sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

TARAUACÁ: CENAS DE UM NOVO VELHO TEMPO

Se Drummond tinha uma pedra em seu caminho, em Tarauacá, onde não há pedra, há, no entanto, muita lama e buraco no caminho da população. É o NOVO VELHO TEMPO, conforme noticiou o blog do Accioly algumas semanas atrás, ao divulgar a saída de uma embarcação que levava “diversos” profissionais para atendimento de saúde da população ribeirinha da região. De fato é o novo velho tempo das mesmas velhas políticas emergenciais e paliativas, que tentam fazer em quinze dias aquilo que não fazem durante os quatro anos, de modo abrangente e contínuo. É o mesmo novo velho tempo das velhas ruas de novos velhos buracos. Um círculo vicioso maldito, de modo a parecer que nada por ali é novo, tudo se repete, inclusive os mesmos problemas, e até os mesmos buracos. Há quanto tempo Tarauacá se encontra nesse mesmo ponto, quando se conclui a “pavimentação” de uma rua já é preciso refazê-la novamente. Tarauacá 100 anos de novos velhos problemas que se renovam a cada ano, como as enchentes que, em maior ou menor grau, sempre são esperadas, e que o povo parece já se habituou, ou por resignação ou por falta de opção. Estamos assim na terra da mulher bonita, do abacaxi grande e do buraco maior ainda.
Uma rua de Tarauacá (Foto Blog do Accioly)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA

"Tem-se, então, a figura de uma pirâmide que pode ilustrar as relações econômicas estabelecidas entre casas bancárias, casas aviadoras, seringalistas e seringueiros, estes últimos eram os que menos recebiam por sua força de trabalho, sustentáculo para a produção da mais-valia de capitais ingleses e norte-americanos. Esse é um dos pontos de partida de Lucilene Gomes Lima, no seu livro Ficções do ciclo da borracha: A selva, Beiradão e O amante das Amazonas, ao selecionar e analisar essas obras que considera exemplares para abordar o referido período econômico. Um outro tópico dissertativo ateve-se à experiência de cada autor selecionado, direta ou indiretamente, ao mundo do seringal. Nessa garimpagem, entram obras de menor valor estético ou com mais densidade narrativa, as quais são rapidamente examinadas ou recebem um tratamento mais alentado, estratégia que permitirá o confronto, a comparação, a justificação da escolha de A selva, do português Ferreira de Castro; Beiradão, do humaitaense Álvaro Maia, e O amante das Amazonas, do manauense Rogel Samuel."

Neide Gondim
in apresentação de Ficções do Ciclo da Borracha

Agradeço ao amigo Rogel Samuel a gentileza do presente. Sem dúvida, será bem desfrutado. E enriquecerá a minha pequena biblioteca de temas amazônicos, para meus futuros estudos literários.

O POETA E A JANELA

É que me ocorre, neste acabar de tarde, à janela alta, na insatisfação do burguês que não sou e na tristeza do poeta que não poderei ser.

Fernando Pessoa
(Nota solta, s.d.; não assinada)
PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p.58

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

CARPE DIEM (Ode I,XI)

Horácio (65-8 a.C.)


Indagar, não indagues, Leuconói
qual seja o meu destino, qual o teu;
nem consultes os astros, como sói
            o astrólogo caldeu:

não cabe ao homem desvendar arcanos!
Como é melhor sofrer quanto aconteça!
Ou te conceda Jove muitos anos,
ou, agora, os teus últimos enganos,
– prudente, o vinho côa e, mui depressa
a essa longa esperança circunscreve
            a tua vida breve.

Só o presente é verdade, os mais, promessa...
O tempo, enquanto discutimos, foge:
Colhe o teu dia, – não no percas! – hoje.


Tu ne quaesieris (scire nefas) quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. Vt melius quicquid erit pati !
Seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitak pumicibus mares
Tyrrhenum, sapias, uina liques et spatio breui
spem longam reseces. Dum loquimur, fugerit inuida
aeta : carpe diem, quam minimum credula postero.


