segunda-feira, 28 de março de 2011

UM POUCO DA HISTÓRIA DA AVIAÇÃO NO ACRE

“O avião, no Acre, tornou-se o meio mais eficiente de comunicação e transporte e assim o será, ainda, por longos anos, até que o progresso venha rasgar o seio virgem da floresta, implantando estradas que permitam intercâmbio permanente entre as cidades.”
Mário Maia
Houve um tempo em que o único meio para se chegar às terras acreanas era por via fluvial. Gaiolas, chatas, vaticanos, paquetes rompiam o setentrião solitário e, por longos anos, tornaram-se os únicos meios de interligação e de comunicação com a dita “civilização”. Subiam lotados de aviamentos, com seus porões, muitas vezes, abarrotados de “brabos”... e desciam abastecidos com o ouro negro da Amazônia. Longos dias e mesmo meses duravam as viagens pela hinterlândia ou aos grandes centros urbanos. Por isso, quando “a grande Águia metálica riscando o azul solitário do firmamento amazônico, tendo o infinito do céu por cima e por baixo o verde sem fim da floresta” cruzou pela primeira vez os céus acreanos a população inteira parou para admirar tão extraordinário acontecimento.

Nos conta o saudoso médico e senador Mário Maia que nos idos de 1936, quando os serviços aéreos no Brasil eram realizados por companhias estrangeiras, como a Condor alemã, e a Panair de origem francesa, um certo interventor do Acre, por nome Martiniano do Prado, cismou de fazer com que os pássaros de alumínio com homens dentro chegassem até esse limite oeste de nossa Pátria. Martiniano era paulista e havia sido nomeado Interventor do Acre por Getúlio Vargas. Com seu prestígio de interventor conseguiu, junto aos dirigentes da Panair, que os voos da companhia fossem estendidos até Rio Branco.

Os aviões da empresa eram aquáticos, isto é, hidroaviões. Para que o avião chegasse a Rio Branco necessitavam-se algumas providências importantes por parte do Interventor: preparar uma porção do leito do Rio Acre, que fosse relativamente reta. Então, o Dr. Martiniano mandou destocar um grande estirão próximo à cidade, logo acima da “Volta do Quinze”, chamado pelos locais de “Estirão do Bagé”, para que o avião pudesse aquatizar.

Naquele dia o Interventor suspendeu o expediente nas repartições públicas, convidou o comércio, ordenou que não houvesse aulas, mandou convidar todos os colonos, determinou que os soldados da Polícia Militar que não estivessem de serviço fossem para o local, designou a banda de música para a recepção e convidou todas as demais autoridades civis, eclesiásticas e militares e providenciou que se matassem vários bois.

O povo acorreu para o local cedo. E as horas foram passando, o povo se inquietando e nada do tal avião surgir. Já passava do meio dia quando alguém gritou: “Lá vem ele”. Foi uma agitação geral. O avião passou três vezes baixinho. Da segunda vez, quase triscou na água de tão baixo. E na terceira vez quando muitos esperavam que fosse pousar tomou um voo reto e sereno e começou a ganhar altura, na mesma direção de onde havia surgido. E sumiu no horizonte, para frustração de todos e o encolerizamento do Interventor, fato decisivo que o levou a iniciar a construção do primeiro campo de aviação do Acre.

Passados alguns meses desse desencanto, coube a “CONDOR”, companhia alemã de aviação, inaugurar a linha aérea ligando Rio Branco ao sul do país. Era o dia 5 de maio de 1936. Um avião JUNKER–W–34, da Companhia Aérea Alemã “CONDOR”, monomotor, batizado com o nome de Taquary, com dois botes de alumínio pendentes de seu delgado corpo e com suas asas largas e compridas. Em seguida tomou a direção do Estirão do Bagé e fazendo grande curva no horizonte, começou a perder altura, na tomada da aquatização, e finalmente pousou. Na parte traseira do corpo, sobre as asas e sob as mesmas, em letras pretas bem grandes, o prefixo: PP–CAP. Da cabine, que se abrigava logo atrás do motor, sairam o tripulantes que glorificaram as páginas da aviação no Acre: comandante: JOÃO URUPOKIM; mecânico-pivot: GUIDO KLEINAT e rádio operador: DURVAL PINHEIRO GARCIA. – Para o historiador acreano Marcus Vinicius, o hidroavião fora pilotado pelo alemão Frederico Hoepken –. Eram os heróis do ar; homens do espaço que pela primeira vez baixaram a tocar as terras acreanas, no extremo ocidental do país, numa rota que, partindo de Corumbá, no sul de Mato Grosso, em pleno pantanal, veio pousando sucessivamente nos portos dos rios em Cuiabá, São Luiz de Cáceres, Forte Príncipe da Beira, Guajará-Mirim, Porto Velho, Lábrea, Boca do Acre e, por fim, Rio Branco. Estava inaugurada a aviação nestes longes do Brasil.
Hidroavião Taquary, o primeiro a "pousar" no Acre, em 1936.
Pessoas às margens do rio contemplam um hidroavião.
Os voos continuaram alternando-se de modo incerto, às vezes, com um longo período de ausência até que, em 6 de dezembro de 1939, estabeleceu-se o Servico Semanal regular, com transportes de passageiros, carga e Correio Aéreo.

