quinta-feira, 28 de abril de 2011

LEILA JALUL: OS ENCANTOS DE UMA CRONISTA

Isaac Melo


A literatura, nas palavras de Antonio Candido, é um sistema vivo de obras, agindo uma sobre as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a. Se a obra é mediadora entre o autor e o público, este é mediador entre o autor e a obra, na medida em que o autor só adquire consciência da obra quando ela é mostrada através de terceiros. Essa reação do outro (leitor) é motivada pelo autor através da criação. Para Candido, isto quer dizer que o público é a condição do autor conhecer a si próprio, pois esta revelação da obra é a sua revelação, uma vez que escrever é propiciar a manifestação alheia, em que a nossa imagem se revela a nós mesmos.

O que será exposto aqui, antes de ser uma tentativa de crítica literária, para a qual me falta formação e competência, é uma impressão de leitor. Ao realizar minhas pesquisas e, consequentemente, ao escrever acerca de autores acreanos não me é fácil emitir um juízo isento de meus sentimentos, do impacto que me causam e da impressão que deixam ecoando em minha alma. É assim quando leio Leila Jalul.

As letras acreanas têm dado um salto importante nesses últimos anos, não tanto em relação à quantidade, mas em qualidade. O acreano está mais íntimo com as letras. O resultado é uma literatura que está deixando de ser um reflexo fiel (um reflexo, não um retrato) da história acreana, cuja bibliografia é abundante. Aqui comungando da ideia do crítico português Jorge de Sena quando afirmava que os escritores brasileiros jamais irão para além da superfície, enquanto continuarem a insistir em inventar uma alma brasileira como substituto para a realidade brasileira. O mesmo pode se pensar em relação aos escritores acreanos.

Leila Jalul se apresenta cada vez mais como uma importante referência para a crônica atual no Acre, um Estado em que a presença feminina aparece como um grande diferencial, num ambiente em que, até bem pouco, era quase exclusividade masculina. Nesse sentido, é difícil realizar qualquer tentativa de elencar autoras como “modelo”, pois há sempre o risco de se ser desonestos com outras. Porém, particularmente, tenho pensado em três autoras referenciais para a crônica atual, a quem ouso chamar de a trindade das letras acreanas, são elas: Florentina Esteves, Robélia Fernandes e Leila Jalul. Ou porque abriram caminhos e, de certo modo, tornaram-se um ponto de partida, ou porque inovaram no jeito de narrar, contar, dizer, criando um estilo que foge do padrão.

Como escritora, Leila Jalul iniciou na década de 90 com o livro de poesia “Coisas de Mulher, coisas comuns, coisas de mim”, publicado em Rio Branco em 1997. Depois vieram “Suindara” e “Absinto Maior”, ambos de 2007, respectivamente, crônica e poesia. Da Bahia, onde reside atualmente a escritora, veio a lume, em 2010, a quarta obra, “Das cobras, meu veneno”, sobre a qual este texto deter-se-á.

A professora Margarete Edul Prado de Souza Lopes, uma das grandes conhecedoras e estudiosas da literatura feminina no Acre, em seu livro “Motivos de Mulher na Amazônia” (EDUFAC, 2006), obra rica e interessantíssima, assim comenta sobre a autora: “Leila Jalul tem um estilo próprio, de palavras fortes, ao mesmo tempo despojado, como as outras escritoras acreanas, um discurso liberado das convenções, mais solto, mais coloquial...”. Essas singularidades de Jalul sempre me chamaram a atenção, tudo isso aliado à maneira instigante de contar suas histórias, seus causos, sempre refinados por muito humor, com aquela dosagem de ironia na justa medida, as metáforas precisas, a irreverência no trato de temas sexuais, o verbo solto, a meu ver, herança de Hilda Hilst. Aliás, penso que de todas as influências dos autores lidos e “degustados” por Leila nenhum mais se assemelha a ela do que Hilda Hilst. Não sei se há algo de Hilda Hilst em Leila, ou se há algo de Leila em Hilda Hilst. O fato é que as duas grandes transformações motivadas a partir da obra, segundo Nelly Novaes Coelho, de Hilda Hilst, na contemporaneidade, encontram eco na obra de Jalul: uma, de essência filosófica/religiosa, que se processa no âmbito das relações humanas, as forças terrestres e a própria morte como elementos essenciais e justificativas da própria divindade (secundária em Leila); a outra, de caráter humano (psicológico-sociológico) que corresponde à busca empreendida pela mulher no encalço de sua própria imagem e de seu novo lugar no mundo (mais evidente na obra leiliniana).

Agora nos enveredaremos num breve comentário acerca de “Das cobras, meu veneno”, o último livro de crônicas da autora até esse momento. O livro encerra um total de trinta e três crônicas. Ao conceituado jornalista Elson Martins* a autora revelou: “Das cobras, meu veneno, está bem diferente do Suindara. Ali havia mortos demais. Este, não. Está com muita gente viva, algumas, frutos de minha imaginação”. Sobre o livro e seu conteúdo diz Elson: “A gente os lê como se estivesse surfando em águas barrentas paradas imaginando pororocas. Esse, a meu ver, é o encanto que a Leila nos oferece. Na verdade, podemos fazer comparações de estilo com outros bons escritores, mas o que há de melhor nela é incomparável”.