HORÁCIO. Odes e epodos. Tradução de Bento Prado de Almeida Ferraz. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p.38-39

TRÊS SONETOS SOBRE A HUMILHAÇÃO DE CRISTO

SONETO DA ENCARNAÇÃO
José Lopes Marques

No quenótico logos encarnado
O mistério inefável se desvela,
Numa síntese tão magna e singela,
O divino abre mão do seu estado.

A vontade do Pai Ele revela,
Como Deus, fez-se auto limitado,
Pra, na cruz, ter a morte do seu lado
E verter seu sublime sangue nela.

Encarnou pra beber amargo fel,
A coroa de espinho suportar,
Para ouvir o escárnio mais cruel.

O juiz permitindo-se julgar
E aceitando a sentença como um réu,
Para o injusto, por si, justificar.

                                   Belém-PA, Março de 2006.


SIMÃO CIRENEU
José Lopes Marques

Homem algum sua cruz quis carregar,
Por isso, forçaram um cireneu,
Onde estavam os dois de Zebedeu,
Para a dor de seu mestre aliviar?

Filipe, André e Bartolomeu
Fugiram espantados do lugar,
Simão, resoluto em seu negar,
E o Messias sozinho padeceu.

Vencido pela dor o Nazareno,
Já quase perdendo a sobriedade,
Precisa de auxílio do terreno.

Mas todos em sua crueldade,
Não fazem um gesto tão pequeno
Ao que levou a cruz da humanidade.

                        João Pessoa-PB, março de 2008.


A INFINITA SOLIDÃO DA HORA NONA
José Lopes Marques

Três horas de densa escuridão,
E o Filho, no Gólgota, em agonia,
Desejou de seu Pai a companhia,
Consumido de extrema solidão.

Recusou fel e vinagre ao fim do dia,
Não bebeu esse anestésico vão,
Já que era a dor da separação,
Que à sua alma inquieta consumia.

Só, o Filho contempla a eternidade,
Vê distante seu único Semelhante
E, sozinho, carrega a iniquidade.

Vendo o seu desamparo lancinante,
Grita a dor que sua alma inteira invade,
Dor infinda sentida em um instante.


                    João Pessoa-PB, março de 2008.


> José Lopes Marques é escritor e poeta acreano, nascido em Tarauacá. Formado em Teologia pelo Seminário Batista do Cariri, em Filosofia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), especialista em Ensino de Filosofia (UFC) e mestrando em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará. Além disso, é professor de Filosofia da rede pública do Estado do Ceará e da Faculdade Batista do Cariri. É autor de Diário de Sonhos do Doutor Satírico (All Print, 2013).

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

27 ANOS DA MORTE DE J.G. DE ARAÚJO JORGE

 exatos 27 anos falecia, no Rio de Janeiro, um dos mais queridos poetas brasileiros de sua geração, José Guilherme de Araújo Jorge, acreano de Tarauacá, nascido no dia 20 de Maio de 1914. Diz-se dele que foi um dos poetas mais lidos à sua época, apesar de hoje receber o silêncio da crítica nacional, permanece vivo por meio de seus leitores. JG fora poeta e político, cantava o amor sem olvidar a dor de seu povo, por isso ficou conhecido como POETA DO POVO E DA MOCIDADE. Este ano de 2014 apresenta-se ainda mais especial, por marcar o CENTENÁRIO de nascimento do poeta, um ano depois do centenário de sua terra natal.

Abaixo, artigo biográfico de minha autoria acerca de J.G. de Araújo Jorge
J.G. DE ARAÚJO JORGE: UM ROMÂNTICO NA PRAÇA

domingo, 26 de janeiro de 2014

SOBREVOANDO A GAMELEIRA, EM RIO BRANCO

Calçadão da Gameleira, região central de Rio Branco, em imagens feitas pelo meu primo, o repórter cinematográfico Josenir Melo.

sábado, 25 de janeiro de 2014

A PAIXÃO MEDIDA

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Trocaica te amei, com ternura dáctila
e gesto espondeu.
Teus iambos aos meus com força entrelacei.
Em dia alcmânico, o instinto ropálico
rompeu, leonino,
a porta pentâmetra.
Gemido trilongo entre breves murmúrios
E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico,
senão a quebrada lembrança
de latina, de grega, inumerável delícia?