Ao término da II Guerra Mundial, a CONDOR foi nacionalizada, transformando-se na Companhia Aérea Cruzeiro do Sul, que, em seguida, adquiriu uma frota de aviões Douglas, dos E.U.A., desativados de suas funções bélicas e adaptados às funções civis.
No Acre, quase toda carne era exportada da Bolívia. Daí a necessidade de aumento e melhoria do rebanho bovino. No ano de 1948 foi coroado de inteiro sucesso o transporte de reprodutores zebuinos, por via aérea diretamente de Uberaba, em avião Curtiss C-46.
AVIÃO DA FAB C-47- acidentado.
Anteriormente a 1946, era perigosa uma descida no campo de pouso da capital do Acre, durante o inverno. Nessa fotografia vê-se o avião da Companhia Cruzeiro do Sul, acidentado. Durante um semestre, Rio Branco era, das capitais brasileiras, a única separada do resto do país. Por via fluvial, passando por Manaus e Belém, era de quatro meses a viagem ao Rio. Fotografia de 1946.
Não havendo verbas para a construção de um campo de aviação, o Interventor Martiniano do Prado convocou a população para uma concentração em frente ao Palácio do Governo. Lá requisitou machados, terçados, foices, picaretas e instrumentos e arregimentou o povo numa passeata “cívico-agrário”, com gente de todas as idades e categorias sociais e se dirigiram para o local que o Interventor havia escolhido para o futuro campo de aviação. Ao virar da tarde havia no sítio escolhido para o futuro campo de aviação, uma considerável clareira de uns 500 metros de extensão por uns 40 de largura.
Campo de pouso, no ano de 1946.
Não satisfeito o Interventor na semana seguinte, contratou uma turma regular de trabalhadores. Estes continuaram a brocação e derrubada, até chegar ao Igarapé das Ciganas, quando desemboca no Rio Acre, delimitando as terras do Aprendizado Agrícola, cobrindo uma extensão de 800 a 1000 metros. Era o espaço requerido para um pouso regular de avião dessa época. E assim, de forma cooperativista, o povo de Rio Branco, com suas próprias mãos, construiu o seu campo de aviação – o primeiro do Acre, inaugurado em 1937 pelo interventor Epaminondas Martins, com extensão inicial de oitocentos metros, por sessenta de largura, e recebeu o nome de “Santos Dumont”. Aí passaram a pousar os aviões da Panair, da Cruzeiro do Sul e do Correio Aéreo Nacional. Pena que o Interventor Martiniano não estava mais aí quando o primeiro avião inaugurou o campo, porém, ficou sua iniciativa imorredoura.
Aeroporto de Rio Branco, em 1948.
Aeroporto de Rio Branco em 1948 – estação de passageiros, vendo-se ainda o conjunto de instalações de água e luz.
Salão de passageiros do aeroporto de Rio Branco em 1948.
Com a experiência de Rio Branco, já sob a administração de outros interventores, os prefeitos dos municípios do interior começaram a construir também seus campos de pouso. Os interventores Fontenele de Castro e Pedro de Vasconcelos Filho transladavam-se para os municípios para capatazear e orientar a feitura desses campos. Mas eles foram muito mais que mestres de obras; muito mais que capatazes. Tornaram-se, com sua abnegação e prática, verdadeiros engenheiros de campos, dedicados e apaixonados por suas obras. Cada prefeito tinha nesses dois homens, a mola mestra e o segredo com que se construíram os campos de aviação de Brasiléia, Xapuri, Sena Madureira, Feijó, Tarauacá e por fim Cruzeiro do Sul.
Abrigo de passageiros no aeroporto, no ano de 1946.
Não tardou muito e um teco-teco monomotor, de corpo azul e asas alaranjadas raspava os céus acreanos, interligando os municípios pelo ar, dirigido pelo primeiro piloto acreano, o capitão João Donato Filho. Depois, fundaram um aeroclube, com um hangar coberto de palha de ouricuri. Tiveram outros teco-tecos, outros pilotos.

E assim se deu o início das construções dos campos de aviação do Acre (construídos pelo próprio povo, com seus esforços e recursos) e o início da aviação, onde se destacaram figuras lendárias como o Interventor Martiniano do Prado, o Capitão Pedro de Vasconcelos, Capitão Pedroca e do Coronel Fontenele de Castro, os dois últimos da Polícia Militar do Território do Acre. Cabe ressaltar ainda a importância dos aviões da FAB, no Acre, os que realizavam o Correio Aéreo Nacional (CAN), estes além de ônibus populares, foram verdadeiras ambulâncias, a transportar correspondências, valores, documentos oficiais, autoridades, funcionários e o povo em geral. Tanto a aviação militar (FAB-CAN) quanto a civil (Cruzeiro do Sul e VASP) foram imprenscidíveis para minorar as necessidades do povo acreano. Prestaram ao Estado um serviço inestimável.
Batismo do avião Barão de Mauá pela esposa de Guiomard dos Santos, Lydia Hannes. Avião de propriedade do governo do Território. Ano de 1946.
Avião Barão de Mauá - Propriedade do Governo do Território.
Avião Douglas C-47 “Juruá”, também de propriedade do território. Efetuou a primeira ligação do Rio de Janeiro ao Acre no mesmo dia.
Transporte aéreo de borracha laminada, pelo processo-Arantes, do Acre para São Paulo. Ano de 1948.
Momento em que um bezerro zebu salta do avião, depois de uma viagem direta de Minas Gerais ao Acre, no ano de 1948.
AVIÃO DA CRUZEIRO DO SUL
***

MAIA, Mário. Rios e barrancos do Acre. Niterói: PRENSA, 1968.