Dentre as obras atuais de Leila, arrisco a dizer que essa é a que melhor revela o seu amadurecimento literário. São páginas inusitadas, poéticas, sensuais, a revelar, nas entrelinhas, a mulher e a memorialista. Aliás, como expressa Maria do Perpétuo Socorro Calixto Marques, ao prefaciar a obra, “Leila tem esse dom de remexer nas nossas memórias ao ponto de bulinar nosso corpo com lembranças e nos trazer sensações passadas”. Ideia corroborada pela própria cronista quando diz: “O que me mata é o que morre na memória da ingratidão. O que me desgasta é ver a morte repetida do que deveria estar vivo e pulsante”. Às vezes o lembrar é identificado com o próprio ato de viver e a memória como aquilo que valida determinadas ações.

A cronista ainda nos permite pensar o ato de viver como parte essencial e imprescindível de qualquer ser humano situado dentro da história e de um tempo. O ato de viver, portanto, é o que torna, em qualquer tempo, os homens iguais, independente se a vida destes foi ou é de glória ou de fracasso: “Se Neruda viveu, também confesso que vivi. Talvez não com a mesma qualidade, mas vivi”. Mais importante que ser algo, é viver. Embora esse viver esteja dentro de um tempo e “o tempo tem tamanhos desiguais, dependendo da angústia do viver”.

Para uma melhor apreciação de “Das cobras, meu veneno”, agora, de modo específico, nos voltamos para três crônicas: “O marido da tia”, “O matador de mortos” e “Se a liberdade é azul o perdão é vermelho”, abordadas, aqui, nessa ordem. É uma seleção subjetiva, feita com base não tão somente segundo o mérito literário, mas por compreender que elas reúnem as principais temáticas que perpassam todo o livro. Nelas encontramos a presença do humor, da música, tão forte em Leila, do religioso, mesmo que indiretamente, da infidelidade, da crítica social, da condição da mulher.

A crônica “O marido da tia” parece ser aquela que melhor sintetiza o drama da condição da mulher numa sociedade exclusivamente patriarcal e, consequentemente, machista. A crônica narra o drama de Maria Helena, uma professora de piano, e seu truculento e violento marido, um delegado “e devasso”. Além das agressões verbais e físicas, Maria Helena era submetida aos “instintos bestiais” de seu marido. Certa vez fora arrastada na frente de seus alunos para lhe satisfazer seus desejos sexuais: “Dos fatos execráveis, no entanto, esse foi apenas mais um”, assinala a autora. Outra, para atender as fantasias sexuais do marido, fora obrigada a fazer sexo com outro homem na frente dele: “Naquela triste madrugada ela matou todos os resquícios de bons sentimentos que ainda tinha no coração de musicista, discreta e equilibrada”.

Nesse sentido, Maria Helena “se violentou quando permitiu que outro ser (o marido) a usasse em nome do amor”. Não havia ali uma mulher, e sim um objeto que valia enquanto possibilidade de prazer. Com esses fatos, a cronista deixa entrever que Maria Helena, social e psicologicamente, tivera a sua condição feminina anulada ou suprimida, ao ser reduzida a mero objeto sexual, por um marido cujo desvio sexual chegava a ser patológico. Tudo isso sob os olhos de uma sociedade de “bons costumes” e hipócrita, e com a complacência de sua família que partilhava da ideia “seu marido é seu dono”.

À medida que se desenrola a crônica, um acontecimento vai possibilitar uma total reviravolta na vida de Maria Helena: o derrame do marido, que o deixa paralisado, embora continue a falar e a enxergar. Aquele “macho” todo-poderoso que antes subjugava pela força e pela violência, e que a condição e o meio social o faziam crer-se intocável, ver-se reduzido a um mero corpo vegetativo, incapaz de viver sem auxílio de outrem. É a "sentença condenatória” do marido e a consequente absolvição de Maria Helena. Aquela mulher que, até então, se deixara subjugar, rompe com seu próprio medo e preconceito, para alcançar uma liberdade antes nunca desfrutada. Ao não se importar mais com o que o outro (família e sociedade) estabelece como certo e/ou errado, ela encontra, na profundeza de seu ser, em seus sentimentos, o caminho para sua felicidade. Sai de um inverno rigoroso para entrar nos encantos da primavera. A partir de então volta a tocar piano e torna-se uma mulher nova, bonita e carinhosa.

Apesar da experiência violenta e humilhante com alguém do sexo oposto, no caso, o marido, Maria Helena não abominou a presença masculina, ao contrário, em consequência de tudo isso, como parte de sua realização, está a presença de um novo homem. Homem agora não porque se trata de um macho, alguém do sexo masculino, porém, porque é capaz de uma experiência sincera do amor: “Eram momentos (Maria Helena e Cláudio Braga) de gritos de desabafo e sussurros de amor. Eram explosões de sentimentos e transbordamentos de realização pessoal”. Desse modo, o verdadeiro “castigo” do delegado fora saber que outro a amara e ele não fora capaz disso, e não propriamente a doença que o deixara imobilizado. E assim, vivendo num quarto contíguo ao do novo casal, tudo que lhe resta é saber e ouvir que sua (ex) mulher dorme em braços “alheios”, feliz e amada.

Outra crônica surpreendente porque inusitada, em que o trágico é cômico, é “O matador de mortos”. Conta-nos Leila, no caso, a cronista-personagem, que o caso ocorreu com seu compadre Ubiratan na década de 70. Este fora a Manaus para reencontrar um tio abastado que morava fora do país. Por meio do tio viera a conhecer uma família japonesa. Quando de seu retorno a Rio Branco, a dita família o encarregara de levar uma encomenda que havia sido mandada por outros parentes de São Paulo. A encomenda tratava-se de “uma caixinha com uma plaquinha em japonês”.