ANDRADE, Carlos Drummond de. A paixão medida. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. p.19
*Ilustração de Luis Trimano, do original do livro.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

ENTRE GATOS E PASSARINHOS













A SOLIDÃO DA ÁRVORE

Marcus Accioly


Durante a Bienal da Floresta, do Livro e do Leitor – realizada no Rio Branco, Acre, pelo escritor Pedro Vicente – refiz uma viagem feita muitas vezes, há muitos anos. Após um frugal café da manhã no Inácio Pálace Hotel, o novo, pois o velho era Inácio Parece Hotel, eu e o poeta Jorge Tufic, a convite de um grande amigo, o boliviano Miguel Ángel Ortiz, saímos de Rio Branco, em direção a Cubija, no Estado de Pando, na Bolívia. As nossas memórias funcionaram de modo diferente: Tufic se pegou com o menino que ele foi no Acre, Miguel, com a sua vida na Bolívia, e eu, com o tempo de um arcaico Rio Branco, que se escondeu por dentro, ou por detrás, do moderno. Assim, chegamos à recente cidade de Capixaba e só no desvio para Xapuri, onde o rio Acre se encontra com o próprio rio Xapuri, é que nossas memórias se encontraram. Visitamos a casa, o Centro Cultural e o túmulo do seringueiro Chico Mendes (que cantei no meu livro – Latinomérica) e logo voltamos à mesma estrada que obrigava Miguel a fazer do seu Honda um cavalo saltando os obstáculos.

A paisagem exibia a devastação sem medida, desde que a borracha cedeu o seu lugar ao gado e o gado à incipiente cana-de-açúcar. Inúmeras castanheiras se aproximavam e se afastavam do acostamento, como uns resquícios da floresta de Hamelet. Cortei o nosso silêncio, sob o silêncio surdo do motor, com uma pergunta: “Quantos metros tem uma castanheira?” Tufic tentou medir, com o olho, enquanto Miguel respondeu: “Cerca de 40 metros”. Algo de doído ligava, em mim, a castanheira da floresta à castanheira da praia, ou amendoeira, quando Miguel prosseguiu: “Como é proibido, por Lei, derrubar castanheiras, elas ficam assim, separadas delas mesmas e da selva”. Observei aquelas árvores solteiras e percebi que algumas de suas ilhas verdes tinham secado. “Parece que elas escaparam, mas estão morrendo, não é, Miguel?” “Pois é, no conjunto elas tem o besouro que, através das plantas e dos cipós, faz a proliferação. Assim, isoladas, o besouro não consegue alcançar a copa e, aos poucos, elas vão morrendo”. “Qual é o tipo de besouro?” “É o mungangá”. “Ah, sei, o cavalo-do-cão, que também reproduz o maracujá rasteiro ou sobre as árvores”. Tufic riu um pouco e disparou: “Esse aí é um cavalo do Nordeste”. Percebi que estava entre um acreano e um boliviano e falei um trecho de cantiga do meu livro Guriatã – um cordel para menino: “Manda música, maestro, / moda má, música má, / mau mestre, muita munganga, / munganguento mugangá”. Tufic aproveitou a deixa e disse algumas cantigas do seu livro: A insônia dos grilos. A partir de então a viagem se tornou um recital.
Fotografia de Altino Machado

Depois que atravessamos a ponte e chegamos a Cubija, a cidade também já era outra. “Em Rio Branco, eu só reconheci o Rio Acre, acho que, de Cubija, se Tufic comprar todos os uísques que pretende, só vou reconhecer a alfândega” – eu disse e quase não aconteceu outra coisa, pois, além das bebidas, ele apenas comprou diversas camisas de seda. “O seu caso, Tufic, ao que parece, é de seda e sede” – eu provoquei e ele consertou: “Ao inverso: é de sede e de seda”. Aproveitei o seu “inverso” e, novamente, passamos a dizer algo “in verso” ou “em verso”. Miguel visitou o amigo e ex-governador do Estado de Pando, Felipe, que, com a esposa, Marilu, nos levou à parrilhada. Tufic quase não comeu, em compensação, esgotou, sozinho, mais do que um quarto de uma das garrafas.

