quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A LINGUAGEM CRIA PONTES E LAÇOS COM O MUNDO

Luísa Lessa*
A questão da comunicação entre as pessoas é hoje um ponto vital que ganha destaque por sua relevância na qualidade de vida. Não raras vezes, assistimos assustados episódios nos telejornais expondo situações corriqueiras, próprias do cotidiano, que terminam em ações violentas, chegando, por vezes, a situações absurdas. De igual modo assistimos conflitos que envolvem até os órgãos responsáveis pela segurança da sociedade.

Esse contexto brutal, violento, inseguro, vai delineando um formato social preocupante, onde o imediatismo, a intolerância com as dificuldades, seja em que grau for, vão assumindo a tonalidade predominante nas relações pessoais. As pessoas se tornam impacientes, imediatistas, egocêntricas, individualistas, esquecem o semelhante que compartilha e constrói, junto consigo, o mundo.

Esse conjunto de situações remete-nos às perguntas essenciais: o que foi que houve com a dádiva da fala? Em que momento deixou-se de utilizar os recursos, que nos são próprios, para nos comportarmos de modo irracional? Quando foi que a conversa, velha e boa conversa, saiu da pauta de nosso dia a dia deixando um espaço vazio, sem regras, dentro da dinâmica social?

Apontar o dedo para a sociedade, tratando-a como “sórdida, falida, hipócrita”, classificando-a severamente como a vilã da história, de nada nos ajudará, uma vez que sociedade é a reunião de pessoas, e, portanto, inclui-nos, definitivamente, tornando-nos elementos integrantes e participativos dentro dela, seja de modo proativo ou não. A sociedade, portanto, não é uma “entidade”, um “ser”, mas é a reunião das pessoas, e estas sim, é que determinam as características que a sociedade terá.

Se desejarmos uma sociedade diferente, teremos que mudar as pessoas e, nelas, a maneira de pensar e sentir, para que se possa alterar a conduta, já que são essas maneiras de ser que determinam o comportamento do ser humano.

Sem dúvida a linguagem é a principal forma de comunicação e transmissão do conhecimento, idéias, crenças e até emoções. Sua expressão no processo do relacionamento social é determinante.

O convívio coletivo garante a saúde do grupo e enriquece, sobremaneira, o indivíduo que se dispõe a dedicar-se na arte da conversa. Seja ela técnica, acadêmica, social, não importa, é a conversa que cria o elo que ativa a “liga” da sociedade.

Quando falamos em comunicação interpessoal, podemos pensar em pontes. Criar pontes entre os corações parece uma maneira simples de compreender a questão. Quanto mais pontes são criadas, mais opções teremos por onde transitar. Lembrando sempre que cada qual passeia pelas pontes sem aprisionar ninguém em seu “território” e nem abandonar o seu em detrimento do outro. Este ir e vir entre o coração das pessoas é, em verdade, a base do movimento social autêntico. Quando as pessoas convivem dentro deste trânsito parece haver naturalmente harmonia e entendimento. A conversa é o meio do qual dispomos para nos fazer entender. Por isso, dominar a linguagem, fazer bom uso da comunicação oral ou escrita assegura o sucesso nas relações interpessoais.

O primeiro passo para interferirmos na sociedade e instaurar, em definitivo, a harmonia nas relações, é investir na comunicação, praticar a arte do diálogo e recuperar a dignidade de nossa espécie, que é a única, entre os animais, apta a compreender e ser compreendido.

Ainda é preciso considerar o poder que as palavras exercem sobre nós. Quando ouvimos um elogio, há um bem estar que nos invade e acaba por influenciar nossas ações. Da mesma maneira, quando ouvimos uma ofensa, reagimos de acordo com ela, e passamos a nos comportar também de acordo. Esse simples exemplo evidencia a importância que as palavras têm no convívio social.

Talvez, a informalidade como se apresenta hoje, onde todos falam tudo para todos, tenha alguma responsabilidade na questão da disseminação da violência na sociedade, em todas as instâncias. É pertinente uma reflexão sobre isso. A linguagem paralisa a vida, assim como nos faz avançar nela com êxito.

Não se pode negar que a palavra exerce poder sobre as pessoas. Dizia a Clarice Lispector que “as pessoas podem encalhar nas palavras”. Também é bom lembrar que além da palavra em si, a forma como ela é pronunciada, a tonalidade que se usa para proferi-la traz reações também próprias, que se manifestam no comportamento. Portanto, a gentileza, docilidade, aspereza, impaciência, enfim, a forma como se fala algo a alguém, traz sempre resultados compatíveis à sua natureza.

Ao se construir pontes entre os corações das pessoas se faz a tarefa mais importante da vida. O mundo deve andar pelo amor, pela união, coração, determinação, força conjunta. O contrário é o caos, o desastre. Por isso, quando falamos com alguém, devemos fazê-lo olhando-o nos olhos, de tal modo que ele possa ver as reações de nosso olhar, sentir a sinceridade, a lealdade de nossas ações e gestos. Diz um dito: o que a boca fala os olhos tem que endossar. Isso é imprescindível.

A comunicação interpessoal embora se apóie na linguagem, conta com todos esses elementos constitutivos, que complementam as informações e facilitam que ocorra o entendimento.

Há todo um universo de comunicação entre as pessoas para ser explorado. E quanto mais nos dedicarmos a ele, melhor será a relação entre as pessoas que, na atual conjuntura, parece estar frágil e debilitada, esperando a interferência de todos nós. Acredita-se que a paz é alicerçada no entendimento entre as pessoas e, para tanto, há que se aperfeiçoar a arte de dialogar.


* Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro da Academia Acreana de Letras.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

POEMAS - Jorge Tufic

O poeta acreano Jorge Tufic acaba de ganhar o prêmio Raul Bopp da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, pelo livro "Quando as noites voavam", melhor de 2011. A premiação se deu dia 26/10 no auditório da Academia Brasileira de Letras. Tufic pertece às Academias de Letras do Acre, do Amazonas e de Letras e Artes do Nordeste.

 
I

Amo arrumar palavras. Porque sei
que há traças percorrendo
em rios os papéis.

Coisa difícil é dar. Difícil
como saber se damos quando damos
ou tiramos quando tiramos.

Mas as traças são cegas.
Cega a vontade de morrer
mais cega a de escrever.

Palavras são sangue, mesmo
as que gravadas sem propósito.
E ninguém mais do que as traças
sabe disso.

II

Ouvi um chamado distante,
sem voz. Em seguida a surpresa
de assistir à queda de um ovo
pintado com as cores do arco-íris.

─ Algum anjo brincalhão
Querendo tirar barrigada.

Depois outro ovo e mais outro,
tantos, de tantas cores,
que ao chegar em meu quarto
estava transfigurado. Decerto
não atendi ao chamado da poesia...

III

O poeta vai pela rua.
Ninguém está vendo o poeta
porque o poeta é transparente.

O poeta atravessa a ponte
o poeta desfolha a rosa
o poeta contempla o mar.

Ninguém está vendo o poeta.
Mas duvido que ninguém sinta
a sua presença abstrata.




quinta-feira, 25 de outubro de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO - XX

José Augusto de Castro e Costa


Entre os dias 20 e 22 de janeiro de 1903 chovera incessantemente em Puerto Alonso e suas adjacências.