No dia e hora marcada para a chegada, lá estava a cronista à espera do amigo Ubiratan no aeroporto. E próximo a ela os japoneses que vieram receber a encomenda. Ao chegar, a primeira pessoa a quem viera abraçar fora a sua amiga, que logo notara algo diferente, uma vez que ele estava suado além do comum, e pálido. Algo se passara com Ubiratan. Ele, no entanto, revelou que contaria tudo assim que chegassem a casa dela, mas antes fora até os japoneses que o aguardavam à espera da tal caixinha.

Já na casa da amiga, depois de resolvido o “entrave” com os japoneses, Ubiratan narra o que ocorrera. No aeroporto de Manaus, ao saber da fiscalização e controle de saída de mercadorias e drogas, algumas malas eram sorteadas para serem revistadas. Com medo, por estar com uma encomenda muito suspeita em mãos, Ubiratan correra para o banheiro, desenroscou a tampa da caixinha, provou o conteúdo, e pensando ser cocaína despejou tudo no vaso sanitário e jogou a caixinha no cesto de lixo. Porém, na verdade, tratava-se das cinzas de um defunto. Agora “morto” pela segunda vez. “Se todas as águas correm para o mar, as cinzas do ancestral, com certeza, estão, estariam ou estarão num bom lugar”, finaliza a cronista num tom conciliador e humorado.

Como ressaltara, no prefácio, Maria do Perpétuo Socorro Calixto Marques: “Quem iria imaginar, nesses confins que, ao invés de transportar “pó branco”, levava cinzas de um corpo cremado, tão esperado por uma família nas barrancas do rio? E mais, uma família de origem japonesa?”. Aí está a genialidade, excentricidade e particularidade de Leila Jalul. Ela transforma fatos corriqueiros e ressignifica-os de tal maneira que o prosaico se reveste de grandeza e originalidade: “Afinal, quem é que iria dar conta de um cotidiano desse, se os olhos estão para a paisagem dos grandes rios e das (extintas!) florestas?”.

Para encerrar essa apreciação de “Das cobras, meu veneno”, vejamos a crônica “Se a liberdade é azul o perdão é vermelho”. A narrativa se inicia com a apresentação de Adalberto, vulgo Nonô, um cearense do Crato, “corpanzil de quase dois metros de altura, bigode espesso e olhos azuis cintilantes, (que) nem de longe lembravam o biótipo de um cearense comum”. Tipo meio brutão não demorara muito a ser nomeado delegado e, em seguida, diretor de sistema penitenciário. Autoritário, era extremamente severo para com os presos tipo “ladrão de galinhas” ou outro larápio qualquer, a quem dedicava enorme ódio, principalmente àqueles que roubavam as casas das poderosas famílias do condado federal, a quem incluía no rol dos hediondos, obrigando-os a trabalhos forçados em serviços públicos. Por outro lado, se desmanchava em complacência e bondade para com os presos homicidas, os quais eram poupados dos trabalhos forçados, enquanto passavam à condição de “amigo do diretor”.

Essa primeira narrativa parece secundária, já que a cronista quer mostrar não as arbitrariedades do diretor Adalberto em si, mas abrir caminhos para introduzir o principal foco da crônica: a atitude das personagens Zé Licurgo e seu filho caçula Tenório. Afamado na vila como jardineiro, as flores cultivadas por Zé Licurgo, onze horas, por exemplo, “podiam chegar quase ao tamanho de uma papoula dobrada”. Fora então chamado para tratar do jardim do promotor, no centro da cidade, e para ajudá-lo levara o filho. Acontece que um dia o relógio (Mido Ocean Star) do dono da casa sumira e “ninguém mais culpado do que o jardineiro e o seu menino”. Arbitrária e imediatamente foram presos. E assim fora parar ali, na Colônia Penal Agrícola, sob os mandos e desmandos do diretor Nonô. Mesmo inocentes, como se provara tempos depois, Zé Licurgo e o filho ali passaram bons anos ao lado dos trabalhadores presos do Adalberto. E como “ladrão”, portanto, fora incluído no rol dos presos hediondos e odiados do diretor, que, enquanto isso, se banqueteava com os “amigos”.

Mas há, em grande parte das crônicas de Leila Jalul, um acontecimento que se apresenta como um divisor de águas na narrativa, o que neste texto fora chamado de reviravolta. Se em “O marido da tia” fora o derrame do marido de Maria Helena a reviravolta, aqui é o tempo: “A vida tem termo”, bem como a maldade. Pois, enquanto pai e filho eram libertos, “Nonô subia no telhado para não mais descer”. O tempo passara, os governos mudaram, sem a esposa e a filha, o poder e os amigos, “Nonô estava só e morreu pior ainda”. Se a crônica findasse aqui não teríamos como fugir de uma espécie de sadismo literário. Porém, Leila sempre vai além. Suas personagens embora retiradas do cotidiano ignorado, por vezes desprezado, se apresentam sempre muito humanos, sempre capazes de um gesto sublime.

