sexta-feira, 31 de maio de 2013

HISTÓRIA DA MORTE EM TEERÃ

Viktor E. Frankl


Isto me lembra de uma velha história da morte em Teerã. Estava um persa rico e poderoso passeando certa vez pelo parque de sua casa, em companhia de seu criado. Este se põe a lamentar que acabou de ver a morte ameançando-o levá-lo. O criado implora a seu amo que lhe dê o cavalo mais rápido para se pôr imediatamente a caminho e fugir rumo a Teerã, onde ele queria chegar naquela mesma noite. O amo lhe dá o cavalo, e o criado parte a galope. Caminhando de volta para casa, o próprio amo se depara com a morte e passa a interrogá-la: “Por que assustaste meu criado desta forma, por que o ameaçaste?” respondeu-lhe a morte: “Ora, não o ameacei! Nem quis assustá-lo. Apenas me admirei, surpresa com o fato de vê-lo aqui, pois devo encontrá-lo em Teerã ainda hoje à noite!”.
FRANKL Viktor E. Em busca de sentido. Petrópolis: Sinodal/Vozes, 2001. p. 58-59

quarta-feira, 29 de maio de 2013

AUTOPSICOGRAFIA

Fernando Pessoa
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.



PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 164-165.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

AI! SE SÊSSE!...

Zé da Luz (1904-1965)


Certa vez, no início do século passado, numa cidadezinha do sertão pernambucano, disseram que para falar de amor era necessário falar um português correto. Aí Zé da Luz escreveu uma poesia que diz assim:
Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

domingo, 26 de maio de 2013

TARAUACÁ 100 ANOS

Por ocasião do centenário de Tarauacá (1913-2013), meu primo, o cinegrafista Josenir Melo, realizou a seguinte filmagem com belíssimas imagens aéreas da “terra do abacaxi grande”.

sábado, 25 de maio de 2013

Série HISTÓRIA QUE O ACRE ESCREVEU

SAGA DA FAMÍLIA ALENCAR ARARIPE
Doces Lembranças
 
 
Regina Amélia D’Alencar Lino
Quando criança, ouvia  algumas vezes, no seio de minha família, a história que meu avô Ovídio - a quem eu chamava carinhosamente de Vovoinho -, aos nove anos de idade, após  levar uma surra de seu pai, fugira  de casa. Depois de algum tempo, minha tia Rita  confirmou que a fuga ocorreu na verdade, quando ele estava com aproximadamente 12 anos.

Durante minha infância e adolescência, constantemente, pensava em meu avô como alguém corajoso e decidido. Depois que cresci, inúmeras vezes, perguntei-me por quais motivos uma criança criada em um ambiente intelectualmente promissor, com família tradicionalmente constituída e com segurança econômica, abandonaria a casa de seus pais para lançar-se ao mundo e viver como gente grande, em tão difícil aventura.  Talvez a resposta estivesse  na força de sua personalidade, no tempero de seu DNA refletido em grande parte da família, mais acentuado nas mulheres, o que não chega a ofuscar  o temperamento dos homens.

Consta, nas histórias contadas, que em um navio que fazia a rota entre Fortaleza e o estado do Amazonas , meu vovoinho embarcara como  empregado, desempenhando  todo tipo de serviço, desde a limpeza do porão, convés, banheiros e tudo mais que fosse necessário, que estivesse ao seu alcance.

Quem o protegia naquele lugar? Era a pergunta que me intrigava e, às vezes, por ser ainda tão menina, sentia vontade de chorar ao pensar que o avô que eu tanto amava e que tanto nos protegia, pelo destino, pelas circunstâncias, interrompera precocemente sua infância - a fase melhor da vida de uma criança - para trabalhar.

A sua descendência é originária  dos primeiros Alencar vindos  de Portugal  para a Bahia por volta de 1650-1680, entre eles  Leonel, Alexandre e João Francisco.

Leonel Alencar Rego, patriarca da família Alencar era o bisavô de Barbara de Alencar, heroína republicana,  primeira mulher presa política do Brasil, por participar da Revolução Pernambucana (1817) e da Confederação do Equador (1824).

Bárbara de Alencar nasceu no sertão de Pernambuco, em 11 de fevereiro de 1760, em sua adolescência mudou-se com a família para a vila do Crato, no Ceará.  Ali, casou-se, em 1782,  com o capitão português José Gonçalves dos Santos, comerciante de tecidos, e naquela região do Cariri viveu a maior parte de sua vida.

Bárbara teve três filhos homens e uma filha: Tristão Gonçalves Pereira de Alencar, Carlos José dos Santos, que tornou-se padre, José Martiniano de Alencar e Joaquina Maria.

José Martiniano era o pai do escritor José de Alencar   e Tristão, um de seus irmãos, era  bisavô de meu avô materno, Ovídio de Alencar Araripe.

Informações colhidas do livro “Barbara e a Saga da Heroína” esclarecem que o vocábulo  Araripe  fora  acrescentado ao sobrenome Alencar, por iniciativa de Tristão Gonçalves de Alencar, segundo filho de Bárbara, de quem herdou o espírito político e o temperamento nacionalista revolucionário. Consta, ainda, que Tristão, assim procedera,  por conta da forte admiração que mantinha pela Chapada do Araripe, considerada penhor de fertilidade do Cariri.

