quarta-feira, 28 de abril de 2010

OCÉLIO DE MEDEIROS

O PAI DO ROMANCE ACREANO

Isaac Melo*


O ano de 1942 foi marcante para a literatura acreana. Nele surgiam duas importantes publicações que pela primeira vez abordavam somente temas acreanos em seus enredos. De um lado, o conto, representado pelo livro Sapupema: contos amazônicos do cearense-acreano José Potyguara e; por outro, o romance, representado pelo livro A Represa do acreano xapuriense Océlio de Medeiros. Ambas as obras são inaugurais e alargam os horizontes para a construção de uma literatura de cepa acreana.

O Acre tem criado uma literatura original, embora ainda em vias de formação, com escritores que pouco a pouco vão se impondo no cenário nacional, pela argúcia de seus escritos e por uma inteligência sutil e provocante. É o caso de Océlio de Medeiros (1917-2008) que, talvez, tenha sido uma das principais personalidades acreanas do século XX e uma das biografias mais agitadas de nossa história. O menino de Xapuri em suas andanças pelo mundo iria se tornar, em breves palavras, militante estudantil, professor universitário, jornalista, advogado, porta-voz de governo, deputado federal cassado e perseguido pelo regime miltar, escritor e poeta.

Não tive o privilégio de conhecer Océlio de Medeiros, porém, desde que entrei em contato com sua obra percebi a superioridade de seu pensamento, fato que me fez ser um seu admirador. Por isso, creio que o Acre ainda está a dever um tributo a sua pessoa e a sua obra. Obra, esta, que não é tarefa fácil de ser abordada, por isso, me detenho, aqui, especificamente, no livro A Represa, deixando, assim, um texto mais denso para outra ocasião.

A Represa: romance da Amazônia é o primeiro romance acreano de um acreano, Océlio de Medeiros, publicado no Rio de Janeiro, em 1942, pelos Irmãos Pongetti Editores. Já na introdução do romance ressalta-se que a técnica empregada no livro, através de um estilo propositadamente descritivo, consistiu muito em buscar personagens de ficção, ou mesmo inspirado em modelos reais para cenas que colheu, numa apreensão caricatural no sofrimento da vida amazônica. Assim, percebe-se que o autor mescla situações reais com personagens fictícias, o que, por sua vez, confere à obra um valor histórico.

Océlio comenta, nas páginas iniciais, que A Represa abrange dois cenários da terra que será a pátria da humanidade amanhã: o da transição da fase de conquista, o caso do Acre, e o da formação da sociedade aluviônica, que diante dos contrastes, tenta se estruturar para assim poder sobreviver. Soma-se a isso, uma selva pintada com tons nostálgicos. Embora a narrativa deixe transparecer o embate da natureza com o homem, o foco não está na selva imponente, mas no homem. Este, como a Fênix das cinzas, é capaz de se refazer da lama, depois de um repiquete a tudo destruir. Nesse sentido, o homem se torna mais forte que a natureza, uma vez que é capaz, frente à destruição, se reerguer novamente.

O romance tem como pano de fundo a decadência dos seringais e conclui com o início do segundo ciclo da borracha, advindo do começo da Segunda Guerra Mundial. A Represa, bem como Vidas Marcadas de Potyguara, é um dos poucos romances em que o seringalista não é estereotipado como seres famigerados, a encarnação do mal na terra, pois como Océlio narra “eles eram, simplesmente, uma atitude imposta pelas contingências do meio, um produto do enriquecimento vertiginoso e obra de uma época de agitações tremendas, cuja energia tinha de se requintar, mesmo em barbaridades, para manter centenas de homens do sertão, com sentimentos excitados de cobiça, na ordem do trabalho que fez a Amazônia de hoje”.

No enredo do romance está Antonico, o jovem filho do Major Isidoro e Dona Candinha, seringalistas falidos pela crise que o enviam para trabalhar no seringal de um amigo, o coronel Belarmino. Este, em plena crise, é um dos únicos que mantêm seu seringal de pé, o Iracema. Lá Antonico encanta-se por Santinha, a filha do coronel. Araripe, o caixeiro do seringal, enciumado, conta a dona Zinha, mãe da moça, as “pretensões” de Antonico, que fala ao coronel, seu esposo. Por fim, numa alternativa conciliadora, por estimar o jovem, o coronel o envia para Belém para continuar os estudos.

A decadência da borracha se agrava cada vez mais. Diante dessa realidade coronel Belarmino resolve inovar: divide suas terras entre os seringueiros e começa a investir na agricultura. Em pouco tempo Iracema se torna um lugar próspero, e homens que dantes eram seringueiros agora são agricultores. Mas, como um dia ressaltou o amazonófilo Leandro Tocantins, na Amazônia o rio comanda a vida. Uma forte alagação inunda a região e Iracema ver desaparecer toda sua plantação. É a segunda decadência.

Expulsos pela alagação, seringalista e seringueiros são obrigados a embarcar para Rio Branco, onde são atendidos pela Comissão de Socorros aos Flagelados das Cheias criada pelo prefeito Ribeiro Santos. Em Rio Branco entram em cena outros personagens como Amadeu Aguiar, jornalista do conceituado “O Acre”; Manoel Brasil, o carteiro bisbilhoteiro; capitão Donato; Filipinho, que tenta iniciar a Academia Acreana de Letras, etc. personagens que refletem uma época e um povo.