No velório do diretor não havia nenhum dos “amigos”, nenhuma autoridade, estava apenas Zé Licurgo e sua família: “Talvez por um apiedamento cristão, ou por sua alma realmente boa”, expressa a cronista, a deixar que o leitor construa o seu próprio juízo acerca da personagem. E fazendo uma analogia da bondade de Zé Licurgo com a pujança das flores de onze horas, ela arremata com as seguintes palavras: “A liberdade é azul e o perdão é vermelho, com nome de flor de onze horas do tamanho de papoulas dobradas. Perdão é florescimento. De quem tem bom coração”.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, nos diz que o menos mau é recordar. Leila Jalul com suas crônicas nos tem feito voltar ao passado, não com saudosismo, mas com coragem, responsabilidade e senso crítico, para a partir daí reunir as peças dispersas que compõem a complexidade do tempo presente. Assim em “Das cobras, meu veneno” não temos como fugir da sanha viperina, que é a memória, o recordar, que, nas palavras de André Alexandre, nos arrebata e nos deixa com o amargo gosto no corpo de uma melancolia de querer mais.

Por fim, ainda se faz pertinente se reportar às palavras de Elson Martins, que, em nosso caso, faz uma bela síntese da cronista: “Leila mistura passado, presente e futuro numa surpreendente (e comovente) improbabilidade. Sua história de vida parece caótica, enquanto abre caminhos para o diálogo entre o que foi, o que é, e o que poderia ser. O resultado é brilho”. Sendo assim, a moderna literatura acreana está muito bem representada em obras, como “Das cobras, meu veneno”, que rompem cada vez mais com a barreira do regionalismo, embora se utilize de elementos regionais, para alcançar uma literatura que se apresenta numa perspectiva mais dilatada, universal. E Leila tem caminhado nessa direção.

E numa última palavra, espera-se que este texto não tenha sido uma apologia exagerada da autora e sua obra, infantilizando-a e mesmo diminuindo-a. Acredito que aquilo que é verdadeiramente digno e belo sobrevive por si mesmo. Que as minhas palavras reforcem apenas o anseio da própria cronista, o de que o leitor reserve a ela “um bom lugar no coração / pois que estante é lugar de livros!”.


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

JALUL, Leila. Das cobras, meu veneno. Edição independente, 2010.
LOPES, Margarete Edul Prado de Souza. Motivos de Mulher na Amazônia: produção de autoras acreanas no século XX. Rio Branco: EDUFAC, 2006. (p. 206-211)
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. São Paulo: Publifolha, 2000. (p. 68-69)
COELHO, Nelly Novaes. A Literatura Feminina no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993. (p. 79)
SENA, Jorge de. Estudos de Cultura e Literatura Brasileira. Lisboa: Edições 70, 1988. (p. 345)

* As citações de Elson Martins foram retiradas do Jornal Página 20 (02-Ago-2009), disponível aqui.
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Nota: "Das cobras, meu veneno" pode ser adquirido aqui.

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Comentários sobre "Das cobras, meu veneno" em:

- Lima Coelho, escritor maranhense em seu site.
- Glória Perez, novelista Global em seu blog.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Série A POESIA ACREANA > LEILA JALUL

“Leila Jalul tem um estilo próprio, de palavras fortes, ao mesmo tempo despojado, como as outras escritoras acreanas, um discurso liberado das convenções, mais solto, mais coloquial...”
Margarete Edul Prado de Souza Lopes
em "Motivos de Mulher na Amazônia"


Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos. Nessa afirmação de uma personagem do romance As meninas (1975) de Lygia Fagundes Telles está a raiz do fenômeno de transformação que vem sendo vivido pela mulher desde o século passado, acentua Nelly Novaes Coelho em A Literatura feminina no Brasil Contemporâneo. A mulher começa a assumir a Palavra – consciente de seu poder para criar ou destruir, consagrar ou transgredir a Ordem imposta ao mundo. A Palavra da Mulher se assume então como geratriz/nutriz. E assim, o século XX viu (in) surgir a Palavra marcante de uma Hilda Hilst, uma Cecília Meireles, uma Clarice Lispector, uma Yêda Schmaltz, uma Olga Savary, e tantas outras não menos importantes.

No Acre, sobretudo a partir da década de 70, o véu do silêncio, que por anos envolvera a voz feminina, começou a ser retirado. A Palavra da Mulher começa a ganhar expressão e força, especialmente com o pioneirismo das infatigáveis Fátima Almeida e Francis Mary, acompanhadas mais adiante por Terezinha Migueis, Florentina Esteves e Robélia Fernandes. No entanto, é, principalmente, penso, em Leila Jalul que a Palavra da mulher, a voz feminina, assume toda a sua pujança, de um jeito particular naquilo que diz respeito à busca empreendida pela mulher no encalço de sua própria imagem e de seu novo lugar no mundo.

Leila Jalul iniciou sua atividade literária na década de 90 com o livro de poesia “Coisas de Mulher, coisas comuns, coisas de mim”, publicado em Rio Branco, em 1997. O segundo livro, nesse gênero, “Absinto Maior”, só sairia dez anos depois, em 2007. Lembro-me que, numa de minhas férias em Rio Branco, numa breve visita à Biblioteca da Floresta, me deparei, pela primeira vez, com a obra de Leila Jalul, mais precisamente com o livro Suindara. Desde então cair em seus encantos, pois, como acertadamente assinalara Juarez Nogueira, ela tem a manha de fisgar a palavra e com a palavra fisgar a gente.

