quarta-feira, 23 de outubro de 2013

CHE GUEVARA FEZ A BARBA NO ACRE

Elson Martins


Foi essa menininha que aparece no colo da mãe, na foto de 1933, que me contou a história. Ela está hoje com 78 anos: chama-­se Maria Ferreira Martins e é advogada aposentada. O pai, João Martins Xavier, veio do Ceará para o Acre em 1946. Ainda no Ceará, na região do Quixadá onde trabalhava como marceneiro, chegou a ser preso e torturado como comunista.

No Acre, João Xavier trocou de profissão e montou uma barbearia no bairro Seis de Agosto, no segundo distrito de Rio Branco. Era um estabelecimento humilde, com apenas uma porta e uma janela de frente. O dono não trocou de ideologia: foi um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro (PCB) do Acre, e quando irrompeu o Golpe Militar de 1964 teve que se esconder num seringal para não ser preso.
João Barbeiro e sua família, em 1933. Maria Ferreira Martins no colo da mãe e, no detalhe (abaixo), aos 78 anos.
João Barbeiro, como ficou conhecido, em meados dos anos sessenta (65 ou 66) recebeu, ao anoitecer, a visita de um integrante do PCB que lhe pediu para fazer a barba de um estranho. Achou esquisito quando ele, sem pedir autorização, fechou a porta e a janela do pequeno estabelecimento. E também por terem os dois – o amigo e o estranho ­ permanecido calados. Não era essa a rotina da barbearia.

Barba feita, o cliente agradeceu com um sorriso e gestos e desceu a escadinha de três degraus, de madeira, desaparecendo na escuridão da rua da frente. O amigo (que está vivo, mas não autorizou a citação de seu nome) então voltou e cochichou ao ouvido de João Barbeiro: Você acabou de fazer a barba do comandante Che Guevara.

Maria Martins comenta que o pai, com idade avançada na época, poderia ter morrido de emoção porque admirava o comandante Che Guevara e falava o tempo todo de sua luta como exemplo. Ao saber a identidade do cliente, tremeu e quase desmaiou.

João era um crítico impiedoso dos governos, dos ricos, dos reacionários e corruptos, até das pessoas comuns que não reagiam contra as injustiças sociais. Com os filhos, era intolerante e ríspido: "Se a gente mentisse, ele adivinhava!".

Mas ele nunca conseguiu politizar Maria Martins nem seus sete irmãos que permaneceram anticomunistas. Até porque sofreram discriminação por serem filhos do barbeiro de idéias muito combatidas na época.

O velho e honrado comunista faleceu em 1984 aos 85 anos, ironicamente, atropelado por uma bicicleta.

Coincidências históricas

Mais duas pessoas, o líder seringueiro Chico Mendes e o Frei Peregrino, irmão do folclórico Padre José que foi personagem da minissérie “Amazônia”, da TV Globo, rodada em 2007 ­ também teriam cruzado com Che Guevara na mesma época.

Numa entrevista que concedeu ao sociólogo Pedro Vicente, ex­-delegado do Sesc no Acre, professor da UFAC e autor do livro “Exercícios Circunstanciais” publicado em 1997 pela editora “Coivara”, de Natal (RN), Chico Mendes narra seu encontro ocasional:

"Eu nunca tinha visto seu retrato (do Che), porque não circulavam revistas ou jornais no seringal, mas tinha ouvido seu nome através da Rádio Central de Moscou. Não me recordo bem o ano, creio ter sido em meados de 65 ou 66. Eu estava caminhando pela BR-­317 e, cansado, parei no bar no entroncamento, a 12 quilômetros de Xapuri. Naquele instante chegou um cidadão vindo das bandas de Rio Branco. Demonstrava ser uma pessoa muito educada; encostou-­se no bar e puxou conversa comigo e com outros que estavam próximos. Falou que tinha interesse em conhecer a selva amazônica, principalmente, os seringais e a selva boliviana. Indagou se eu era seringueiro. Respondi que sim e há muitos anos. Perguntou se eu não gostaria de acompanhá-­lo até os seringais da Bolívia, pois não tinha costume de caminhar na selva. Precisava de uma pessoa que conhecesse os varadouros e o levasse na direção da fronteira. Dava para identificar que não era brasileiro, misturava um pouco de português com espanhol.