Percebe-se, ao longo da narrativa, pitadas do humour e irreverência de Océlio. Falando sobre as peripécias do verídico e folclórico Pe. José, anedotava: “O Padre José, vivendo a emoção de todos esses lances de aventura, contava a estatística dos bichos caçados: duzentos caetitus, trezentas pacas, quatrocentos veados, cinquenta onças, oitocentos mutuns, dois mil jacarés... Anos depois o Padre José foi nomeado Agente Recenseador”. Em relação ao Banco do Acre pilheriava: “Em Rio Branco só há duas casas no gênero: a Agência do Banco do Brasil, funcionando num casarão coberto de zinco, e o Banco do Acre, inventado pelo Dr. Flávio. O Banco do Acre era como essas mulheres vara-paus: não possui fundos”. E sobre a situação política dizia: “A oposição, no Acre, é como Deus – se não existisse era preciso inventá-la”.

O título da obra é uma alusão aos homens que na Amazônia, como as represas, ficam, ali, “presos” sem ter como escapar da imensidão verde que a todos parece tragar: “Isto aqui é uma represa. Já é uma cadeia. Nós estamos como presos... cercados de horizontes, encadeado de distâncias”.

Mesmo depois de 68 anos de sua publicação, A Represa continua uma obra singular e um excerto imprescindível de nossa história, ao mesmo tempo, rara, e ainda desconhecida do público acreano. O livro longe de ser um ataque à terra, é uma cinematografia das suas convulsões socias, como bem resume seu prefácio. Nunca alcançaremos o progresso tão almejado para nosso Estado, enquanto renegarmos nossa história a obra rara, em estantes particulares e bibliotecas inacessíveis. Esse progresso poderia ter como pontapé inicial uma re-edição da obra do pai do romance acreano.


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Visite o blog AMBIENTE ACREANO do botânico e pesquisador Evandro Ferreira, onde a maioria de meus textos são, gentilmente, publicados.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O CONCEITO DE FILOSOFIA

Inês Lacerda Araújo


É comum pensar que a filosofia é inútil ou que há tantos conceitos de filosofia quantos são os filósofos.

Ok, digamos que isso esteja correto. Mas o que se deve entender por utilidade? A do martelo? A da receita culinária? A de um sinal de trânsito?

Neste sentido, a filosofia é inútil, contemplativa, pura reflexão, ideias que apenas servem para se ter novas e mais ideias. Eu costumava dizer aos meus alunos: tudo contitunuará tal como está, com ou sem a filosofia...

Então, para que filosofar? A filosofia é ensinadora, tem um uso na formação pessoal, alarga horizontes, sem ela não saberíamos como pensar as situações a partir de um ponto de vista menos comprometido com casos particulares, mais geral e mais aprofundado.

Quando se para (do verbo parar) para (preposição) pensar, surgem questões fundamentais, que a maioria dos filósofos fez e ainda faz: para que, por que, por que não, desde quando?

Algumas respostas são dadas pela ciência, outras pelas diversas religiões, e outras ficam sem resposta.

Ora, isso que acabei de escrever, é reflexão filosófica. A partir do momento histórico, na Antiga Grécia, em que pela razão são expostas dúvidas e perguntas, a narração mítica aos poucos cede lugar à reflexão dos primeiros filósofos.

Por exemplo, nos mitos se atribui aos deuses com suas iras, conflitos e lutas, a existência do cosmo. Os filósofos, pelo contrário, perguntam com sua própria cabeça, como tudo veio a ser?

E, ainda apenas pensando, refletindo, atribuem a origem a uma causa primeira, a um princípio geral, como o fogo, o ar, as partículas elementares.

Aos poucos a pergunta se deslocou para outras questões, como o que são as coisas que percebemos? São como as percebemos ou o que não percebemos é o que elas realmente são, isto é, sua essência?

A pergunta pela essência de todas as coisas dominou o cenário da história da filosofia até bem recentemente. Hoje as questões mudaram. Esse é um tema para a próxima postagem.

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** INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, doutora em Estudos Linguísticos (UFPR), professora aposentada do departamento de filosofia da UFPR e do programa de Mestrado da PUC-PR. Autora dos livros: Do signo ao discurso: introdução à filosofia da linguagem; Foucault e a crítica do sujeito; Introdução à Filosofia da Ciência, dentre outros.

domingo, 18 de abril de 2010

DOS PONTOS DE VISTA



A mosca, a debater-se: "Não! Deus não existe!
somente o Acaso rege a terrena existência!"
A aranha: "Glória a ti, Divina Providência,
que à minha humilde teia essa mosca atraíste!"


Mário Quintana
Os melhores poemas de Mário Quintana. São Paulo: Globo, 1988.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O AMOR NA VISÃO DAS CIÊNCIAS

Profª. Luísa Galvão Lessa


Muita gente se indaga sobre o amor e se pergunta qual é a sua linguagem. Eu diria que a linguagem do amor é a mais simples e, ao mesmo tempo, a mais complexa que pode existir, isso porque é a linguagem do coração! E o coração de uma pessoa é o que ela tem de mais precioso e, ao mesmo tempo, mais distante. O coração é um tesouro que Deus nos deu com uma única condição: desbravá-lo para conhecê-lo e compreendê-lo.

