quinta-feira, 31 de outubro de 2013

OS BRABOS DO TARAUACÁ

Os brabos do Tarauacá é um romance de autoria do amazonense João Mendonça de Souza, falecido em 2003. Mendonça de Souza pertencia à Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas, ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e à Academia Amazonense de Letras, da qual foi presidente.

O romance gira em torno da saga dos Soldados da Borracha na região do Envira, Tarauacá, Eirunepé e Cruzeiro do Sul, com ligeira recapitulação de fatos ocorridos ao tempo da então fase áurea da borracha. A história ambienta-se no seringal Felicidade localizado no rio Tarauacá, e desenrola-se ao redor do Coronel Chico e Angélica, Tônio e Isabel, Das Dores e Ribentino, Joaninha e Desidério em suas esperanças, sonhos e frustrações. O tempo histórico é os anos que envolve o período da Segunda Guerra Mundial, quando a borracha ganha um novo impulso econômico, no chamado segundo ciclo da borracha, quando os E.U.A e os ingleses haviam perdido seus seringais asiáticos e, por meio dos Acordos de Washington, firmaram acordo de comprar a produção de borracha brasileira. Centenas de pessoas, sobretudo nordestinas, foram arregimentadas e levadas para a Amazônia como “Soldados da Borracha”, para produzir borracha para vitória dos países aliados contra o nazi-fascismo. “Brabo” era o termo que se usava na Amazônia para se referir aos recém chegados seringueiros, em sua maior parte do Nordeste, para a extração do látex.

O romance revela sobretudo a capacidade intelectual de seu autor, grande conhecedor das coisas amazônicas, o que se revela por meio das várias referências biobibliográficas que encontramos entremeadas na narrativa. Porém, a visão do autor, ufanista, acaba interferindo na própria narrativa do romance, o que acaba prejudicando a fluidez do texto e do enrendo. Além do mais, o autor acaba levando fatos históricos de sua contemporaneidade para o passado.

No mais, não é um romance que inova na temática, por demais abundante. Mas é uma boa introdução, sobretudo para aqueles que pouco ou quase nada conhecem da riquíssima literatura brasileira produzida e/ou inspirada na Amazônia.


SOUZA, João Mendonça de. Os brabos do Tarauacá (a saga dos soldados da Borracha na Segunda Guerra Mundial). Rio de Janeiro: Vozes, [s.d.]

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

NEM TODO POLÍTICO É IDIOTA, MAS SE FOR IDIOTA, CUIDADO, PODE SER UM POLÍTICO

Olha a idiotia que está prestes a cometer o prefeito de Barreirinha, no Estado do Amazonas:

Prefeito ameaça demolir casa que Lúcio Costa projetou para Thiago de Mello (quem noticia é o nosso caro e competente Altino Machado)

A propósito, recordei-me do final de um poema de Raul de Leoni:

“Como são tristes essas vidas sem amor,
Essas sombras que nunca amaram nada,
Essas almas que nunca deram flor...”

Vida longa ao poeta por excelência da Amazônia. Não é a casa em si que está em perigo, mas a memória sentimental de um lugar expresso por dois gênios: um da palavra, outro do traço. É a cultura que morre pouco a pouco por aqueles que querem construir o futuro e o progresso aniquilando o presente e o concreto.

O POETA POR EXCELÊNCIA DA AMAZÔNIA

terça-feira, 29 de outubro de 2013

CÂNTICO VI

João de Jesus Paes Loureiro


Quem comanda o rio ?
O mito ?
            A lei ?
                        A lenda ?
Onde perdeu-se o mapa,
o portulano ?
Em que meridiano, norte ou sul,
ou em que polo?
                        Amazônia
                        Amazônia
                                               Quem te ama ?
Quantas vezes, no tempo, o rio encheu-se,
e, quantas outras, vazou ?

O rio não tem consciência
de si mesmo,
no ermo de existir
                                   que é ser corrente.
O rio-em-si não é nem bom, nem mau.
É rio.
E sendo rio
                        inunda e seca,
pois inundar e secar
é o ser do rio
e sua incons/ciência de si mesmo.
A notícia ovula-se poema,
e nem se quer
ou canto
                        ou melopéia.
Quer olhar e dar voz ao que se mostra,
mais que real aqui, agora e sempre...
Mas Tirésias atônito pergunta
aos pálidos pajés sobreviventes:
– “Se o rio nada sabe de si mesmo,
     quem saberá do rio e de seus homens ?”