Em assim sendo, ressalta-se que todo Alencar, descendente do ramo de Tristão,  é Araripe, donde se concluí que todo Araripe é Alencar, embora nem todo Alencar seja Araripe.

Em 1824, Tristão de Alencar Araripe tornou-se Presidente da Província do Ceará e, por ter participado das lutas pela Confederação do Equador, foi sacrificado, juntamente com um irmão, o padre Carlos José dos Santos Pereira de Alencar por ser solidário ao movimento, assim como outros familiares. A mãe de ambos, Bárbara, escapou do martírio, ao conseguir fugir para Exu, em Pernambuco  e, daí, protegida por seu irmão capitão Luis Pereira de Alencar, retirou-se para Alecrim, no Piauí, onde faleceu aos 72 anos, na Fazenda Touro.

Portanto, Bárbara de Alencar, a heroína, e  José de Alencar, o escritor, são, para nosso orgulho,  parentes próximos de meu avô Ovídio e não tão longe está o parentesco com minha mãe Ovília de Alencar Lino - Nini, casada com José Ruy da Silveira Lino,e consequentemente de mim e de meus irmãos - Beth, Ovídio e Ruy.

 Oriundos da miscigenação de  portugueses,  cearenses e pernambucanos, além do vinculo  indígena/caboclo amazônico, acrescido  pela influência racial  africana  advinda do Maranhão  para o seio  de  minha avó materna, foi no  princípio  da  década de 1940, que meus avôs chegaram  ao Acre. 

Ao tornar-se adulto, meu avô continuava a trabalhar pelos rios amazônicos - Amazonas, Madeira, Negro, Solimões e Purus -, e, num dia de elevado calor, quando o navio ancorou às margens do rio Madeira, no município amazonense  de Borba,  ele   conhecera, em uma pensão simples,  auxiliando  a madrinha a servir  refeições,  aquela que viria a ser a minha vovóinha  Amélia Lins, mais tarde Araripe.


Juntos, ainda no estado do Amazonas, deram início a sua prole, formada pelos  filhos Tarsila – (chamada de Pequenina), Edson (Edinho), Amédio, Ovília (Nini, minha mãe), Domitila (Donita), Alencarina (Lenca), Maria Rita, ficando para nascer em Rio Branco, Maria Amélia (Bebelia), além das filhas falecidas quando crianças Edna (ao vir à luz) e Amelinha  (aos oito meses de idade).

A razão da mudança da família para o Acre prendeu-se ao fato das  notícias que circulavam  a respeito da prosperidade econômica, que o então território federal oferecia. Dessa forma, em viagem em um navio gaiola regional, que durara  aproximadamente quarenta e cinco dias, com muitas crianças e outros parentes, minha avó Amélia desembarcou  em Rio Branco, para junto com meu avô, levar a efeito   uma nova vida que se apresentava, em todos os sentidos, desta vez distantes de suas raízes.

A viagem, ao que se sabe, transcorreu com algumas particularidades, como não podia deixar de ser, entre alegrias, preocupações, que requeriam cuidados a todo instante para que as crianças não caíssem n’água, ou  não sofressem quaisquer outros tipos de acidentes, além dos cuidados com as enfermidades a que eram acometidas, decorrentes das intempéries e ataques de insetos.

Meu avô, ao chegar ao ACRE, começou a trabalhar como comerciante de gêneros alimentícios e estivas em geral. Lembro-me, que em sua loja, a Casa Araripe, vendia-se quase de tudo: açúcar, biscoito, cordas, arroz, feijão, sabão em barra, latas de banha de porco, de manteiga Real, outros enlatados como Viandada, sardinha Coqueiro, azeite, além das pélas de borracha, que eram estocadas no espaçoso quintal da casa, as quais  exalavam  um odor forte e característico, compensado porém, pelo aroma de um pé de jasmim e por um frondoso e carregado pé de serigüela, cujo sabor dos frutos trago, para sempre, guardados na goela.


Pelo comércio e pela residência  dos meus avós passavam os mais diletos amigos: o Parente Amigo, avô do Terri e Romerito Aquino, o Rolinha, seu Waldomiro Moura, o Antão, o Quininho, que morava no quartel da Polícia Militar, mas as refeições eram ofertadas por minha avó, Chico Padeiro, seu Anastácio, seu Firmo, proprietário  do navio João Gonçalves, que fazia a rota Belém, Manaus e Rio Branco, e só dava o ar da graça  quando o rio Acre enchia. O apito de sua chegada, anunciava alegria, novidade, grande movimentação e um fervilhar de negócios .

Além da atividade comercial, meus avós adquiriram por compra uma grande extensão de terra e ali edificaram a Fazenda Araripe, modelo de propriedade, em que se dedicavam à criação de animais, cultivo de muitas frutas, legumes e verduras para consumo próprio, destacando-se à venda do leite das vacas.

Da Fazenda Araripe trago as melhores recordações. As crianças eram o centro das atenções. A organização e o cuidado com a fazenda eram exemplares. O zelo de minha avó Amélia com tudo que se relacionava a propriedade era, já naquela época, de causar admiração.