De volta, eu disse a Miguel: “Comprei tanto bagulho, que tive de comprar uma mala”. “Pois é, Tufic já leva a dele, como um camelo”. Tufic não respondeu. Voltei-me do banco dianteiro e Miguel percebeu pelo espelho que Tufic sonhava. Tirei a máquina da sacola e fui fotografando aquelas castanheiras tristes, da beira da estrada, como se quisesse que elas não morressem. Para cada foto, Miguel diminuía a velocidade. “Era bom que fosse assim, Miguel, que tudo passasse, ficasse para trás, mas as árvores estão na máquina e na memória”. “Pois é, e o pior é que ficarão mais na memória do que na máquina”. Tufic acordou de repente e perguntou à-toa: “Vocês estão falando de máquina ou de memória?” “Da máquina da memória e da memória da máquina, Tufic” – eu disse, enquanto Miguel desviou de um buraco e Tufic, com a vantagem do tombo, regressou ao seu sono, ou seu sonho, de poeta.


> Marcus Accioly é um dos mais expressivos poetas brasileiros do Nordeste. É formado em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco e pós-graduado em Letras - Teoria Literária - pela Universidade Federal de Pernambuco, onde também foi professor. Em 1980, Guriatã, ganhou o Prêmio Fernando Chinaglia, concedido pela União Brasileira de Escritores. Em 1985 recebeu o Prêmio de Poesia, pelo livro Narciso (1984), concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Artes, e o Prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras, também por Narciso. Desde 2000, ocupa a cadeira deixada pelo escritor João Cabral de Melo Neto, na Academia Pernambucana de Letras.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

SENHORES DEPUTADOS DA TELEXFREE

   Clamem por justiça para o povo haitiano, aqui.
Alojamento de imigrantes haitianos em Brasiléia, Acre.
Foto: Luciano Pontes/ Secom (15/01/2014)

RENOVAR-SE É REVITALIZAR A VIDA

Luísa Lessa


E assim como no dicionário, acredita-se que renovar é trazer para si novas expectativas, novas visões, preencher com o novo as lacunas que estão abertas nas nossas vidas ou que estão deixando a desejar.  Sabe-se que a atitude de renovar algo que não está dando muito certo em nossas vidas é algo que somente a própria pessoa pode fazer, com coragem, determinação, sinceridade, persistência.

Quando alguém decide renovar sua vida, seja lá por qual motivo for, aparece uma força interior que impulsiona e mostra o caminho a seguir. Essa é a essência da renovação agindo sobre a pessoa que deseja mudar, melhorar em tudo. É necessário ter vontade, ativar as energias, trazer os sonhos para a realidade, renovar ideias, planos, projetos, desejos, moldar o pensamento para as novas metas.

Renovar-se é uma espécie de magia, surge na mente e a pessoa tem que abraçar-se a ela, contagiar-se pelo espírito de mudanças, das ideias novas dos caminhos a seguir. Esse rico manancial do mundo das ideias é infinito nas suas possibilidades. É suficiente a pessoa estar em sintonia para essa força essencial que todos têm na vida. Para uns adormecida, para outros que brota de modo inesperado, por uma razão qualquer. Importante é sentir e agir!