O amor é um sentimento sublime, força unificadora e harmonizadora, assim compreendido desde a Grécia Antiga. Para Platão, o amor é falta, necessidade, desejo de conquistar e preservar o que se conquistou. O amor dirige-se para a beleza, aparência do bem. Aristóteles, por sua vez, considera o amor sexual, uma afeição que conduz à amizade, sentimento superior. Segundo ele, ninguém seria atingido pelo amor se não fosse ferido pelo prazer da beleza. O amor é o sentimento dos seres imperfeitos, posto que a função do amor é levar o ser humano à perfeição. Para Sócrates o amor é o impulso apaixonado de uma alma para a Sabedoria e esta é ao mesmo tempo conhecimento e virtude. Pitágoras diz que se deve purificar o coração antes de permitir que o amor se assente nele, já que o mel mais doce azeda num copo sujo.

Percebe-se, então, que desde a antiguidade o sentimento do coração tem sido uma mescla do dizível e indizível. A linguagem do amor possui muita força e existe em sua forma mais pura e verdadeiramente impura nos corações dos seres humanos. E, assim, segundo as interpretações de grandes humanistas, filósofos, pensadores, algumas exageradas, outras bem comedidas, o amor pode curar, pode transformar e criar um ambiente harmônico para quem vive esse sublime sentimento. Logo, o Amor é um sentimento de reação as coisas que nos cercam. Para alguns estudiosos, reagimos com mais intensidade trazendo lembranças do fundo da memória para reforçar o nosso estado de espírito.

Como acreditamos que, em tese, tudo o que o ser humano fez e pensou é motivo histórico, o amor, sem dúvida, é um tema propício para a História, pois se refere ao que é exclusivamente humano. Além disso, através dele, é possível fazer um estudo comparativo e temático de tempos distintos, pois ao contrário dos nossos famigerados tempos pós-modernos, que propagaram a Revolução em detrimento do amor, a Idade Média cultivou e enalteceu esse sentimento, criando uma nova e revolucionária forma de relacionamento homem/mulher que continuou durante séculos. E em boa parte, até os dias atuais, apesar dos brutos - ou até pelos brutos, pois, como sabemos, os brutos também amam.

Viajando pelas trilhas da história, chegamos ao século XII e encontramos os povos chamados feudais. Eles deram origem a uma maneira sensível de expressão que foi denominada amor cortês. Assim, é preciso definir esse conceito para aprofundar a importância dessa transformação nos costumes do Ocidente Medieval. Dali, viajamos do amor cortês ao romântico e avistamos sempre que o amor não é filosofia. É Química agindo. É Física Aplicada. Matemática dos seres, linguagem de beijos, Geografia de corpos, História de vidas. O Amor não é Filosofia, é vida conjugada, experiência dividida, prazer multiplicado. Amar nem sempre é riso, mas, também, nem sempre é dor.

Também, é bom notar que Vida é o amor existencial. Razão é o amor que pondera. Estudo é o amor que analisa.Ciência é o amor que investiga.Filosofia é o amor que pensa.Religião é o amor que busca a Deus. Verdade é o amor que eterniza. Ideal é o amor que se eleva. Fé é o amor que transcende. Esperança é o amor que sonha. Caridade é o amor que auxilia. Fraternidade é o amor que se expande.

Com certeza, a literatura diz muito sobre as atitudes e as aspirações humanas, do mesmo modo as imagens. Assim, o cultivo do amor, por parte dos seres humanos, deve trazer, sempre, o abrandamento do impulso sexual violento, assumindo um caráter educativo, melhorando a condição feminina. Enfim, o Amor é o divino no humano. O infinito no efêmero. Amor é a iniciação à eternidade. Ilumine-se: exercite o amor todos os dias.

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**LUÍSA GALVÃO LESSA é Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Ocupa a cadeira de número 34 na Academia Acreana de Letras. É acreana de Tarauacá.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

ME ENCANTA EL RITMO...

LOSKJARKAS
LosKjarkas é uma banda tradicional de música andina da Bolívia. Desde a década de 60 estão à ativa e é considerada a mais conhecida banda do gênero em todo o mundo. Fundada em 1965 na cidade de Capinota pelos irmãos Hermosa (Wilson, Castel e Gonzalo) e Édgar Villarroel, o nome da banda tem origem na palavra quíchua qarka, que significa "força".

terça-feira, 13 de abril de 2010

DEMOCRACIA E EDUCAÇÃO

Profª. Inês Lacerda Araújo


O filósofo norte-americano J. Dewey (1859-1952), inspirou o movimento da Escola Nova no Brasil, através de Anísio Teixeira.

Educar é uma tarefa de reconstrução contínua da experiência, a educação é para a vida social (e não para passar no vestibular...). O que isso significa?

Que a educação tem laços com o trabalho, com a família, com as relações econômicas, com a política.

A experiência para Dewey é um conceito bem geral, não se trata da experiência científica e sim das relações do nosso corpo, de todo nosso ser com a natureza, em que ambos se modificam. Esse foi e é um processo de evolução e de aprendizado humanos.

Na formação do caráter e da personalidade da criança e ao longo de todo o processo em que nos instruimos na escola formal, há por detrás algo mais amplo, mais sólido, a educação. O processo educacional está presente em toda a estrutura social, na formação da personalidade, no preparo para o mundo do trabalho, no desenvolvimento das capacidades intelectuais, na socialização da criança, na linguagem, na escrita, no raciocínio lógico.

