segunda-feira, 7 de outubro de 2013

MUTIRÃO CONTRA A JAGUNÇADA

Elson Martins
Coluna Almanacre
A foto acima ocupa toda a parede de uma sala do pequeno museu montado pelo governo à entrada do Palácio Rio Branco. Ela é um expressivo registro histórico da organização e força dos trabalhadores acreanos que na década de setenta defenderam nossa floresta. Graças a eles o Acre conseguiu conter o desmatamento, as queimadas e a expulsão dos seringueiros de suas colocações. O autor da foto é José Maria Gomes de Araújo, membro do sindicato de Brasiléia que utilizou uma máquina Olimpus Pen, básica, no automático.

O jovem que aparece no centro segurando um feixe de espingardas e rifles não é nenhum heróico combatente festejando um empate. Muito pelo contrário: José Gonçalves Amorim, vulgo Zezinho, foi preso pela turma que aparece em volta dele, juntamente com outros peões e jagunços na ação que ficou conhecida por “mutirão contra a jagunçada”, organizada por oito sindicatos de trabalhadores rurais do Acre e de Boca do Acre, no Amazonas. O mutirão aconteceu ao amanhecer do dia 2 de setembro de 1979.

Naquele ano, como observou o jornalista Antônio Marmo da equipe do jornal Varadouro, “o Acre fedia a pólvora”. As derrubadas e queimadas destruíam as margens da BR-364 e de sua variante, 317 - que estende um braço para Boca do Abre e outro no rumo de Xapuri, Brasiléia e Assis Brasil.

No seringal Penápoles, a 38 quilômetros da cidade amazonense, 36 famílias de agricultores e posseiros sofriam pressão para abandonar a terra. O rico fazendeiro paulista Ueze Elias Zarhan, que havia comprado uma terça parte ideal do seringal, entrou com uma ação de reintegração de posse confiando na conivência de membros da justiça e da polícia do estado vizinho. O conflito se arrastava por alguns anos caminhando para um desfecho desfavorável aos agricultores.

As famílias resistiram com apoio do sindicato e da Igreja, mas Elias Zarhan endureceu o jogo contratando 20 peões para desmatar a área e meia dúzia de jagunços fortemente armados, para amedrontar e impedir a reação dos posseiros. Desde então,a justiça e a polícia de um lado, e as motosserras e os jagunços do outro infernizavam a vida das famílias.

Em meados de agosto foi promovida uma reunião na Igreja Nossa Senhora da Conceição, no segundo distrito de Rio Branco, com a participação da Contag, dos sindicatos de trabalhadores rurais, da CPT, da Igreja e do Centro de Defesa dos Direitos Humanos, ocasião em que os ameaçados pediram socorro com relatos dramáticos.

Os jagunços apareciam todo fim de tarde com metralhadora na mão e disparavam na direção dos posseiros. Com freqüência, matavam porco, galinha, carneiro... tudo que encontravam pela frente. As mulheres desmaiavam, os filhos gritavam e os homens permaneciam sem ação, indefesos.A indignação tomou conta dos presentes e desde aquele momento ficou decidido: que enfrentar os peões e os jagunços na estrada de Boca do Acre era uma questão de honra para o movimento dos trabalhadores. No dia 1o. de setembro, cerca de 300 sindicalistas de todo o Acre chegaram ao local do conflito. E no dia 2 fizeram a grande marcha contra os agressores.

Os jagunços escaparam com a ajuda de dois aviões que estavam pousados na estrada, próximo do acampamento deles para lhes dar cobertura. Mas os trabalhadores pegaram suas armas e prenderam 20 peões que desmatavam a floresta, bem como o empreiteiro Manoel Adriano e o apontador Zezinho. Os detidos passaram por uma espécie de tribunal armado na beira da estrada, onde foram interrogados e soltos após declarar que iam abandonar a área. O empreiteiro Adriano e o apontador Zezinho, porém, foram entregue à Polícia Federal em Rio Branco.
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