Além, das comidas saborosíssimas, como o carneiro preparado para o almoço aos domingos, a banana comprida frita na merenda, a tapioca e o pão de milho no café da manhã, além do copo de leite mungido, que éramos "obrigados" a beber  em companhia de meu avô, por volta das  seis horas da manhã nas férias e fins de semana; a galinha caipira no almoço; os banhos de açude; a convivência com os filhos e parentes  dos trabalhadores da fazenda; as noites em que brincávamos de manja sob o mais prateado luar; as fogueiras juninas que pulávamos para nos tornarmos comadres; o espanto com a cobra Sucuri, que moeu e engoliu um bezerro e deixou, à amostra, os chifres do novilho;  a casa da Liquinha, a farofa de ovo da casa da comadre Maria e do compadre Abdias, feita pela Sabá; a pescaria no açude do seu Canuto; a alegria da casa da Missinoca e do Zé Pereira; a amizade da Jusa, a caduquice com Franscisquinho, a presteza de seu Jaime; o Raimundo, o Dan, que subia no pau de sebo; as lendas da Mula sem Cabeça, do Curupira, do Saci Pererê; as longas cavalgadas em família. Tudo que posso chamar de felicidade e  de  fazer inveja aos personagens de Monteiro Lobato.

Os melhores dias eram todos, além daqueles em que nos reuníamos com os primos Lena e Manoel, os amigos, tias Lenca, Rita, Bebelia, Maria José e agregados, para conversar, cozinhar, brincar de barra, esconderijo, adivinhação e pique-pega subindo nas mangueiras.

Minha tia Rita cortava um cipó longo e forte e nos empurrava de um lado para outro do igarapé São Francisco. Era uma farra, quando  éramos Jane e Tarzan; tia Bebelia tocava violão, ensinava-me a fazer biscoitos para ofertarmos ao Papai Noel nas noites de Natal. Quando eu acordava no dia 25 de dezembro contava a todos os detalhes do meu “encontro” com o bom velhinho. Tia Lenca  e  Dr. Adib, médico ginecologista e obstetra, que à época estavam noivos, prometiam levar-me junto para a lua de mel e eu sonhava em lamber as paredes da lua.

No Acre  nossa família cresceu, agregada a tantas outras, que também podem nesse espaço contar suas trajetórias, pois a verdadeira e singular história do Acre foi construída pelo entrelaçamento dessa bela e corajosa  epopéia.

Certo dia, quando morava em São Luis (MA), inspirada no tanka - modelo poético japonês – manifestei meu amor à minha terra:
                                

            Doce Acre,
                As estrelas do teu céu brilhante,
                        E as alegrias que me deste
                              Guardo-as em meu peito
                                   Acalmando saudades.

 

 

* Regina Amélia D’Alencar Lino é socióloga e escritora acreana, natural de Rio Branco. Foi também vereadora e deputada federal, e vice-prefeita de Rio Branco – AC.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

AQUILO QUE AMAS

Ezra Pound





Aquilo que amas muito sempre fica,
                                                           O resto é ralé
Aquilo que amas muito não será tirado de ti
Aquilo que amas muito é tua vera herança



POUND, Ezra. Os cantos. trad. José Lino Grunewald. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p.545

quinta-feira, 23 de maio de 2013

UM INTELECTUAL QUE USA TOGA

Antonio Stélio
 
 
Ele já exibe os sinais do tempo com os cabelos brancos se revelando nada sorrateiros, mas mantém o viço e a têmpora de um intelectual forjado nas barrancas do Juruá. Seu nome é Arquilau de Castro Melo, um acreano de boa cepa, que teima, com sua resistência intelectual, em combater na trincheira do resgate e manutenção de nossa história e nossa cultura.
 
Desde décadas atrás, por seu histórico, este ser humano notável, porque despreendido, dedica-se às causas mais importantes e fundamentais para escrever a história de um povo – e de uma terra – que, para ele, representam uma sublime inspiração. Arquilau, com sua simplicidade, nunca deixou a toga lhe subir à cabeça e nunca procurou viver na redoma onde muitos outros tentam se proteger. Pelo contrário, desde cedo sempre mostrou a sua cara.
 
Jovem e inteligente, este acreano-juruaense que frequentou o tradicional Colégio Acreano, dos bons tempos, meteu-se a defender, como advogado, seringueiros e ribeirinhos expulsos pela falência dos seringais e pela ocupação dos latifundiários por aqui aportados, ávidos por terras que adquiriam a preço de banana. E isso tudo em uma época perigosa, em um tempo em que defender os desvalidos significava ser carimbado como inimigo do Estado.
 
Como juiz ou desembargador ou dirigente máximo de Tribunais, Arquilau de Castro Melo nuca se travestiu da empáfia própria do pseudo intelectual, mas sempre manteve o rigor ético de um acreano à moda antiga, ou seja, aquele que sabe da mortalidade e tem a sapiência dos rios e das matas.
 
Não por outra coisa, ele sempre procurou fazer das oportunidades da vida um escoadouro das enxurradas históricas que marcam o Acre e sua gente. E por isso mesmo, quando presidente do Tribunal de Justiça fez editar uma coleção de livros que versavam sobre a nossa cultura amazônida, e que deveria estar nas bibliotecas de nossas escolas.
 
E, não contente, resolveu o próprio Arquilau a botar a mão na massa e produzir textos que garimpam a nossa história e corrigem distorções de olhares enviesados de certos historiadores vítimas de amnésias em relação a fatos gloriosos. Exemplo disso é a guerra entre seringueiros do Acre e caucheiros peruanos, logo após a guerra contra os bolivianos, tão decantada por ufanistas apressadas em registros simplistas.
 
