sexta-feira, 3 de setembro de 2010

FALTAM REFERENCIAIS NA IGREJA CATÓLICA

José Lisboa Moreira de Oliveira *

// Leitura indispensável, ok!, católicos! //


<< É verdade que não faltam padres pinoteando por aí, usando inclusive plumas e paetês. Não faltam padres que transformaram os altares das igrejas em verdadeiros picadeiros de circos. Não faltam programas televisivos onde correm soltos um verdadeiro besteirol ou ladainhas de bobagens, de regras rigoristas e moralistas. Não faltam figuras exóticas e extravagantes nos programas televisivos da Igreja Católica e de outras Igrejas. >>


Acabo de ler o livro O Cardeal e o Repórter (São Paulo: Global, 2010) da autoria do jornalista Ricardo Carvalho. Nele o autor narra a sua atuação como repórter durante o período da ditadura militar no Brasil. Fala de modo particular da cobertura que ele fez das atividades da Igreja Católica, dando especial destaque para a atuação de Dom Paulo Evaristo Arns como grande defensor dos direitos humanos.

Ao final da leitura fiquei muito impressionado com os vários depoimentos do autor acerca da atuação de certas pessoas de Igreja naquele período cruel da nossa história. Nota-se com muita clareza que o repórter ficou impactado e profundamente marcado pela coragem e pela humanidade de homens como Dom Paulo Evaristo, Dom Hélder Câmara, Dom Angélico Sândalo Bernardino, o pastor Jayme Wright, Dom Ivo Lorscheiter, Dom Pedro Casaldáliga, entre outros. Dentre os vários depoimentos do jornalista, há um que fala da casa onde vive hoje Dom Paulo Evaristo: "A sala da casa, onde três sofás em ‘U’ formam uma agradável maneira de todo o mundo conversar, um olhando para o outro, é bem arrumada, com móveis muito simples. Exatamente como se espera de uma residência da ordem fundada por São Francisco de Assis, um símbolo vivo e marcante de uma Igreja que fez a opção preferencial pelos pobres, como foi a prática de Jesus Cristo, do próprio São Francisco e é como atua a Teologia da Libertação que, a partir de 1968, revolucionou a relação dos fiéis e a Igreja Católica no continente latinoamericano" (pp. 155-156).

No seu texto Ricardo Carvalho cita também um depoimento extraordinário de Ivo, filho do jornalista Vladimir Herzog, este último assassinado brutalmente pela ditadura militar. Após visitar o cardeal Arns, Ivo escreveu: "Há pessoas especiais. E há pessoas inesquecíveis. Dom Paulo marcou minha vida desde meus nove anos de idade, pelo apoio à nossa família. Pela sua coragem incontestável. Por ser uma destas raras figuras que nos servem de inspiração, que nos dá um rumo de conduta, que nos faz lembrar que podemos ajudar a fazer este mundo melhor. Ontem tive o privilégio de, junto com minha mãe, passar uma hora de muito ensinamento junto a Dom Paulo. Cada momento, cada palavra sua alimentaram meu espírito de maneira única. Fomos muito bem recebidos por um sábio que esbanjava bom humor e lucidez. Lucidez que a maioria das pessoas perdeu nesta sociedade quase caótica" (pp. 157-158).

Chamo atenção para as palavras do depoimento de Ivo. Ele fala de pessoas inesquecíveis que marcam a nossa vida, da coragem incontestável de Dom Paulo. Afirma que ele é uma figura que serve de inspiração e que dá um rumo de conduta a vida. Diz que o cardeal nos faz lembrar como podemos ajudar a fazer este mundo melhor. Mostra como as palavras do cardeal alimentaram o seu espírito de maneira única. Vê em Dom Paulo um sábio que esbanja humor e lucidez, lucidez que a maioria das pessoas perdeu. Tudo isso forma um conjunto de características daqueles e daquelas que se tornam referenciais para os outros. São qualidades daquelas pessoas que são paradigmas para as demais.

A leitura desses depoimentos coincidiu com a minha convicção de que o testemunho é de fundamental importância para a evangelização. Fez-me lembrar a afirmação do livro dos Atos dos Apóstolos, segundo o qual o testemunho prestado pelos apóstolos causava um grande impacto nas pessoas (At 4,32-35). Mas tal impacto vinha do modo como eles viviam e não de uma vida de observância a preceitos e nem de uma pregação moralista e rigorista. Não vinha da beatice, mas da sintonia com a realidade e da partilha dos bens. O que marcou profundamente a vida de Ricardo Carvalho e de Ivo Herzog não foi a carolice de um cardeal, mas a sua lucidez e a sua capacidade de arriscar a vida para cuidar do seu rebanho, sobretudo daqueles e daquelas que mesmo não sendo "igrejeiros" estavam sendo ameaçados e correndo risco de vida por causa da justiça do Reino.

A leitura do livro também contribuiu para aumentar em mim a convicção de que estamos num período em que na Igreja não há mais referenciais. Nunca como hoje a profecia de Daniel foi tão atual: "Não há, neste tempo, chefe, profeta ou liderança" (Dn 3,38). Por toda parte há sinais daquilo que há muitos e muitos séculos Jeremias já constatava em seus lamentos: "Se saio para o campo eis as vítimas da espada; se volto para a cidade eis os torturados pela fome. Enquanto isso os profetas e sacerdotes percorrem a terra sem nada compreender" (Jr 14,18).