A poesia de Jalul é marcada por uma voz feminina que fala de suas dores e descompassos. Conforme estudo da professora Margarete Edul Prado, autoridade em literatura feminina, encontramos na poesia de Leila uma voz de protesto, de denúncia do mal-estar da mulher num mundo androcêntrico que a oprime, de constatação da condição feminina sempre submissa, agredida, constatação de preconceitos que a sociedade criou sobre a mulher. Em outros poemas, continua a professora, a voz feminina desabafa sobre o sofrimento contido em todas as mulheres, que as iguala em perdas, em vazios, em sonhos, em vontade de cicatrizar as feridas de uma vida sempre sofrida e marcada pela submissão, opressão e a dor.

O poema “Entretextando”, um dos mais belos, é um bom exemplo para mostrar esse jogo de forças entre o feminino e o masculino. Nesse poema, Leila, de uma maneira muito natural, entrelaça seus versos aos versos de A Gota d’Água de Paulo Pontes e Chico Buarque, e trecho de Adios Ayacucho, de Júlio Ortega, que em nada quebram a cadência do poema, mas o harmonizam e reforçam o intento da poeta. A voz que perpassa o poema é a de uma mulher, uma mulher que se descobre traída pelo homem que até então confiava: “eu cria em ti / te julgava bondoso”. Depois vem a dura constatação: “era tudo mentira”. Nesse sentido, o amor se torna então algo desconcertante: “eu fiquei como podia / quebrada, imobilizada, estanque e virgem”, algo que desconstrói o ser por completo. Porém, é também um libertar-se desse amor escravizante, que rompe a condição submissa, e agora passa a interpelar: “já que estou livre / venças teu medo”. E vai além chamando à responsabilidade o seu “algoz”: “te escondas, não! / casa no padre!”. Por fim, embora permaneçam as cicatrizes, vem a superação: “tua dor em mim está passando!”, que se dá aos poucos pelo esquecimento, embora permaneça certa mágoa, a gota d’água que pode tudo pôr a perder.

O que, particularmente, me fascina, tanto no verso quanto na prosa de Leila Jalul, é o seu jeito, que é todo seu, irreverente de construir suas personagens ou de dizer sua Palavra, sem hipocrisia, sem arrodeios. Por isso, aqueles que, no primeiro momento, entram em contato com seus textos podem sentir certo impacto. Mas à medida que vamos imergindo em seu universo, esse impacto se torna encanto.

Leila Jalul tem se apresentado cada vez mais como uma importante referência para as letras acreanas, sobretudo no que diz respeito à crônica e a poesia. A Academia Acreana muito se engrandeceria se a inscrevesse entre seus imortais, pois competência e talento não lhe faltam, e junte-se a isso, uma longa história de serviço e amor dedicados a sua terra natal.

***

Aos amigos, que me dou em palavras
me dou inteira
e peço
           não me emprestem
           não me destaquem
           não me reproduzam
                          nem no total
                          nem no parcialmente
                          não posso ser vendida separadamente
não me leiam perto de crianças
nem me citem perto de adolescentes
me queiram, se possível, sempre bem
não me queimem ou rasguem
me deixem ser inteira
sempre
não me comentem com as feministas
           briguei com a Beth, contestei a Marta,
           estou de mal com elas
e me reservem um bom lugar no coração
pois que estante é lugar de livros!

                                                Leila Jalul
                                                em "Das cobras, meu veneno"

***

ENTRETEXTANDO
Leila Jalul

“Que venha e volte, entre e saia, que monte
e desmonte, que faça e que desfaça...
Mulher é embrulho feito para esperar,
sempre esperar... Que ele venha jantar
ou não, que feche a cara ou faça graça,
que te ache bonita ou te ache feia,
mãe, criança, puta, santa madona
A mulher é uma espécie de poltrona
que assume a forma da vontade alheia”

aí eu quis e fui entender tudo
andei à cata de qualquer informação,
qualquer vestígio,
que me indicasse o que acontecia...
nada tinha significado
nada era compreensível
a desculpa maior, rota e esfarrapada...
mas que havia alguma coisa...
lá isso havia...
o tom baixo da tua voz,
o carinho de um dia,
a grosseria do outro,
o beijo ardente,
o riso cínico,
os tons sinceros,
não me deixavam ver nem mais ou menos
nem menos ou mais
a justa razão do ser
e ao mesmo tempo do já era...
nem mais, nem menos, o que mesmo havia
e se mesmo havia...

“Amor com prazo fixo vale nada
Eu achei que você estava ao meu lado
de olhos fechados, sem hora marcada,
dormindo sem receio e sem recado
pra acordar. Mas não, você estava alerta,
deitado com um pé fora da cama,
esperando chegar melhor oferta
pra esmagar no cinzeiro a velha chama
e correr ao sabor de uma ambição
que assim, da noite pro dia, eu deixei
de satisfazer...”

confusão é sempre confusão
da parte de quem é claro não deixa de ser confusão
imagine confusão de quem é confuso
de quem sempre foi esquisito e escuso
valha-me Deus!
valha-me Cristo!
e tu ainda tinhas o aval da minha boa fé...

eu cria em ti
eu te julgava bondoso...
bau bau bau... era tudo mentira, eras todo mentira...
eras perfeito em apagar o dia de ontem
com mentiras aplicadas no hoje e
idéias vagas e promissoras do que poderia ser o amanhã...

por vezes, nos fizeram a mim e a ti acreditar no mal além
da imaginação que a tua então amante Dalva nos poderia,
me poderia fazer
era o pneu que furava
o rolamento que quebrava
era o exu em que te transformavas
era a força maligna que não nos deixava ir...