Arquilau foi o primeiro acreano, em artigo belíssimo, a relatar a guerra comandada pelo coronel José Ferreira de Araújo, às margens, numa primeira etapa, do Chandless,e, noutra, em pleno Purus. E o fez com a mesma têmpora dos que, alheios aos atrasos do exército nacional, impuseram as armas e venceram as batalhas que garantiram a fixação dos limites do Acre com o Peru.
 
Recentemente, Arquilau de Castro Melo também corrigiu um lapso da bibliografia histórica do Acre, ao editar um livro que registra a passagem do grande escritor Euclides da Cunha pelo Acre, já famoso por ter escrito o seu Os Sertões. Esse buraco negro em nossa história, graças a Arquilau, não existe mais.
 
A obra - Segundo as resenhas mais conhecidas da obra, “o olhar que o escritor Euclides da Cunha dispensou ao Nordeste em sua obra mais marcante - Os Sertões - ele também dedicou à Amazônia. A expedição do autor à região que hoje é o Acre é uma parte ainda pouco explorada de sua biografia e se transformou em tema do livro Euclides da Cunha - Expedição ao Acre, lançado pelo desembargador Arquilau de Castro Melo.
 
Arquilau Melo reconstrói a expedição liderada pelo escritor, em 1904. São cinco capítulos nos quais ele aborda aspectos históricos e traça um perfil de Euclides da Cunha. Um dos episódios importantes é a Guerra do Purus, o embate entre brasileiros e peruanos na região.
 
Estão reunidos, ainda, extratos do diário de viagem produzido por Euclides da Cunha, assim como do relatório oficial da Comissão Mista Brasileira-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus.
 
Ao ler o livro, no entanto, não pude me furtar de traçar um olhar pessoal, e me sentir com a alma lavada com o registro fundamental que nestes solos pisaram pés nobres de homens com envergaduras capazes de escrever o nome de nossa terra no Arquivo Nacional. E Arquilau foi quem cuidou de nos dar a ponta de orgulho. O livro deveria ser obrigatório nas escolas e academias locais.
 
Mas, para quem, como repórter nos tempos da ditadura, teve o tino de investigador, “furão” e atrevido, como Arquilau, tem sempre uma surpresa a mais. E foi justamente ele que, num golpe certeiro, descobriu outra pérola da história do Acre, ao detectar que um jovem delegado assassinado com tiros à queima-roupa, num barraco de seringal, simplesmente, era o filho primogênito do próprio Euclides da Cunha, que em 1916 morrera em diligência a um seringal. O rapaz se chamava Sólon Cunha, e seus restos mortais foram engolidos pela floresta implacável.
 
Enumerar o trabalho intelectual deste agente cultural em que se constituiu Arquilau de Castro Melo, apenas faria crescer este texto, e isto, pelas evidências, torna-se desnecessário. Nos basta apenas saber que nem tudo em nossa cultura será devorado pela traça do esquecimento, pois existem pessoas que, como ele, não se deixam enganar pelos encantos dos cantos escuros.
 
 
QUEM É ARQUILAU
 
 
Natural de Cruzeiro do Sul (AC), Arquilau de Castro Melo nasceu em 26 de dezembro de 1952. É casado e tem dois filhos. Mudou-se para Rio Branco no início da década de 1970, onde concluiu o 2º Grau no tradicional Colégio Acreano, dos bons tempos. Ingressou no curso de Direito da Universidade Federal do Acre em 1976. No ano seguinte, entrou para a redação do jornal alternativo “O Varadouro”, editado pelos jornalistas Élson Martins e Silvio Martinello. Com o fim do jornal “O Varadouro”, em 1981, migrou para o jornal “A Gazeta do Acre”, onde trabalhou como repórter.
 
Após concluir o curso de Direito, em 1980, passou a advogar na Confederação Nacional dos Trabalhadores em Agricultura (CONTAG) e para o Centro de Defesa dos Direitos Humanos do Acre, ligado à Diocese do Acre-Purus. Nessa condição, deu assistência jurídica aos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais do Acre e às Associações de Moradores de Rio Branco. Participou de movimentos populares ligados à defesa dos excluídos e foi o principal advogado de centenas de famílias seringueiras que, expulsas da floresta, encontravam na invasão de terrenos nas periferias da cidade a única alternativa para conseguir um teto.
 
Arquilau Ingressou na magistratura acreana em 1986, após ter sido aprovado em concurso público de provas e títulos. Em 1994 foi promovido, por merecimento, ao cargo de desembargador. Foi Corregedor Geral da Justiça no ano de 1998, e Presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Acre em 2000. Assumiu a Presidência do Tribunal de Justiça do Acre durante o biênio 2001/2003.
 
Há mais de dez ele anos integra o Conselho de Notáveis do Estado do Acre. Mas, Arquilau é notável por si mesmo, independente de qualquer conselho. Ele já assumiu, interinamente, o Governo do Estado do Acre em abril do ano de 2002 e foi homenageado com a insígnia no Grau de Grã-Cruz, da Ordem da Estrela do Acre.
 
Como magistrado valoroso, foi Juiz de Direito em Tarauacá, Sena Madureira e Rio Branco. Também já presidiu o Tribunal Regional Eleitoral. Desde 1997 é o Coordenador do Projeto Cidadão, desenvolvido pelo TJAC em parceria com diversos órgãos e instituições.
 