LOUREIRO, João de Jesus Paes. Porantim (poemas amazônicos). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p.37-38

> João de Jesus Paes Loureiro é um dos principais poetas da Amazônia. Nasceu em Abaetetuba, no Estado do Pará. Professor de Estética, História da Arte e Cultura Amazônica, na Universidade Federal do Pará. Mestre em Teoria da Literatura e Semiótica (PUC/UNICAMP) e Doutor em Sociologia da Cultura pela Sorbonne, Paris, França.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A MORTE DA FILOSOFIA: INCOERÊNCIA, INCONSISTÊNCIA, CONTRADIÇÃO

Prof.a Inês Lacerda Araújo


As condições basilares da escritura filosófica são a coerência, a consistência e a intenção de evitar contradições. Daí o título indicar que a filosofia (e demais textos teóricos, científicos, jornalísticos) são feridos de morte quando há neles incoerências, inconsistências e contradições.

A incoerência decorre muitas vezes do despreparo do autor, muitas vezes como que perdido em meio às ideias e conceitos do filósofo abordado, do tema estudado ou de ambos.

A coerência reside em indicar os propósitos e objetivos do texto ou do estudo, ir fundo neles, explicitá-los para o leitor ou estudioso do assunto e/ou do filósofo. Se o objeto de estudo for um filósofo, por exemplo, Platão, especificar o modo como será abordado, quais diálogos, com que objetivo. Ser coerente implica em formação intelectual, honestidade consigo e com o leitor, segurança, completude nos raciocínios e argumentação. Ou seja, evita-se a repetição, a vagueza, as frases longas e complicadas, os conceitos mal delineados.

Wittgenstein teria sido incoerente com seus princípios e conceitos na passagem da lógica do Tractatus para a linguagem cotidiana de Investigações Filosóficas? Não! Ele permaneceu coerente com seu objetivo ao fazer filosofia: a busca da base, da ponte, do que permite pensar, falar, compreender, verificar a verdade ou não de enunciados, enfim como entender o funcionamento da relação entre linguagem e realidade. Se fosse incoerente, não seria filósofo!

Quase nunca se discute a necessidade da consistência, tanto a dos textos a serem elaborados por alunos e pesquisadores na área da filosofia, como o que representa a consistência no pensamento e nas doutrinas dos filósofos. O texto se firma em pé ou desmorona a cada parágrafo? Contribui para o exercício do raciocínio, da reflexão, há nele alguma argúcia, ou se perde em minúcias inúteis ou generalidades vazias? O texto tem o que dizer, renova pelo menos algum modo de ver, de interpretar? Traduz um tema ou autor de modo interessante e instigante? Ou é morno, raso, terminada a leitura nada fica, nada se modifica em nossas visões? É enriquecedor ou pobre? Diz a que veio ou se arrasta cansativamente?

Mesmo difíceis, os filósofos todos produzem reflexões consistentes, por vezes pesadas. A superficialidade e os artifícios ficam longe da filosofia. O famoso ditado de Sócrates "Só sei que nada sei" é a um só tempo revelação, renúncia, absolutamente consistente com sua meta, a de aprender sempre e de ensinar, a "douta ignorância" que permite ao filósofo reiniciar, sempre.

Contradizer-se é ainda mais grave: afirmar algo e em seguida negar, basear-se no conceito X e mais adiante considerar esse mesmo conceito como inválido. Por vezes, na mesma sentença declara-se que, por exemplo, é possível obter verdade, mas que a verdade é impossível! 

Quanto à contradição há um problema extra: os dialéticos a têm como fundamental. Ser e não ser na transformação e evolução histórica, assim como ontologicamente, se determinam mutuamente, um depende do outro para haver mudança, devir ou vir a ser. Mas não é disso que se trata quando se diz que o filósofo e a filosofia não podem ser contraditórios. O que fazer diante de duas afirmações contraditórias? Contradizer-se impede a argumentação, defender ideias e ideais, chegar a conclusões, "fechar" um raciocínio. Impossível defender a tese de que o cogito, o "eu penso" é fundamental e negar o poder do pensamento individual. Se Descartes assim o tivesse feito, não seria filósofo.

