terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A REVISTA

Luiz Felipe Jardim


Isaac, não sou muito de andar jurando, mas juro que esta eu ouvi, no consultório da oftalmologista, de um paciente que se preparava para fazer uma medição de pressão:

“Doutora, eu só vou lhe perguntar uma coisa: a senhora só tá querendo mesmo é bater retrato dos olhos da minha cara, né?...

Eu ando muito cismativo, doutora... É que um tempo desse fiquei sabendo que eu e todos cidadãos eleitores da nossa nação do Brasil tinha a obrigação de bater um retrato do dedo fura-bolo. Tava escrito na notícia, que a minha filha leu pra mim, que o dono do número do meu título – que sou eu mesmo - tinha que ir bater as chapas lá nas máquinas de tirar retrato de dedo do TRECO do Acre, naquela Justiça dos políticos, dos candidatos das eleição, num sabe?

Pois bem, no tempo certo, antes de me abalar lá do seringal, lá da margem aqui pra cidade, eu rodeei o meu dedo num pano de algodão bem limpim, e deixei ele ali, bem guardadim por mais de uma semana, pra ele ficar bem preservado e aparecer bem apresentado na hora de bater as poses.

Quando eu cheguei lá, doutora, lá no TRECO, lá no lugar onde eles bate os retratos, tirei os panos do fura-bolo que já tava tinindo de reluzente, todo ganjento por que ia aparecer naquelas máquinas modernas de fazer paisagem... Só que, depois de batido o retrato, a dona escrivona disse que tinha que bater pose dos outros dedos também... de todos os dedos... dos dedos das duas mãos!!!

Eu fiquei meio cismado porque tinham me falado que as autoridades da justiça queriam bater a chapa era só de um dedo mesmo, do fura-bolo da mão direita... Mas que nada, tinha que tirar do dedo mindim, do seu-vizinho, do maior-de-todos, do cata-piolhos... Se eu soubesse que a chapa era dos outros dedos também, tinha preservado eles um pouquinho mais, num sabe?  Mas, como a escrivona tava insistindo muito, com uma cara muito atraente, e como num custa nada eu fui deixando...

Depois de bater a chapa da cabeça do último mindinho, ela olhou pra mim com a cara mais deslambida e disse: “agora vamos tirar a fotografia do seu rosto.” Eu disse “o quê? Da minha cara?” E ela: “sim do seu rosto até o peito, uma foto três por quatro...”

Se eu já tava meio encismarado, fiquei meio encismarado e meio duas vezes a três por quatro com aquela notícia... Desabotoei aquela camisa imaginária que carregamos nos pensamentos, enfileirei os seus botões e fiquei imaginando, matutando ali de junto deles: Ora, eu cheguei aqui preparado para bater a chapa de um só dedo da mão; depois tirei retrato dos dedos todinhos; agora já tão com arrumação de bater pose da minha cara toda e do meu peito também... Eu tô achando que essa escrivona tá tirando retrato é pra botar naquela revista...

Foi então que eu olhei bem sério pra dona escrivona e disse: dona menina, me diga uma coisa, a senhora não tem uma cabinezinha mais discreta, mais reservada pra hora de tirar os meus retratos pelado?

...

Por isso doutora, eu vou logo lhe perguntando: a senhora só quer mesmo é bater retrato dos olhos da minha cara, né? Olha que eu não quero aparecer naquelas revista dos plaiboio, não, viu”?
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