sábado, 17 de maio de 2014

UM POETA DE CONTRADIÇÃO

Isaac Melo


Araújo Jorge foi, numa linguagem indébita, uma espécie de Paulo Coelho de sua época, “o poeta das massas de maior projeção no Brasil”. O fato que o consagrou, qual seja, o de ser poeta popular, é que também o silenciou pela crítica oficial e pela academia, onde hoje vive em completo ostracismo. Para muitos, Araújo Jorge fora apenas um poetastro, superficial, cuja obra não se assemelha em qualidade aos grandes vultos da poesia.

Porém, qual a balança com que se pode mensurar com precisão o valor de uma obra? A possibilidade múltipla de interpretação e de sentido? A qualidade das metáforas? A profundidade temática? A intensidade da palavra?

Muitos de nós amamos Neruda; outros, Drummond; e outros, ainda, Adélia. Mas certamente não quereríamos um mundo onde houvesse apenas a poesia de Neruda, ou de Drummond, ou de Adélia. Como comparar os poetas, se cada um escreve a partir do que é. Mentem os que afirmam não ter nada a ver com sua obra. Só se escreve a partir daquilo que se é. Ainda que não se seja propriamente o que se escreve.

Poetas não se comparam, se vivenciam, talvez soe mais coerente. Paulo Coelho não me diz nada, e, no entanto, fala ao coração de outros milhões. Que critérios posso utilizar para afirmar que tenho um “gosto” literário mais refinado que os outros? Por outro lado, corre-se o risco de cair num relativismo, e, ainda pior, num solipsismo.

Os homens convencionam, estabelecem critérios, e, só assim, pode se falar de poetas e poetastros.

Porém como desvincular o juízo de valor que se faz de uma obra, a partir dos elementos externos do texto, das impressões internas de quem a lê?

Não conheço em profundidade a obra de JG. Do que conheço, pouca coisa me empolga. Um pouco, todavia, que cala fundo em mim. Há algo para além das próprias palavras ou mesmo para o qual as palavras me remetem. Há a comunhão de sentimento de saber-se pertencente a um mesmo chão. E talvez Freud nos apontasse que isso fosse uma forma de compensação, ou mesmo transferência, onde o outro é aquilo que não somos, e no qual nos projetamos. Ou quem sabe uma forma de achar-se importante, tornando importante uma figura de projeção nacional, que, como nós, amazônidas, partilha a mesma origem ignota e remota.

É possível então desconsiderar esses elementos “extrínsecos” ao texto da interpretação formal do próprio texto?

Neste ano do centenário de JG, faz-se propício rediscutir a obra deste poeta que empolgou a sua geração. Se é boa ou não, é antes necessário conhecê-la. Conhecê-la, inclusive, para ressaltar a sua beleza e seus infortúnios. O que for belo e autêntico subsistirá às gerações e ao tempo, como é próprio de toda verdadeira arte.


CONTRADIÇÃO
J.G. de Araújo Jorge


Sou a contradição de duas almas, – trago-as
gêmeas no mesmo corpo e unidas num só “eu”,
– uma, que sonha e canta, e faz das próprias mágoas
poemas para iludir a dor que já sofreu...
Outra, que vive e pensa, e aos contínuos atritos
da vida, já atingiu a realidade em si,
e sublima o recalque de ânsias e de gritos
num sorriso, que às vezes, sem querer... sorri...

Uma crê no mundo e que trabalha o belo,
que constrói com paciência, pelas próprias mãos,
nas ruínas de um castelo desfeito, o castelo
novo que há de hospedar os velhos sonhos vãos!
Outra que sabe rir e escarnecer de tudo!
Quando fere, é impiedosa, irônica e mordaz,
e há muito já concluiu: – é inútil, não me iludo,
a verdade é a ilusão que dura um pouco mais!

Uma, que quando a sós, o olhar longe povoa
de imagens que a lembrança vai traçando a giz,
é sonhadora e ingênua, é ingenuamente boa
ao pensar que algum dia ainda há de ser feliz!
Outra, que afeita à luta, ao trabalhar seus dias,
sofre em silêncio e encontra em seu sofrer remédio,
– diz que Deus é um brinquedo das filosofias,
a invenção de algum louco em momento de tédio!

Uma, cujo otimismo é uma luz franca e clara,
julgando o mundo bom e achando a vida bela;
outra, materialista e rude, – o mundo encara
com um vago e estranho olhar onde há chamas de vela!

Uma que não cresceu e que se sente criança,
irrequieta e feliz, faz da vida um brinquedo,
outra, – que sepultou sua última esperança
e ao agir previdente, às vezes, sente medo...
.......................................................................

Aquela é a voz feliz das planícies contentes
matizadas com as veias azuis das correntes;
essa, é a voz que caiu e rolou das montanhas!
E é sentindo-me assim que às vezes penso, como
pôde ter minha vida a forma de um só pomo
e o sabor de dois frutos de árvores estranhas!
.........................................................................

Sou a contradição de duas almas, – uma
onde nas horas suaves de poesia existo;
outra, – a alma que crê não ter alma alguma
e desceu da montanha tal como o Anticristo!

Duas margens debruando a risca de um caminho;
duas almas, se aquela é flor, essa é um espinho,
se uma pisa na terra... a outra se ergue, no céu...

Duas almas... dois lados de uma só moeda;
uma é vinho, sazona; a outra é vinagre, azeda;
uma é amarga, é só sal... a outra é doce, é só mel!


JORGE, J.G. de Araújo. Eterno motivo. Rio de Janeiro: Editora Vecchi, 1954. p.227-230
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