“... primeiro me cortaram a falange do
dedo pequeno, e eu nem conta me dei.
Só vi o sangue, quando me cortaram
a falange do outro dedo. Gritei muito.
... outra granada de fósforo explodiu
as minhas costas esvaziando minha
cabeça e abrindo-me o estômago
como se fosse um trapo.
... alguém me levantou pelo pé, e descobri
então que me faltava a perna esquerda...
... antes de chegar ao buraco que seria
meu túmulo, me rechearam a barriga com
palha seca, rindo-se de mim, como se eu
fosse um(a) boneco(a) feito(a) para ser
desfeito(a).”

e eu fiquei como podia:
quebrada, imobilizada, estanque e virgem,
tamanhas eram as dúvidas...

“Tudo está na natureza
encadeado e em movimento
cuspe, veneno, tristeza,
carne, moinho, lamento,
ódio, dor, cebola e coentro,
gordura, sangue, frieza,
isso tudo está no centro
de uma mesma e estranha mesa
Misture cada elemento
uma pitada de dor,
uma colher de fomento,
uma gota de terror
o suco dos sentimentos
raiva, medo ou desamor,
produz novos condimentos,

lágrima, pus e suor
Mas, inverta o segmento,
intensifique a mistura,
temperódio, lagrimento,
sangalho com tristezura,
carnento, venemoinho,
remexa tudo por dentro,
passe tudo no moinho,

moa a carne, sangre o coentro,
chore e envenene a gordura
Você terá um ungüento,
uma baba, grossa e escura,
essência do meu tormento
e molho de uma fritura
de paladar violento
que, engolindo, a criatura
repara o meu sofrimento
co’a morte, lenta e segura”

mas posso ainda te pedir um favor e peço,
sem receio, o que prometeste
sem sequer me importar mais em misturar tu com você:
observe
averigüe
sonde
especule
siga
vá atrás
se informe
veja
tome tento
o que foi mesmo que de fato houve?
pra teu governo
estou sã e salva da boca dos sapos
já não me assusta cocô de gavião com pétalas de flor de urucum...
minha calcinha de renda congelada e
fios de cabelo emaranhados em pernas de defunto ruim,
já não me importam
pentelhos amarrados com dois nós de fitas pretas
aos pés de cruzes de quaisquer das bandas
e nossos nomes fincados em velas roxas
depositados todos num só dia
no cemitério da Siqueira Campos
mas eu te peço baixinho e por ti mesmo, já que estou livre
venças o teu medo
não és um macho que comanda a fêmea?
por mim, agora só procuro a Deus e tudo que há de força
persigo descobrir onde é a festa
que se festeja e em que se brinda a vida

vade retro, rocambole!

“Eles pensam que a maré vai, mas nunca volta
Até agora eles estavam comandando
o meu destino e eu fui, fui, fui, fui, recuando,
recolhendo fúrias. Hoje eu sou onda solta
e tão forte quanto eles me imaginam fraca
Quando eles virem invertida a correnteza,
quero saber se eles resistem à surpresa,
quero ver como eles reagem à ressaca”

“Acalmar é claro... É dever do injustiçado
manter sempre a cabeça fria, a qualquer custo
Enquanto que a raiva, é um privilégio do injusto
Por isso é que você tá tão qualificado
a gritar comigo e pedir calma em resposta”

Já estou calma, tranquiliza-te!
tenhas cisma de mim não. Mordo não!
Podes deixar, pois, meus temores, minhas dores,
meus anseios estão em ordem
tá tudo arrumadinho que nem soldadinhos de chumbo,
em quarto de menino rico
só não pode mexer, só não pode brincar.
Te assustes, não!
Eles só se mexem se eu disser: ordinários, marchem!
Fiques bravo não,
tua dor em mim está passando!

Ó filho da puta! põe a cara no mundo!
te escondas, não!
casa no padre!
divulga teu endereço pros teus!
chama teus amigos pra jantar!
comemora o tempo do teu tempo!
Festeja tua maldade!
já somos pretérito perfeito!
não precisas mais te aborrecer!
grita mais comigo não!

“Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água
Pode ser a gota d’água...”

(Citei: trechos de A Gota d’Água – Paulo Pontes e Chico Buarque e trecho de Adios Ayacucho, de Júlio Ortega).

LIQUIDO-ME
Leila Jalul

“Estou à venda. E fico de fora aumentando o preço.
Façam o lance!”.
          Pietra Carreras

Estou vendendo um par de sapatos rosa,
um uniforme de filha de Maria,
um véu e um colar de pérolas desbotados.
Vai junto um vestido esvoaçante, um brinco de princesa, uma toalha felpuda
amarelada com o monograma LJ entrelaçado,
em letras góticas, jamais utilizada.
Estou vendendo textos nunca publicados.
E, de presente a cada comprador, dôo meus poemas um tanto ultrapassados.
Poemas amarrados com cordões fracos de esperar passar o tempo.
Liquido-me apenas hoje.
O preço de amanhã será ainda mais em conta.

ACHADOS E PERDIDOS
Leila Jalul

"dias dementes
mente oca
lábio amargo
alma louca
boca silente"
          Eliane Stoducto

Não sei onde me andei
nesses buracos inférteis
nem quero me atrever a pensar
que desaprendi a idéia de ser breve
e único o tempo que inda tenho
de me perder de vez
ou de encontrar meus restos...
uma perna aqui
um olho ali
o desencanto no riso
está achado.