 
 
Nota: O artigo foi originalmente publicado no Jornal A Tribuna, em 23-05-2012. Sobre Arquilau de Castro Melo vale recordar ainda que era o único advogado acreano à época que Chico Mendes confiava. Melo se aposentou em janeiro deste ano como desembargador do Tribunal de Justiça do Acre.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

ALSO SPRACH ZARATHUSTRA

Assim falou Zaratustra (1896), do compositor alemão Richard Strauss, inspirado na obra homônima do filósofo Friedrich Nietzsche. A introdução do poema sinfônico serviu como trilha sonora de Uma Odisseia no Espaço (2001).
 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

HISTÓRIA QUE O ACRE ESCREVEU

José Augusto de Castro e Costa


Na década de 50 o Brasil transpirava uma euforia advinda do Pós Guerra e do Estado Novo, revelada na sensível empolgação nacional, vista em vários setores, como na moda, nos costumes, na música, na política, nos esportes, etc.

No Acre, o então governador major Guiomard daria ênfase à sua administração, levando a efeito a modernidade do novel Território, promovendo novos ares ao visual, sobretudo, da capital Rio Branco.

Entre as novidades, destacava-se a Fonte Luminosa, uma obra exuberante, formada por duas lajes cônicas sobrepostas, em uma coluna central arredondada, a qual, na função de chafariz, produzia uma variedade de jatos d’água luminosos, que, simetricamente multicoloridos, diversificavam, como numa coreografia, movimentos espirais e verticais, harmonicamente crescentes e decrescentes.

Edificada no centro da praça e diante o Palácio do Governo, a Fonte Luminosa constituía-se no “point” graciosamente original, orgulho e vaidade dos acreanos que, às noites de domingo, passeavam faceiramente ao seu redor, sob os acordes da Banda de Música, até às 21 horas, quando do encerramento da habitual retreta.

Enquanto alguns circundavam incansavelmente a praça, outros quedavam-se a apreciar os dotes musicais, detendo-se nas performances dos sargentos Adonias, no solo de clarinete do sargento Horácio, no contracanto do trombone do sargento Juvenal, no bombardino do simpático Alcides Miquelino e, sem exagero, em toda a banda de música.

Os herdeiros musicais do capitão Pedroca tinham, na verdade, enormes habilidades na execução de seus instrumentos. Em qualquer solenidade oficial ou evento civil, lá estavam Deca, Zé Paulo, Edmundo, Cleomendes, etc., recepcionando a chegada de alguma autoridade, ou ensaiando com um grupo de algum bloco carnavalesco, ou embalando os pares em bailes, ou participando de alguma alvorada abrindo o aniversário de alguém, ou divertindo o intervalo de uma partida de futebol, ou ainda acompanhando um cortejo fúnebre.

Os acreanos da década de 50 envaideciam-se, sim, da Fonte Luminosa e da Banda de Música da Guarda Territorial. Os músicos, por sua parte, retribuíam a admiração que lhes dedicavam, com natural acessibilidade, imensurável simpatia e agradável bom humor.

Por constituir-se em Força Pública do Acre, a Guarda Territorial era supervisionada pelas Forças Armadas e, em assim sendo, era submetida a regulares inspeções dos órgãos militares da Federação.

Ao final de uma dessas missões, o governo do Território, como de costume, promovera no salão nobre do Palácio Rio Branco, uma recepção aos oficiais visitantes, com a participação de alguns elementos da Banda de Música. Entre os músicos estava escalado para o ato, o primeiro clarinetista, sargento Adonias, já habituado a atuar como solista em tais ocasiões.

Ao aproximar-se o horário da partida para o Palácio, fora sentida a ausência do sargento Adonias. O comandante do destacamento ordenou a convocação imediata do ausente. Como Rio Branco ainda era uma cidade muito pequena, logo soube-se da impossibilidade do comparecimento do sargento, em vista de seu elevado estado etílico, pousado como estava lá para as bandas do bar do João Bodinho.

Diante a situação vexatória o maestro recorrera ao plano B, sargento Horácio, outro exímio clarinetista, o qual, na ocasião, encontrava-se no absoluto repouso de seu lar. Quando dona Albertina deu-lhe a notícia da urgente convocação, o músico, de pronto, apanhou seu clarinete, algumas palhetas e dirigiu-se para o salão nobre do Palácio do Governo, parando antes no bar do Coriolando, no meio do trajeto, para temperar o espírito com umas três talagadas da velha Cocal.

Ao chegar no local da solenidade, sargento Horácio, num misto de empolgação com ansiedade, tomou de um só vez todo o conteúdo de um copo grande que o garçom lhe trouxera, provocando-lhe incansável e intermitente disposição, despertando-lhe, em consequência, uma profunda, inesgotável e encantadora inspiração, que, por ser, no momento, o solista principal, passou a arrebatar incessantes aplausos, até dos companheiros.

Sabe-se, enfim que, nessa tarde-noite, o sargento Horácio, abastecido por copos e taças transbordantes de estímulos, executou o solo de um belo e transcendental repertório, indo de Ernesto Nazareth a Jacob do Bandolim, de Orestes Barbosa a Pixinguinha, e ainda da Canção do Soldado Acreano (do capitão Pedroca) ao Carnaval do Acre (de Zeca Torres).