A inteligência não é uma capacidade intelectual isolada, ela caminha junto com as experiências, com o raciocínio, se desenvolve com o cuidado e atenção oferecidos pela família e pela escola. Esse treino do pensamento é a base da liberdade genuína, a melhor das liberdades - a liberdade intelectual de agir e pensar com sua própria cabeça.

Para Dewey não há educação sem democracia e nem democracia sem educação.

Alguém bem preparado pelo estudo, terá também espírito crítico e transformador, e isso depende tanto da educação como de haver plena democracia. Em sociedades totalitárias a escola é puramente ideológica, partidária, serve para moldar pequenos "soldados" obedientes, dóceis, massa de manobra.

Nas democracias deve haver direitos iguais, liberdade de pensamento, garantia de que todos podem ter acesso à educação e saúde.

Por sua vez, o próprio modo de educar leva em conta a diferença, o respeito, a formação de valores, a liberdade de pensamento, a ação responsável - condições que só vicejam em regimes democráticos.

Pensem nisso antes de votar!
 
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**INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, autora e organizadora, entre outros, de Temas de Epistemologia (Editora Champagnat - PUCPR, 2006)

domingo, 11 de abril de 2010

JOSÉ POTYGUARA: INTÉRPRETE DA ALMA ACREANA

Isaac Melo*


No anfiteatro amazônico, dos fins do século XIX a início do XX, encenou-se talvez um dos maiores dramas, com misto de epopeia e tragédia, do Brasil: o ciclo da borracha. Que garantia, por um lado, luxo e riquezas a uns poucos, sob a opressão e exploração de uma centena de milhares de seringueiros, por outro. De repente, o que era apenas uma mancha verde, a estirar-se sem fim, metamorfoseia-se ao ver insurgir em seu meio modernas e sofisticadas cidades, com seus palacetes e teatros portentosos, a chamar a atenção do Brasil e do mundo para o novo rincão. É a partir desse pano de fundo que muitos escritores irão direcionar a sua pena: ora impressionados por aquilo que ouviram ou leram, ora por aquilo que viram e experenciaram.

Dentre tantos e importantes escritores que registraram essa época inscreve-se o nome de José Potyguara da Frota e Silva (1909-1991). Depois de formado em Direito deixou sua terra natal, a cidade de Sobral, no Ceará, e veio exercer o cargo de promotor público no Acre, então Território, mais precisamente na cidade de Tarauacá, na época, Seabra. Seus pais já residiam na região, Rita da Frota e Silva e Hipólito de Albuquerque Silva, este, um dos primeiros desbravadores dessa região, tendo sido também prefeito de Tarauacá em fins da década de 1920. Potyguara exerceu o cargo de promotor público em Tarauacá e Feijó até fins da década de 30 quando foi extinto esse Termo. Então mudou para o Rio de Janeiro, donde, anos depois retornou ao Acre, novamente como promotor de justiça, agora, na capital, Rio Branco.

Potyguara promoveu uma verdadeira agitação na vida cultural acreana: publicou livros, escreveu várias peças teatrais, fundou revista, colaborou em jornais e exerceu o magistério num dos colégios mais tradicionais do Acre, o Colégio Acreano, que tem formado grandes nomes para a cultura brasileira. Foi um dos primeiros a voltar seus escritos para a temática acreana. Tornou-se, assim, um criador e agitador da alma acreana, intérprete de sua cultura e de sua gente.

De suas peças teatrais tem-se registro de duas: Alma Acreana, sua primeira peça, que no dia 10 de Dezembro 1930 era representada num palco improvisado do grupo escolar João Ribeiro, em Tarauacá, e versava sobre os costumes da região, com músicas orquestradas pelo maestro Mozart Donizetti, autor da música do Hino Acreano; a outra, Razões do Coração, um melodrama apresentada em 29 de janeiro de 1933 no Teatro Municipal de Tarauacá, após três dias de sua inauguração, que hoje leva seu nome.

Naqueles idos Tarauacá vivia uma efervescência cultural, com os famosos bailes promovidos pela Sociedade Esportiva e Dramática Tarauacaense, fundada em 16 de agosto de 1925, da qual José Potyguara participava ativamente. Uma pequena cidade que tinha o coração cultural no palco de seu teatro majestoso (para época e região). Ali se fazia representar desde peças teatrais a eventos beneficentes, em que ora o piano fazia-se ouvir, e os casais dançavam noite adentro nos animados bailes, ora escutava-se, nos saraus, vozes a declamar poesias.

A prosa de Potyguara não é extensa, ao todo, publicou quatro livros: Sapupema: contos amazônicos, Vidas Marcadas, Terra Caída e Do Seringal ao Asfalto. Destarte, se a produção é pequena, em nada deixou a desejar na qualidade. Como assertava João Felício dos Santos, a obra de José Potyguara, pela colorida descrição das paisagens e a fidelidade com que fotografa os tipos humanos, constitui valioso repositório dos costumes da região e autêntico documentário de uma era que passou e, todavia, continua a nos intrigar.