Isso não significa ser possível e desejável olhar e interpretar as várias facetas do que está sendo investigado. Se A, então... tal. Se B, então...tal. Isso não é contraditório, amplia as razões para se refletir e fazer filosofia.


INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

domingo, 27 de outubro de 2013

MOVIMENTO DO MUNDO

Michel Deguy


E como vai a vida que não é eterna?
Houve a claridade       Houve o enigma
E então foi feito


Houve o enigma.     Houve a claridade
Ser        veio a ser        isto
Houve o enigma houve a claridade
E então fez-se a terra no centro da mesa

Quem senão será a força dos fracos? 



DEGUY, Michel. A rosa das línguas. Organização e tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2004. p.67

sábado, 26 de outubro de 2013

AGUIRRE, A CÓLERA DOS DEUSES

Aguirre, der Zorn Gottes (1972). Baseado em fatos históricos, o filme se inspirou na expedição de conquistadores espanhóis enviados por Gonzalo Pizarro, governador de Quito, em busca de El Dorado, a lendária cidade de ouro que ficaria na Amazônia, em 1541-1542. No filme, a expedição se deu em 1561 e foi comandada por Dom Pedro de Urzúa e Lope de Aguirre. Tomando por base a narrativa do diário do Frei Gaspar de Carvajal (que participou da expedição ao El Dorado), na verdade o filme deixa de lado o aspecto histórico e se concentra mais nas teses costumeiras do diretor Herzog, preocupado em mostrar os efeitos mentais e emocionais sofridos por homens em situações-limite, confrontados com a natureza primitiva e desconhecida.

Leia aqui comentário crítico do filme.
* É preciso ativar a legenda no canto do vídeo.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

DE MESTRE PARA MESTRE

NA ANTEMANHÃ DA FLORESTA
JORGE TUFIC ME ACOMPANHA
Thiago de Mello


De moço me levaste a uma varanda
aberta para um céu feito de chão
coberto de palavras que inventavas
para que eu descobrisse o dom dos pássaros.

Na tarde do aposento colorido,
rua Joaquim Nabuco, abriste a caixa
das goivas e formões com que domavas
os sonhos e o perfil dos teus milagres.

De mãos dadas, em frente aos Educandos,
no segredo das faias aprendemos
as águas que navegam nosso peito.

Temperos, tempo, estrelas e distâncias,
poderes foram com que me ensinaste
que castelos de brumam não se esfumam.


Outubro, 1996,
Barreirinha.


MELLO, Thiago de. Campo de Milagres. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. p.57

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

CHE GUEVARA FEZ A BARBA NO ACRE

Elson Martins


Foi essa menininha que aparece no colo da mãe, na foto de 1933, que me contou a história. Ela está hoje com 78 anos: chama-­se Maria Ferreira Martins e é advogada aposentada. O pai, João Martins Xavier, veio do Ceará para o Acre em 1946. Ainda no Ceará, na região do Quixadá onde trabalhava como marceneiro, chegou a ser preso e torturado como comunista.

No Acre, João Xavier trocou de profissão e montou uma barbearia no bairro Seis de Agosto, no segundo distrito de Rio Branco. Era um estabelecimento humilde, com apenas uma porta e uma janela de frente. O dono não trocou de ideologia: foi um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro (PCB) do Acre, e quando irrompeu o Golpe Militar de 1964 teve que se esconder num seringal para não ser preso.
João Barbeiro e sua família, em 1933. Maria Ferreira Martins no colo da mãe e, no detalhe (abaixo), aos 78 anos.
João Barbeiro, como ficou conhecido, em meados dos anos sessenta (65 ou 66) recebeu, ao anoitecer, a visita de um integrante do PCB que lhe pediu para fazer a barba de um estranho. Achou esquisito quando ele, sem pedir autorização, fechou a porta e a janela do pequeno estabelecimento. E também por terem os dois – o amigo e o estranho ­ permanecido calados. Não era essa a rotina da barbearia.

Barba feita, o cliente agradeceu com um sorriso e gestos e desceu a escadinha de três degraus, de madeira, desaparecendo na escuridão da rua da frente. O amigo (que está vivo, mas não autorizou a citação de seu nome) então voltou e cochichou ao ouvido de João Barbeiro: Você acabou de fazer a barba do comandante Che Guevara.