O efeito foi tão arrebatador e encantador que, ao final da recepção, saíram os músicos do Palácio ovacionados e executando afinados acordes, foram todos banhar-se nas águas da Fonte Luminosa, já com os instrumentos completamente roucos, encharcados que estavam pelo efeito da folia.

Embebidos e embalados, todos escaparam, sãos e salvos, músicos e instrumentos!


Leia aqui outros textos de José Augusto de Castro e Costa.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

BERSERKERS, OS LOBOS DE WOTAN

Luiz Felipe Jardim 


A madrugada já ia alta. Logo o dia nasceria. Clarões da luz do fogo de grandes fogueiras bruxuleavam nas finas folhas da mata densa. Os poucos guerreiros da vila estavam ativos e atentos. Logo estariam em combate com gente que desconheciam, mas que sabiam, de ouvir falar, serem errantes e gigantes, impiedosos, seres descomunais e sanguinários que haviam recentemente surgido por sobre as águas dos mares e dos rios de onde vivia a gente daquela vila e seus parentes com seus amigos e inimigos, já havia longos anos e mesmo séculos.

A gente que estava oculta na floresta era a invasora, vinha do norte gelado para saquear, pilhar, destruir, fazer escravos. Aterrorizar. Já havia destruído algumas vilas e aldeias próximas e aprisionado muitos vizinhos. Por isso, os da vila já haviam ouvido relatos apavorantes e sabiam o bastante para estarem armados com todo o arsenal bélico com que podiam contar. Quem sabe?... Com a ajuda generosa do sempre bom Deus e de alguns Santos...

Mas, quando a deusa Sól em sua carruagem principiou a cruzar os céus cintilando a luz do dia, eles puderam ver... E, com o que viram, ficaram aterrorizados. Gigantes de mais de dois metros de altura, muitos arruivascados, todos seminus, quase todos pintados de preto ou cores escuras. Brandindo enormes espadas, lanças afiadas e pavorosos machados de ferro, bradavam gritos de guerra, vociferavam urros lancinantes que soavam à destruição e evocavam morte.

À frente de todos, no semicírculo que formavam na ampla clareira, estavam os mais assustadores. Eram os mais altos e fortes e os que mais alto e forte gritavam; eram os que mordiam seus escudos com ferocidade e lampejavam olhares de fogo; eram os que espumavam pelos cantos das bocas ao ranger os dentes. Eram, entre todos, os que mais pareciam... endemoniados.  Além disso, tinham cabeça e dorso cobertos por peles de lobo, uivavam e ladravam como se lobos fossem e lutavam com a selvageria e a ferocidade dos lobos... Eram os homens-lobo que quase lobos estavam a ser.

Eram os Vikings e seus ferozes guerreiros, entre eles os guerreiros de Odin, os Berserkers, que, em meados dos anos 800, já invadiam a Europa continental.

Odin para os vikings, Wotan para os germanos, Woden para os anglo-saxões, em qualquer idioma seu nome tem o mesmo significado: fúria. Fúria incontrolável. Era assim, como que com fúria incontrolável, que se movimentavam os vikings naqueles anos que ficaram conhecidos como os da Era Viking.

Odin era um deus de contradições. Impetuoso, irascível; mas, sábio, ponderado. Havia trocado um dos seus poderosos olhos por generosos goles d’água da fonte da sabedoria. Por isso era o soberano da guerra e da morte, mas era, também, o deus, da magia, da sabedoria, da poesia. Sempre tinha perto de si algum de seus animais: os dois corvos, que lhe contavam tudo o que ouviam e viam; o seu cavalo de oito patas, que o transportava voando pelos céus; ou seus dois lobos, Geri e Freki (Glutão e Voraz), que o acompanhavam nas caçadas e lutas. Um deus com tanto poder, e que reinava sobre todos em Asgard, devia ter, na Terra, representantes dignos de sua ira, de sua valentia e força. E os tinha. Eram os berserkers. Um corpo de guerreiros especiais consagrados a Odin.

Assim como os vikings não eram um só povo, mas vários povos aparentados e desaparentados entre si, que se uniam e se desuniam, se amigavam e se inimizavam, mas que se movimentavam juntos, animados por interesses comuns, os berserkers também não eram uniformes, mas uma elite de soldados especiais e ferozes que, desde a infância, rigidamente treinados – inclusive em rituais mágicos e secretos, assumiam as qualidades ferozes e especiais de dois especialmente ferozes animais: ursos e lobos. Havia, portanto, duas categorias de berserkers: os guerreiros-urso, e os guerreiros-lobo. Essa casta de guerreiros magos ganhou muita importância na época das primeiras invasões vikings à Europa e agia como uma espécie de tropa de choque durante os combates. Em cada unidade de combate viking havia, pelo menos 12 berserkers.

Na verdade, os povos europeus da chamada Era Viking nunca conheceram os escandinavos como vikings, estes eram conhecidos como homens do norte e eram assim nomeados em diversos idiomas, como normandos (normandi) pelos francos. Os franceses também os chamavam de piratas e o clero quase sempre de pagãos. O substantivo viking, nas línguas nórdicas, se aplicava a expedição, e quem dela participava era um vikingr.