Sapupema: contos amazônicos marca a estreia literária de Potyguara, e veio à lume em 1942. É o único livro de contos do autor e o primeiro nesse gênero, no Acre, a ter em seu bojo exclusivamente a temática acreana. Na primeira edição o livro traz dez contos, porém, na segunda edição, em 1978, houve uma pequena modificação, o autor retirou um conto, por considerar ser mais crônica, e acrescentou dois outros, a somar onze. Como assinala Djalma Batista, no prefácio da última edição, Sapupema constitui um verdadeiro documentário da vida acreana. Os contos estão ambientados à região de Tarauacá e versam, com grande força telúrica, sobre eventos relacionados às alagações, cenas da vida cotidiana daqueles que viviam isolados na floresta, as histórias sobre índios, fatos relacionados à moral e tradição da época.

Vidas Marcadas, de 1957, abre a trilogia romanesca de Potyguara. O romance inicia sua trama numa pequena cidade cearense e se desloca para o Acre, para, novamente, se encerrar no Ceará. E narra a sina de Fernando, jovem tesoureiro da coletoria de sua cidade, um dia acusado de roubo, depois que, numa noite, a coletoria foi invadida e roubada misteriosamente. Vai preso, porém, consegue fugir para o Acre e lá permanece até encontrar pistas que provem sua inocência. Nesse ínterim muitas vidas se cruzam, muitos eventos se entrecruzam como se fossem vidas marcadas pelo destino.

Terra Caída constitui-se talvez a obra mais conhecida e lida de Potyguara, uma vez que serviu de base para uma minissérie na televisão brasileira, em rede nacional (Amazônia: de Galvez a Chico Mendes, Rede Globo, 2007). Para a renomada novelista Glória Pérez, Terra Caída é um dos mais belos romances que já se escreveu sobre os seringais. O fio condutor da narrativa é a história de Chico Bento, seringueiro nordestino, à semelhança de centenas de outros, que impelidos pela seca e motivados pela ilusão de enriquecimento rápido, vão tentar a sorte na Amazônia, sobretudo, Acre, onde se desenrola a história. Aí trava-se a luta, ora do homem contra o homem, ora do homem contra a natureza. É de Euclides da Cunha que Potyguara empresta o tema de sua obra. Terras caídas, descritas por Euclides, são enormes desmoronamentos de terra que ocorrem às margens dos rios amazônicos.

Do Seringal ao Asfalto é praticamente uma continuação de Vidas Marcadas. É o último romance de Potyguara, tendo sido publicado em 1984, sete anos antes de sua morte ocorrida no Rio. Diana agora é a figura central do romance. Mantém as mesmas características pessoais reveladas no seringal de seu pai, agora, sob a influência do novo ambiente, o Rio de Janeiro. Como assinala João Felício dos Santos, sente-se que a personagem cresceu, agigantou-se, na luta que enfrenta para vencer e se impor numa cidade grande e cheia de perigos.

A prosa de José Potyguara, como bem acentuou Bení Carvalho, apresenta-nos a Amazônia num flagrante da vida e da tragédia que, ali, se desenrolou, no entrechoque terrível da selva e do homem. Ao falar do homem acreano, Potyguara revelou o ser humano como um todo e pintou-nos um dos quadros mais belos e trágicos de nossa história, em que o ser humano, duplamente, resistiu aos entraves da natureza e da perversidade humana.

Sua obra é um capítulo imprescindível para as letras amazônicas, de modo especial, para o Acre e merece uma reedição completa, como préstimo a um homem formidável e um ficcionista ímpar. Em 18 de dezembro de 1967, pelas mãos de outro ilustre agitador da cultura acreana, Jorge Kalume, José Potyguara recebia o título de Cidadão Acreano. Somou-se mais de vinte dois anos dedicados ao Acre, terra que adotou como sua e por ela deixou-se cativar. Mesmo quando separou-se dela, geograficamente, o seu amor permaneceu, pois a levava gravado em sua mente, em seu coração, em sua alma acreana.

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ANEXOS
Folheto de 1933 da Sociedade Sportiva e Dramática Tarauacaense anunciando a apresentação da peça Alma Acreana. Um dos únicos registros que ainda há sobre essa peça. Disponilizada pelo meu amigo Palazzo, em seu blog (Tarauacá Notícias).

Fundado em 1933 o Teatro Municipal de Tarauacá hoje leva o nome de José Potyguara.

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REFERÊNCIAS E FONTES PARA APROFUNDAR:
- POTYGUARA, José. Sapupema: contos amazônicos. Rio de Janeiro: 1942.
- POTYGUARA, José. Vidas Marcadas. Edições Fundação Cultural do Acre: Rio Branco, 1986.
- POTYGUARA, José. Terra Caída. Rio de janeiro: Editora Livraria Sant’anna, 1961.
- POTYGUARA, José. Do Seringal ao Asfalto. Rio de Janeiro: Fundo Comunitário das Indústrias da Zona Franca de Manaus, 1984.
- FARIAS, Anastácio Rodrigues de. Diversos dados sobre o município de Seabra: 1905-1943. Rio Branco: Instituto Histórico e Geográfico do Acre, 1993.

sábado, 10 de abril de 2010

GIBRAN KAHLIL GIBRAN

Há 79 anos, em 10 de abril de 1931, desfalecia o autor de "O Profeta", o poeta do belo e da arte, o libanês Gibran Kahlil Gibran. Como leitor e admirador de sua obra não poderia deixar de lembrar essa data e partilhar um pouco mais com vocês, amigos e amigas.

