terça-feira, 7 de setembro de 2010

TARAUACÁ RUMO AO CENTENÁRIO SEM TER NADA

Isaac Melo


Era uma vez... é assim que geralmente se iniciam os contos de fada. Porém, o que se vai contar estar mais para tragédia do que para conto. Imaginem um pequeno seringal em plena selva amazônica em fins do século XIX para início do XX. Com o passar do tempo, impulsionado pela belle époque da borracha, ver ganhar importância e dimensão. Torna-se vila e em seguida cidade. Berço de importantes representantes da literatura, da música, da política e de uma presença marcante de culturas indígena e ribeirinha.

Tarauacá cidade que se orgulha por suas mulheres bonitas, povo hospitaleiro e por um abacaxi que chega, segundo os mais otimistas, a 16 kg é também uma cidade de contradições, de esquisitices e do já teve isso e já teve aquilo. Uma cidade que olha para trás e não ver passado, porque simplesmente o tem ignorado; olha para frente e o que faz é rezar para que o presente não se repita.

O centenário de Tarauacá estar às portas. No entanto, o que temos a celebrar? O que vamos celebrar? O descaso pela nossa memória histórica? É bom que se ressalte que nem as admistrações anteriores nem a atual tem, verdadeiramente, se (pre) ocupado com a história de Tarauacá, seu patrimônio cultural, artístico e religioso. É claro que não somos tão ingênuos a ponto de reduzir todo o centenário à tão somente esse viés. Não somos proseletistas de um passado cor de rosa, nem almejamos imitá-lo. Queremos respeito pela história e pela memória daqueles que nos antecederam e tornaram o que era um deserto empantanado, um fim-de-mundo num lugar singular, que possibilitou o surgimento de um povo, cujas características se sobrepujam pela alegria, trabalho, talento e religiosidade.

Não podemos nos contentar com confetes, beiras de ruas maquiladas, discursos oficiais, bolos de 100 metros, ruas mal-remendadas... essas baboseiras que se costuma fazer às vésperas para iludir o povo e amenizar a hipocrisia de quem governa, enquanto não houver ao menos um lugar digno que reúna, conserve e respeite a memória do povo tarauacaense.

Tachem-me como queiram: arrogante, prepotente, saudosista, passadista ou amante da velharia. Todavia, que Tarauacá saiba que há alguns e alguém que preza pela sua história, que a respeita e toma, livremente, sua defesa. Embora não tenhamos dinheiro, nem prestígio e muito menos os favores do potentado político, temos um coração que se contorce ante os sofrimentos de nossa gente, a quem aprendemos amar porque antes eles nos amaram e construiram uma história na iminência do sacrifício de suas próprias vidas.

Sem choro e sem delongas, Tarauacá não é um reduto de covardes. E espero que assim persista...
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