quinta-feira, 18 de novembro de 2010

UM SÁBIO CHAMADO RUI

“Estudante sou. Nada mais. Mau sabedor, fraco jurista, mesquinho advogado, pouco mais sei do que saber estudar, saber como se estuda, e saber que tenho estudado. Nem isso mesmo sei se saberei bem.”

Rui Barbosa - Oração aos moços



Rui em sua biblioteca

Quando se observa algumas de suas fotografias o que se ver é um homem miúdo, absorvido em seu escritório e rodeado por livros, mas quando sua voz ecoava pelas tribunas, conferências, auditórios ou salões aquele homenzinho tomava proporções de gigante. Assim, em Haia, na II Conferência de Paz (1907), o baiano Rui Barbosa (1849-1923) elevou o Brasil, a quem representava, a uma posição antes nunca galgada no cenário da diplomacia internacional. Rui Barbosa, segundo os historiadores, saiu como umas das mais poderosas forças pessoais da conferência, senão a mais poderosa de todas, e o Brasil, de quem as grandes nações esperavam apenas submissão, fez se ouvir e fazer-se respeitada pela voz intrépida de Rui, em seus memoráveis debates travados com os delegados das principais nações ali representadas.

Rui é considerado por muitos como uma das cabeças mais brilhantes que nosso país já teve. A verdade é que homens da lavra de Rui Barbosa demoram séculos a surgir. Foi um visionário que defendeu o abolicionismo numa era de escravocratas, o federalismo numa época de poder unitário, e o civilismo num país marcado pela visão autoritária do militarismo (cf. A. Zimmermann). Como jurisconsulto redigiu nossa primeira constituição republicana; como homem de letras, foi membro fundador de nossa Academia Brasileira.

Aos 72 anos, como paraninfo dos bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo, onde também havia se formado em 1870, escreve o belíssimo discurso Oração aos Moços, pérola de nossas letras, com toda a pujança e sabedoria que um homem, vivido e amadurecido, pode transpor às palavras. Em Oração aos moços não se sobressai a voz tempestiva do jurista de outrora, demonstra a sabedoria e serenidade de um Rui experiente, em verdadeira lição de fé e civismo à juventude. Garimpei alguns excertos desse discurso, os que mais me tocaram, e assim apresento-os (títulos meus):

DO CORAÇÃO

O coração não é tão frívolo, tão exterior, tão carnal, quanto se cuida. Há, nele, mais que um assombro fisiológico: um prodígio moral. É o orgão da fé, o orgão da esperança, o orgão do ideal. Vê, por isso, com os olhos d’alma, o que não veem os do corpo. Vê ao longe, vê em ausência, vê no invisível, e até no infinito vê. Onde pára o cérebro de ver, outorgou-lhe o Senhor que ainda veja; e não se sabe até onde. Até onde chegam as vibrações do sentimento, até onde se perdem os surtos da poesia, até onde se somem os voos da crença: até Deus mesmo, inviso como os panoramas íntimos do coração, mas presente ao céu e à terra, a todos nós presente, enquanto nos palpite, incorrupto, no seio, o músculo da vida e da nobreza e da bondade humana.

Metei a mão ao seio, e aí sentireis com a sua segunda vista.

E, assim, está o coração, cada ano, cada dia, cada hora, sempre alimentado em contemplar o que não vê, por ter em dote dos céus a preexistência de ver, ouvir e palpar o que os olhos não divisam, ou ouvidos não escutam, e o tato não sente.

Para o coração, pois, não há passado, nem futuro, nem ausência. Ausência, pretérito e porvir, tudo lhe é atualidade, tudo presença. Mas presença animada e vivente, palpitante e criadora, neste regaço interior, onde os mortos renascem, prenascem os vindoiros, e os distanciados se ajuntam, ao influxo de um talismã, pelo qual, nesse mágico microcosmo de maravilhas, encerrado na breve arca de um peito humano, cabe, em evocações de cada instante, a humanidade toda e a mesma eternidade.

ORAÇÃO E TRABALHO

Oração e trabalho são os recursos mais poderosos na criação moral do homem. A oração é o íntimo sublimar-se d’alma pelo contato com Deus. O Criador começa, e a criatura acaba a criação de si própria.

Quando o trabalho se junta à oração, e a oração com o trabalho, a segunda criação do homem, semelha às vezes, em maravilhas, à criação do homem pelo divino Criador.

LEITURA E REFLEXÃO

Os que madrugam no ler, convém também madrugar no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas ideias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digereridas.

LEIS

Ora, senhores bacharelandos, pesai bem que vos ides consagrar à lei, num país onde a lei absolutamente não exprime o consentimento da maioria, onde são as minorias, as oligarquias mais acanhadas, mas impopulares menos respeitáveis, as que põem, e dispõem, as que mandam, e desmandam em tudo; a saber: num país, onde, verdadeiramente, não há lei, não há, moral, política ou juridicamente falando.

Boa é a lei, quando executada com retidão.

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BARBOSA, Rui. Oração aos moços. São Paulo: DICOPEL, sd.

Um comentário:

Simone Bichara disse...

E ele disse:
"É preciso ser forte e conseqüente no bem, para não o ver degenerar em males inesperados"
Grande Senhor Rui!