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Vim para dizer uma palavra e devo dizê-la agora. Mas se a morte me impedir, ela será dita pelo amanhã, porque o amanhã nunca deixa segredos no livro da Eternidade. Vim para viver na glória do Amor e na luz da Beleza, que são reflexos de Deus.

Estou aqui, vivendo, e não me podem extrair o usufruto da vida porque, através da minha palavra atuante, sobreviverei mesmo após a morte. Vim aqui para ser por todos e com todos, e o que faço hoje na minha solidão ecoará amanhã entre todos os homens.

O que digo hoje com apenas meu coração será dito amanhã por milhares de corações.

- Gibran Kahlil Gibran -
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Ele escreveu coisas maravilhosas, e sua literatura e arte ímpares espalharam-se, traduzidas por mais de 30 países. Gibran manteve sempre seu sublime e independente culto ao espírito e aos ditames da ética.
Gibran Kahlil Gibran, em 1896, com 13 anos.

Para aqueles que o leem pela primeira vez, pode-se acentuar que ele combina as mais elevadas e vívidas percepções da realidade espiritual com uma poesia adornada e absolutamente individual.

Sua originalidade e poder conquistaram a admiração e até mesmo o fervor de milhões de leitores, em dezenas de línguas. Gibran também conquista quase igual reputação como pintor. Seus desenhos e pinturas eram expostos periodicamente pelas metrópoles mundiais. Quando o grande Rodin quis que lhe pintassem o retrato, Gibran, que era comparado a ele e a William Blake, foi o artista escolhido.

No mundo ocidental, esse poeta, filósofo e artista chegou a ser chamado de "o Dante do século XX". Para seus admiradores do Oriente Médio, ele é o Amado Mestre.

Uma testemunha dos funerais de Gibran, realizados em 1931, descreveu-os como tendo sido "além da imaginação". Centenas de padres e líderes religiosos, representando cada uma das grandes seitas do Oriente, ampliavam com suas presenças a emoção da solenidade. Lá estavam sacerdotes e dignitários Maronitas, Católicos, Xiitas, Protestantes, Muçulmanos, Gregos Ortodoxos, Judeus, Sunitas, Druzos e outros.

E, para completar a reintegração de Gibran no seio da Igreja, ele foi enterrado numa gruta do Mosteiro de Mar Carkis, em Bsharri, no Líbano — a diocese de sua infância.

Seu túmulo transformou-se num lugar de peregrinação. Ao lado, o Comitê Nacional de Gibran edificou um museu onde são expostos algumas das suas belas telas e os seus livros em todas as línguas. Em cima do túmulo, esta simples inscrição: "Aqui, entre nós, dorme Gibran."

Mas lá, na verdade, dorme somente seu corpo. Sua alma, difundida nos seus livros, serve de guia a milhões de leitores na mais fascinante de todas as viagens: a que leva o homem das trevas do egoísmo e da cegueira ao esplendor do dom de si e da compreensão.

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

O CONHECIMENTO PRÓPRIO

Gibran Kahlil Gibran


E um homem disse:
- Fala-nos do Conhecimento Próprio.
E ele respondeu dizendo:
- O vosso coração conhece em silêncio os segredos do dia e da noite.
Mas os vossos ouvidos esperam escutar o eco do conhecimento do coração.
Gostarias de conhecer por meio de palavras o que sempre conhecestes em pensamento.
Gostarias de tocar com os dedos o corpo nu dos vossos sonhos. E está bem que gosteis.
A fonte secreta da vossa alma deve brotar e correr murmurando para o mar.
E o tesouro das vossas profundezas infinitas que ser revelado aos vossos olhos.
Mas não há balança para pesar o vosso desconhecido tesouro.
E não procurais os abismos do vosso conhecimento com a vara ou som a sonda.
Porque o eu é um mar sem limites e sem medida.
Não digais:
- Achei a verdade mas antes:
- Achei uma verdade.
Não digais:
- Encontrei o caminho da alma
dizei antes:
- Encontrei a alma a andar no meu caminho.
Porque a alma pisa todos os caminhos.
A alma não anda sobre uma linha mas cresce como a cana.

A alma desdobra-se como lótus de inumeráveis pétalas



quinta-feira, 8 de abril de 2010

O PODER E A MAGIA DAS PALAVRAS

Profª. Luísa Galvão Lessa**
Há muito tempo aprendi que as palavras são mais poderosas que qualquer droga, arma, artimanha ou vício conhecido pelo ser humano. O poder da palavra é maior que o das bombas atômicas ou das armas nucleares, pois compete à PALAVRA a decisão de emprego ou não dessas armas.

Dessa afirmativa inicial diz-se que a real força do mundo está nas palavras, sejam as ditas, sejam as escritas. Mas as palavras escritas têm mais força, porque é algo que fica marcado, enquanto aquilo que é dito pode desfazer-se no tempo, desaparecer na vontade ou no desejo das pessoas. Os escritos são perenes, fazem história, constroem a vida. E, nesta vida, os fatos passam, os temas esquecem-se, mudam-se, mas as palavras ficam. São elas que vão significar tudo na vida. Por isso é preciso ter atenção com as palavras, elas são como espelho a refletir a imagem das pessoas que as utilizam.