A noite do sétimo dia de combate chegara triste e úmida, povoada de pressentimentos, de inumeráveis enigmas e estranhas incertezas que rondavam sobretudo os bolivianos. Bem espaçadamente fazia-se ouvir algum tiro brasileiro sacudindo o cochilo boliviano e alertando as sentinelas quase imobilizadas, pelo vento cortante vindo da mata.

Por volta de meia-noite, após uma estiada de pouquíssimas horas, a escuridão começara a ser clareada por frequentes relâmpagos e a expectativa sobressaltada por rimbombantes trovões, prenunciando o temporal que se esboçaria na ventania desenfreada.

Os acreanos passaram a lançar sobre o acampamento boliviano flechas com estopas ensopadas de querosene que, iluminando o espaço, iam levar uma variedade de incêndios à resistência inimiga.

Os tiros, espaçados antes da chuva, passaram a cruzar-se por todos os lados, fazendo-se troar o canhão, intermitentemente, madrugada adentro, para, quase ao alvorecer, cessar a tempestade instantaneamente, extinguindo-se também o tiroteio, sob o manto silencioso da neblina.

O ruído que apresentara-se era o dos coveiros cavando valas, num bater de pás e picaretas, para enterrar seus companheiros mortos, ao amanhecer brumoso do dia 23 de janeiro de 1903.

Aos poucos uma luminosidade azulada ia translucidando o céu sobre Porto Acre, em busca de uma limpidez anilada, quando os brasileiros divisaram o branco de uma bandeira subindo trêmula no mastro fixado no alto da Delegação Nacional da Bolívia, na margem oposta.

Plácido de Castro ordenara o cessar fogo e, ao lado dos companheiros, procurara entender o que lhes acenavam, do outro lado do rio, aos brados, os bolivianos. As palavras curtas e incisivas, não chegaram a ser entendias com clareza porém, em vista da movimentação de dois estrangeiros numa canoa, procurando atravessar empunhando uma bandeira branca, o Caudilho deduzira tratar-se de uma rendição honrosa.

Era engano, pois a autoridade boliviana viera aos brasileiros com a simulada intenção de pedir trégua para enterrarem seus mortos, que somavam grande quantidade, segundo informações.

O comandante acreano, todavia, pressentira o pretexto e, ao suspeitar de algo além da justificativa, respondera ao boliviano que, no momento, estavam discutindo a sorte dos vivos. Mais tarde tratariam dos mortos, porque eles não ficariam insepultos, por muito tempo.

A suspeita do Caudilho, em verdade, teria fundamento, de vez que seu comando de guerra situara-se em um alvo bem acessível às balas inimigas, apesar de sua tropa manter-se oculta, cercada por um sem-número de bananeiras que serviam de tapumes.

Plácido, porém, percebera que o boliviano interlocutor, no momento em que ali estivera, aproveitara para examinar atentamente o local e pousara o olhar insistentemente nas trincheiras acreanas. Em assim sendo, melhor seria dali retirar seu acampamento para outro local mais seguro, o que fizera sem pestanejar.

Reiniciado o tiroteio, de maneira tão intensa quanto no primeiro dia, os brasileiros observaram que a zona mais varrida a bala fora justamente a das bananeiras, onde estavam entrincheirados antes. O pipocar ensurdecedor dos tiros prolongara-se por todo o dia, propagando-se pela noite adentro, sem interrupção.

As tropas de Plácido lançaram-se a conquistar o terreno por todos os flancos, chegando a cerca de cinquenta metros do inimigo, prestes a partir para o corpo a corpo e sair no tapa, quando a “peixeira” certamente entraria em ação. E boliviano não é muito chegado a faca, da qual foge, como o diabo foge da cruz.

Ao amanhecer o dia 24 de janeiro de 1903, novamente os bolivianos hastearam a bandeira branca e pediram momentâneo descanso.

Trégua consentida, aproximara-se outra vez Dom Moysés Santivañez, desta vez, em nome do delegado do governo boliviano, para propor a capitulação, ao que Plácido respondeu que somente aceitaria sob primordial condição: a retirada imediata total dos bolivianos de toda a região acreana.

Instantes depois viera ao acampamento brasileiro Dom Lino Romero, delegado boliviano, que declarara aceitar, indiscutivelmente, qualquer condição proposta pelo Caudilho e oferecendo-se para assinar a Ata de Capitulação no local que os revolucionários indicassem, tendo sido escolhida a trincheira principal de Puerto Alonso.

Após transmitir as ordens de alerta aos seus comandados, Plácido, levando consigo apenas o corneteiro, acompanhou Dom Lino Romero de volta até às trincheiras bolivianas, onde fora apresentado aos oficiais superiores, quando destacara-se a espirituosa concepção do coronel Ruiz: "- Pero usted és mui joven”! O Caudilho, então, que há um mês completara 29 anos, respondera, com urbanidade, que “é a idade mais adequada às aventuras da guerra”.

O próprio Plácido lavrara a Ata de Capitulação em português, enquanto Dom Moysés Santivañez providenciara a respectiva versão para o espanhol e a passara ao delegado boliviano e demais superiores hierárquicos, para as devidas assinaturas.


Oficiais superiores da Revolução Acreana
Primeiro plano/sentados: Hipólito Moreira, Gentil Noberto, Plácido de Castro,
José Ricardo e Baptista de Moraes (médico)
Segundo plano: Rodrigo de Carvalho e o médico Dr. Alfani.

Mais tarde, formada toda a força boliviana ante ao exército acreano, procedera-se a entrega das armas, a começar pelos oficiais superiores, tendo Plácido de Castro salientado que “o ideal era a emancipação do Acre e que a cerimônia da entrega da espada do vencido, conquanto fosse um ato muito apetecido pelos grandes exércitos, não o confortara o coração, por ser um ato que aumentaria o infortúnio daqueles já infortunados pela derrota”.

Ao cair da noite de 24 de janeiro de 1903, o navio “Independência”, já descarregado das borrachas, depois transformadas em balsas, amarradas umas às outras, como de costume, tinha a bordo todos os bolivianos prisioneiros, que seriam levados sob a escolta dos brasileiros até a cidade de Manaus.

A 26 de janeiro, Plácido de Castro, após ser aclamado governador do Acre pelo Dr. Baptista de Moraes, em nome de todos os oficiais combatentes da revolução e dos civis presentes, passara a organizar o governo com três ministérios, dos quais, dois – o da Guerra e o da Justiça – seriam acumulados pelo próprio governante e o da Fazenda, pelo coronel Rodrigo de Carvalho, que já possuía prática de assuntos aduaneiros.

Através do primeiro decreto fora adotada a língua portuguesa, como o idioma oficial do Estado do Acre, e reconhecidas as propriedades e posses de terras ocupadas.


Leia aqui a série


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

NOITE - Hermann Hesse

Hermann Hesse
Vista do lago de Lugano
Aquarela 1925
Úmidas nuvens mornas vão passando;
ouvem-se nos juncais aves noturnas
pesadas asas ruflando
e lá na aldeia uma canção de pescadores.

De tempos jamais havidos
sombrias sagas se entoam
e queixas de longevos sofrimentos:
ai daquele que as ouve em meio à noite!