Maria Martins comenta que o pai, com idade avançada na época, poderia ter morrido de emoção porque admirava o comandante Che Guevara e falava o tempo todo de sua luta como exemplo. Ao saber a identidade do cliente, tremeu e quase desmaiou.

João era um crítico impiedoso dos governos, dos ricos, dos reacionários e corruptos, até das pessoas comuns que não reagiam contra as injustiças sociais. Com os filhos, era intolerante e ríspido: "Se a gente mentisse, ele adivinhava!".

Mas ele nunca conseguiu politizar Maria Martins nem seus sete irmãos que permaneceram anticomunistas. Até porque sofreram discriminação por serem filhos do barbeiro de idéias muito combatidas na época.

O velho e honrado comunista faleceu em 1984 aos 85 anos, ironicamente, atropelado por uma bicicleta.

Coincidências históricas

Mais duas pessoas, o líder seringueiro Chico Mendes e o Frei Peregrino, irmão do folclórico Padre José que foi personagem da minissérie “Amazônia”, da TV Globo, rodada em 2007 ­ também teriam cruzado com Che Guevara na mesma época.

Numa entrevista que concedeu ao sociólogo Pedro Vicente, ex­-delegado do Sesc no Acre, professor da UFAC e autor do livro “Exercícios Circunstanciais” publicado em 1997 pela editora “Coivara”, de Natal (RN), Chico Mendes narra seu encontro ocasional:

"Eu nunca tinha visto seu retrato (do Che), porque não circulavam revistas ou jornais no seringal, mas tinha ouvido seu nome através da Rádio Central de Moscou. Não me recordo bem o ano, creio ter sido em meados de 65 ou 66. Eu estava caminhando pela BR-­317 e, cansado, parei no bar no entroncamento, a 12 quilômetros de Xapuri. Naquele instante chegou um cidadão vindo das bandas de Rio Branco. Demonstrava ser uma pessoa muito educada; encostou-­se no bar e puxou conversa comigo e com outros que estavam próximos. Falou que tinha interesse em conhecer a selva amazônica, principalmente, os seringais e a selva boliviana. Indagou se eu era seringueiro. Respondi que sim e há muitos anos. Perguntou se eu não gostaria de acompanhá-­lo até os seringais da Bolívia, pois não tinha costume de caminhar na selva. Precisava de uma pessoa que conhecesse os varadouros e o levasse na direção da fronteira. Dava para identificar que não era brasileiro, misturava um pouco de português com espanhol.

Ele conduzia uma mochila, falou que possuía jóias que aproveitava para vender e sobreviver durante o percurso. Não dispunha de muito dinheiro, mas perguntou quanto eu queria por dia para ir com ele até onde pudesse. Não aceitei o convite. Alguém me disse que era perigoso, podia ser um bandido. Não acreditei, mas não podia ir. Alguns meses depois, em Xapuri, passei diante da delegacia e um retrato me chamou atenção. Dizia que Che se encontrava em território boliviano para organizar o terror na região. Fiquei abalado. Lembrei-­me que havia visto e conversado com aquela pessoa no entroncamento. Nunca pude imaginar ­ pensei comigo mesmo ­ que aquela pessoa fosse um terrorista. Olhei várias vezes a fotografia. Não tive a curiosidade de pegar a propaganda, um cartaz e guardar comigo. Tempos depois, ao ler o livro sobre a guerrilha do Che na Bolívia reafirmei a convicção de que cruzei com ele. Posso afirmar com certeza, era o Che!”

O suposto encontro do Frei Peregrino com Che foi narrado por seu irmão, Padre José (o da minissérie), famoso por suas histórias fantasiosas. Num artigo que publicou no semanário O Jornal de Rio Branco, em 1980, José informa que Che fez indagações a Peregrino sobre como se deslocar para Santa Rosa, no alto rio Abunã. O frei indicou alguém que possuía uma canoa motorizada que levou o comandante da Revolução Cubana ao local onde o aguardava um avião.

O próprio padre José, algum tempo depois, toparia durante uma desobriga no rio Acre, com dois “coronéis do exército brasileiro” no seringal Itu. Os “coronéis”, falando mal o português, prometiam muitas coisas e anunciavam para breve uma revolução no Brasil. Desconfiado, o padre seguiu imediatamente para Xapuri, fez contato com os militares e descobriu que os dois “coronéis” no Itu eram, na verdade, Inti Peredo e Dario, companheiros de guerrilha de Che Guevara também mortos na Bolívia.