***

Nota: A maior parte do texto acima encontra-se às páginas 147 a 183 do belíssimo livro “Rios e Barrancos do Acre” do acreano Mário Maia. Fiz apenas alguns recortes e o acréscimo de outras informações ao texto.

II Nota: Algumas fotos foram retiradas do livro “Território Federal do Acre 1946-1948” sem autoria, disponível no acervo digital da Biblioteca do Amazonas. Outras foram cedidas gentilmente pelo meu amigo R. Palazzo, do blog Tarauacá Notícias.

quinta-feira, 24 de março de 2011

DESASTRES NATURAIS E CONSTRUÇÕES HUMANAS

Profª. Inês Lacerda Araújo*
FILOSOFIA DE TODO DIA


Habitantes da superfície de um planeta que abriga e reproduz a vida, nossa civilização, desde há poucas dezenas de anos construiu uma tecnologia sofisticada. Ainda assim, ocupamos parte instável de um planeta com um núcleo incandescente, contra o qual essa tecnologia nada pode. E sucumbimos com terremotos e tsunamis.
O antigo medo dos povos primitivos se manifesta ainda hoje sob a forma de datas que prevêem acontecimentos catastróficos, cataclismo final descrito em termos bíblicos. É mais uma dessas formas mágicas de obter explicação para tudo e pôr um ponto final em tudo. Há as que asseguram a redenção e a salvação (para os bons) e as que profetizam o fim dos tempos a cada novo desastre natural.

Ora, é imprevisível quando e como, mas altamente provável que placas tectônicas se movam! Isso já aconteceu e acontecerá!

Há três modos de o ser das coisas se produzir, ocorrer, fazer efeito. Se há alguma lógica, e precisamos dela em nossas ações, é a de que acontecimentos se dão, eles ocorrem. Prevê-los, apenas com grau de probabilidade, jamais com certeza.

Para Peirce (1839-1914), filósofo norte-americano que fundou a ciência geral dos signos (Semiótica), o descrito acima pertence ao nível da "primeiridade", o que está aí no mundo, fenômenos simples e sem que interfira neles a vontade humana, que são completos em si mesmos e absolutamente livres. Por exemplo, tsunamis, explosões vulcânicas, um galho de árvore que se desprende, tossir nesse momento.

Em outro nível, o da "secundidade", há relações entre dois aspectos, a realidade opõe resistência, e nos obriga a reagir. Exemplos: A causa B, abro uma garrafa, dou a partida no carro, procuro algo que perdi; entra a vontade, é preciso deliberar e escolher.

No nível da "terceiridade" (nada a ver com velhice), ocorre uma modificação do que está aí pela ação humana, por meio da comunicação, por meio de signos. Alguém comunica que vai chover, o outro reage a signos, dá uma olhada no céu com nuvens que indicam precipitação (a que Peirce chama de "índice"), emite uma opinião, concorda, discorda, enfim, é preciso um interpretante para o signo "chuva", que é também outro signo (por exemplo, "que pena", "preciso comprar um guarda-chuva", etc.). Pode ser que a resposta não seja verbal, como a reação de ficar em casa, abrigar-se.

Essa lógica permite ler o significado das coisas, responder, interpretar símbolos, concluir, associar, deduzir e investigar.

Sofrer uma ação brutal da natureza se deve a fenômenos. Não é um castigo bíblico, não é "sinal dos tempos". É uma catástrofe, há que enfrentar, há que reerguer-se.

Nós, seres humanos, habitamos há muito tempo um planeta que recebe a marca de nosso tipo de vida: construímos casas, usinas, pontes, objetos, instrumentos para mil e uma tarefas, povoamos a superfície terrestre com estradas, carros e mais carros. Produzimos lixo, muito lixo.

Quando tudo isso é destruído, constatamos que as necessidades básicas são abrigo e alimento. Mas a civilização humana foi além dessas necessidades, muitas vezes à custa de guerra, violência, morticínios. Até hoje ditadores violentos e patéticos submetem seus povos e são tolerados porque nossa civilização depende de um produto, o petróleo.

A despeito disso, criamos arte, expressamos emoções, valorizamos a justiça e a solidariedade.

Nietzsche em o Eterno Retorno diz: Se o mundo pudesse enrijecer, secar, morrer, tornar-se nada, ou se pudesse alcançar um estado de equilíbrio, ou se tivesse algum alvo que encerrasse em si a duração, a inalterabilidade, [...] se o vir a ser pudesse desembocar no ser ou no nada, esse estado teria de estar alcançado. Mas não está alcançado.

Resumindo, a reflexão filosófica chega a conclusões do tipo: em tudo há um jogo de forças.

Se você refletir, pode chegar a sua própria conclusão!

***

* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.