Basta, criança, de murmúrios e lamentos!
De dor, o mundo em redor está cheio.
Vamos ouvir o gorjeio das aves
e essa canção que nos chega da aldeia!


HESSE, Hermann. Andares: antologia poética (trad. Geir Campos). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976. p.47.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

HOMEM, AMAZÔNIA E ECOLOGIA: A CONTRIBUIÇÃO DO PENSAMENTO DE DJALMA BATISTA

Isaac Melo


Pode-se, sem falso louvor, situar Djalma Batista entre os grandes estudiosos amantes da Amazônia; um amazonófilo, utilizando-se, aqui, da expressão cunhada por Gilberto Freyre para se referir a Leandro Tocantins. A ecologia, posteriormente a integrar as ciências ecológicas, passou a ganhar feições próprias, como ciência, a partir do século XIX, adquirindo expressiva força na década de 1960, com o advento dos movimentos ambientais. Apesar de ser alvo de estudos desde tempos remotos, como os desenvolvidos, na Grécia antiga, por Hipócrates e Aristóteles, referentes à história natural, só mais recente o nosso “grande lar” passou a ser objeto de atenção e estudo científico.

A Amazônia, enquanto grande reserva natural do planeta, desde a lenda das amazonas, propagada pelo relato de Frei Gaspar de Carvajal, em 1542, sempre atraiu sobre si a curiosidade exploratório-científica, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, exemplificada, entre outras, pelas clássicas expedições naturalistas de La Condamine (1735), Alexandre Rodrigues Ferreira (1786), Martius-Spix (1817-1820), Bates-Wallace (1848), Agassiz (1865-1866). Inicialmente a natureza exercia o predomínio sobre o fator humano. Aquela era maior do que este, e o absorvia. Daí a expressão de Euclides da Cunha, em princípio do século XX, inebriado pela grandiosidade da selva frente ao homem: “O homem, ali, é ainda um intruso impertinente”. Porém, com o aumento do fluxo humano, entre outros, proporcionado pela migração, somado ao aperfeiçoamento da técnica que permitiu desenvolver novas tecnologias, a Amazônia passou a sofrer considerável impacto sobre o seu meio natural. O que antes parecia ser inviolável, indobrável, mostra-se um complexo sensível às intervenções humanas desmedidas. A Amazônia passa então a necessitar ou a exigir uma ética que regule e oriente o agir humano sobre ela. A ecologia ou as ciências ecológicas vem colaborar, nesse primeiro momento, para tal reflexão, ao conceber o homem em interação com toda a biosfera.

Djalma Batista (1916-1979) encontra-se entre aqueles que vem colocar a Amazônia na grande pauta da reflexão nacional e mesmo internacional, num momento em que a própria Amazônia passa a ser alvo da cobiça internacional, frente ao descaso governamental brasileiro, que, pode-se afirmar, não sabia como integrá-la ao restante do país. Cientista, pesquisador, escritor, literato, homem de profunda cultura, Djalma, arguto nas observações e rigoroso nos registros, distancia-se do pensamento romantizado acerca da Amazônia para lançar um olhar mais acurado e crítico, com embasamento científico, às grandes questões que se apresentavam à complexa realidade amazônica.

Médico formado pela famosa Faculdade de Medicina da Bahia (1939), quando de seu retorno à Amazônia, aos 23 anos, lança-se ao estudo dos diversos problemas que assolavam a região, entre os quais, as doenças tropicais, a hanseníase e a tuberculose, onde alcança resultados notáveis. Quando mais adiante assume a direção do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), de 1959 a 1968, irá reclamar a necessidade do desenvolvimento tecnológico da região aliado ao desenvolvimento cultural de seus habitantes.

A Amazônia de Djalma ainda é, em grande parte, desconhecida cientificamente, por isso ele afirmava que “a Amazônia, se não é o infinito, é pelo menos o indefinido” (2003, p.65), por isso a necessidade de pesquisadores para descerrar o ‘véu de Ísis’ que envolvia a região, hoje, em parte, desnudada pelos modernos satélites que exibem, com precisão, detalhes dos lugares mais remotos da planície amazônica. Por isso afirmava que a natureza amazônica não estava suficientemente conhecida e estudada, o que ainda persiste.

Djalma não encarava a Amazônia segundo os critérios tradicionais da geografia física, política ou continental, mas a partir da geografia humana. Logo percebeu o ponto nevrálgico da ocupação amazônica. Para ele, toda a história da Amazônia tinha sido, até aquele momento, uma colonização desorganizada, em que a produção extrativa era a base de todo erro estrutural da economia, devido sua condição arcaica. Compreendia que todo o processo de ocupação tinha sido uma aventura, a serviço de empreendimentos mercantis, que começaram desde a primeira hora. “A ocupação da Amazônia, nos moldes de uma política meramente imediatista, é propriamente um crime”, ressaltava o cientista (cf. 1976, p.128).

Acerca do boom gomífero, a borracha, Djalma afirmava que esta era o verdadeiro símbolo da Amazônia, contemporaneamente, cujas oscilações constituiram o fluxo e o refluxo das marés sociais e econômicas. Entrevia, no entanto, a transposição desse símbolo para o rio, em perene movimento, sempre adiante, a insinuar, a exemplificar, a impor a atividade. Hoje diríamos as rodovias, e mesmo, o transporte aéreo. Segundo ele, o alvorecer promissor de um ciclo de cultura na Amazônia, proporcionado pela borracha, não correspondeu totalmente à expectativa, pois, na economia permanecemos sempre extrativistas e predatórios, e não principiamos sequer a construir uma economia no sentido capitalista; na alimentação, deixamos os enlatados, porém, continuamos a receber quase tudo de fora, o que poderia ser cultivado em nossas terras; o comércio em geral ainda não era comércio, mas puro escambo, troca de mercadorias por gêneros. Além disso, a condição de vida do povo, em geral, não havia progredido.

O resultado da época do fastígio, a toda a Amazônia, segundo Djalma, teria sido um certo quê de novo-rico, ou de aristocrata arruinado, que levou a exibicionismos e exteriorização muito além das reais possibilidades do meio. Da saga da especiaria aliada à exploração gomífera surgiu um sacrificado, ao mesmo tempo herói e mártir, que era o homem, em cuja defesa Djalma se colocava intransigentemente. Por meio da defesa à natureza, ele chegava à defesa do homem transposto àquelas paragens. Por isso, o pensamento djalmiano se contrapõe a do ‘homem impertinente’, de Euclides da Cunha. Assevera Djalma: “Reanimando o habitante da Amazônia, através da educação, enquanto a paisagem seja defendida, é preciso aprender a tirar, do que a terra possui ou pode dar, com a aplicação de novas técnicas e de nova orientação, as vantagens e os privilégios que não soubemos ou não pudemos até agora valorizar” (1976, p.101). A floresta não é uma redoma de cristal, de aura intocável, ela poder ser manejada de forma racional em favor de seus habitantes. É possível desenvolver, preservando.