O disfarce – Na biografia de Che Guevara feita por Jon Lee Anderson, publicada em português pela editora Objetiva, em 1997 (um calhamaço de 920 páginas), é possível acompanhar os momentos finais da trágica aventura do Che: foi assassinado por militares bolivianos em 9 de outubro de 1967, aos 39 anos de idade, na pequena vila de La Higuera, em Santa Cruz de La Sierra.

No ano de 1966, em que Chico Mendes teria se encontrado com Che, segundo Anderson, o comandante revolucionário das Américas latinas estava iniciando suas operações de guerrilha na Bolívia com velhos companheiros de Sierra Maestra e alguns novos guerrilheiros treinados em Cuba, somando um grupo de 29 militantes. Guevara queria transformar a Bolívia num “Vietnam das Américas” e, a partir daí, fazer a grande revolução transcontinental.

Mas a base escolhida para inicio das operações fica no sul da Bolívia, no lado oposto à fronteira com o Acre. Entretanto, Che preferia desde o começo a região do Beni, do lado de cá, o que pode significar que ele já a conhecia e, neste caso, poderia ter entrado na região pelo Acre e cruzado com João Barbeiro, Chico Mendes e Frei Peregrino.

Contra essa possibilidade pesa o rigor da segurança que cercava Che Guevara por onde quer que ele fosse. Se bem que, na época, a estrada de Xapuri e Brasileia que leva a Cobija, no Departamento de Pando, não tinha as grandes fazendas que tem hoje; era ainda um caminho por dentro da selva. E dentro da selva, Che se transformava no ousado comandante de guerrilha que o notabilizou.

Outro ponto contraditório é que para iniciar a aventura final na Bolívia, Che passou por radical operação em seu visual para não ser reconhecido: arrancou fio a fio parte de sua cabeleira, tornando-­se meio careca, e colocou uma dentadura postiça para “engordar” o rosto. Além disso, cortou o restante do cabelo e passou a utilizar óculos na figura de um homem de negócios de origem uruguaia, com o passaporte de Adolfo Mena Gonzalez. Teria sido assim que ele desembarcou em La Paz.

Antes, ainda em Cuba, Fidel Castro organizou um encontro de despedida convidando todos os ministros e os velhos companheiros de Che na revolução. Apresentou a eles, como brincadeira, o “industrial uruguaio”, e ninguém reconheceu o velho amigo e comandante da revolução cubana. Com o mesmo disfarce Che despediu-­se da família sendo apresentado aos filhos como “Tio Ramon”; não podia revelar-­se por questão de segurança.

Uma das filhas, Aliusha, de quatro anos, abraçou Che (o pai), deu­-lhe um beijo e depois comentou com a mãe: “Mama, acho que esse velho está apaixonado por mim”. Che ouviu o comentário e deixou escorrer lágrimas.


N.E - Texto originalmente publicado na coluna Almanacre no Jornal Página 20 (Rio Branco-AC) em 2008.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

POEIRA DE NEVE

Robert Frost


Da árvore da cicuta
Ao voar, de leve,
Um corvo atirou-me
A poeira da neve

Fez no meu coração
Uma grande mudança
Salvou um dia triste
Sem qualquer esperança. 


FROST, Robert. Poemas escolhidos de Robert Frost. Tradução de Marisa Murray. Rio de Janeiro: Lidador, 1969. p.65

EM RIO BRANCO: Academia Acreana de Letras convida


sábado, 19 de outubro de 2013

Série HISTÓRIA QUE O ACRE ESCREVEU

CABRA ZÉ DE AQUINO

José Augusto de Castro e Costa


Naquela carcaça habitava  uma alma mui querida, prestativa, bem humorada e espirituosa.

Paradoxalmente – porque, havia alguns anos, o Zé de Aquino interrompera a vida de um desafeto, “em defesa da honra”. Cumprira dezessete longos anos, preso na Colônia Penal, período em que, para driblar a ociosidade natural dos presídios, ocupou-se em manufaturar a produção de colchões.

Entrava ano e saía ano, e lá estava o Zé de Aquino enchendo aqueles sacões com capim e algodão bravo.

Ao encontrar-se absolvido, fora exercer, de fato, a atividade aprendida, e há quem o relacione como um dos primeiros industriais do Acre, prestando atendimento tanto o quanto podia, num pequenino atacado, ou  no varejo, ou ainda, sob encomenda.

