quinta-feira, 1 de abril de 2010

O SONHADOR

Gibran Kahlil Gibran
Uma vez, chegou do deserto à grande cidade de Charia um homem que era um sonhador, e nada possuía além de sua roupa e de um bordão.



E enquanto ia andando pelas ruas, contemplava, intimidado e maravilhado, os templos, as torres e os palácios, pois a cidade de Charia era de suma beleza. E ele falava muitas vezes aos transeuntes, indagando-lhes acerca da cidade – mas eles não lhe entendiam a língua, nem ele os entendia.



Ao meio-dia, parou diante de uma grande hospedaria. Era construída de mármore amarelo, e havia gente entrando e saindo livremente.



- Isto deve ser um santuário, disse consigo, e entrou também.



Mas qual não foi a surpresa ao encontrar-se num salão de grande esplendor com grande número de homens e mulheres sentados em volta de numerosas mesas. Estavam comendo e bebendo, e ouvindo os músicos.



- Não, disse o sonhador. Isto não é um culto religioso. Deve ser uma festa dada pelo Príncipe ao povo, em comemoração de um grande acontecimento.



Nesse momento, um homem, que ele tomou pelo servo do Príncipe, aproximou-se e convidou-o a sentar-se. E serviram-lhe carne e vinho e excelentes doces.



Quando ficou satisfeito, o sonhador levantou-se para partir. À porta, foi detido por um homem enorme, magnificamente ataviado.



- Com certeza, este é o próprio Príncipe, disse consigo o sonhador, e curvou-se ante o homem e agradeceu-lhe.



Então, o homem enorme disse, na língua da cidade:



- Cavalheiro, o senhor não pagou o seu almoço.



E o sonhador não compreendeu, e agradeceu outra vez, calorosamente. Então, o homem enorme observou-o com mais atenção. E viu que ele era um forasteiro, pobremente vestido. Com certeza, não tinha com que pagar a refeição. Então o homem enorme bateu palmas – e surgiram quatro guardas da cidade. E estes ouviram o que disse o homem enorme. Então, puseram o sonhador entre eles, ficando dois de cada lado. E o sonhador notou o caráter cerimonioso de seus trajes e de suas maneiras, e olhou para eles com prazer.



- Estes, observou, são homens distintos.



E caminharam juntos até o tribunal, e entraram.



O sonhador viu diante de si, sentado num trono, um homem venerável, de barba cheia, vestido majestosamente. E pensou que fosse o Rei. E alegrou-se de ter sido trazido ante ele.



Então, os guardas relataram ao Juiz, que era o homem venerável, a acusação contra o sonhador; e o juiz designou dois advogados, um para apresentar a acusação, o outro para defender o forasteiro.



E os advogados levantaram-se, um após o outro, e expuseram os seus argumentos. E o sonhador pensou que estava ouvindo discursos de boas-vindas, e seu coração encheu-se de gratidão para com o Rei e o Príncipe por tudo o que lhe vinha sendo feito.



Então, foi proferida sentença contra o sonhador: seu crime devia ser escrito numa tabuinha a ser pendurada ao seu pescoço; e ele seria assim levado através da cidade, montado num cavalo nu, com um tocador de trombeta e um tocador de bombo à sua frente. E a sentença foi imediatamente executada.



E o sonhador foi levado pela cidade num cavalo nu, com um tocador de trombeta e um tocador de bombo à sua frente. Os habitantes eram atraídos pelo som dos instrumentos, e quando viam o sonhador, riam-se, e as crianças corriam atrás dele em grupo, de rua a rua. E o coração do sonhador estava cheio de êxtase, e seus olhos brilhavam. Pois, para ele, a tabuinha era um sinal da benção do Rei, e a procissão era em sua honra.



Então, enquanto cavalgava, viu no meio da multidão um homem que era do deserto como ele, e seu coração encheu-se de alegria, e ele chamou-o com um brado:



- Amigo! Amigo! Onde estamos? Que cidade de sonho é esta? E que raça de pródigos hospedeiros? Festejam o hóspede inesperado em seus palácios; seus príncipes lhe fazem companhia; seu rei manda pendurar um sinal de honra em seu pescoço e abre-lhe a hospitalidade. Que cidade descida dos céus!



E aquele que era também do deserto não respondeu. Sorriu apenas e balançou levemente a cabeça. E a procissão seguiu.



E a face do sonhador estava erguida, e seus olhos rebrilhavam.

QUANDO TIVERES DESVENDADO TODOS OS MISTÉRIOS DA VIDA, ANSIARÁS PELA MORTE, POIS ELA NÃO É SENÃO OUTRO MISTÉRIO DA VIDA.

2 comentários:

Belle disse...

Querido, realmente admirável esse e outros textos de Kahlil! Uma feliz páscoa pra você e que os sonhos que erguem sua face jamais se desmontem ante as convicções daqueles que nada sonham! Abraços pascoais, Belle.

Sonia Schmorantz disse...

Páscoa...
É ser capaz de mudar, 
É partilhar a vida na esperança, 
É lutar para vencer toda sorte de sofrimento.
É ajudar mais gente a ser gente, 
É viver em constante libertação, 
É crer na vida que vence a morte.
É dizer sim ao amor e à vida, 
É investir na fraternidade, 
É lutar por um mundo melhor, 
É vivenciar a solidariedade.
É renascimento, é recomeço, 
É uma nova chance para melhorarmos 
as coisas que não gostamos em nós, 
Para sermos mais felizes por conhecermos 
a nós mesmos mais um pouquinho. 
É vermos que hoje...
somos melhores do que fomos ontem.
Feliz Páscoa!
Um abraço