo pode ser reinventado. Trata-se da "genealogia" (um tipo de historicidade) de todos os valores, eles se constituem enraízados nas mais diversas práticas, como, por exemplo, nas trocas, nos mitos, nos hábitos. Não são eternos e nem universais.

O homem novo, o super homem, é forte, ele ama a vida, comemora-a, vive e se alegra com isso. O crepúsculo dos deuses significa a vida do novo homem. Assim, há que comemorar o estar aí, com a vontade como fortaleza, sem curvar sua espinha, altivo.

"Um novo orgulho ensinou-me o meu Eu e eu o ensino aos homens: não deveis mais esconder a cabeça na areia das coisas celestes, mas mantê-la livremente: cabeça terrena, que cria ela mesma o sentido da terra" (Assim falou Zaratustra)

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*** INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, doutora em Estudos Linguísticos (UFPR), professora aposentada do departamento de filosofia da UFPR e do programa de Mestrado da PUC-PR. Autora dos livros: Do signo ao discurso: introdução à filosofia da linguagem; Foucault e a crítica do sujeito; Introdução à Filosofia da Ciência, dentre outros. Em 2009, lançou seu blog FILOSOFIA DE TODO DIA.


P.S. Aos caros amigo/as leitore/as de Alma Acreana peço desculpas, pois não está sendo possível atualizar o blog diariamente, motivos é internet fora do ar ou muito lenta e para completar, meu computador está no conserto e o pen-drive com meus principais documentos e fotos, esqueci no Acre.

4 comentários:

Sonia Schmorantz disse...

É um ótimo estudo da obra de Nietzsche.
Passei para te desejar uma ótima semana, agora que a vida parece voltar ao normal...
abraço

ANCHIETA BATISTA disse...

Meu caro Isaac,

Um abraço fraterno.

Que pena não poder tê-lo conhecido pessoalmente quando de sua estada no Acre!
Seu blog continua fantástico, mesmo com esses percalços que você citou.
Desculpem-me todos a minha visão tão opaca, tão medíocre, sobre os mais elevados conceitos e abordagens filosóficas do mundo (sobremodo se nos deparamos com Nietzsche), mas desejo dar meus parabéns à Professora Inês pelo enfoque tão simples sobre uma realidade tão complexa, tão profunda e tão viva dentro de nossos seres! De uma forma bem apedeuta, bem rudimentar, questiono-me muito sobre isso. Firmei uma convicção pessoal de que as gerações anteriores nos condenaram a determinadas regras, "realidades", modus vivendi, "verdades", "mentiras", bem-aventuranças, infernos, etc... tudo forjado nas conveniências de indivíduos ou de povos, através das épocas. Somos resultado de uma lei de causa e efeito. Somos uma construção histórica inacabada... Contudo, temos vislumbrado uma tênue luta (presos que somos a verdadeiros grilhões) para mudar de alguma forma algumas dessas "condenações". O pior é que mudamos umas, criando outras.
Ah! Nem nos daremos conta, mas também nós haveremos de incrementar nossa parcela (para melhor ou para pior?)e remetê-la às gerações futuras. Será que melhoraremos o quinhão de nossa herança? Seremos responsáveis por quais tradições?
E assim caminhamos...
Para onde?
Não sei!!!

Um abraço.

Anchieta

Palazzo disse...

Caro amigo, que coincidência. Estou lendo no momento esse livro. Assim falou Zareatusta.
abç

Luisa disse...

Prezado Isaac Melo, meu conterrâneo,

Fiquei super feliz ao descobrir teu blog. Achei-o lindo, rico, criativo, literário, acreano, telúrico,poético, político, filosófico etc. É tanta coisa importante reunida num espaço virtual, de forma inteligente e seletiva. Parabéns! Sou sua fã.
Profª. Luísa Galvão Lessa