quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A VOLTA DOS MATUTOS ACREANOS

Isaac Melo


Enquanto o mundo, no turbilhão de encrencas e bestialidades, gira a 360 graus na escala da imoralidade política e econômica, nossos dois bons e velhos matutos acreanos, na calmaria da floresta, se preparam para um pequeno temporal que se aproxima: as eleições. Sezarino e Bastião conhecem de perto as intempéries da natureza, por trazer no sangue a força do sertanejo mesclada a do indígena. Lá a seca do sertão, aqui, a imensidão do deserto verde. Duas contradições a se complementar, na incompletude do viver.

Foto: Márcio Ferreira
A vida na beira do barranco, sob o reinado das águas do Rio Tarauacá, corre mansa e fugaz, vez por outra, entre repiquetes e remansos, ao modo do próprio rio. Os dois, semianalfabetos, aprenderam da selva “a ferro e fogo” o abecê da sobrevivência, mais aos barrancos que aos trancos.

Sezarino goza fama na região de melhor caçador. Rasteja anta por três dias seguidos, se assim for necessário. Derruba arara de olho de cumaru. Não há tempo ruim para mim, gaba-se. A não ser quando está “enrascado”, com panema dos diachos. Então reúne pelos e penas de bichos que já abatera em outras caçadas. E ‘toma’ uma boa “defumação”. Pronto, eis o homem em ponto de bala novamente. Já o negócio de Bastião é cana. Tanto é que ganhou a alcunha de “Bastião da Cana”. E claro, por gostar de uma boa “cana”. Pois ninguém é de ferro, diz pilhérico. Faz mel, rapadura, alfenim, garapa e assim por diante. Não tem viajante rio acima rio abaixo que não “encoste” na casa de Bastião, para saborear ou comprar alguma de suas iguarias.

A tarde enfraquece. A noite com sua grande boca principia em abocanhar o dia. Fim de lida, Sezarino e Bastião contemplam, de cima do barranco, o sol modorrento a esconder-se por detrás do capão de mato, a refletir último filete de luz, a dourar as águas pacíficas do “rio das tronqueiras”. Bastião sentado num pequeno banco fincado no chão. Sezarino, de cócoras, em cima da pedra de amolar terçados. Bastião pondo-se de pé, diz, enquanto arremessa um “rebolo” em direção à outra margem do rio:

- E cumpade Sezarino, vai votar esse ano? Porque daqui a pouco começa desembestar gente “da rua”, pedindo voto daqui, dali... Eu já tô fazendo uma farinhada e semana “quinhenta” vou dá uma caçada pra ver se consigo levar um rancho pra mode de ir comendo.

- É nisso que tenho pensado nesses últimos dias, cumpade. Eu por mim mesmo não arredava o pé do que é meu pra ir votar em seu fulano, que só vai ficar ganhando dinheiro em cima do nosso rabo. Aqui, ó! dizia Sezarino, a bater uma mão sobre a outra, num gesto nada cortês.

- Mas a lei obriga, cumpade.

- Que lei que nada. E eu sou homem de conversa fiada, Bastião! Eu por mim mandava todas essas leis é para a... a... a merda, isso sim! – berrava, a levantar-se da pedra, indo postar-se frente à Bastião. É diacho de tanta lei hôme! Pra tudo no mundo existe uma lei, não derrube, não cace... Não, não e não. Ninguém num pode fazer mais nada. É coisa demais pra minha cabeça!!! Sezarino enfatizava, a virar-se para o rio.

Bastião ouvia atento as palavras de justa revolta escarradas pelo amigo. Embora menos vivaz, era praticamente o oposto de Sezarino. Considerava importante votar, e se interessava por política. Inclusive era filiado a um partido. Por isso, já estava de trouxa arrumada para descer às eleições em Tarauacá. Iria ajudar o partido, pois tinha recebido um bilhete, escrito a punho, pelo próprio presidente, entre outras coisas, a ressaltar ser muito importante sua presença para o futuro do partido nas eleições atuais.

- É importante cumprir as leis, cumpade!

- Agora essa é boa! Vamos ver no dia em que ela muntá em tua cacunda! redarguiu enfático Severino, voltando-se em direção ao amigo.

- Mas cumpade, o senhor já pensou se cada um pudesse fazer o que quisesse. Nóis já não tinha mais mata, nem bicho nessa mata de meu Deus. Talvez num encontrasse nem mais um peixe, nem pra fazer remédio, nas águas desse rio. E a política é uma maneira de também a gente exigir nossos direitos. O senhor não acha? A gente sabe que tem muito sem vergonhas no meio, mas isso em todo lugar tem. É fazer a nossa parte, e esperar que eles façam a deles.

- Num me venha com sermão, Bastião! Eu sou hôme vivido. Aqui, nesse braço, corre sangue e não leite de mamão. Apois vem ano e sai ano, e as coisas só pioram. Essa cambada só sabe é prometer, e roubar. Agora é engraçado, eu deixo minhas coisas aqui: criação, casa, roçado, tudo ao léu pra ir votar pro seu cicrano, que, no final das contas, num me ajuda nem nas despesas da viage. Se num sair do bolso desse aqui, – e apontava para si – eu ficava com minha réca de menino na beira do barranco. Como é que pode isso!?

A amainar os ânimos, os dois são surpreendidos por um boto que acabara de aflorar à superfície da água, em busca de oxigênio.

- Vixe, que boto enorme, cumpade!!! É dos vermelhos.

- Vai buscar água das cabeceiras. É bem provável que agora dê uma água no rio, porque baixar desse jeito que o rio tá, seco, seco, num vai ser fácil! completou Sezarino, enquanto dizia “olha o limão, boto!”, velho costume que, segundos os ribeirinhos, irrita e afugenta os botos.

- Pois é cumpade, finalzin do mês risco na cidade. Num perco essa eleição de jeito nenhum, apois dizem que em Tarauacá o negóço tá fervendo. Mesmo porque o partido me chama também.

- Não sei de onde cumpade Bastião tira tanto entusiasmo para essas coisas. Apois eu vou porque é o jeito, se não fosse eu num arredava o pé desse chão daqui tão cedo. Ninguém nunca olhou por nós, não vai ser agora, concluiu pessimista.

- Deixa disso, hôme! A gente nunca deve perder a esperança, nunca! A esperança corre em nosso sangue como a água corre por esse rio. É nossa sina! redarguiu Bastião com um largo sorriso, como quem visse no magnífico entardecer amazônico, ali, a descortinar ante seus olhos, um prenúncio de dias melhores. Quem sabe!

- Queira Deus que tudo isso que você falô seja verdade! Mas as coisas num mudam assim do dia pra noite. Pode crer! Esses olhos aqui já viram muita coisa... Mas mudando de assunto, cumpade, você não tem um pacote de café pra me arranjar. O nosso talvez dê só para amanhã.

- Apois, porque não vamos lá a casa agora mesmo buscar. Assim o senhor aproveita e traz umas rapaduras, e já me dá passagem pra casa também. finalizou Bastião enquanto batia nas costas do amigo.

Os dois desceram o porto. Entraram num pequeno “casco”, arte cabocla, que desliza mansamente por sobre as águas barrentas, em carícia de namorados enlevados. Metidos à pequena embarcação, avançam rio adentro no encalce à outra margem. Por um momento homem e selva se confundem. Fundem-se. Duas sombras a perder-se na bruma da noite.
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