Diferente de certos ecologistas radicais hodiernos, para Djalma a floresta não deve constituir uma barreira ao desenvolvimento da Amazônia, mas ser considerada um dos mais preciosos recursos. O que tem de se criar, afirmava o pesquisador, são bases econômicas realmente estáveis, simultâneas a bases culturais, que permitam o progresso da terra e representem boas condições para sua gente, sem que se destruam as potencialidades da terra e sem que o homem seja tentado a emigrar por se sentir abandonado e sem horizontes (cf. 1979, p.291). Lição que ainda não foi assimilada de toda. Depreende-se assim, que o desenvolvimento do homem amazônico encontra-se sempre atrelado à preservação da floresta. Por isso era categórico em afirmar: “é preciso de qualquer maneira defender a ecologia amazônica” (1979, p.25).

A preservação da floresta se conjugaria com o desenvolvimento cultural do povo. Djalma atacava o subdesenvolvimento cultural como um dos principais problemas da Amazônia a ser superado: “O que sei é que o importante, na Amazônia, é preparar o povo para procurar suas próprias soluções, criadas pela experiência de seus homens devidamente esclarecidos e amadurecidos, sem cópias nem modelos alienígenas” (1976, p.213). É claro que numa reflexão atualizada, o subdesenvolvimento cultural, apesar de não está superado, poderia ser substituído pelos grandes latifúndios agro-pecuários que devastam e dominam, rápido e assombrosamente, grandes áreas na Amazônia. Por isso Djalma pregava a necessidade de se criar uma consciência da importância da natureza amazônica, que deve ser conhecida e amada, para poder ser defendida na sua ecologia, isto é, nas relações que os seres têm de guardar entre si, partindo do homem, que é o comandante lógico de todo o processo transformador.

A educação assume um lugar de destaque no pensamento djalmiano. A cultura amazônica declinava, afirmava ele, pois havia se chegado a um nível de cultura muito baixo. Por isso os seus esforços, para o estudo do “complexo amazônico”, de formar pesquisadores locais, acrescidos aos de fora, enquanto esteve à frente do INPA. Essa pobreza generalizada, agravada pelo isolamento, teria suas raízes na ausência, pouca oportunidade ou má orientação da educação, e, consequentemente, subdesenvolvimento psicossocial ou sóciocultural. Portanto, para ele, a solução estaria na educação, que levantaria o nível cultural da população, dando-lhe novos horizontes, com a valorização do trabalho e novas perspectivas de vida, que deveria ser boa e digna, em qualquer lugar; estaria também na criação de novas condições econômicas, reduzindo o extrativismo a um número suportável pela natureza, sem que esta se desgastasse de modo ameaçador como estava acontecendo (cf. 1979, p.90), e prossegue até hoje.

A cultura, a que se chegaria pela educação, seria um forte fator para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da humanidade: “Estou convicto de que só há uma força, hoje, no mundo, capaz de sustentar os ideais supremos de Liberdade, de Justiça Social e de Paz: é a cultura” (2003, p.97). Djalma prosseguia afirmando que a memória, o raciocínio, a imaginação, o espírito crítico, dependem de exercício, treinamento e estímulo: só eles poderão conduzir à ciência, à arte, à criação literária, à filosofia, ao domínio das ideias e dos fatos, isto é, à cultura, como o patrimônio espiritual de um povo. Ainda acrescentava que essa civilização só poderia surgir de um movimento de cima para baixo, isto é, do homem de estudo para a massa, e com a elevação gradual desta, através de uma sistemática e eficiente divulgação do saber. Se não havia pesquisadores e cientistas, então o que se devia fazer era formá-los. Por isso ele propunha, em primeiro plano, a organização de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Como homem de letras, chegou mesmo a expressar: “Precisamos, enfim, de poetas, de muitos poetas na Amazônia, que eternizem no verso os anseios e os sentimentos do povo” (2003, p.94). É incomum ouvir apelos assim vindos do meio científico. Mas Djalma era um devoto do homem diante do altar da natureza.

Acerca da criação de um possível Centro de Estudos Amazônicos, em tom quase poético, Djalma se deleitava com a ideia que este só lhe podia trazer o concurso, inútil porque vazio, despretensioso porque sincero, de sua mocidade, formada no culto devocional e no amor afervorado pela terra e pelo homem amazônicos: terra feiticeira e boa, portentosa e triste, que encerra o futuro da humanidade no seu seio carinhoso – no recesso ignoto de suas florestas, onde corre a seiva fecunda de uma botânica intrincada e nova, e toda uma zoologia que assombra e fascina; na trama vascular de seus caudalosos rios; no sistema nervoso de suas cidades, vilas e povoados, vibrando ao toque mágico de suas convulsões potâmicas, geológicas e econômicas (cf. 2003, p.12).

Naquele momento crítico da história brasileira, em que o governo militar passou a incentivar a ocupação da Amazônia, Djalma alertava: “Não basta para o Brasil a posse física da Amazônia, urge recuperá-la para a economia e criá-la para a cultura brasileira” (2003, p.94). Isso não queria dizer uma ocupação desorganizada e uma exploração predatória, pois o que mais o impressionava constantemente naquele momento era o desmatamento desmedido, contra o qual ergueu sua voz veementemente. Por isso ressaltava que tudo nos cumpre fazer para defendê-la, e, defendendo-a, desenvolvê-la. Considerava uma estultície pensar em reduzir toda a riqueza amazônica a dinheiro, porque, em troca dele, teríamos o deserto. Além disso, a floresta comporta valor em si mesmo. A grande esperança continuava sendo, entretanto, o despertar da consciência ecológica, assegurava.

Por fim, decorridos mais de três décadas da publicação de sua principal obra, O Complexo da Amazônia (1976), e de seu falecimento (1979), seu pensamento ainda permanece uma verdade que não se esgotou e um testemunho que não envelheceu. Um homem que levantou ardorosamente a bandeira da preservação da Amazônia, num momento em que pouco se falava ou se conhecia em relação à ecologia. A Amazônia persiste a necessitar de outros Djalmas capazes de ir além de sua época, na busca de solução e empreendimentos que ajudem cada vez mais a garantia de todos ao bem supremo da vida, numa era em que esta se vê constantemente ameaçada. Que a memória de Djalma Batista não se reduza a nomes de avenidas e escolas, mas ganhe a consciência dos homens, de quem foi defensor intransigente, pois “asseguro que nada mais sou que um dos que muito desconhecem a Amazônia, pertencendo, no entanto, ao grupo dos que almejam entendê-la e defendê-la”. O que fez de modo ímpar.


REFERÊNCIAS
BATISTA, Djalma. O complexo da Amazônia: análise do processo de desenvolvimento. Rio de Janeiro: Conquista, 1976.
BATISTA, Djalma. Amazônia, Cultura e Sociedade (Org. Tenório Teles). Manaus: Editora Valer, 2003.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ENGANOS DE AMOR

Mário Chamie


Não se engana
a si o amor
que não nos damos.

Engana o outro amor
que no outro já perdemos,
se de nosso amor
o outro amor
se afasta em prantos.

Só o amor engana
o outro amor
de nosso sonhos,
se o amor
do outro amor que temos
não sonha
o amor sonhado
que sonhamos.