Dito assim, até parece que o Cabra Zé de Aquino não tinha tempo para mais nada, além das confecções dos afamados colchões. Tinha, sim, mesmo porque o Acre daquela época, por já possuir uma atividade comercial um tanto quanto intensa, para a demanda local, principalmente no tocante a cama, mesa e banho, produtos importados de Manaus e Belém, dificultava o mínimo de atribuições competitivas  de qualquer  pequeno comércio elementar. 

O produto “fabricado” pelo Cabra Zé de Aquino, porém, tinha como destino as classes menos favorecidas, sobretudo àquelas pessoas que habitavam as Colônias Agrícolas e  os seringais próximos a Rio Branco.

Os principais lazeres em Rio Branco estavam no futebol, nas retretas da Banda de Música e nos papos regados à uma “lourinha suada”, no Bar Municipal.

O maior lazer do Zé de Aquino, no entanto, era curtir um baralho com os amigos, na arquibancada do Estádio José de Melo, quase todas as tardes da semana, enquanto algum time reservava o campo, para efetivar treinos técnicos e táticos.

Ali sempre encontrava-se o Cabra Zé de Aquino  a desafiar alguém interessado, e não raras as vezes saía vencedor, habilidoso que era, em termos de carteado.

Os participantes daquele passatempo eram, na maioria das vezes, pessoas da vizinhança do estádio, principalmente da Capoeira, comunidade conhecida como berço de personagens esportivas, como Touca, Bararú, Antonio Leór (Leco-Leco), Guimarães, Tião Macaco, Zezinho Pestana Branca, Caio, músicos e ritmistas como Balaléu, Junot Hortêncio, Paulo Barbosa Bararú e outros vizinhos mais próximos, ainda, como Elizaldo, Evaldo, Guinaldo, Babá, Piituca, Tiãozinho, Colorau, Stélio, Dimiro, Teco, Renízio, Hipérides (Nega-Nega),  Luis Jacaré Borói, Pichico, São(Sandorval), Zé Augusto Falado, Keler, Sarará, Pitôco, Zezé Coriolando, Mão...
As tardes de treinos no “Campo do Rio Branco”, denominação popular do Estádio José de Melo, eram, na verdade, bastante concorridas, fosse qual fosse o time que estivesse treinando: Rio Branco, ou Independência, ou América, ou Vasco, era comum a presença de um certo número de pessoas. O Atlético Acreano não se contava, pois  tinha seu campo próprio – o Triângulo, no 2º Distrito, para treinar.

E na Arquibancada, sempre encontrava-se um grupinho disputando um Buraco, ou Vinte e Um, ou Canastra, ou até Truco. Lá estava o Cabra Zé de Aquino, com mais dois ou três companheiros, com assistência, inclusive, de alguns craques, como Zé Cláudio, Cidico, Cloter (Touca), Buá, Leór, Curitiba e outros.

Na maioria das vezes a disputa lhe era favorável, porém, algo passara a incomodar-lhe, de maneira estranha. Começara a surgir uma certa suspeita. Sempre que o Cabra Zé de Aquino disputava com o Tião Macaco e o Lula do Botafogo, a sorte virava-lhe. Principalmente quando estes formavam dupla.

Tião Macaco,que ganhara o apelido dado à sua elasticidade na prática dos saltos que efetuava nos jogos, era um  tipo vistoso, louro, alto, colecionador de inúmeras amizades, pelo seu espírito solidário, aficionado por bola, destacando-se no vôlei, no basquete, ao lado de Sena, Amédio, José Carneiro, Kyoca, Cauhí, Mario Lamas, Pedrito, Eugênio Mansour, e ainda no futebol, como goleiro do Rio Branco, quando substituiu Pedrito, que mudara-se com a família para o Rio de Janeiro.

A suspeita de Zé de Aquino, porém, fora-se avolumando e, para dirimir qualquer dúvida,  arquitetou o plano de não mais aceitar aqueles amigos em dupla, por algumas partidas.

Suas vitórias voltaram a acontecer como dantes. Concluiu que a suspeita tinha fundamento, porém, a título de confirmação, Zé de Aquino concordou com o retorno dos dois.