Assim, quando nos questionamos sobre nossas vivências, é possível perceber se estamos vivendo nossas experiências de maneira favorável, se estamos evoluindo nas direções esperadas, desenvolvendo nossas capacidades e gerando situações positivas para a efetivação das almejadas conquistas, ou se ainda estamos parados girando em falso, percebendo que não se está indo a lugar nenhum. E, se for assim, é hora de reconhecer e permitir que o fluxo da essência da renovação se manifeste dentro de nós. E se a pessoa ainda não foi tocado pela essência da renovação e das possibilidades de mudar é hora de parar, pensar, refletir sobre a vida, aquilo que tem maior valor afetivo, espiritual, emocional. É hora de se perguntar: está no caminho certo? É isso mesmo que deseja? Ninguém vai a lugar algum se não sabe aonde quer chegar, essa é uma lei universal. É preciso ter metas, dar atenção e valor às habilidades, construir, realizar, sonhar. Assim, ao usar a essência da renovação a cada momento, a pessoa despertará sempre para novas ideias que vão mover potenciais em direção aos sonhos e metas.

É fundamental movimentar a essência da vida segundo as habilidades pessoais, sempre com justiça, lealdade, pureza, visão de futuro, promovendo, desta forma, a materialização das conquistas que deverão estar de acordo com as leis universais, onde cada um pode promover a prosperidade na essência da renovação. O segredo para criar e manter uma verdadeira mudança no comportamento está em conseguir se motivar e permanecer motivado. Viver bem consigo mesmo é o princípio, meio e fim da Paz.


Luísa Galvão Lessa – acreana de Tarauacá, é pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro da Academia Acreana de Letras; Pesquisadora PVNS – CAPES.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

JOSÉ LOPES MARQUES: DOIS SONETOS SOBRE A VIDA E A MORTE

O MONÓLOGO DO ZIGOTO
José Lopes Marques

É o Beta evidência do meu ser,
Neste mundo estou e dele ausente,
E o líquido amniótico envolvente,
Minha metamorfose a tecer

O meu grito ainda é tão silente,
Mas sou eloquente em meu dizer,
Tenho o véu placentário a me envolver
E nutrindo meu ser constantemente.

Sou a parte que ao todo contraria,
Meu crepúsculo vital e inquieto,
Tem na plena potência o seu guia.

Desconheço o nome predileto,
Mas sou batizado a cada dia
Por ovo-zigoto, embrião, feto.

Dedicado ao meu filho Tomás quando ele era ainda uma minúscula centelha da existência confinada ao ventre materno. Belém-PA, maio de 2007.

***

É o tocar da última melodia,
pálido som da triste carpideira,
pranteando a viagem derradeira
e a entrega do corpo à cama fria.

Os sentidos entregues à cegueira,
pois a lira imponente silencia,
sol fulgente descansa ao fim do dia,
na antítese da sensação primeira.

Já se faz o mover petrificado,
rio venoso do corpo ‘se evapora’,
o intangível penetra o outro lado.

A fatídica e inexorável hora,
traz a morte com seu funéreo fado,
neste instante toda existência chora.

Belém-PA, agosto de 2006.


> José Lopes Marques é escritor e poeta acreano, nascido em Tarauacá. Formado em Teologia pelo Seminário Batista do Cariri, em Filosofia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), especialista em Ensino de Filosofia (UFC) e mestrando em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará. Além disso, é professor de Filosofia da rede pública do Estado do Ceará e da Faculdade Batista do Cariri. É autor de Diário de Sonhos do Doutor Satírico (All Print, 2013).

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

SALVE! SÃO SEBASTIÃO!

Isaac Melo


A moça, um tanto simpática, foi nos conduzindo por entre as catacumbas terra abaixo, enquanto o clima escaldante de Roma cedia lugar a uma temperatura enregelante, depois de uma longa caminhada pela estreita e milenar via Appia Antica. À medida que avançávamos por entre túneis estreitos e labirintosos, ela parava e nos assinalava uma ou outra tumba, acentuando a diferença conforme as condições sócio-econômicas de cada um, ou se era pagã ou cristã. Ainda estão lá as lâmpadas que alumiavam as tumbas, as ânforas de azeite, as pinturas, os símbolos sobrevivendo às mãos esfaimadas do tempo.
Via Appia Antica
Explicações para cá. Explicações para lá. Por mais que me agradassem, não era o ponto de vista histórico, nem arqueológico que me impulsionava naquele momento, e sim o da fé. Era a história de um soldado romano do II século que me atraía. Subimos uma pequena escada que dava para um salão mais amplo, porém sem nenhum ornamento. Sob um rústico altar, sustentado por quatro colunas, se encontrava um sarcófago de pedra. Na fadiga de quem já contou tal história centenas de vezes a centenas de peregrinos e turistas, a moça anunciou, sem muito entusiasmo, que ali estavam os restos mortais do mártir Sebastião.
Num deslize da guia, pois é proibido, conseguir sacar esta fotografia, tendo ao fundo,
sob o altar, o sarcófago com os restos mortais do mártir Sebastião.