Ele conduzia uma mochila, falou que possuía jóias que aproveitava para vender e sobreviver durante o percurso. Não dispunha de muito dinheiro, mas perguntou quanto eu queria por dia para ir com ele até onde pudesse. Não aceitei o convite. Alguém me disse que era perigoso, podia ser um bandido. Não acreditei, mas não podia ir. Alguns meses depois, em Xapuri, passei diante da delegacia e um retrato me chamou atenção. Dizia que Che se encontrava em território boliviano para organizar o terror na região. Fiquei abalado. Lembrei-­me que havia visto e conversado com aquela pessoa no entroncamento. Nunca pude imaginar ­ pensei comigo mesmo ­ que aquela pessoa fosse um terrorista. Olhei várias vezes a fotografia. Não tive a curiosidade de pegar a propaganda, um cartaz e guardar comigo. Tempos depois, ao ler o livro sobre a guerrilha do Che na Bolívia reafirmei a convicção de que cruzei com ele. Posso afirmar com certeza, era o Che!”

O suposto encontro do Frei Peregrino com Che foi narrado por seu irmão, Padre José (o da minissérie), famoso por suas histórias fantasiosas. Num artigo que publicou no semanário O Jornal de Rio Branco, em 1980, José informa que Che fez indagações a Peregrino sobre como se deslocar para Santa Rosa, no alto rio Abunã. O frei indicou alguém que possuía uma canoa motorizada que levou o comandante da Revolução Cubana ao local onde o aguardava um avião.

O próprio padre José, algum tempo depois, toparia durante uma desobriga no rio Acre, com dois “coronéis do exército brasileiro” no seringal Itu. Os “coronéis”, falando mal o português, prometiam muitas coisas e anunciavam para breve uma revolução no Brasil. Desconfiado, o padre seguiu imediatamente para Xapuri, fez contato com os militares e descobriu que os dois “coronéis” no Itu eram, na verdade, Inti Peredo e Dario, companheiros de guerrilha de Che Guevara também mortos na Bolívia.

O disfarce – Na biografia de Che Guevara feita por Jon Lee Anderson, publicada em português pela editora Objetiva, em 1997 (um calhamaço de 920 páginas), é possível acompanhar os momentos finais da trágica aventura do Che: foi assassinado por militares bolivianos em 9 de outubro de 1967, aos 39 anos de idade, na pequena vila de La Higuera, em Santa Cruz de La Sierra.

No ano de 1966, em que Chico Mendes teria se encontrado com Che, segundo Anderson, o comandante revolucionário das Américas latinas estava iniciando suas operações de guerrilha na Bolívia com velhos companheiros de Sierra Maestra e alguns novos guerrilheiros treinados em Cuba, somando um grupo de 29 militantes. Guevara queria transformar a Bolívia num “Vietnam das Américas” e, a partir daí, fazer a grande revolução transcontinental.

Mas a base escolhida para inicio das operações fica no sul da Bolívia, no lado oposto à fronteira com o Acre. Entretanto, Che preferia desde o começo a região do Beni, do lado de cá, o que pode significar que ele já a conhecia e, neste caso, poderia ter entrado na região pelo Acre e cruzado com João Barbeiro, Chico Mendes e Frei Peregrino.

Contra essa possibilidade pesa o rigor da segurança que cercava Che Guevara por onde quer que ele fosse. Se bem que, na época, a estrada de Xapuri e Brasileia que leva a Cobija, no Departamento de Pando, não tinha as grandes fazendas que tem hoje; era ainda um caminho por dentro da selva. E dentro da selva, Che se transformava no ousado comandante de guerrilha que o notabilizou.

Outro ponto contraditório é que para iniciar a aventura final na Bolívia, Che passou por radical operação em seu visual para não ser reconhecido: arrancou fio a fio parte de sua cabeleira, tornando-­se meio careca, e colocou uma dentadura postiça para “engordar” o rosto. Além disso, cortou o restante do cabelo e passou a utilizar óculos na figura de um homem de negócios de origem uruguaia, com o passaporte de Adolfo Mena Gonzalez. Teria sido assim que ele desembarcou em La Paz.

Antes, ainda em Cuba, Fidel Castro organizou um encontro de despedida convidando todos os ministros e os velhos companheiros de Che na revolução. Apresentou a eles, como brincadeira, o “industrial uruguaio”, e ninguém reconheceu o velho amigo e comandante da revolução cubana. Com o mesmo disfarce Che despediu-­se da família sendo apresentado aos filhos como “Tio Ramon”; não podia revelar-­se por questão de segurança.

Uma das filhas, Aliusha, de quatro anos, abraçou Che (o pai), deu­-lhe um beijo e depois comentou com a mãe: “Mama, acho que esse velho está apaixonado por mim”. Che ouviu o comentário e deixou escorrer lágrimas.


N.E - Texto originalmente publicado na coluna Almanacre no Jornal Página 20 (Rio Branco-AC) em 2008.

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