Tião Macaco e Sula do Botafogo voltaram a armar as suas artimanhas, porém somente foram descobertos depois da terceira partida, quando Cabra Zé de Aquino, afinal, flagrou o surrupio da dupla (que sempre carregava uma carta na manga).

Foi um verdadeiro deus-nos-acuda, quando Zé de Aquino, depois de espalhar desordenadamente todas as cartas, saiu correndo atrás dos dois que, saltando quase três metros de altura da arquibancada, dispersaram-se mais que de repente no rumo do Cacimbão da Capoeira e adjacências.

O perigo era a possibilidade de o Cabra andar armado, uma vez que na época era perfeitamente normal o uso particular de armas.

Aquela pode-se dizer que foi uma cena que teria “sido trágica se não fosse cômica”, deixando nos dois protagonistas, ou coadjuvantes, uma verdadeira sensação de pavor – um síndrome do pânico!

Só de lembrar do passado do Cabra Zé de Aquino, o Tião Macaco e o Lula do Botafogo portavam-se de preocupação e receio em voltar ao campo do Rio Branco, ou deparar-se com o desafeto.

E demorou um pouco para essa preocupação acabar. O próprio time do Rio Branco, com Guimarães, Orsetti, Bararú, Alício, Zé Cláudio, Valdo, Erié, Dudu, Arigó, Edson Urubu e Elinho, além de Cidico, Caetano, Onofre e Pipira, em conjunto ou individualmente, encarregara-se de acalmar o Cabra Zé de Aquino e trazê-lo novamente às boas.

Felizmente, algum tempo depois as coisas amenizaram-se, os ânimos serenaram e a convivência dos frequentadores dos treinos no campo do Rio Branco voltara a reinar com seu peculiar  romantismo, recheado de pilhérias, piadas, boatos, mexericos e astúcias.

Anos depois, Tião Macaco também transferira-se para o Rio, a fim de continuar os estudos, vindo a graduar-se na Escola Nacional de Educação Física, fato que o levou a exercer a atividade de Preparador Físico do Fluminense Futebol Clube e, consequentemente, da Seleção Brasileira, na Copa do Mundo de 1978, na Argentina, sob o comando técnico do Cap. Cláudio Coutinho, quando o Brasil, em 3º lugar, foi considerado “campeão moral”, em vista da graciosidade do goleiro Quiroga, argentino naturalizado peruano, em levar seis gols da Argentina.


* José Augusto de Castro e Costa é cronista acreano. Reside em Brasília. Neste blog, já escreveu a série Brasileiro por opção, e agora escreve outra série intitulada HISTÓRIA QUE O ACRE ESCREVEU.

> Leia aqui outros textos de José Augusto de Castro e Costa.

O AMANTE DAS AMAZONAS

Ao escritor, poeta e professor aposentado adjunto doutor do Departamento de Ciência da Literatura da UFRJ, Rogel Samuel, agradeço a gentileza de me honrar com o exemplar de seu livro O AMANTE DAS AMAZONAS (Belo Horizonte: Itatiaia, 2005). Assim que conclui minha leitura, partilharei, com os amigos que acompanham este espaço, as minhas impressões de leitor acerca da obra, conforme a crítica, uma das mais significativas da literatura brasileira recente de inspiração amazônica.


Mais sobre a obra de Rogel Samuel:
> Verbete Wikipédia Rogel Samuel
> Veja aqui para comprar o livro

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

JANGO

Documentário de Sílvio Tendler sobre o governo do presidente João Goulart (1961-1964). Entenda porque Jango com sua reforma de base incomodou tanto com a burguesia brasileira e os militares. Vale conferir!

Leia aqui a sinopse completa de JANGO.

Veja aqui outros filmes de Sílvio Tendler já postados neste blog.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

UMA CANÇÃO DE GESTA

Elson Farias


1.

Vida carente de vida,
mundo vivo sem vivente,
úmida noite de chuva
que canta e sabe o que canta

e não repete esse canto
só para fazer de conta,
para dizer que viveu
vivendo o que jamais viu,

que matou onça a cacete,
a nado atravessou rio.


1.1

Vou contar aqui as vidas
do menino que nasceu
às margens do riomundo,
riomundo que o sorveu

folha seca no remanso,
redemoinho do rio.

1.2

Existia pelas águas
mariscando pedra e praias,
vivia dos benefícios
que o rio lhe concedia.

