segunda-feira, 1 de março de 2010

O POEMA DA BAHIA QUE NÃO FOI ESCRITO

Carlos Drummond de Andrade***


Um dia – faz muito tempo, muito tempo –
achei que era imperativo fazer um poema sobre a Bahia,
mãe de nós todos, amante crespa de nós todos.
Mas eu nunca tinha visto, sentido, pisado, dormido, amado a Bahia.
Ela era para mim um desenho no atlas,
onde nomes brincavam de me chamar:
Boninal,
Gentio do Ouro,
Palmas do Monte Alto,
Quijingue,
Xiquexique,
Andorinha.
– Vem... me diziam os nomes, ora doces.
– Vem! ora enérgicos ordenavam
Não fui.
Deixei fugir a minha mocidade,
deixei passar o espírito de viagem
sem o qual é vão percorrer as sete partidas do mundo.
Ou por outra, comecei a viajar por dentro, à minha maneira.

Ainda carece fazer poema sobre a Bahia?
Não.

A Bahia ficou sendo para mim
poema natural
respirável
bebível
comível
sem necessidade de fonemas.



ANDRADE, Carlos Drummond de. Amar se aprende amando. Rio de Janeiro: Record.

***
Igreja Matriz de P. M. Alto**

P.S. Os poetas entendem bem nossas almas, desnudam sentimentos. Lendo este belíssimo poema de Drummond não pude deixar de me conter de alegria quando vi o nome da pequena Palmas de Monte Alto, meu novo lar por um ano. Aqui estou a fazer uma experiência pastoral, etapa que faz parte de minha formação sacerdotal (Padres Maristas). Monte Alto possui aproximadamente 20 mil habitantes e sua origem remonta ao ano de 1742. Destaca-se por suas paisagens exuberantes. Está localizada no sudoeste da Bahia, em região de sertão.

**Imagem de arquivo pessoal.
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