TAKE A CHANCE ON ME - ABBA

segunda-feira, 21 de março de 2011

Série A POESIA ACREANA > DALMIR FERREIRA

Dalmir Rodrigues Ferreira é a expressão de um dos estágios mais elevados que a sabedoria acreana galgou nesses últimos tempos. Sua enorme cultura não o fez um representante do eruditismo, mas um homem sensível a sua terra, sua gente, sua história, sua época e seus desafios. Dalmir é uma síntese de um pouco de tudo o que o Acre possui de mais belo: gente, história, letras, música, artes.

O inesquecível jornalista José Chalub Leite, pai do humor acreano, assim sintetizava Dalmir: “Poeta, escritor, artista plástico, desenhista, aprendiz de entomologia, agrimensor, parapsicólogo, músico e documentarista. Dalmir Ferreira é acima de tudo um idealista enraizado na generosa terra acreana, que lhe é orgulhosamente de berço desde 12 de Fevereiro de 1952 – no histórico seringal Bom Destino, cenário das lutas irredentistas dos soldados-seringueiros de Plácido de Castro”.

Se o Brasil pode regozijar-se com escritores da envergadura de um Euclides da Cunha, o Acre pode fazer o mesmo em relação à Dalmir Ferreira. A ele parece se encaixar muito bem as palavras de Proust: “como a natureza, a inteligência tem seus espetáculos”.

***

“Muitas tristezas se acumulam na minha caminhada. Inquieta-me profundamente a idéia de deixar um mundo pior do que o que recebi. Acreditem-me senhores, nossa geração não está evoluindo e nós não estamos contribuindo para reverter este quadro...
Por isso vos peço uma sincera reflexão, sobretudo aos que comigo compartilham essa visão, é nosso papel acordarmos os que optam pelo sono que logo será mais que um pesadelo.”

Dalmir Ferreira
em seu discurso de posse
na Academia Acreana de Letras, em 2004.

***

MEMÓRIA
Dalmir Ferreira

Em minha terra
me conheceram pintor,
músico ou poeta
e minhas paixões,
deles, poucos
não souberam,
e muitos saberão
quando eu partir...
mesmo admirando
minha cabeça
respeitarão
meu coração...


POETA MODERNO
Dalmir Ferreira

Deve o poeta
deixar
que seu espírito
vague no cosmo.
Não o raciocínio
nas palavras,
senão logo,
o computador
vai superá-lo
e escreverá
para os robôs...
só se fala
de sentimentos,
quando se sente.
Se não,
mente...


O POETA
Dalmir Ferreira

                               Para Naylor

Dai ao poeta
a liberdade
de cantar,
Dai ao poeta
a inocência
de suas culpas,
Dai ao poeta
a comida necessária
Dai ao poeta
o amor
que o alimenta,
Pois triste do povo
que cala seu poeta,
triste da musa
que não o faz cantar,
Triste dos indiferentes
que não sabem chorar
Triste...


ESTRELA
Dalmir Ferreira

Tudo o que sei
é que parecias
uma estrela
cuja luz,
me vi olhando
sem saber que
estavas morta,
que só restava
aquele pouco de luz,
que vi por um pouco momento,
aos poucos
se acabando...


TEUS OLHOS
Dalmir Ferreira

Eu queria te olhar
nos olhos,
segurar teu rosto
sentindo tua respiração
e sem nada falar,
dizer-te coisas
que ultrapassando
teus sentidos,
se gravassem
além de tua memória,
e na simplicidade
desse ato,
vislumbrássemos
nossa própria
liberdade...


AQUIRY
Dalmir Ferreira

Eis o Aquiry
terra de difícil parto,
pretendida
para a venda
pela Bolívia,
pra rapina
por peruanos,
por cobiça
do Amazonas e Pará,
expoliada por ingleses
não é Bolívia,
nem yanque,
nem Brasil é
pois não representa
divisa econômica,
Que terra é essa
ainda não descoberta?...

***

FERREIRA, DALMIR RODRIGUES. Poesia Seleta. Rio Branco: Editora Preview, 1996.

*Recomendamos o blog do autor para informações mais detalhadas:

quinta-feira, 17 de março de 2011

SEGREDOS DA ALMA E DO ESPÍRITO

Profª. Luísa Galvão Lessa
Há indagações curiosas feitas no decorrer da vida. Uma delas é sobre alma e espírito, se são a mesma coisa? Quando criança, aprendi que sim. Depois, ao crescer, descobri que mesmo sinônimas na fé, também são palavras polissêmicas. Ou seja, podem ter vários significados, a depender da intenção de quem as utiliza. Embora, muitas vezes, usadas com o mesmo sentido, haverá uma distinção entre uma e outra?

A palavra espírito pode ser traduzida por “vida”, “alma”, “criatura”, “pessoa”, “apetite” (ou “desejo”), “mente” e o “próprio ser”. Enquanto a alma relaciona-se com as necessidades básicas da vida e até mesmo com a própria vida. A alma humana possui três potências -- e não partes -- três capacidades: a de conhecer, ou inteligência; a de querer, ou vontade; a de sentir, ou sensibilidade. Por isso a alma então não é composta. Ela é simples.

Segundo Platão, o espírito é peregrino neste mundo, prisioneiro na caverna do corpo. Deve, pois, transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do inteligível, para o qual é atraído por um amor nostálgico, pelo eros platônico. A alma é o foco da consciência e da personalidade. Sente, pensa e quer.