Vivia dos benefícios
da ribanceira de insetos,
da água e da lama que
lhe davam peixes de escama.

Se alimentava de peixes
igual a uma ave de inverno,
se de carne, só de caça,
nas fronteiras desse inferno.

Morreu por dentro dos raios
noite negra, escuridão,
se enrolou no seu lençol
pra não ouvir o trovão,

sofreu de febre e frieira,
provou do ardor da sezão.

1.3

Foi tentado pelas almas
por detrás da vã certeza,
tremeu como treme
verde contra a correnteza.

Viu uma caveira viva
de homem bêbado no rio,
caveira com claros traços
de vida a cobrir-lhe de aura,

caveira toda roída,
roída de fio a fio,
de afogado sem beleza,
marca amarga deste rio.

1.4

Se refez da morte certa,
peixe armado com as galhas,
lutando contra a sua linha,
perdido nos seus anzóis.

Se refez da morte certa
precisando atravessar
o Amazonas de banzeiros
no tempo dos temporais.

1.5

Perseguiu os bichos fêmea
como se busca mulher,
soube da morte de um homem
sandeu de amor por mulher.

1.6

Dizia de cor os nomes
dos motores que passavam,
corria a chamar os outros
se via um de nome novo,

companheiros do alvoroço
que lhe enchia o coração
quando vestia uma roupa
nova, da linha ao botão.

1.7

Ouviu com olhos abertos,
mas, abertos de doer,
as histórias que contavam
da vida para ele ouvir,
histórias sempre mentidas
porque não lidas, ouvidas

e se ouvidas, corrompidas.
Não lidas porque, a não ser
um ou outro de mais sorte,
ninguém se arvorava a ler

e escrever sabiam poucos,
um escrever sem ideias
de garranchos e borrões,
não pela pena ruim

mas pela rude ignorância
sem um dedo de pudor,
com arroubos literários,
veleidades de escritor.

2.

Os seres mortos aterram,
aterra a figura falsa,
flores de pano sem água,
fruta sem ar de quintal.

Vejo em tudo a vida avara
do menino que encontrei,
futuro sem ser futuro,
letra falida de lei,

caibro de casa caída,
solidão das que eu andei.

2.1

Chorar, não mais, porque choro
não convence, e o convencer
a chorar, fere o decoro
de homem feito pra viver.

2.2

Por isso conto esta história
irreal, sem conclusão,
tais aquelas de memória
contadas no barracão.

Me propus contar a vida
das vidas de um só vivente,
relatar vida por vida,
passo a passo, uma por uma,

e me encerro certo, certo
de não ter história alguma.

3.

A não ser que não se saiba
bem certo o que é ser viver,
se converta a ação em ato
de morrer e nunca abrir

os olhos para a paisagem
num grande hausto de aspirar
a aurora nova das coisas
e dos bens da terra no ar;

a não ser que se concebam
as coisas tais elas são
e não se mova uma palha
para a sua transformação.

4.

Transformar como quem abre
na pura estrela do dia
as tapagens da vontade
contra a voz neutra, vazia.

Transformar como quem dobra
a ilusão, com toda fé,
como envira de munguba
na textura do topé.

Transformar como quem rompe
os gritos num só grito,
eficaz tal como o golpe
da gaponga no igapó

ou como a clave distante
do machado a transformar
a mata verde em coivara
disposta para plantar.


FARIAS, Elson. Do amor e das fábulas. Rio de Janeiro: Artenova, 1970. p.43-52

> Elson Farias é um dos principais expoentes da literatura amazonense. O poeta itacoatiarense integrou o chamado Clube da Madrugada, importante movimento de renovação das letras no Amazonas, fundado em 1954. Pertence à Academia Amazonense de Letras. Entre outros, escreveu: Barro verde. Manaus: União dos Estudantes do Amazonas, 1961; Do amor e da fábula. Rio de Janeiro: Ar­tenova, 1970; Imagem. Rio de Janeiro: Conquista/Academia Amazonense de Letras,1976; Roteiro lírico de Manaus em 1900. Ma­naus: Governo do Estado do Amazonas,1977; Palavra Natural. Brasília: Clube de Poesia e Crítica, 1980; Romanceiro. Manaus: Puxirum, 1985; Balada de Mira-anhanga. Manaus: 1993, A destruição adiada , Manaus, 2002; Memórias Literárias.  Manaus: Valer, 2005.