Não se sabe com precisão a história de São Sebastião. Também é difícil separar os fatos históricos das lendas, que, com o decorrer dos séculos, se propagaram. O certo é que desde cedo o local se tornou um ponto de convergência e peregrinação de inúmeros cristãos, e que se estende até os tempos hodiernos. São os mistérios da fé. Talvez kierkegaard tenha razão, a fé é um salto no escuro. É a coragem de se lançar, mesmo não tendo certeza alguma. E, paradoxalmente, nessa ausência de certeza racional é que consistiria a salvação.
Basílica de São Sebastião ad catacumbas.
A Basílica está erguida sobre as catacumbas.

Duramos pouco junto à tumba do santo que um dia fora traspassado por flechas por se confessar cristão. Continuamos a percorrer aquelas passagens estreitas e pálidas. Durante os primeiros séculos, o cristianismo era uma religião ilegal e perseguida. As frias catacumbas serviam como lugar seguro para os cristãos se reunirem e celebrarem. Aí nas paredes e em lascas de pedras estão inúmeros escritos desse tempo, sobretudo, referindo-se a Pedro e Paulo, cujas relíquias foram trazidas para essas catacumbas, por volta do ano 258, para serem protegidas da invasão dos sarracenos.
Uma das flechas, segundo a Tradição, utilizada no martírio de Sebastião.
Catacumba é um termo cunhado a partir dessa tumba de São Sebastião ad catacumbas, tido como uma das tumbas mais conhecidas e visitadas de Roma. As catacumbas eram cemitérios subterrâneos utilizados pelos primeiros cristãos antes do Edito de Milão, a partir do qual o Império Romano se manteria neutro em relação ao credo religioso. Com a passar dos tempos catacumbas passou a designar todos os cemitérios cristãos subterrâneos. O aspecto rude e sem muita beleza no interior das tumbas vem da concepção cristã da vida eterna após a morte. Esta seria apenas uma passagem. A tumba servia apenas de descanso ao corpo, à matéria, sendo restabelecido e plenificado na ressurreição, a exemplo do próprio Cristo.

Minha admiração pelo mártir Sebastião se intensificou a partir de uma pequena comunidade católica encravada em plena selva amazônica. O seringal Capela, no Rio Muru, distante um dia de barco de Tarauacá, realiza a cada 20 de janeiro, anualmente, o novenário dedicado ao ex-soldado romano. Sobretudo nas últimas três noites o número de peregrinos dobra na pequena localidade. Nesse longínquo ermo, a milhares e milhares de quilômetros de onde vivera o santo, Sebastião revive no pensamento daquela gente simples, que talvez não saiba muita coisa dele. Aí acorrem não pelo santo em si, mas, em sentido mais profundo, por aquele anseio maior que reside no mais profundo de cada um, Deus.
Estátua em mármore de São Sebastião (1672), obra do escultor Giuseppe Giorgetti.
Basílica São Sebastião ad catacumbas.

A Igreja nos apresenta os santos como fonte de inspiração, um sinal de que a mensagem de Cristo pode ser vivida, apesar das fragilidades humanas, podendo estas também ser superadas. Atualmente vivemos uma inversão, em que a inspiração, no sentido ético, foi sobrepujada pela intercessão. Fazer milagre parece ser a única razão dos santos. Sendo que o verdadeiro milagre talvez se iniciasse com uma sincera mudança interior do nosso jeito de ser e de se relacionar com o que vemos e o que não vemos. Infelizmente abundam os vendedores do templo, os milagreiros, que barateiam a graça e a negociam como se Deus fosse um mero joguete ao nosso bel prazer. Por outro lado, os profetas escasseiam, enquanto padres-shows abundam entre plumas e paetês, a alimentar o povo com pão e circo, em vez de oferecer e propiciar o verdadeiro Pão da Vida.