CHAMIE, Mário. Horizonte de esgrimas. Ribeirão Preto: Funpec, 2002.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

"EU SOU O ESPETÁCULO"

Gravado pela Odeon, em 1960, o LP "Eu Sou o Espetáculo", era baseado no show de mesmo nome que José Vasconcelos apresentou por muitos anos em teatros de todo Brasil, tendo sido o primeiro humorista a vender mais de 100 mil cópias de um LP do gênero. O LP tem duração de 55 minutos, sendo o mais longo LP de humor já feito no país. Abaixo o LP na íntegra. Já ouvi umas duas vezes, e sempre me divirto.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

ELE É O ESPETÁCULO - JOSÉ VASCONCELOS

Vale a pena conferir o documentário sobre o humorista acreano José Thomaz da Cunha Vasconcellos Neto, o José Vasconcelos (1926-2011), que também foi ator, diretor, produtor, radialista e escritor. Vasconcelos é considerado pelos seus colegas de profissão como o pioneiro mundial no gênero "stand up comedy", hoje tão popular no Brasil.
No documentário, o humorista José Vasconcelos conta sua Vida e Carreira. O filme conta com a participação especial de Jô Soares, Chico Anysio, Sílvio Santos e cenas raras de arquivo. Direção Jean Carlo Szepilovski / Ricardo José Haynal.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO - XIX

José Augusto de Castro e Costa


Nos primeiros dias de janeiro de 1903 as forças revolucionárias aguardavam ordens de Plácido de Castro, simultaneamente, nos seringais Caquetá, São Jerônimo e Bom Destino, prontas para o ataque a Puerto Alonso.

O que o Caudilho preparara era um exército regularmente eficiente para a ação que iria desenvolver, tropa essa mobilizada pelos proprietários dos seringais. Ademais, os acreanos achavam-se bem mais mobilizados, tanto por terra quanto por água, em vista da cheia dos rios, que inundavam tudo, graças às chuvas constantes da época.

O navio “Afuá”, que antes, sequestrado, houvera servido de abrigo aos bolivianos, após o segundo combate passara a pertencer novamente aos brasileiros, com o sugestivo nome de “Independência”.

No porto de “Caquetá” Plácido de Castro fizera alguns contatos com comandantes de navios e dera início ao sítio de “Porto Acre”, mandando abrir um varadouro contornando o terreno onde se deveria acontecer o combate e ensejando saídas para outras direções.

No dia 13 de janeiro, Plácido oficializara ao Delegado boliviano, comunicando o início da batalha para o dia seguinte, às 10 horas da manhã, aproveitando para oferecer-lhe hospital para transfusão de sangue, a fim de nele também serem recolhidos e tratados os feridos, o que fora recusado, em linguagem considerada descortês.

Às 23 horas, Plácido suspendera a ordem do ataque que estava marcado, porém no dia seguinte, às 14 horas, distribuíra, pessoalmente as forças nas posições que deveriam ocupar, a fim de partirem para o combate.

A partir dessas providências, uma rajada de vibração patriótica sacudira o Acre inteiro, de brasileiros a bolivianos, invadidos pela angústia de ver chegar, o mais rápido possível, o momento real de jogarem o seu destino.

Plácido de Castro acampara um pouco acima de Porto Acre, com o batalhão “Independência”, quando apresentara-se ao seu comando o engenheiro, seu conterrâneo, Gentil Norberto, oferecendo-se ao combate, disposto a cumprir todas as ordens que lhe desse, sendo aceito e colocado como um dos ajudantes de ordem do Caudilho.

Plácido com seu exército no interior da floresta.
Fonte: jptac

Segundo Plácido, às 9 horas do dia 15 de janeiro os acreanos romperam as hostilidades e às 14 horas já ocupavam posições em campo aberto, há cerca de 120 metros das trincheiras bolivianas.

De suas posições bem resguardadas nas eminências do terreno, os bolivianos responderam com firmeza o tiroteio, "dirigindo o fogo para alinha de baixo e para a margem direita”, porém, de súbito, Puerto Alonso recebera um bombardeio do “Independência”, que acabara de estender linha de artilharia pela parte de cima do rio Acre.

Desencadeara-se a refrega com tal impulso, que rapidamente as tropas acreanas aproximaram-se cada vez mais do inimigo. Porém, uma repentina contra-ofensiva afastara e recuara, forçosamente, os revolucionários, que se abrigaram na escuridão.

As perdas acreanas somaram, entre mortos e feridos, a cinquenta soldados, contudo, durante a noite, foram tamanhos os esforços e as providências tomadas para o sepultamento dos mortos, acolhimento dos feridos e abastecimento às linhas, que, ao amanhecer do dia 16 de janeiro, todas as forças viram-se entrincheiradas e abastecidas de víveres e água acondicionada em sacos impermeáveis, improvisados de cauchos de árvores, prontas para novo combate.

Fizera-se necessário que o navio “Independência”, carregado de borracha, descesse o rio para, em Manaus, trocar o carregamento por armamentos e munições, a fim de manter a resistência da revolução. Plácido encarregara o coronel Antunes de Alencar de forçar a passagem do navio, quando recebera uma dupla surpresa: o comandante Alencar simulara estar, instantaneamente, acometido de grave crise hepática, desculpando-se e pedindo-lhe urgente dispensa do comando, e, logo a seguir, fora o Caudilho informado de que os bolivianos haviam colocado uma grossa corrente, de uma margem a outra do rio, para impedir a passagem do gaiola.

Plácido, então, dispusera outros comandos para as forças em terra e fora para bordo do “Independência”, a fim de comandar e compelir a necessária passagem, levando consigo uma força de artilharia de 50 homens, dispondo-a 25 em um bordo e 25 no outro, comandados por dois subalternos. Consumira-se não menos que três dias para romper a corrente que impedira a passagem do vapor, culminando com a perda, intercalada de um em um, de cerca de dez soldados voluntários, na operação submersa, debaixo da fuzilaria inimiga. A bordo do gaiola essas forças ficaram bem entrincheiradas, assim como o próprio Plácido e seu ajudante-de-ordens, capitão Antonio de Souza Coelho, que se posicionaram no meio da praça de armas, no momento da passagem. O Caudilho desdobrara-se em múltiplas atividades, ajudando a arrumar, distribuindo a munição, ministrando advertências de ordem técnica e ainda pilotando o timão do barco.

Fonte: Correio do Povo
Às seis horas da manhã do dia 19 de janeiro, Plácido de Castro ordenara que se suspendesse âncora e avançasse o gaiola, envolto na densa bruma, num ambiente de franco nervosismo.

Súbito, silvara dentro da neblina da atmosfera acreana, o apito prolongado do “Independência”, desencadeando, simultaneamente, como que ensaiado, um violento indescritível tiroteio vindo de todos os quadrantes, mas que não impedira a passagem, feita garbosamente pelos revolucionários brasileiros. Eram, sim, uns verdadeiros “cabras da peste”.

Plácido de Castro, observara de seu comando e, em seus apontamentos registrara como sendo “belo o aspecto apresentado pelas linhas sitiantes e sitiadas, formando duas curvas concêntricas de fumo”.

Os vivas entusiastas irromperam por todas as linhas acreanas com o luminoso rufar da artilharia ao clarear da manhã. Os atiradores de bordo tanto atiravam como soltavam gritos de cego entusiasmo e contagiante comoção.