Vê-se, então, pela substância, que o espírito não se separa da alma nem a alma do espírito. E sendo a alma espiritual, não existe na pessoa humana um espírito distinto da alma. Além do mais, toda a alma está ligada ao corpo, como a forma está ligada à matéria. Um corpo é uno, embora composto de alma e espírito.

Nos animais irracionais, diferente dos racionais, a alma é coincidente com a vida. O animal não tem alma espiritual. Por isso, quando ele morre, morre sua alma que é a vida dele. Enquanto no meio humano, quando uma pessoa morre, a alma se separa do corpo -- a morte é essa separação -- e a alma se apresenta diante de Deus para ser julgada.

Todas as religiões do universo, bem como a convicção milenar do pensamento filosófico, afirmam a existência da alma. Só o positivismo e o materialismo tentam negar a sua existência. Mas, afinal, quem prova a existência da alma e do espírito?

O Amor, necessidade fundamental na vida, prova a existência da alma e do espírito. O Amor é o pão da alma e do espírito. A alma, apesar de não ser material, necessita de um alimento, uma forma de energia, e a melhor forma de nutrir a alma é dar-lhe um significado, é transformar o ser humano Torrente em ser humano de Desejo, fazendo cumprir o que determinou Deus: crescei e multiplicai-vos. Amar uns aos outros.

Assim, alma e espírito se alimentam do Amor e também aí se completam. Pois da mesma forma que o corpo nutre-se de recursos orgânicos para sua sobrevivência, o espírito vai nutrir-se de recursos afetivos para o seu equilíbrio íntimo. Amar é importante. O Amor é tudo na vida, também alma e espírito juntos.

Afinal, qual o segredo da alma e do espírito? Está no coração das pessoas. Reside na felicidade, o bem maior depois da vida. O segredo é ser bom. Assim como o segredo do perdão é olhar sem julgamento. O segredo da fé é procurar as provas. O segredo do carisma é olhar com amor. O segredo da saúde é a alegria. O segredo da força é a vontade. O segredo do amor é a inteligência. O segredo do destino feliz é ficar no melhor. O segredo do equilíbrio é buscar o espiritual. A Vida tem seus segredos, mas para quem está atento e não vive para prejudicar os outros. Alma e espírito harmônicos traduzem felicidade. Então, que cada pessoa cultive bem a alma e o espírito e todos serão felizes.

***
*LUÍSA GALVÃO LESSA é Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Ocupa a cadeira de número 34 na Academia Acreana de Letras.

"A GRANDEZA DO HOMEM"

De que adianta exaltar a “grandeza do homem”, simplesmente porque os esforços reunidos de técnicos, soldados e políticos conseguem colocar um homem na lua enquanto quatro quintos da raça humana permanecem numa miséria abjeta, sem roupa nem alimento suficientes, com sua vida sujeita à arbitrária e insensata manipulação de políticos, ou à violência dos policiais, dos energúmenos ou dos revolucioários? Sem dúvida alguma, as possibilidades e a inerente nobreza do homem são estupendas. Pouco adianta, entretanto, fazer disso alarde se a comemoração da grandeza teórica do homem nada faz para ajudá-lo a encontrar-se como um simples ser humano.

Em lugar de um culto idólatra pela técnica e o poder, e da insensata exaltação da grandeza do homem, “voltemo-nos para o mundo”, no sentido de recuperar o comando de nossos vastos poderes e de utilizá-los para preencher as necessidades humanas.


MERTON, Thomas. Reflexões de um expectador culpado. Petrópolis: Vozes, 1970. (p. 260)

***
THOMAS MERTON (1915-1968) é aclamado como um dos mais influentes escritores espirituais do século XX, considerado um mestre espiritual por excelência, um brilhante escritor e um homem que encarnou a busca de Deus e da solidariedade humana.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O ÚLTIMO ADEUS

Em memória do barracão centenário do Seringal
Vitória Nova, Rio Muru, em ruínas.
Um dos únicos símbolos da era da borracha
na região de Tarauacá - AC.

“1911” lê-se acima de teu batente!
Há cem anos mira com teus quatro olhos,
embora cansados e feridos,
os homens que passam até desaparecer
engolidos pela curva do rio.
Em cada tábua há pedaços de segredos
deixados pelos homens...
Em cada telha há respingos de vozes
que aindam ecoam pela sala deserta...
Em cada anoitecer há chamas de lamparina,
a alumiar as lembranças que aí permanecem...
Os homens passam ignorantes da história e
tu permaneces em teu mutismo sabedor.
O navio gaiola Gilberto, a naufragar,
e tu presenciaste;
as balsas de borracha, a descer rio abaixo,
e tu presenciaste;
os patrões em seus coronelismos,
e tu presenciaste;
os regatões em suas negociatas,
e tu presenciaste;
os seringueiros com suas pélas de borracha,
e tu presenciaste;
os domingos de aviamento no barracão,
e tu presenciaste;
os carros de bois saindo para os centros,
e tu presenciaste;
os guarda-livros atenciosos em seus livros-caixas,
e tu presenciaste;
as novenas e terços em dias especiais,
e tu presenciaste;
as chuvas torrenciais e os repiquetes,
e tu presenciaste;
as sortes, as desavenças e as esperanças,
e tu presenciaste...
As mãos que te ergueram onde estarão?
Elas, quem sabe, não te deixariam padecer.
O verdadeiro artista há de sempre respeitar
as obras de suas mãos!