Sou grato às pessoas do Seringal Capela, pois o meu rosto é semelhante aos seus. Sou grato ao mártir Sebastião. O homem antes do santo. O santo porque profundamente viveu sua humanidade. Humano é o que sou. Ser humano é o que me ensina Sebastião. Por me reconhecer plenamente humano é que o divino a mim começa a se desvelar. O amor de Deus nos vem não porque somos santos. O amor de Deus nos envolve porque antes somos humanos. A grandeza humana é reconhecer sua pequenez. Só quem é pequeno pode caber no coração de Deus.


> Imagens de arquivo pessoal.
> Texto publicado em 5/7/2012.

UMA MULHER DECIDIDA E UM MOLEQUE DANADO

José FARHAT


Falemos hoje de aviação. Pesquisando para comemorar o primeiro voo solo de Amelia Earhart, de Hawaii à Califórnia, em 11 de janeiro de 1935, distância mais longa que aquela que separa os Estados Unidos da Europa, pousei na Encyclopaedia Britannica e acabei voando na lembrança de minha própria ligação com a aviação, desde o dia da chegada do primeiro avião que pousou em águas de Rio Branco, no Acre, um ano e quatro meses após o voo de Earhart, o que me levou ao site Alma Acreana onde encontrei alguns detalhes deste último fato histórico.

A narrativa do acontecimento pelo site Alma Acreana mereceu alguns reparos e escrevi para os editores do site e eles publicaram a minha versão sobre quem primeiro gritou ao ver um avião no céu, um pontinho no horizonte.

Um primeiro avião, da estadunidense Panair, fracassou numa tentativa de amerissagem em Rio Branco e, meses depois, a companhia alemã Condor teve sucesso.

Hidroavião Taquary
Era o dia 5 de maio de 1936 quando eu, nos meus 8 anos e 7 meses, gritou olhando para o horizonte: “Lá vem ele” e o hidroavião Junker-W-34, monomotor, apelidado de Taquary, amerissou “com dois botes de alumínio pendentes de seu delgado corpo e com asas largas e compridas no Estirão de Bagé” relata o Alma Acreana. Seu prefixo era PP-CAP. Larguei a mão de meu irmão Hechem e fui pulando até a beira do rio Acre e, moleque danado – que surripiava (para mim era pedir emprestada para aprender a remar) canoas dos seringueiros que vinham entregar borracha para seu pai - pulou em cima do bote, antes mesmo de um soldado amarrar o avião num toco de madeira afundado à margem. A impressão com a qual fiquei e guardo sempre, além obviamente do avião, é como era gigante o piloto alemão Frederico Hoepken e como minúsculo era eu com meus poucos palmos de estatura; comparo-me hoje ao Petit Nicolas de frente para os adultos que fizeram parte de sua vida em casa, na rua e na escola.

A aventura aeronáutica acreana não ficou por aí e, junto com Otávio Bonfim de Oliveira, exemplo de garoto bem comportado, construímos um avião com duas caixas, nas quais eram importadas do outro Brasil para o Acre as cervejas produzidas em Belém, e duas folhas de zinco formando as asas. Otávio arrumou um quepe e se tornou o comandante. O avião decolava voava, voltava amerissava ou pousava, para nós, enquanto não saia do chão, nos baixos da residência de Dr. Mário de Oliveira.

Minha vida seguiu seu rumo e, quando cresci, vendi aviões comerciais durante 12 anos, já tinha um brevê do Líbano e tirei outro aqui mesmo, no Campo de Marte em São Paulo, e continuo, aos 86 anos, interessado em tudo o que se refere a avião e aviação. Para que se tenha uma ideia do quanto estou ligado, passei o dia chateado porque uma transportadora aérea da Arábia Saudita comprou uma dezena de aviões Bombardier do Canadá preterindo os aviões da Embraer que tanto sucesso têm apresentado na região; reminiscência de vendedor que perdeu uma venda, talvez.