Passado o perigo e quando o “Independência” encontrara-se em local seguro, foram as forças acreanas reparar as avarias, quando de súbito, desabara uma chuva torrencial.

O aguaceiro, por ser muito forte, começara a encharcar as trincheiras e, por extensão, os próprios abrigos dos bolivianos, cujas paredes e tetos foram perfurados pelas balas brasileiras.

Começara a ser notado o desespero no acampamento boliviano, à medida que o dia avançava, refletindo na desorientação percebida pelos sussurros de vozes que entremeavam no ruído do trabalho nas trincheiras e nos sepultamentos dos mortos, indicando a proximidade dos combatentes.

Todavia, ainda que contínuo, os disparos da artilharia boliviana passaram a ser menos cerrados, em ritmo modificado, com intervalos estimados de cinco em cinco minutos, de modo tendente a descontínuo, porém, sempre brutal.

De vez em quando um aguaceiro violentamente caudaloso abatia-se sobre o campo de batalha.

Plácido selecionara uma turma para fazer o abastecimento d’água, conduzindo-a do rio nos sacos encauchados, servido pelos cauchos das árvores, que todo seringueiro usava, impermeáveis, onde, antes, comumente guardavam roupa, rede e mosquiteiro.

O Caudilho sempre expusera aos revolucionários os perigos da aventura, ocasião em que a morte poderia alcançá-los, porém, constantemente lembrara-lhes de que a vitória só dependeria deles. Todos comungaram com ele.

Ninguém recuara, ninguém caíra, ninguém temera. E, sob a fuzilaria boliviana os acreanos estiveram sempre prontos para partir em demanda do rio, para a morte talvez.

Para ser brasileiro, por opção.


Leia aqui a série


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

SE A LIBERDADE É AZUL, O PERDÃO É VERMELHO

Leila Jalul


O coração de Adalberto, o Nonô, demonstrou os primeiros sinais de desturbinação. Numa tardezinha de maio, uma primeira fisgadinha, "leviana", como ele a classificou. Quase um nada. Coisica, tipo vento preso que desejava sair.

Não demorou muito, outras sensações estranhas marcaram presença. Sempre nos finais de tarde ou início das manhãs.

Imortal, escondeu os fatos da mulher e das filhas.

Dona Guidola sabia que algo diferente estava acontecendo. E cadê coragem de falar? Sabia das pedradas que poderiam chover em sua direção. Até mesmo para os amigos mais íntimos Nonô escondia a vontade constante de apertar com as mãos o peito. Eles poderiam abrir o bico e... vai que poderiam encarar isso como "viadagem e maricotice".

Ainda um homem novo, desde que chegou do Crato, mostrou-se diferente da irmandade. Tinha uma soberba que mais o aproximava do príncipe Idi Amin Dada, aquele que muitos conheceram ou tiveram notícias. O corpanzil de quase dois metros de altura, bigode espesso e olhos azuis cintilantes, nem de longe lembravam o biótipo de um cearense comum, daqueles que costumavam migrar em fuga da secura.

Diferente da prole, tipo meio brutão, não demorou a ser visto, notado e paparicado. E logo viria a se tornar um bom delegadão nomeado pelas autoridades da época. Em terra de muro baixo quem não tem visão é bem olhado. De delegado para diretor de sistema penitenciário foi um pulo de porteira baixa. Nessa função, escondidos onde estivessem, brotaram os verdadeiros sentimentos de Nonô pela humanidade pobre que, por uma ou outra razão, escorregava nos "paragráfos" da lei.

Na lida diária da casa de reclusão somente eram bem tratados os homicidas por amor. Estes eram poupados de trabalhos forçados e passavam à condição de "amigos do diretor". Um inocente atirador de baladeira que atingia os tetos de zinco quente, um ladrão de bicicleta, um caçador de galinha alheia, estes, sim, eram a ralé miúda e mais perigosa do crime. Fosse por Nonô, o dia desses miseráveis só começaria após receberem vinte chicotadas nos lombos. O animal tinha ódio de ladrões, principalmente os que invadiam as casas das poderosas famílias do condado federal. Um gatuninho que roubasse um pão, independente do tamanho da fome, também era incluído no rol dos hediondos. Nonô era Nonô e sua palavra era a última, seus métodos os únicos corretos e se danasse quem quisesse se danar!

Com todos esses atributos e o assentimento da cúpula, defecou regras e mais regras, dentre as quais o trabalho forçado. Não havia garis e a limpeza de barrancas, fossas, ruas, sarjetas, prédios públicos e quintais privados, tudo virou tarefa de condenados. Até aí nenhum destaque, nenhuma relevância. O pior veio depois. O pior vem agora: nos locais distantes, tipo estradas de rodagem e varadouros, os detentos tinham que fazer de vestes umas simples fraldas de morim ralo, presas com enormes alfinetes de segurança. Ficava aquela macharada de foice numa mão, cambito na outra, num vai e vem incessante de corte de capim tiririca e todo o tipo de mato de capoeira. Dizem que, logo iniciada a faina, ainda descansados, todo o trabalho desses homens tinha uma sincronia tão perfeita que, distasse um quilômetro, ou mais, era possível ouvir o som das lâminas e, a depender da "forteza" do sol batendo no aço, era como se riscas de fogo ascendessem aos céus como relâmpagos invertidos que incandeavam e cegavam. Dizem também que, vez por outra, os acessórios básicos e que simbolizam a vergonha masculina escapuliam pelas abas laterais das finas fraldas, como se quisessem respirar um pouco de ar fresco. Daí a notícia carece de exatidão. Não confirmo nada. Dizem..., e, dizem, não sou eu.

Homens novos, medianos e idosos, em fila indiana, deixavam a cidade limpa, os quintais do nobres ciscados e varridos, as privadas creolinadas e a bosta pútreda dos doutores esvaziadas das fossas. Um primor. Dentre esses trabalhadores, dois chamavam atenção: o velho Zé Licurgo e o seu menino Tenório, o mais novo dos onze irmãos e o caçula da tropa engradada.

Aconteceu que Zé Licurgo era daquelas criaturas de mão boa para plantar. Uma espécie de Midas da jardinagem. Eu mesma posso comprovar que, num canteiro de onze horas, aquela planta rasteirinha que todo mundo conhece, as flores tinham quase (eu disse quase) o tamanho de uma papoula dobrada. Onze horas gigantes. A fama de Zé Licurgo correu a aldeia e logo foi chamado para tratar do jardim do promotor Josias Saint'Cair, bem no centro da cidade. Herniado, inguinalmente falando, Zé pediu autorização ao doutor para ser ajudado nas tarefas de abaixa e levanta por seu menino Tenorinho, no que foi atendido. E foi aí que a desgraça que tinha anunciado antes aconteceu de verdade: embora só ultrapassassem o portão de entrada e saída do imóvel após fiscalização da mulher do promotor que lhes mandava mostrar as marmitas, as ferramentas e os bolsos, numa certa manhã foram esperados pela força policial, algemados e presos sem maiores explicações. O Mido Ocean Star do dono da casa havia sumido e ninguém mais culpado que não o jardineiro e seu menino.

