quarta-feira, 3 de março de 2010

SOBRE A DOR, O SOFRIMENTO E A HUMILHAÇÃO

Dra. Inês Lacerda Araaújo**


Existem no Haiti milhares de crianças entre 4 anos até a adolescência que são escravizadas. São chamadas de "Restaveks", termo que vem do francês e significa "ficar com". Elas fazem trabalhos domésticos pesados, sua marca é estarem sempre descalças; recebem castigo físico, muitas vezes são abusadas sexualmente. São escravos em plena era moderna, no país mais pobre do hemisfério ocidental.

Jean Robert Cadet passou por isso há quarenta anos atrás e tem agora uma Fundação (Restavek Foundation) para denunciar esses abusos, essa dor, essa humilhação, esse sofrimento.

Como entender a dor e o sofrimento?

Há a dor física, cada vez menos tolerável e tolerada nos países de média condição econômica e menos ainda nos países mais ricos. Ela é anestesiada por medicamento. Esse tipo de dor sequer é aceitável.

Há a dor emocional, a maior delas a da perda, a da morte de alguém próximo, querido. Abre-se uma brecha, um vácuo, o de não estar mais aqui, o de não ser mais, aquilo que os filósofos chamam de "nada" e que para o poeta é o "nunca mais". O tempo cessa com a morte. Essa dor não tem cura, ela se atenua aos poucos.

O sofrimento é também algo que as pessoas não aceitam apesar de ele fazer parte do ser humano. Hoje se quer prazer, é praticamente obrigatório ser feliz, curtir a vida. Ora, sofrer é inevitável e aceitar isso depende de reflexão sobre nossa condição. E nossa condição é sermos movidos pela vontade que exige sempre mais. Como é difícil satisfazer-se com pouco, com o que realmente é vital e necessário, o desejo é estimulado de todos os lados, mas nunca totalmente preenchido.

É que, como mostraram os filósofos estóicos, tanto a falta como o excesso causam dor. Comer demais ou de menos, por exemplo. Moderação, tranquilidade de espírito, altruísmo são a receita dos estóicos para viver bem. Diz Marco Aurélio (121 d. C.- 180 d. C.), o imperador/filósofo: "Não diga: 'infeliz de mim porque tal coisa me aconteceu', e sim, 'feliz de mim, porque tendo-me isso acontecido, continuo a salvo do sofrimento, sem que me fira o presente nem que me atemorize o futuro' ".

E Schopenhauer (1788-1860) explica que, tendo o homem vontade, ele sofre. "Se todos os desejos, apenas originados, já estivessem resolvidos, diz ele, o que preencheria a vida humana? Que se transfira o homem para um país utópico, em que tudo crescesse sem ser plantado, as pombas voassem já assadas, e cada um encontrasse logo e sem difuculdade sua bem-amada. Ali em parte os homens morrerão de tédio ou se enforcarão, em parte promoverão guerras, massacres e assassinatos, para assim se proporcionar mais sofrimento do que o posto pela natureza."


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** INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, doutora em Estudos Linguísticos (UFPR), professora aposentada do departamento de filosofia da UFPR e do programa de Mestrado da PUC-PR. Autora dos livros: Do signo ao discurso: introdução à filosofia da linguagem; Foucault e a crítica do sujeito; Introdução à Filosofia da Ciência, dentre outros.

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