ORFANDADE
Leila Jalul

"Se alguém pergunta o porquê do fazer,
responde-se o porquê do perguntar!"
          José Eduardo Gramani

No silêncio da noite uma pergunta:
de onde me chegaram a tristeza,
o riso empoado,
as vestes pobres?
de quem herdei a vontade de chorar no meio de uma festa?
de quem recebi este legado infame
de ser poeta que não sabe rir da morte,
nem fazer da agonia da febre um sonho ou um poema.
Quem me deixou assim tão inquieta?
Sou filha da não inspiração?
Ou devo afirmar não ser poeta?

MASOCAÇÃO
Leila Jalul

"Por não ser, o amor me nega.
Por se negar, o amor me desfaz".
          Saramar Mendes

Ah! Como eu adoro uma calamidade pública...
como eu escolho emergir pro fundo
e brincar na lama
e amamentar a dor
ah! como eu adoro!
banhar-me nas minhas próprias lavas,
chicotear-me , atar-me com minhas próprias tripas...
Ah! como eu adoro!
invocar espíritos cancerosos para chorar
e é tão fácil!
vou nas gavetas e reavivo o tempo da tuberculose
arranco o Cruz e Souza das cavernas
é como se vivesse nas ruelas de N. Sra. do Desterro, hoje Florianópolis.
Ah! como eu adoro!
fazer aliteração com os sons da minha hemoptise
de vermelho cardeal,
de emitir vagidos,
ah! como eu adoro!
fazer bandeiras com tiras da minha pele
que eu mesma retiro e seco ao sol,
com o sal por mim retido,
esfrangalhar a alma, fritá-la em alho e óleo
ah! como eu adoro!
me enterrar torrando na quentura do fogo que acendi
que me cozinha viva
ah! como eu adoro!
deixar cair uma mosca em minha sopa
e ser a mosca no meu quarto
a zumbizar!

TERROR NOTURNO
Leila Jalul

"E entre lençóis e travesseiros
a epifania:
eu sou cretina
de vez em sempre".
          Anna Skiper

Noite dessas, em posição de feto,
peguei a mão direita,
tamborilei as idéias,
me perguntei onde ele anda,
beijando os beijos que só nós conhecíamos,
e que nada neste mundo impede que outras possam conhecer...
na posião de parto,
me tamborilei todinha
sentindo o fluxo e o refluxo do meu sangue
o arrepiar dos membros
o gozo gostoso das partes
das de cima, das de baixo,
numa forte impressão sacro-lasciva
de que saías de mim, estavas ao lado
na posição de pé,
me senti cretina!
se não a única, pelo menos, a mais cretina!

*
Nota: Poemas publicados com a licença da autora, Leila Jalul, que gentilmente nos cedeu. O primeiro poema encontra-se ao final do livro “Das cobras, meu veneno” (2009) e os demais são do livro “Absinto Maior” (2007).
*
Fonte das citações:
LOPES, Margarete Edul Prado de Souza. Motivos de Mulher na Amazônia: produção de autoras acreanas no século XX. Rio Branco: EDUFAC, 2006.
COELHO, Nelly Novaes. A Literatura Feminina no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993.

domingo, 24 de abril de 2011

Semana LEILA JALUL

Foto: Site Lima Coelho
Alma Acreana será dedicado esta semana à escritora acreana Leila Jalul que atualmente vive na Bahia. Durante a semana percorreremos um pouco de sua obra como cronista e poeta, que tem cativado cada vez mais o público leitor acreano e além-fronteiras. Serão disponibilizadas algumas de suas poesias na Série A Poesia Acreana e um artigo sobre seu último livro “Das cobras, meu veneno”.

Boa semana a todos na companhia de nossa musa!

TARAUACÁ: O TORRÃO QUE TANTO AMO EM SEUS 98 ANOS

TORRÃO NATAL
Raimundo Rodrigues*

(Para Tarauacá, a terra onde nasci)

Tudo passa na vida, tudo vai,
as nuvens do céu, as águas do rio,
o dia que nasce, o raio que cai,
a chama da vela, o calor e o frio.

O vento que avança rápido ou lento,
as ondas do mar que morrem na areia,
o amor, a alegria, a dor, o lamento,
o inseto que cai, da aranha na teia.

O urro da fera, a ave que voa,
o pó que o vento levanta no espaço,
o troar do trovão que longe ecoa,
a nostalgia, a tristeza, o cansaço.

A chuva, o sereno, a intempérie, a neve,
o outono, o inverno, a primavera, o estio,
o vagalume que voa tão leve,
o canto, a palavra, o grito, o assovio.

Tudo passa na vida, é tudo um instante,
só não passa a saudade, esta não corre,
de quem longe está da pátria distante,
oh! esta saudade, eu juro, não morre!


* Raimundo Rodrigues (o Raimundo Acreano), poeta e escritor nascido em Tarauacá e que faleceu ano passado, em São Paulo.
** ROGRIGUES, Raimundo. Sonetos e outras poesias. São Paulo, 2009.

***


Mais sobre Tarauacá leia neste blog:

sexta-feira, 22 de abril de 2011

ROMARIA - Carlos Drummond de Andrade

A Milton Campos
Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.

Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.

No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.

Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa.

No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.

Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.

Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não possui.

Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas à minha mulher.

Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.

Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.