Grandes desgraças atingem o povo (cf. Jr 14,17), mas as lideranças eclesiásticas, particularmente bispos e padres, permanecem inertes e indiferentes, como se nada tivesse acontecendo. Usam a desculpa de que hoje o povo não precisa mais de uma ação enérgica da Igreja porque recuperamos a democracia e não há mais necessidade de intervenção direta de seus pastores. Estamos assistindo boquiabertos o total desrespeito à Lei da "Ficha Limpa". Candidatos notadamente e comprovadamente sujos riscam de ganhar as eleições e de continuarem roubando o dinheiro suado do contribuinte. E a quase totalidade dos bispos e dos padres silencia e se omite.

Aqui no Distrito Federal, onde moro, há um candidato a governador cuja candidatura foi impugnada pelo Tribunal Regional Eleitoral, mas ele continua concorrendo, com toda possibilidade de vencer as eleições ainda no primeiro turno. Contra ele pesam mais de trinta processos. É um verdadeiro "ficha suja". A mídia mostrou com toda clareza o seu envolvimento em operações de desvio do dinheiro do povo. Na Internet circulam vídeos que mostram toda a operação criminosa do sujeito e seus comparsas. Não existem dúvidas sobre os seus crimes e sobre a sua gatunagem. É um verdadeiro gatuno roubando o dinheiro que deveria ir para a saúde, para a educação, para o saneamento básico e assim por diante. Mas a Igreja Católica local e as demais Igrejas silenciam por completo. Ninguém ousa dizer nada, fazer nada. Pode-se aplicar ao povo do Distrito Federal e de outros lugares do mundo a pergunta do profeta: "Quem tem piedade de ti, quem te manifesta simpatia, quem se interessa de ti?" (Jr 15,5). Certamente ninguém, porque todos, inclusive os pastores do povo, estão com medo e calados.

No momento em que escrevo este texto estou lendo na Internet que as autoridades da Igreja Católica, desesperadas com a crescente diminuição de católicos no mundo (basta dizer que, segundo as estimativas, em 2050 a metade da Europa será islâmica) estão pensando em permitir que as crianças possam fazer a primeira comunhão já a partir dos sete anos de idade. Enquanto os entendidos no assunto estão mostrando as fortes evidências da falta de maturidade mesmo em pessoas adultas, falando inclusive do fenômeno da adultescência, a Igreja Católica resolve ir na contramão da história. Ela não consegue perceber que o problema é outro, que a crise do catolicismo está relacionada à sua incapacidade de se comunicar com os homens e as mulheres do século XXI.

É verdade que não faltam padres pinoteando por aí, usando inclusive plumas e paetês. Não faltam padres que transformaram os altares das igrejas em verdadeiros picadeiros de circos. Não faltam programas televisivos onde correm soltos um verdadeiro besteirol ou ladainhas de bobagens, de regras rigoristas e moralistas. Não faltam figuras exóticas e extravagantes nos programas televisivos da Igreja Católica e de outras Igrejas. Mas nada disso surte efeito porque não atinge o coração das pessoas, a não ser de um pequeno público de gente simples, desprovida de qualquer senso crítico e de qualquer percepção da realidade. Por essa razão esse público é sempre o mesmo e tende cada vez mais a diminuir, uma vez que vai se cansando de assistir sempre às mesmas bobagens. Esse público diminui porque está plugado, conectado, com outro mundo através da rede mundial de computadores, a qual, em tempo real, informa e "faz cair a ficha".

Sim, com certeza, há uma crise de referenciais na Igreja. As pessoas, particularmente os jovens, não encontram o que Ivo, o filho de Vladimir Herzog, encontrou a seu tempo: figuras que servem de inspiração e que dão um rumo de conduta a vida. Não encontram pessoas lúcidas numa sociedade de pessoas caóticas. Hoje o que temos em muitas Igrejas são "personagens". Alguns desses personagens podem ser chamados de "cometas", uma vez que passam brilhando, numa rapidez impressionante, e depois desaparecem no total anonimato ou ostracismo. Quase todos, ou talvez todos, estão voltados para si mesmos, para a exaltação do próprio ego, e pouco se importam com a situação do povo. Ganham muito dinheiro com a venda de sua imagem e de seus produtos, tiram da miséria a barriga de seus familiares e depois somem como se nunca tivessem existido.

Infelizmente, como nos lembrou muito bem Arturo Paoli (Testemunhas da esperança, São Paulo, Paulus, 1992, pp. 7-17)), o que se percebe hoje é o esvaziamento de um projeto existencial. Isso faz com que as pessoas vivam em estado de alienação, sendo incapazes de compreender a realidade. Enquanto o mercado apresenta opções variadas e estratégias, coerentes com as suas ambições, a Igreja Católica permanece com seu programa medieval, sem oferecer nenhuma alternativa para a juventude, a qual quer libertação e não consolação. O máximo que ela consegue é se adaptar, oferecendo objetos de consumo, "kits de salvação". Mas o que a juventude quer mesmo é um programa que liberte, que responda verdadeiramente aos seus anseios, que lhe entusiasme. E isso não se consegue com a irracionalidade de certos programas de TV e com atividades de concentração de massas em torno de "cometas" que passam e que fazem tudo para chamar a atenção sobre si mesmos. Isso se consegue com pessoas como Dom Paulo Evaristo Arns que foram, em seu tempo, verdadeiros referenciais para os jovens. Sem isso, a primeira comunhão aos sete anos de idade será apenas mais uma ilusão, "uma festa organizada no salão de um palácio destruído por um terremoto" (Ibid., p. 17).

[O Chamado Nº 52 - 14/08/2010].

* Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília.


Fonte: ADITAL

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