Aristóteles definiu o homem como zôon lógon échon. A tradução desta expressão está mais para “vivente dotado de palavra” do que “animal dotado de razão” ou “animal racional”. Se há uma tradução que realmente engana, no pior sentido da palavra, é justamente essa de traduzir logos por ratio. E a transformação de zôon, vivente, em animal. O ser humano é um vivente com palavra. E isto não significa que tenha a palavra ou a linguagem como coisa, ou faculdade, ou uma ferramenta, mas que o ser humano é palavra e, enquanto palavra o seu modo de se dar é na palavra e como palavra.

Percebe-se, então, que toda palavra tem poder, toda palavra tem saber. Cada pessoa tem responsabilidade por aquilo que diz. A palavra tem força, é mágica, encantada. Pode levar ao céu ou descer ao inferno. E, à maneira dos costumes, as palavras podem cair em desuso, empreender viagens, falar muitos idiomas. São como perfumes, evocam sonhos, poesia, magia, sedução.

É pelo poder das palavras, pelo significado e controle delas, pela imposição de algumas e pelo silenciamento ou desativação de tantas outras, que as pessoas lutam na vida, tropeçam, vencem. Nessa luta se joga algo mais do que simplesmente palavras. Vejam-se a palavra experiência. Em espanhol, significa “o que nos passa”; em português, “o que nos acontece”; em francês a experiência seria “ce que nous arrive”; em italiano, “quello che nos succede” ou “quello che nos accade”; em inglês, “that what is happening to us”; em alemão, “was mir passiert”. Então, a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca.

Por isso tudo é fundamental, ao ser humano, ter cuidado, atenção, respeito às palavras, pois com elas exercitamos a comunicação, dizemos quem somos, o que queremos na vida. Essa comunicação dirige nossos pensamentos e molda nossas ações e, de alguma forma, ela nos ajuda a criar a nossa realidade, evidenciando nossos pontos fortes ou potencializando nossas limitações. A palavra induz à idéia, tanto quanto a idéia induz à palavra.

Para concluir a reflexão, pense o leitor nas palavras que usa e analise quais palavras mais saem da sua boca. Essas palavras são de amor, irritação, amizade, compreensão, respeito, elogio, condenação, crítica? Depois, responda como essas palavras são transmitidas, se com humildade ou arrogância. Ainda, tente descobrir quais palavras são importantes no convívio diário da vida. Por fim, exercite algumas palavras mágicas. Seis palavras importantes: “Reconheço que o erro foi meu”. Cinco palavras importantes: “Seu trabalho é bom”. Quatro palavras importantes: “Qual a sua opinião?” Três palavras importantes: “Faça um favor”. Duas palavras importantes: “Muito obrigada”. As palavras nunca são somente palavras. Elas traduzem aquilo que cada pessoa é e o que tem. As palavras traduzem a vida.

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**LUÍSA GALVÃO LESSA é Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Ocupa a cadeira de número 34 na Academia Acreana de Letras. É acreana de Tarauacá.

***P.S. o texto é um primor. Fascinante!

terça-feira, 6 de abril de 2010

ÁLBUM DO SERTÃO

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Da's Bahia's conheço a Bahia sertão, onde estou há dois meses. Gente simples, sofrida, mas resistente como mandacaru, em que o clima e as agruras do sertão a tornam mais fortes e generosas, como árvores de umbu. Região envolvida por serras, lajedos e belas formações rochosas. Cidade de gente hospitaleira, que ao entardecer senta em frente as suas casas para prosear. Estirando um pouco mais depara-se com o imponente Velho Chico, o maior rio genuinamente brasileiro. Estamos à sudoeste da Bahia, região fronteiriça com Minas. Aqui o vento vem todas as tardes vadiar com o sertão e namorar as suas serras, como quem nada quer...
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Famoso conjunto de pedras de arenito chamado de Três Irmãos localizado na cidade de Palmas de Monte Alto-BA, com cerca de 30 m de altura, que em 1902 emocionou o famoso engenheiro Teodoro Sampaio que passava pela região quando realizava a expedição pelo Rio São Francisco e Chapada Diamantina.
Igreja histórica de Nossa Senhora Mãe de Deus e dos Homens. A partir desta capela fomou-se a vila de Monte Alto, entre 1736 a 1742. Em 1840 a capela passou a ser freguesia e Monte Alto foi elevado à categoria de município.
As casas ao pé da serra de Monte Alto: uma pintura natural
O sertão recebe as últimas chuvas. O verde volta a predominar o cenário, a encher-se de esperança para enfrentar as agruras da seca.
Três Irmãos
O futebol parece ser mesmo uma paixão nacional, como demonstra essas crinças em uma das comunidades rurais de Palmas de Monte Alto. Intervalo da aula: hora de futebol.
Nem tudo é pedras no caminho: é preciso ter a sensibilidade de enxergar a beleza onde menos se espera.

Estrada e nuvens a compor um cenário ímpar.
Sob a relva verdejante o sol vem deitar-se.
Final de tarde: o sol brilha já quase por entre a serra.
Entre as cidades de Guananbi e Caetité pode-se apreciar essa paisagem.
Poesia humana aliada à composição Divina.
A árvore saúda o sol a se esconder por detrás de sua copa.
O Velho Chico que enche de vida o nordeste brasileiro. Ameaçado pela ganância humana de uns poucos.
Da foz do Rio Carinhanha contempla-se a ribeirinha cidade de Malhada.
As águas do Rio Carinhanha a refletir as nuvens: a formar uma paisagem única.
Ainda no Rio Carinhanha: o sol abre-se sobre as águas.
Ao fundo o arco-íris.
Deste lado o rio Carinhanha, do outro o São Francisco.
O arco-íris parece abraçar o homem em sua canoa.