Oh, ironia! Aqueles que podem não fazem
e os que querem não podem!
Até quando aguentarás o descaso dos homens
e as mãos esfaimadas do tempo?


~ Isaac Melo ~



sexta-feira, 11 de março de 2011

CARTA DA ESCRITORA ACREANA LEILA JALUL ÀS MULHERES

BAHIA, MARÇO DE 2011
QUERIDAS COMPANHEIRAS,

Neste momento importante, daqui desta “triste Bahia, ó quão dessemelhante”, tenho um pensamento massacrante do quanto gostaria de estar com vocês. De como ficaria feliz em abraçar minha amiga Concita Maia e outras tantas amigas de carinho sincero e de caminhada. Cada uma no seu quadrado, para evitar sentimentos menores, é certo?

Gostaria de ver a Karla Martins, a Mariama Morena, filha de minha estimada Célia Pedrina e a Val Fernandes, minha fotógrafa preferida. Nada seria melhor que ouvir a Verônica Padrão cantando Mercedes Sosa ou até um forrozinho. Qualquer paixão me diverte na voz de Verônica e de outras meninas que soltam as vozes nos bares e nos espetáculos da vida. Não há moeda que pague!

Um papo nas Fundações Elias Mansour e Garibaldi Brasil com as serelepes Eurilinda, Rose Farias, Talita Oliveira, Leila Hofmann, Carol de Deus e outras que não lembro nomes...

E o que dizer da vontade de beijar as mãos da velha guerreira Nilda Dantas, essa mulher que aprendi a admirar pela sua história? Uma pioneira, na acepção maior da palavra. As vozes das selvas têm uma representante de grande quilate! Nilda é sua melhor tradução.

Às meninas da imprensa, minha admiração. Elas entraram num mercado antes masculino e provaram seu valor. Eliane Sinhasique vem mostrando que babado não é bico. Abraço-a como se estivesse abraçando a todas.

Às profissionais da saúde, da educação, da construção civil, da justiça, da política, e a outras tantas batutas e competentes que atuam no Estado, meu reconhecimento. Que o abraço que envio para a Juíza Denise Bonfim, para a Doutora Solange Cruz, para a eterna musa do PCdoB, a camarada Rita Batista e para a mestra amiga Florentina Esteves, seja extensivo a todas.

Por fim, sem vontade de terminar, quero dizer algo para as meninas do batente da vida, briguentas e valorosas: mães de sangue, mães do coração, operárias, prostitutas, domésticas, presidiárias, gordas, negras, feias, cabelos pixains, originais ou plastificadas, indígenas, analfabetas ou as que sabem apenas assinar seus nomes, meninas ou idosas, amputadas ou inteiraças e a muitas outras que vivem no anonimato, que acertam, erram, se penitenciam, são condenadas por todos os tipos de leis, amam, apanham, choram, às vezes até se desesperam, mas que não se permitem jamais abandonar o barco. Para elas algo mais que um carinho ou um ramalhete de flores: uma declaração de amor em forma de poesia.

O lado quente do ser
Marina Lima

Eu gosto de ser mulher
Sonhar arder de amor
Desde que sou uma menina
De ser feliz ou sofrer
Com quem eu faça calor
Esse querer me ilumina
E eu não quero amor nada de menos
Dispense os jogos desses mais ou menos
Pra que pequenos vícios
Se o amor são fogos que se acendem
Sem artifícios
Eu já quis ser bailarina
São coisas que não esqueço
E continuo ainda a sê-la
Minha vida me alucina
É como um filme que faço
Mas faço melhor ainda
Do que as estrelas
Então eu digo amor, chegue mais perto
E prove ao certo qual é o meu sabor
Ouça meu peito agora
Venha compor uma trilha sonora para o amor
Eu gosto de ser mulher
Que mostra mais o que sente
O lado quente do ser
Que canta mais docemente.
Uma rosa para as que tombaram no caminho.
Uma reverência aos homens de alma feminina.

Companheiras mulheres acreanas, comemoremos o tempo do nosso tempo. Lutemos por mais vitórias! Agora é a hora!

Onde está meu batom?

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Este conto, a ser um dia publicado, homenageia uma velha amiga que foi lavadeira de minha mãe.

A DESASTROSA ESCOLHA DE SOFIA MARIA

                                Pia, pia, cotovia
                                pia em diapasão
                                se eu me chamasse apenas
                                Sofia, cotovia,
                                seria uma rima,
                                jamais uma solução.

                                            Para Dona Guilhermina, a primeira presidenta
                                            do Sindicato das Lavadeiras do Acre.
                                           
Leila Jalul

No boom do sindicalismo, discorre Sofia Maria, eu e minhas amigas Raimunda Tenório, Antonia Almerinda e Joana das Neves, diante da escravização das lavadeiras, decidimos, sob os auspícios e orientações das centrais sindicais, criar o Sindicato das Lavadeiras. Primeiro veio a Associação, como mandava a lei. Na mais pura intenção de organizar a categoria, numa cidade onde as máquinas de lavar, fossem da Brastemp, ou da Westinghouse eram apenas meros objetos de decoração, merecemos loas e versos.

Tempos difíceis aqueles. Tempos do ou vai, ou racha...