Não houve queixa, inquérito, processo formalizado, julgamento, pedido de vistas, nada. Prisão e pronto. Reclusão e mais nada para o pai e para o filho. E foi assim que Zé Licurgo e Tenorinho foram vestir fraldas junto com os condenados da penal agrícola. Curtiram bons anos e boas amarguras por lá. Sem qualquer culpa, segundo ficou comprovado depois. A mulher do próprio Saint'Clair presenteou o "cebola" ao seu menino amante Jaime Arthur da Fonsêca.

Contou-me Zé Licurgo que, nas tardes de sábado, domingos e feriados, a grande distração da platéia do crime era assistir a um desfile de homens pelados. Ganhava o prêmio aquele que tivesse os bagos mais bronzeados e tostados pelo sol. Também havia concurso para medição dos que estavam com maior arriamento. Coisa dantesca! Enquanto isso os assassinos das puladeiras de cerca andavam na maciota com o Nonô. Até faziam churrasco na casa de outras mulheres e cabulavam a volta para as grades. Eram os amigos do "homem", e daí?

A vida tem termo. Ainda bem. Para os bons, para os nem tanto e para os ruins. A maldade também tem termo. E assim, depois do último verão esquentado que pai e filho passaram na prisão, já libertos por inocência atestada, é que Nonô subiu no telhado para não mais descer. O governo já havia sido trocado umas três vezes e o grande mentecapto estava quase no esquecimento. Não era mais paparicado por ninguém da cúpula. Não mais exibia o garbo do Idi Amin Dada. Dona Guidola e as filhas gêmeas já haviam partido para Souza, na Paraíba. Esse é outro fato jamais bem desvendado: foram por vontade ou deportadas? Encurtando o caminho, Nonô estava só e morreu pior ainda. No seu velório não apareceu nenhum dos seus amigos que mataram as traideiras, nenhuma autoridade da época. Apenas Zé Licurgo passou a noite inteira de vigília. Foi tudo muito solitário, segundo seu relato. Chamou todos os seus filhos e, com a esposa, procurou cuidar daquele que um dia foi seu algoz. Tenorinho se mostrava um tanto revoltado, porém, em obediência ao pai, não só ajudou a carregar o caixão como ainda deu uma mãozinha no plantio das onze horas sobre a terra ainda fofa. Em sete dias, como de costume, voltaram lá e todas estavam floridas e robustas.

De tudo isso, deduzi que a liberdade é azul e o perdão é vermelho, com nome de flor de onze horas do tamanho de papoulas dobradas. Perdão é florescimento. De quem tem bom coração. É, sim!


* Texto publicado no site Lima Coelho, e faz parte do livro "Das cobras, meu veneno" (2010), de Leila Jalul.

sábado, 13 de outubro de 2012

“LÁ DO ACRE PARA A DISCOTECA DO CHACRINHA, JORGE CARDOSO”

Jorge Cardoso (1945-2012) ilustre representante da música romântica brega e um dos grandes nomes do radialismo acreano, era natural de Xapuri. Foi um dos primeiros artistas acreanos a alcançar sucesso nacional. Uma voz marcante para todos da terra de Galvez. Deixou saudades!
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Jorge Cardoso no Programa do Chacrinha
Entrevista de Jorge Cardoso ao Programa Acre Rural

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

MEMÓRIAS DO FUTURO

Luiz Felipe Jardim


Alguns amigos, algum dia, dirão que só não tenho memória de cera porque sou a própria cera que envolve a memória.

Menos. Menos, amigos do futuro. Sei que tenho muito boa memória, mas sei também que não é tanto assim. Não me lembro de muita coisa que gostaria de lembrar. Por exemplo: de quando eu tinha quatro, cinco, ou então ali pelo comecinho dos seis. Mas não, não consigo me lembrar de nada dessa época. Só comecei a dar conta de mim realmente, só comecei saber que existia, quando eu estava ali na curva dos seis meses, nos seis meses e meio exatamente. Só a partir daí é que começo a me conhecer como gente.

As minhas primeiras lembranças são as dos sons. Especialmente as de um som permanente, suave, profundo ao qual eu me sentia umbilicalmente ligado. Foi ouvindo aquele som, na quase profunda calmaria do mundo, que me senti pela primeira vez. Senti que existia. Ali, eu nasci em mim.

É bem certo que para o mundo lá fora eu nem existia, portanto eu nem era eu ainda. Por isso, por estar num paraíso, eu aproveitava a vida. Não havia muita coisa a se fazer além de crescer. Eu já me ocupava demasiado em fazer o meu coraçãozinho ficar maior, em dar um pouco mais de cor aos olhos, coisinhas assim. Para passar o tempo e entender melhor outras coisas, dei asas aos meus ouvidos e me pus a escutar. E foi nas asas dos ouvidos que percebi que aquele som contínuo, agradável e vital que eu ouvia e sentia, pulsava num ritmo de 72 batidas por minuto. É esse o ritmo com que pulsam os corações dos humanos adultos. Só bem depois vim saber que os bebês humanos, quando no colo das mães, esperam que elas os abracem de modo que seus ouvidos fiquem o mais perto possível do coração. O que eles querem é ouvir aquele som, naquele ritmo, no ritmo do coração. No ritmo em que eles entraram no mundo.

- Entraram no mundo é uma maneira de dizer. Porque o mundo do útero, o mundo por aonde todos chegam à vida, é outro mundo. Aí você não anda, não fala, não sente gosto, nem mesmo respira com seus pulmões sô!... Mas ouve. Logo aos seis meses, ouve. E o primeiro som é sempre aquele, o de 72 batidas por minuto. O som do coração que dança a dança da vida.

Na falta de outros estímulos eu ouvia. Envolto por uma temperatura morna, também constante, eu me sentia permanentemente abraçado por um abraço total, suavemente quente, que envolvia cada ponto meu e me protegia com sensações boas e poderosas.

Afora isso eu flutuava. Sabe aquela sensação que ficamos tendo, de vez em quando, depois de passar longo tempo em um barco, ou depois de ficar muito tempo meio imerso em águas que ondulam? A gente fecha os olhos e sente como se estivesse flutuando; como que estivesse sendo carinhosamente embalado por pequenas ondas que vão e vêm silenciosas e prazerosas. Essa sensação é quase que uma reminiscência daquelas que tínhamos quando, ainda no útero, envoltos no líquido amniótico, também balançávamos quando nossas mães se movimentavam. Num movimento harmônico, sonoro, quente, prazeroso.

Essas são as primeiras notícias que posso dar de mim de quando me conheci: que eu estava envolto por um abraço total, quente e permanente; que flutuava num embalo suave e prazeroso; e que ouvia as batidas do coração de minha mãe. 72 pulsações por minuto. O ritmo de pulsação do paraíso.

Todo paraíso é só um ninho. Um espaço de passagem. Um espaço natural para o pouso ágil, fértil e fugaz. Um espaço grávido de encantamentos, onde a vida pousa, nasce e vive, mas de onde a vida deve sair rapidamente para que possa renascer e viver.

- Sair rapidamente é maneira de dizer. De lá não se sai. De lá se é expulso. Para sempre. De lá se é lançado fora, para nunca mais voltar...

