terça-feira, 1 de julho de 2014

10 ANOS SEM LEANDRO TOCANTINS

Em 01 de julho de 2004 falecia no Rio de Janeiro o escritor, ensaísta, historiador e poeta Leandro Tocantins, nascido em Belém do Pará em 08 de maio de 1919, e tendo passado sua infância no seringal Foz do Muru, em Tarauacá. Leandro Tocantins realizou importantes estudos na tentativa de compreender o homem e sua relação com a floresta amazônica. Esteve sempre muito ligado, sobretudo, aos estados do Acre, Amazonas e Pará, a quem dedicou boa parte de seus estudos. Como disse Guimarães Rosa em seu discurso de posse na ABL, as pessoas não morrem, ficam encantadas. Em minha memória, Leandro vive!

REPIQUETE
Leandro Tocantins

A TARAUACÁ, cidadezinha de minha infância


Repicou o repiquete
no ventre volumoso do rio.
Barriga d’água de chuvas matemáticas,
lágrimas glaucas de florestas imemoriais,
que se destilam na viagem inquieta dos igarapés,
na face oculta de lagos nascimortos,
derramando enchente na carne dos barrancos nus.
Repicou o repiquete,
rouba canoa,
arranca batelão
leva banheiro de bubuia,
traz balseiro, estranho húmus,
de árvore tombada, veneno de cobra, pássaro morto.
Vai bater na porta das “raparigas”,
lavar os pecados do mundo
nas águas saciadas de baba e espuma.
A cidadezinha equilibrada em pernas de pau
boia no mar corrente, pobre Veneza,
sem Doges, nem mesmo castelo no ar
(fruto da noite, as “raparigas”
entornando amarelo urinóis sonâmbulos).
Que alegria do menino,
cavalgar no repiquete,
garupa azul de cavalo-marinho,
fazer ronda de casas naufragadas,
ouvir sons aturdidos de japiins
no descompasso da paisagem em confusão de formas.
Menino molhado no limo flúmen,
canoa (gôndola rude) blindagem da evasão,
vielas anônimas de salsugem do tempo,
medindo altura das águas vivas.
Ah, que tristeza a fuga sub-reptícia do repiquete,
foi depressa casar com sereia do mar!


TOCANTINS, Leandro. Cosmoinfância. Rio de Janeiro: Artenova, 1969. p.25

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