Vinham da Península Escandinava, das atuais: Noruega, Suécia e Dinamarca, lugares diferentes e distantes, mas próximos entre si pela língua, pela religião, cruzamentos étnicos e costumes de seus povos. Em suas comunidades de origem, eram muito mais livres que seus contemporâneos europeus que viviam imersos em proibições e restrições de toda sorte. A importância que davam à igualdade e à liberdade chamou a atenção de todos os povos dos lugares por onde passavam.

Versáteis, forjados, física e espiritualmente, nas rígidas condições naturais das ante-salas do círculo polar, os vikings eram assombrosamente empreendedores. Agricultores, guerreiros, marinheiros, mercadores, passavam de uma a outra dessas atividades com naturalidade e a exerciam com maestria.

Mas antes de tudo eram marinheiros. Suas experiências e criatividade os levaram já no séc. VIII, a projetar e construir o langskip, conhecido como DRAKAR, dragão, cada um consumia cerca de oitenta árvores, carvalhos de preferência, e pouco mais de um mês para sua feitura. Com as variações e adequações necessárias, o drakar conduziria os vikings por sobre as ondas das águas do mundo por mais de trezentos anos. Para isso, aperfeiçoaram a capacidade de “interpretar as formas e a direção das ondas; a direção das aves migratórias; temperatura e umidade dos ventos; as distintas e sutis tonalidades das águas”. Quando em alto mar, cantavam canções que falavam sobre os seus deuses, principalmente Thor e Odin. Contavam histórias dos antepassados, falavam das genealogias. Instruíam os mais novos, como os de 13 anos que, já adultos, podiam participar das incursões guerreiras. Outros, diziam, sabiam cantar canções ensinadas por Odin que, quando entoadas com a força correspondente, abriam terra, pedras e montanhas. O drakar era uma casa sobre as águas, um companheiro fiel que acolhia após duras jornadas.
Nos meados dos anos 800 as temperaturas médias globais, que haviam caído muito durante os estertores do Império Romano, e que foram causa dos deslocamentos de alguns povos ‘bárbaros’ – voltavam a subir significativamente. As florestas setentrionais europeias, que haviam crescido nos espaços abandonados a uma média de 300 metros ao ano, estavam agora repletas de árvores, animais, boa água, enfim, continham o combustível necessário, para a diversificação das atividades econômicas, para o crescimento demográfico, para as inovações técnicas que as populações europeias iriam desenvolver então.

Se, somente durante os últimos 100 anos produzimos mais alimentos do que toda a humanidade em 10.000 anos, por volta dos anos 1000 não era tão fácil produzir alimentos. A invenção do arado de ferro, a rotação trienal de culturas, a utilização do cavalo na agricultura (com o confortável bônus do recém-inventado estribo) trouxeram mais fartura à mesa europeia. Como consequência, a população aumentou significativamente em todo o continente muito embora a esperança de vida tenha permanecido na faixa de 35, 30 anos, com uma taxa de mortalidade entre 30/40 por mil habitantes adultos e entre 100/400 por mil crianças.
 
 
“Um baño al año no hace daño – Pero es mucho mas saña una ducha por semana”. Esse ditado parece um dialogo entre uma ‘viking’ e uma ‘francesa’. A grande maioria dos europeus realmente não tomava lá muitos banhos. Geralmente o seu primeiro banho do ano acontecia em maio, quando as temperaturas aumentavam com a primavera. A maioria dos casamentos era realizado no mês de junho, quando o tempo estava um pouco mais quentinho. Ainda assim, procurava-se perfumar as igrejas com incensos e com flores (inclusive a própria noiva) para melhorar o... astral dos noivos.

Os nórdicos tinham costumes diferentes. De um modo geral tomavam um banho por semana, geralmente no sábado, mas a primeira regra de cortesia para com um convidado era oferecer-lhe um banho. Depois o levava para um lugar de honra e ouvia atentamente suas histórias e...

...

O povo daquela vila não tinha a menor capacidade para resistir ao assédio viking e foi totalmente massacrado. Os guerreiros nórdicos abateram-se sobre ele como raios de Thor e fulminaram-lhe a existência. Os escandinavos estavam somente de passagem, iriam saquear Paris. Daquela vila queriam pouca coisa: algumas vacas, ovelhas, e mais algum ou outro alimento para reforçar a despensa. Ali não havia metal e não estavam interessados em fazer escravos naquele momento. Por isso mataram a todos que encontraram, indistintamente, para que as vozes e as palavras daquele dia assustassem a todos os que delas viessem saber. Mataram, saquearam, pilharam e se foram... Floresta adentro... Rio Sena acima.

Naquele dia algo insólito aconteceu: um berserker tombou. Já havia sido ferido na batalha, mas, como todo guerreiro-lobo, nada sentira. Havia lutado com afinco, partira um oponente do crâneo ao umbigo com um só golpe de espada. Matara crianças a machadadas enquanto gargalhava para suas mães, depois matara as mães gargalhando e uivando em direção ao templo cristão.  Havia cantado canções mágicas que paralisam armas de adversários. Também havia uivado a canção ‘sob os escudos’ que imuniza e dá força aos companheiros. Havia pronunciado palavras que se transformam em lava de vulcão no peito dos oponentes. Havia mesmo sentido a honrosa presença de Odin, já que sua espada, por alguns instantes, ganhara vida e abatera dois inimigos sem que ele sentisse o seu peso. Havia lutado como um berserker, enfim, como o feroz homem-lobo que sabia ser.
Mas a batalha havia sido muito breve. A pobre gente da vila logo estava trucidada. Os guerreiros vencedores selecionavam os despojos, regozijavam entre si, incendiavam as casas e voltavam para os seus barcos enquanto um solitário berserker voltava para a floresta. A batalha havia sido muito breve para sua fúria, para seu ‘berserkergang’, o estado alterado de estrema ferocidade que os caracteriza em combate. Nessas horas o berserker deve arremessar sua fúria, o acúmulo de força sólida, sobre árvores, pedras ou animais, longe de seus companheiros para evitar feri-los. E foi assim que aquele fez. Golpeou árvores e pedras durante horas, até quase o anoitecer.

