segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

EU E O RIO

Océlio de Medeiros (1917-2008) 

Eu contigo me pareço,
sou poesia e lamento:
de bobuia subo e desço
carregado pelo vento.

Sou Acre, sou o triste rio,
meu sangue são sujas águas,
sou batelão, sou navio,
sou balsa amarrando mágoas.

Fui lenho rezando ao céu,
sou balseiro das tuas águas
que a alagação leva ao léu
arrastando as minhas mágoas.

Sou também teu lodo imundo
e o tijuco do teu leito,
ainda há um poço profundo
bem no fundo do meu peito.

E à tua margem sob um banco
ainda cismo a tarde inteira,
sou capim do teu barranco,
sou canarana da beira. 

Rio Branco, 1942


MEDEIROS, Océlio de. Jamaxi: a poesia do Acre. Rio de Janeiro: Arquimedes, 1979. p.319