Em menos de um mês, vinte sindicalizadas. Em menos de um ano, mais de cem. Empurradas pelo grito de “lavadeiras, unidas, jamais serão vencidas”, vivemos a glória e a esperança de humanização da nossa vida laboral.

“Após a plenária, estabelecemos um listado de valores. Valores que distinguiam bem o povo mais limpo e o mais seboso. Roupas mais sujas, mais caras. Cuecas cagadas e calças com sinais de sangue de menstruação, mais valorizadas, indicavam alta na nossa tabela. Fraldas de tecido com cocô grudado, um preço. Sem os toletinhos, outro valor. Acabamos com o negócio de preço por trouxa. Por quilo, seria outra asneira. Não eram medidas justas. Éramos fortes. E foi bom, enquanto durou, enquanto valeram as decisões majoritárias. Enquanto houve consenso, em suma”.

“Um belo dia, entra na irmandade sindicalizada uma tal Socorrinha Ferreira, cooptada pelo lado da corrupção e dos desvairios do poder. Foi plantada no sindicato para semear discórdias e colher insatisfações e, por consequência, enfraquecer o movimento. Ela tinha estatura e grana para convencer algumas de nossas Marias, Raimundas e Antonias a mudarem a direção do ponteiro da dignidade. Chegou com mil e duzentas promessas de crescimento e outros tantos mil e duzentos merréis para que as trabalhadoras no trato de roupas sujas se recolhessem ao silêncio dos incapazes”.

“Nossa organização, apenas nascitura, não resistiu aos cantos e encantos da sereia do partido da situação. O governador, mais conhecido por Vagalume, por ser míope e usar óculos fundos de garrafa, não aceitava estudantes, categorias e classes se organizando. Poderiam tomar fôlego e, do dia para a noite, vai que o diabo atenta, mudariam o panorama da situação. Era um vagalume sem luz no rabo. Um homem das trevas”.

“No dia em que nossa diretoria foi presa, lembrarei até o meu último dia de vida, dois dos soldados armados com metralhadoras eram filhos de companheiras nossas. Havia lágrimas no rosto dos garotos fardados. Fingimos não conhecê-los e até entendemos que estavam ali por dever de ofício. Esta é uma imagem que guardarei para sempre. É, para mim, uma prova clara de que os fracos não são tão fracos e os fortes não são tão fortes”.

E assim, que caminho seguir, senão o da deserção? Não resistiu ser empurrada e humilhada dentro de salas frias de cadeias e prisões. Foi duro para Sofia Maria. Em seis anos envelheceu mais de dez.

Desertou. Abandonou o movimento não por causa de soldados armados, nem por conta de cara feia de governantes. Estava cansada. Não de lavar roupa, evidentemente. Estava abusada de lidar com o contraditório e com as injunções fortes do poder das armas. Estava enojada com o rebuliço interno e a falta de compreensão de algumas companheiras. Uma vez, presidindo a assembléia geral, ouviu de uma moçoila, filha da companheira Cristina, o seguinte disparate: “ Dona Sofia Maria, até pelo seu nome, você não está conosco. É pelega e está à serventia da classe dominante. Você é suspeita. Quem pôs a senhora aqui, compreendo, até pode desconhecer a sua vida. Eu, não!”

Não precisou ouvir mais nada. Silenciou. Mesmo assim prometeu para si mesma descobrir quem havia mandado o recado por aquela pivete abusada. Quem escreveu o discurso. Quem colocou a palavra “pelega” na boca da ignorante. Num simples exercício de lógica, sem grandes malabarismos, pensou que a maçã não cai longe da árvore e logo descobriu a vilania. Foi o deputado Magalhães, amigado com Socorrinha Ferreira. Nem precisou gastar seus parcos miolos. Entregou o cargo na diretoria e rumou para casa.

“Nunca me perdoei por não ter lutado mais. Estava cansada? Sim. Estava assustada? Sim, mas não tanto que não pudesse continuar”.

“Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida”

Até hoje, quando as Brastemps e as Westinghouses funcionam a pleno vapor, patroas folgadas não se acostumaram com o fim da servidão. Quem lava, não passa; quem cozinha, cuida de menino e limpa casa, nem lava e nem passa. Via de regra, sim. Nas regiões norte e nordeste, principalmente. Lavanderias saem pelos olhos da cara. Sem solução as madames apelam para as antigas lavadeiras de beira de rio, de cacimbões ou de olhos d’água para terem sempre limpas e cheirosas as roupas sujas de suas casas e as imundícies de seus hábitos.

O Sindicato das Lavadeiras poderia estar atual e atuante. Um pouco mais de luta, Sofia Maria poderia ter estado lá por um período mais longo. O Sindicato poderia estar vivo ainda que os tempos sejam outros.

Agora é tarde e Sofia Maria, a presidente, é morta. Sua luta continuou nas lavagens de roupas. Vida dura, mas independente. Sempre estabeleceu seu preço pelas lavagens das roupas. O maior embate, entanto, foi com os seus próprios sentimentos.

Em casa, na solidão, lembrou de Evaristo, o marido. Ele se foi para Pauini, no exato dia em que perguntou a quem ela preferia: a ele, ao filho ou ao sindicato. Sem direito a arrependimentos, ele avisou. Sem comentários, também.