Amelia Earhart (1897-1937)
Voltemos, e já é hora passada, à primeira homenageada de hoje, a esta mulher decidida e corajosa que foi Amelia Earhart (nome completo: Amelia Mary Earhart), nascida em 24 de julho de 1897, no estado do Kansas, nos Estados Unidos, e desaparecida no dia 2 de julho de 1937 perto da Ilha Howland, no oceano Pacífico Central. Esta aviadora estadunidense, afirma a Britannica, foi “uma da mais celebradas em todo o mundo, sendo a primeira mulher a voar solo sobre o Atlântico”.

Earhart mudou-se de cidade em cidade frequentemente, com sua família, e completou o colegial em Chicago em 1916. Foi enfermeira militar no Canadá durante a I Guerra Mundial e assistente social na Denison House, em Boston, depois da guerra.

Contrariando o desejo de sua família, aprendeu a voar em 1920-1921 e em 1922 comprou seu primeiro avião, um Kinner Canary de segunda-mão, biplano de dois lugares, pintado de amarelo vivo que Earhart apelidou de “Canário”, com o qual registrou o primeiro recorde feminino em altitude, voando a 14.000 pés (4.267,2 m).

Earhart tornou-se, entre 17 e 18 de junho de 1928, a primeira mulher a voar sobre o Atlântico, entre os continentes que o oceano separa, americano e europeu, mas era somente como passageira em um avião Fokker trimotor, pilotado por Wilmer Stultz e Louis Gordon. Ao voltar, e no mesmo ano, publicou suas memórias deste voo num livro intitulado 20 Hrs., 40 Mi, referência ao tempo de duração do voo.

Nem seu casamento, em 1931, com o publicitário George Palmer Putman, impediu-a de continuar sua carreira sob o seu nome de solteira corroborando o que me disse um velho lobo do ar certa feita no aeroporto de Bauru onde fui treinar: “Voar, é cachaça”.

Mulher determinada e para justificar a fama que lhe trouxe o voo sobre o Atlântico, ela entrou na cabine de seu Lockheed Vega e voou sozinha, de Newfoundland para a Irlanda, um voo que estabeleceu o recorde de tempo de 14 horas e 56 minutos. Depois deste voo, ela escreveu outro livro: The Fun of It (1932).

Intrépida, ela empreendeu uma série de voos através dos Estados Unidos, o que a colocou à testa de um movimento que encorajou o desenvolvimento da aviação comercial.

Como era de se esperar, ela também tomou parte ativa no esforço de abrir a aviação para as mulheres e acabar com a dominação masculina no setor; o que de certa forma as mulheres ainda lutam e quando conseguem brilham.

Foi em 11 de janeiro de 1935 que ela fez o voo solo a que nos referimos no início deste artigo, de Hawaii à Califórnia, superando, devido à maior distância o seu voo da América à Europa. Corajosa, ela foi a primeira pessoa a ousar tomar esta rota perigosa onde muitos morreram e ter sucesso.

Não contente com as realizações, até então, a arrojada Earhart, acompanhada de Fred Noonan como navegador, ela iniciou, em 1937, a bordo do bimotor Lockheed Electra, para um voo ao redor do mundo. Completados mais de dois terços de distância de seu objetivo, seu avião desapareceu no Pacífico central, próximo à Linha Internacional da Data.

Seu desaparecimento misterioso levantou muitas questões e especulações a respeito dos acontecimentos que o cercaram, mas a única verdade é que os fatos continuam desconhecidos.

Hoje temos aviões que voam de qualquer lugar, percorrem continentes e voltam a pousar nos pontos de partida e voar para e de Rio Branco é comum, o que não tira a importância dos dois fatos aqui apontados.


> José FARHAT é formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É diretor de Relações Nacionais e Internacionais do Instituto da Cultura Árabe. Acesse aqui o site de José Farhat.