domingo, 12 de abril de 2015

QUEM PARIU MATEUS QUE O BALENCE

Valdeci Duarte*


Eis o meu pedido de perdão. Eu sou aquele que quando você nasceu não tinha muito a oferecer: nem açúcar, nem café, nem pirão. O que tinha foi seu. Lembra-se das palavras e da sopa de letrinhas? Era o que podia oferecer.

Naqueles dias eu era um cabeçudo e ainda era do grupo do ppf. Leia-se: pobre, preto e feio. Hoje só tenho o “p” de preto porque pobre e feio, já não sou mais. Assim dizem as minhas mulheres. Desde que larguei de ser pobre elas são enfáticas em dizer que sou lindo.

Quando sua mãe me falou de você, o chão sumiu dos meus pés. Fiquei um tempo alarmado com essa possibilidade. Louco quis sumir no mundo. Parei e refleti como seria ter um filho como você. Um menino, um rapaz, um homem inteligente, bonito, saudável, charmoso, filosoficamente interessante. Decisão certa a que tomei: não abri mão de você. Como não ter motivos para mostrar os dentões por aí ao ouvir das pessoas sobre você?

Foi uma loucura o tempo da sua gestação, mas nove longos meses depois, você nasceu. Sai correndo para lhe ver e lá chegando fiquei com cara de bobão, sem ter o que dizer. Você já era lindo. E mais, era meu filho, o primeiro de toda a reca que teria.
Não acreditei quando sua mãe desistiu de você. Observe que você sempre foi único, tão único que até hoje, em 14 anos, não encontrei ninguém igual. Se não tivesse largado você hoje ela seria rica, porque o seu valor muito excede ao de uma joia preciosa.

Não vale a pena lembrar que um dia alguém desistiu de você. Deus não desistiu de você. Eu não desisti de você, mesmo no tempo de vacas magras, raquíticas, muito magrinhas, vi a sua preciosidade. Calei quando alguém debochava de mim ao dizer: Você não é o pai? Pois então, quem pariu Mateus que o balance.

Nesse tempo estava no fundo do poço. Tateava nas paredes escuras e não via saída e quando ouvia isso ficava só remelando os olhos pelos cantos ou no fundo da rede. Foi uma jornada silenciosa, mas não desisti. Hoje tenho orgulho de você.

Quando tive oportunidade, não desisti. Agora que você está mais carnudo, uma pessoa grande, inteligente, crescida, criada, intelectualmente decidida e disposta a obedecer a Deus, que motivo teria para desistir de você?

Se algum dia você quiser ir embora que vá. Não olhe para trás e nem se despeça de mim. Apenas não esqueça, nunca esqueça que o velho aqui o ama e hoje é muito tarde para deixar de amá-lo.

Fica mais um pouquinho aqui. Perto de mim é o seu lugar. Se decidir ficar, mudarei de direção. Vou pausar de escrever poemas e quem sabe, especialmente para você, compor uma canção.

A sua titia e sua vovó, sempre que se referiam a mim, diziam “quem pariu Mustafa que o balance”. Eu não pari você, mas nessa jornada, descobri que melhor do que gestar alguém por nove meses é estar junto e em toda a vida cativá-lo.

Assim fez a sua nova mãe que sem ter lhe carregado no ventre, decidiu o amar e adotá-lo como seu. Ela não gerou você, mas muitas vezes o balançou. Os papeis estão passados, assinados, carimbados e sua velha história apagada e jogada no lago do esquecimento de Deus.

Já tinha decidido não chorar, nem remelar os olhos com a sua partida, mas como posso controlar essas coisas? O sol está se pondo, a noite está chegando e mais um dia não aprendi a viver sem você. Como viver sem chão? Volta para casa, filho. Eis o meu pedido de perdão.


*Escritor e poeta brasileiro do Acre

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