Hoje, aos 86 anos de idade, deitada na rede quadriculada, sem filho, sem marido e sem forças de ter fé na vida, acaricia Lamarca, o velho cão, único e solidário companheiro que lhe restou. Perdoou-se por não ter feito mais. No seu rosto miúdo e de vincas profundas, é possível ver sorrisos.

“Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria...” (*)


(*) Maria, Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant

Esclarecimento: este texto não representa fatos da vida de Dona Guilhermina. Foca a vida de uma lavadeira de qualquer lugar do Brasil, e que, nos tempos difíceis, esteve envolvida na luta sindical. Qualquer semelhança é mera coincidência.

Para contatos com a escritora:
leilajalul@gmail.com

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*Leila Jalul é atualmente umas das maiores vozes femininas das letras acreanas, ao lado de Florentina Esteves e Robélia Fernandes. Procuradora aposentada, da Universidade Federal do Acre, é autora de Suindara (Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora LTDA, 2007) e Absinto Maior (2007), Das cobras, meu veneno (Edição independente, 2010). Por "razões" de segurança Leila Jalul teve que deixar o Acre. Reside atualmente na Bahia.

quinta-feira, 10 de março de 2011

QUANDO E PORQUE SARTRE BRIGOU COM FOUCAULT

Profª. Inês Lacerda Araújo*


Foucault (1926-1984) e Sartre (1905-1980), ambos filósofos franceses, que muitas vezes lutaram pelas mesmas causas na política interna da Fança, estavam em lados opostos em suas concepções filosóficas. Em temas como o marxismo, o sujeito humano, sua existência, as ciências humanas, a teoria sobre a história - a disputa foi acirrada.
Sartre e Foucault nos anos 70, vendo-se atrás deles Deleuze
Sartre discordou da análise de Foucault sobre a história, este "esqueceu a história", pois não diz como os acontecimentos se transformam em função do movimento dialético (veja postagem sobre a dialética marxista). E pior, Foucault "matou o homem", que não passa de um sujeito assujeitado e constituído por saberes de certa época. Quer dizer, Foucault despreza a dignidade e a liberdade humanas. Os estruturalistas visam constituir, sempre segundo Sartre, uma nova ideologia, burguesa, se recusam a prestar atenção às relações de produção, à praxis e consideram que a estrutura da linguagem é mais importante do que a história material e social. Ora, argumenta Sartre, a linguagem é inerte, uma rede de oposições e de regras, de onde o homem está ausente.

Em suma, para o existencialismo sartreano, que aos poucos se tornou um marxismo sartreano, sem o homem concreto, abolindo sua existência e a história dos modos de produção que o transformam, Foucault comete, proclama Sartre "um escândalo lógico". O homem é mais do que as estruturas que o condicionam.

Foucault sustenta algo muito diferente. Para ficarmos só com As Palavras e as Coisas (1966), para ele a história não é feita de passagens, mas de cortes, diferentes práticas de saber para falar, para situar e lidar com os acontecimentos. Acontecimentos são fabricados, inclusive esse humanismo que vê o homem como pura existência, genérica. A história produz lutas, mas muitas delas nada têm a ver com classes sociais. O próprio marxismo surgiu de condições históricas, Marx é um peixe nas águas do século 19, há que compreendê-lo e lê-lo nesse "ambiente". Ele escreveu sobre uma dessas situações históricas: conflitos no nascimento do capitalismo moderno. Conhecimentos só podem nascer de circuntâncias que os homens produziram, o que, diga-se de passagem, Marx sabia. O que ele não sabia, tampouco Sartre, é que não há nada por detrás, nem um projeto de avançar para o socialismo, nem a existência como essência do homem.

Foucault não pretende que uma ideologia deva servir à revolução de que classe for. Não há revolução de classe que acabe com as diferenças, com ciências que marcam e classificam, como a psiquiatria. As transformações históricas não têm uma causa geral ou única. Foucault não negou a história, ele mostrou que a história pode ser vista de outra forma. Ele não foi um antihumanista, ele foi o cartógrafo dos saberes que permitiram o surgimento da figura do homem como alguém vivo, que trabalha e fala. Essa figura é recente. Se pensarmos no modo como Platão, por exemplo, via o homem - alma imortal presa a um corpo, e como nós hoje nos pensamos, e como certos saberes nos produziram como seres finitos, sujeitados a normas , a técnicas, a ciências, nada disso nos "humaniza", tudo isso nos tiraniza.

Na entrevista em que Foucault, com 38 anos, rebate a acusação de Sartre de que ele despreza a subjetividade e o humanismo (um dos escritos mais difundidos de Sartre chama-se , aliás, O existencialismo é um humanismo), Foucault responde: o esforço feito pela nossa geração não é o de reivindicar o homem contra o saber e contra a técnica, mas o de mostrar que nosso pensamento, nossa vida, nosso modo de ser, até o mais cotidiano, fazem parte da mesma organização sistemática, dependem das mesmas categorias que regem o mundo científico e técnico.

O que ele quis dizer com isso? O homem não tem uma essência pura, ele não está salvo se o livrarmos dos condicionamentos. Em nossa época predominam os saberes técnicos, das várias ciências, a tecnologia. DNA, exames, testes, diagnósticos, controlar, produzir, empreender, obter sucesso, comunicar -, é isso que nossa "humanidade" carrega.

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.