---

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. São Paulo: Record, 1999.
Foto: Serra da Piedade - Mg

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A PAIXÃO DE CRISTO NA POESIA

Cristo Crucificado - Salvador Dali
Na história da poesia portuguesa são muitos os autores que calcorreiam com o leitor os passos dolorosos da vida de Jesus. A sinfonia das suas palavras transporta-nos para o mistério da cruz. A inspiração de vários poetas mostra o olhar sofredor da Mãe que segura e chora o seu Filho:

«Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da Pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado
Embrulhado nas dobras do teu mando» (Torga, Miguel)

«Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira» (Quental, Antero de)

«Oh Virgem de Nazaré,
Oh Mãe de Jesus
Lírio aberto aos pés da cruz,
Cujas pétalas de luz
Vertem lágrimas de fé» (Conde de Monsaraz, [Papança, António Macedo])

«Junto da cruz, que estremecia ao vê-la
Chorou, baixinho, a Mater Dolorosa:
E a terra, em volta, soluçou com ela» (Oliveira, António Correia de)

O Sinédrio decretara a Sua morte. Nestes passos dramáticos em direcção à humilhação, Jesus prepara-se para a doação total. Os doze esperam com ânsia uma palavra do Mestre.

«Levanta as mãos ao Céu vasto e piedoso
Vara-lhe o seio tenebroso espinho
Caem gotas, de sangue precioso,
De suor, nas violetas do caminho» (Leal, A. Gomes)

Mesmo de poetas descrentes, a beleza da sua linguagem expõe um sentimento religioso. Ao longo dos séculos, a Paixão e Morte de Cristo são fonte inspiradora da poesia. Luis de Camões – uma das almas lusitanas – tem elegias onde canta a Paixão do Filho do Homem.

«Aquele corpo tenro e delicado,
Sobre todos os santos sacrossanto,
De açoutes rigorosos flagelados» (Camões, Luís)

O poeta limiano, Diogo Bernardes considera-se culpado daquela morte. A luminosidade das suas palavras como que formalizam um pedido de desculpas. O lirismo religioso deste poeta do século XVI é marcado pela sinceridade.

«Eu vos crucifiquei, eu vos vendi,
Eu vos neguei mil vezes, que não três
Eu fui o que esse lado vos abri!» …

«Por eles (os meus pecados), meu senhor, te vejo estar
Crucificado nesse duro lenho» (Bernardes, Diogo)

Partindo das palavras do Evangelho de S. João (19, 1-3), o poeta da Arrábida ilustra a paixão de Jesus com a luminosidade de um místico. Frei Agostinho da Cruz assume a culpa do sofrimento e morte de Jesus.

«Eu fui, eu sou Senhor, o que vos pus
Nesse duro madeiro pendurado,
Donde morreis por mim, doce Jesus» (Cruz, Frei Agostinho)

Quando medita nas chagas de Cristo, Diogo Bernardes pede mesmo à sua alma que, por amor delas, se arrependa dos seus pecados e dê início a uma vida nova.

«Quando meus olhos nessas chagas ponho
E não me vejo em lágrimas banhado
Corrido fico, todo me envergonho» (Bernardes, Diogo)

José Régio aborda os últimos passos de Jesus num registo diferente. Lamenta ter nascido tarde, mas considera que Ele foi crucificado pelos homens.

«Por isso choro em mim a mágoa verdadeira
De ter nascido tarde, e só te vir achar,
Feito em marfim, metal, pedra madeira,
No cimo dum altar»

……

«O Cristo, ao alto, alonga os magros braços nus
Por sobre a escuridão do rancho desolado
Que segue, ao som da marcha, o seu Jesus
Por nós crucificado» (Régio, José)

Preso e atado à cruz, a multidão gritava: Crucifica, crucifica. A humilhação estava patente naquele rosto. André Dias explica a crueldade daquela morte. Este poeta dos séculos XIV e XV (1348-1437) coloca nas suas palavras a injustiça daquele tribunal.

«E todos bradavam com grande voz e alta:
- Crucifica! Crucifica este falso profeta
E morra sobre a cruz morte cruel e feia,
Que jamais não engane toda a nossa gente» (Dias, André)

Depois de saber que tudo estava consumado, Jesus disse: «Tenho sede». Teve como bebida, o amargo vinagre.

«Mas tem sede o Rabi. Um, mais cruel,
uma esponja, em caniço pontiagudo,
toda em fel ensopou. – Ora, este fel
amarga mais o mestre do que tudo» (Leal, A. Gomes)

Do alto da cruz, os seus olhos sem brilho contemplavam Jerusalém. Após ter tomado o vinagre, Jesus exclamou: «Tudo está consumado». E, inclinando a cabeça, rendeu o Espírito.

«Filhos de Cristo, consumou-se agora
O horrendo crime de Israel, na cruz.
Trémula se abre a terra; o sol descora
A igreja chora, - que morreu Jesus» (Ribeiro, Tomás)

A noite ia tombando de hora a hora cheia de assombro e cósmica tristeza. Esta morte foi vida. Foi um rasgão no tempo.

«Tu morreste por nós na cruz da afronta
E o sangue derradeiro
Derramaste do alto do madeiro,
Jesus, filho de Deus, Deus Verdadeiro
Aos crimes do homem não lançaste a conta
Inocente cordeiro
Quando foste no alto do madeiro
Lavar com sangue o último e o primeiro» (Garret, Almeida.)

Com a morte e ressurreição, a lanterna da vida brilha e alimenta a árvore frondosa do cristianismo.

«Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado
Como quem deixa à porta o saco para o pão.
Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado.
O que for, assim seja, à tua mão
Tua vontade se faça, a minha não» (Nemésio, Vitorino)


***