De repente, em poucas horas, a erupção de uma fúria opressora se apossa daquele universo e o paraíso é violentamente destruído. O abraço total, sonoro, carinhoso e reconfortante, no caos em que tudo se transforma, é agora apertos que esmagam. Tudo o que existe e é bom é impiedosamente destruído para que aconteça a experiência mais traumática de toda a nossa vida: Nascer. E nascer não é fácil. Ninguém aprende a nascer antes de nascer. Nascer se aprende nascendo. Ninguém pode nascer por você. É certo que os empurrõezinhos que mãe e natureza dão, facilitam um pouco mais as coisas, mas não tornam nada fácil o nascimento.

Não é sem motivos que os bebês chegam ao outro lado da vida aos berros e prantos, com uma tensa e convulsa expressão da mais pura e profunda desesperação. É que eles trazem consigo o sentimento de quem foi expulso do paraíso às cegas, e às cegas, chegou a um mundo que ainda não vê.

E quando se vê... nasceu!!! Quando se percebe, se está no mundo!!! Num vale de lágrimas. Nascido.

- Nascido é maneira de dizer. Ainda há muito chão, nos caminhos de quem mal começou a sugar ares com o próprio fôlego...

Sugar o ar, respirar é a primeira coisa que fazemos quando nascemos. É essa a marca de nosso nascimento. É esse o carimbo com o qual a natureza oficializa nossa nascença. Mas o choro rouba a cena. É que em cinco ou seis segundos após o nosso primeiro alento, começamos a chorar. A chorar e a mover cabeça, braços e pernas. Nosso berro pode ser ouvido à distância, e isso impressiona mais aos humanos que o ato mais silencioso e sutil de respirar. Daí que somos mais uma vez carimbados com simbólica certidão de nascimento. Desta vez pelo choro em que nos pomos logo ao nascer. Por cerca de meia hora choramos, protestamos, nos sacudimos, até que caímos em nós mesmos. Uma vez dentro de nós, nos abrigamos em largo e profundo sono...

Não nos lembramos de quando estávamos sonhando o sonho do nosso primeiro sono. Mas sei que sonhamos o sonho que todos sonham pela primeira vez. Sonhamos com sons e flutuações, com luzes e prantos e com música. Uma música especial, própria, bem particular. Uma música de 72 batidas por minuto. Que passa a existir dentro de cada um de nós.

É com essa música embalando nosso primeiro sono que, ainda em nosso primeiro sonho, nos encontramos com nossa alma. Quando a reconhecemos, abraçamo-la num abraço tão envolvente, tão profundo, tão intenso que nos fazemos um. Por sermos agora nós e nossa alma, e não mais só nós ou só nossa alma, resultamos em mais um ainda, que é o termo da fusão de nós e nossa alma: o nosso espírito. Os três, que agora somos um - nós, alma e espírito, celebramos nossa comunhão, com a dança da vida, a 72 pulsações por minuto.

Na verdade, estamos nascendo mais uma vez. Agora de uma maneira sutil, espiritual, imaterial, mas não menos intensa ou importante. Nesse novo nascimento nos encontramos com os elementos simbólicos fundamentais que dentro de nós darão formas às fisionomias que viremos a ter por toda a nossa vida. É aí que encontramos nossa índole; é aí que encontramos e sorvemos nossos sentimentos; é aí que vislumbramos nossos pensamentos e conhecemos-lhes a fonte; é aí que pela primeira vez acariciamos nossas sensações; é aí que somos apresentados e ligados à vontade e ao desejo; é aí que vemos já vívidas, as lembranças e para elas acenamos. Todos dentro de nós. Profundamente. Reunindo-nos e celebrando nosso nascimento, a nossa existência. É aí que sorvemos o sopro da vida. À Vida abraçamos num abraço total. Também assim por ela somos abraçados. Em nós a vida se realiza, e realiza sua eterna tarefa de viver. Generosa, nos mostra o que trazemos em nós traços de sua eterna viagem desde a primeira célula que no universo pulsou. Generosa, nos apresenta à memória o que um dia viremos a ser, para que nos miremos e que sejamos exatamente o que seremos um dia.

Nascemos aprendendo a nascer.

- Aprendendo a nascer é modo de dizer. Pois a nascer ninguém aprende. Simplesmente se nasce.

Ali no comadrio do nascimento social, real, material, e na intimidade do nascimento simbólico, onírico, espiritual, se aprende a aprender a nascer (mesmo que a isso ninguém aprenda). Ali, se aprende que dentro de nós estão as forças necessárias para conquistarmos o mundo depois que o mundo se acaba. Ali aprendemos que na profunda entrega a nós próprios e às nossas mais íntimas verdades, mais nós mesmos a nós mesmos fazemos, mais em nós mesmos nos tornamos. Aprender a nascer é isso: é aprender a tecer a fisionomia do vir a ser. É saber trazer para nós a vida, e levar à vida a nossa existência. É saber inspirar e trazer para nossa alma - e levar ao espírito coletivo - os ares das coisas novas que nós e a vida, juntos, devemos viver.

- Que nós e a vida devemos viver é maneira de dizer... Acho que vamos ter que falar disso depois, porque tô achando que o tempo tá mudando... e que tá chegando a minha hora de... nnnnaaaasssssccccceeeeeerrrrrrrr.......



* Luiz Felipe Jardim leciona História.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A TINTA

Florentina Esteves


A melhor datilógrafa de quantas já haviam passado pela Secretaria de Educação. Iniciativa própria, despachada, inteligente, disputada por outros secretários, eu a segurava com unhas e dentes, até apelava: Você que foi minha aluna fica é comigo, vale a nossa amizade ou não? E sua competência, é claro.

E assim íamos trabalhando. Dia entrando pela noite, material humano escasso, todos sobrecarregados, muito boa vontade mas pouco tempo, vi-me obrigada a redigir eu mesma as licitações para a construção de algumas escolas na zona rural, antes da chegada do inverno. Construções simples, bastava indicar a metragem, material a utilizar, acabamento, pintura, ela já sabia como compor o documento, aquela tranquilidade tê-la como datilógrafa. Era só assinar. Tudo perfeito.

Isto é, perfeito julgasse eu, ela se permitia opinar, algum detalhe não lhe parecesse de acordo com a região. Assim é que um fim-de-expediente, prazo apertado para a publicação das licitações, entra-me ela esbaforida, e peremptória: professora, não há tempo para ficar batendo e rebatendo esta licitação. Vamos logo corrigi-la, porque a senhora não sabe como anda o comércio de Rio Branco. Vamos botar só uma marca de tinta para pintar a escola, que essa tem bastante lá no Hechem Farhat. A outra, nem adianta mencionar, que não se encontra mesmo, tenho certeza.

- Mas que outra marca de tinta é essa, que nem lembro de ter citado?

- Está vendo? É isso que eu digo, nem a senhora lembra a marca.

- Veja aqui – e botou-me o rascunho na frente – vamos corrigir. Aqui. Onde está “A escola deve ser pintada com tinta Paredex ou similar”, deixe só Paredex, porque essa tem em qualquer loja. Mas “similar”, essa marca eu lhe garanto que ainda não chegou a Rio Branco. Nem adianta procurar.


> Florentina Esteves é da Academia Acreana de Letras. A crônica "A Tinta" está publicada em ESTEVES, Florentina. Enredos da memória. Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1990.