Quando o estado de furor cessava, o berserker podia entrar num estado de torpor, de esgotamento que o fazia extremamente vulnerável. Era o único momento em que podia ser facilmente vencido. E foi nesse momento que uma lança o feriu mortalmente. Veio por suas costas, atingiu-lhe o coração. No mesmo instante soube que morreria, e estava enormemente alegre por isso. De súbito soltou um uivo lancinante e partiu para cima dos três guerreiros que o feriram. Sua espada novamente ganhara vida e abateu os celtas com a fúria de Wotan.

Depois, o homem-lobo tombou sobre uma grande pedra na floresta densa.
Incontinente, agarrou com força o colar com o martelo de Thor que trazia no pescoço e que ganhara de sua mãe quando lhe nasceu o primeiro dente. Era Gunnar Ericson (Guerreiro Filho de Eric), depois chamado de Gunnar o Andarilho, por ser tão grande e musculoso que nenhum cavalo era capaz de conduzi-lo. Tinha 32 anos, nascera em uma das ilhas da Noruega.

Numa noite do inverno dos seus quatro anos recitou o seu primeiro poema, era tão meigo e atraente que todos queriam ouvi-lo, e a todos ele atendia. Aos sete anos matou o seu primeiro adversário, um homem que ousou ofender sua mãe quando seu pai caçava baleias em alto mar. Aos oito anos bebera sangue de lobo pela primeira vez e aos nove comeu-lhe as carnes. Fez-se um berserker. Era excelente companheiro e notável cantor, tanto de sagas como de canções mágicas. Conhecia com precisão as histórias e as genealogias dos clãs com os quais se relacionava. Todos queriam estar no barco em que estaria, pois era certeza de ótima companhia. Sua espada de noventa centímetros, fora presente de Odin ao mestre do guerreiro-mago que lhe iniciou e só sua lâmina de dois gumes valia mais de vinte vacas de leite, ademais tinha empunhadura de ouro e prata ricamente decorada com pássaros e serpentes acrescentadas pelos três guerreiros que a possuíram. Odin tinha por ela grande apreço, já que eventualmente a manejava em combates, como naqueles últimos em que Gunnar participou.

A vida de cada pessoa é um fio no tear das Nornas, as deusas que tecem o destino dos humanos. O tamanho de cada corda é a duração da vida da pessoa a que corresponde. O tamanho da corda de Gunnar era aquele: ia da noite do seu nascimento, até àquele momento.

Ofegante sobre a pedra, Gunnar o Andarilho viu o Arco-Íris aviventar-se nos céus. Sobre a ponte colorida e brilhante viu as Valkírias que vinham escolher os guerreiros mortos que levariam para o salão de Odin, o Valhala. Sentiu mãos suaves e firmes que o tocavam. Tão suaves e ternas como só as suaves mãos divinas sabem e podem ser. Sobre o cavalo branco de uma Valkíria subiu aos céus e atravessou o Arco-Íris. Chegou ao Valhala, o Salão de Odin. Não era mais um berserker, agora era um Einheirar, um guerreiro morto em combate que lutaria ao lado de Odin no dia do Ragnarok, o dia da Grande Batalha, A Batalha Final.
Recebidos pelos filhos de Odin, os guerreiros eram conduzidos até o trono do deus Pai que os saudava tecendo elogios ao seu valor. Mas, quando um dos seus guerreiros prediletos chegava a Asgard, Odin se levantava de seu trono e ia recebê-lo na grande porta do Valhala para dar-lhe as boas vindas. Gunnar o Andarilho teve essa honra, foi recebido pessoalmente por Odin... Woden... Wotan... A Fúria incontrolável...
...

Na floresta, logo após a morte do berserker, quando a lua cheia já apontava no horizonte, uma sacerdotisa celta sobrevivente, movida pela magia dos seus deuses – vizinhos dos deuses e dos céus vikings – se acercou do corpo do guerreiro caído sobre a grande pedra. Ao tocá-lo um raio abateu-se sobre os dois. Ambos desapareceram. Nunca mais foram vistos. Mas sabe-se como sempre viveram desde então. Mesmo que ninguém os veja, todos sabem que são um casal de lobos e que seu eterno ofício é o de reunir ossos, ossos de lobos enterrados nas florestas ou espalhados sobre o chão. Quando os ossos reunidos completam o esqueleto de um lobo, estes ganham carne, pele e alento. E correm para o mundo para serem lobos, o que sempre foram e sempre serão... Lobos como em Asgard são Freki o Voraz, e Geri o Glutão... Os lobos de Wotan.

* Luiz Felipe Jardim leciona História e tem especialização em Demografia.

** Leia aqui outros textos de Luiz Felipe Jardim.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

AMAR

Carlos Drummond de Andrade


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro Enigma. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p.43