terça-feira, 16 de março de 2010

A SAUDADE...

Profª. Luísa Galvão Lessa


Tanta gente indaga se é verdade que saudade é uma palavra que só existe em Língua Portuguesa?! A verdade é que ela aflige o coração de tantas pessoas, pelo que carrega de significação. Mas possui etimologia incerta. Suas formas arcaicas são "suidade, soedade e soidade", na fase do galego-português. Teria vindo, talvez, de "soledade", solidão. Também foi levantada a hipótese de vir de "salutate", uma saudação bastante usada nas despedidas das cartas romanas. Até a influência de "saúde" já foi aventada. A dificuldade de explicar a mudança fonética fez João Ribeiro (grande estudioso da Língua Portuguesa) opinar que saudade tem origem no árabe "saudá", significando profunda tristeza. Outra possível hipótese, presumidamente fantasiosa, é ter derivado de "Ceudda", forma berbere de dizer Ceuta, fortaleza distante onde os soldados passavam longos tempos ausentes da terra natal.

De fato, essa palavra carrega mistérios, encantos, nostalgia. Talvez por essa multiplicidade significativa, essa indefinição que envolve o sentido que transposta, sobre ela há tantas definições: Sentimento mais ou menos melancólico de ausência, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo; nostalgia ou afastamento de um lugar ou de uma coisa; ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados, por alguns, como bens desejáveis; lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa ou coisa distante ou extinta; pesar pela ausência de alguém que nos é querida. Como sinônimos ela tem duas palavras: Lembrança e Nostalgia.

Para os gramáticos consultados, saudade é substantivo abstrato, tão abstrato que só existe na língua portuguesa. Os outros idiomas têm dificuldade em traduzi-la ou atribuir-lhe um significado preciso: Te extraño (castelhano), J'ai regret (francês) e Ich vermisse dish (alemão). No inglês há variadas tentativas para dizê-la:: homesickness (equivalente a saudade de casa ou do país); longing e to miss (sentir falta de uma pessoa), e nostalgia (nostalgia do passado, da infância). Mas todas essas expressões estrangeiras não definem o sentimento das pessoas que falam o português. São, apenas, tentativas de determinar um sentimento que nós mesmos não sabemos, com exatidão, como defini-lo. Não é apenas um obstáculo ou uma incompatibilidade da linguagem. É, principalmente, uma característica cultural daqueles que falam o idioma de Camões.

Independente de origem etimológica, o fato é que essa palavra mora na alma brasileira. Saudade não tem cor, mas pode ter cheiro. Não podemos ver nem tocar, mas sabemos o quanto é grande. Pode ser o sentimento que alimenta um relacionamento amoroso ou apenas o que sobra dele. Pode ser uma ausência suave ou um tipo de solidão. Pode ser uma recordação daquele momento e daquela pessoa, que um dia, mesmo sabendo ser impossível, ousamos querer reviver e rever. É a dor de quem encontrou e nunca mais voltará a encontrar, de quem sentiu e nunca mais voltará a sentir. Assim, a saudade se combina com outros sentimentos e procria-se. A soma da saudade com a solidão é igual à Dor. O resultado da saudade com a Esperança é a Motivação.

Leia o artigo na íntegra, A saudade que habita a alma luso-brasileira, aqui.


**LUÍSA GALVÃO LESSA é Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Ocupa a cadeira de número 34 na Academia Acreana de Letras. É acreana de Tarauacá.
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