É o Rio São Francisco.
Os traseuntes da ponte sobre o Rio São Franscisco admiram um monomotor que faz acrobacias.


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Como diria Carlos Drummond de Andrade:
"Ainda carece fazer poema sobre a Bahia?
Não."
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quinta-feira, 1 de abril de 2010

O SONHADOR

Gibran Kahlil Gibran
Uma vez, chegou do deserto à grande cidade de Charia um homem que era um sonhador, e nada possuía além de sua roupa e de um bordão.



E enquanto ia andando pelas ruas, contemplava, intimidado e maravilhado, os templos, as torres e os palácios, pois a cidade de Charia era de suma beleza. E ele falava muitas vezes aos transeuntes, indagando-lhes acerca da cidade – mas eles não lhe entendiam a língua, nem ele os entendia.



Ao meio-dia, parou diante de uma grande hospedaria. Era construída de mármore amarelo, e havia gente entrando e saindo livremente.



- Isto deve ser um santuário, disse consigo, e entrou também.



Mas qual não foi a surpresa ao encontrar-se num salão de grande esplendor com grande número de homens e mulheres sentados em volta de numerosas mesas. Estavam comendo e bebendo, e ouvindo os músicos.



- Não, disse o sonhador. Isto não é um culto religioso. Deve ser uma festa dada pelo Príncipe ao povo, em comemoração de um grande acontecimento.



Nesse momento, um homem, que ele tomou pelo servo do Príncipe, aproximou-se e convidou-o a sentar-se. E serviram-lhe carne e vinho e excelentes doces.



Quando ficou satisfeito, o sonhador levantou-se para partir. À porta, foi detido por um homem enorme, magnificamente ataviado.



- Com certeza, este é o próprio Príncipe, disse consigo o sonhador, e curvou-se ante o homem e agradeceu-lhe.



Então, o homem enorme disse, na língua da cidade:



- Cavalheiro, o senhor não pagou o seu almoço.



E o sonhador não compreendeu, e agradeceu outra vez, calorosamente. Então, o homem enorme observou-o com mais atenção. E viu que ele era um forasteiro, pobremente vestido. Com certeza, não tinha com que pagar a refeição. Então o homem enorme bateu palmas – e surgiram quatro guardas da cidade. E estes ouviram o que disse o homem enorme. Então, puseram o sonhador entre eles, ficando dois de cada lado. E o sonhador notou o caráter cerimonioso de seus trajes e de suas maneiras, e olhou para eles com prazer.



- Estes, observou, são homens distintos.



E caminharam juntos até o tribunal, e entraram.



O sonhador viu diante de si, sentado num trono, um homem venerável, de barba cheia, vestido majestosamente. E pensou que fosse o Rei. E alegrou-se de ter sido trazido ante ele.



Então, os guardas relataram ao Juiz, que era o homem venerável, a acusação contra o sonhador; e o juiz designou dois advogados, um para apresentar a acusação, o outro para defender o forasteiro.



E os advogados levantaram-se, um após o outro, e expuseram os seus argumentos. E o sonhador pensou que estava ouvindo discursos de boas-vindas, e seu coração encheu-se de gratidão para com o Rei e o Príncipe por tudo o que lhe vinha sendo feito.



Então, foi proferida sentença contra o sonhador: seu crime devia ser escrito numa tabuinha a ser pendurada ao seu pescoço; e ele seria assim levado através da cidade, montado num cavalo nu, com um tocador de trombeta e um tocador de bombo à sua frente. E a sentença foi imediatamente executada.



E o sonhador foi levado pela cidade num cavalo nu, com um tocador de trombeta e um tocador de bombo à sua frente. Os habitantes eram atraídos pelo som dos instrumentos, e quando viam o sonhador, riam-se, e as crianças corriam atrás dele em grupo, de rua a rua. E o coração do sonhador estava cheio de êxtase, e seus olhos brilhavam. Pois, para ele, a tabuinha era um sinal da benção do Rei, e a procissão era em sua honra.



Então, enquanto cavalgava, viu no meio da multidão um homem que era do deserto como ele, e seu coração encheu-se de alegria, e ele chamou-o com um brado:



- Amigo! Amigo! Onde estamos? Que cidade de sonho é esta? E que raça de pródigos hospedeiros? Festejam o hóspede inesperado em seus palácios; seus príncipes lhe fazem companhia; seu rei manda pendurar um sinal de honra em seu pescoço e abre-lhe a hospitalidade. Que cidade descida dos céus!



E aquele que era também do deserto não respondeu. Sorriu apenas e balançou levemente a cabeça. E a procissão seguiu.



E a face do sonhador estava erguida, e seus olhos rebrilhavam.

QUANDO TIVERES DESVENDADO TODOS OS MISTÉRIOS DA VIDA, ANSIARÁS PELA MORTE, POIS ELA NÃO É SENÃO OUTRO MISTÉRIO DA VIDA.