segunda-feira, 7 de junho de 2010

UM LIVRO BÁRBARO

Isaac Melo


A bibliografia sobre a Amazônia é extensa e vária. Há obras e obrinhas. Algumas fantasiosas, outras em que mais parece uma fotografia, tal a fidelidade com a realidade. Uma obra que me causou especial admiração data, a primeira edição, de 1908, cujo autor, um pernambucano, na época, radicado num sítio às redondezas de Manaus, Alberto Rangel (1871-1945).

Rangel era um dos grandes amigos de Euclides da Cunha. Quando este chegou à Amazônia para a viagem de reconhecimento do Alto Purus Rangel o acolheu em seu sítio. Dessa amizade surgiu o livro de contos Inferno Verde, com um prefácio de Euclides arrebatador e tão primoroso quanto a própria obra.

O último conto, dos onze que compõem o livro, intitula-se “Inferno Verde” e daí decorre o nome da obra. Como a exemplo de outras publicações dessa época, o livro enfoca o período do ciclo da borracha, de modo específico, no estado do Amazonas e apresenta um grande painel da vida social amazônica e elementos da geografia local, com grande riqueza de detalhes.

Inferno Verde, diz Euclides, a começar pelo título, devia ser o que é: surpreendente, original, extravagante; feito para despertar a estranheza, o desquerer, e o antagonismo institivo do crítico corrente. E, mais adiante, ele ressalta que esse é um livro bárbaro, no sentido clássico da palavra, isto é estranho. Pois aí o que é fantástico e incompreensível, não é o autor, é a Amazônia.

Entre os livros de contos que mais sintetizam o que foi o ciclo da borracha na Amazônia, a meu ver, está Inferno Verde, ao lado de Contos Amazônicos de Inglês de Souza e Sapupema: contos amazônicos de José Potyguara. Inferno Verde permanece um repositório da vida amazônica dos primeiros anos da exploração da hevea brasiliensis. Por isso, aqueles que o lerem e o compreenderem terão em sua mente a fotografia de um tempo de muitas riquezas e contrastes, do qual ninguém sente saudades nem deseja repeti-lo.

4 comentários:

Wanderley Elian Lima disse...

Olá Isaac
Essas indicações literárias são importantes para divulgar trabalho de autores as vezes desconhecidos da maioria do público.
Abração

Belle disse...

Num tempo de devastação, tentativas de restabelecimento das derruídas belezas, deve ficar ainda mais surpreendente e esclarecedora a leitura dessa obra. valeu a indicação. Bjinho.

Valdor do Ó disse...
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Palazzo disse...

Olá Isaac,
Você deve estar prestes a se tornar um dos maiores bibliotecários especialista em região norte de todo o Brasil.
Parabéns
Abraço