sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

DOIS POEMAS DE ALTINO MACHADO

CEMITÉRIO CÊNICO 
Altino Machado


A crueldade
opaca da melancolia
tomou o cemitério em seus braços
e acalentou os mortos
com o estridente réquiem
que ficou gravado no peito amargo
das melancolias
das necrópoles inertes!
Estão os mortos nefastos
adormecidos, embriagados
dormiram perpetuados na esperança
necromântica, romântica
do necrólatra e necrófobo que sou:
AL-MA 


COMO MENINA QUALQUER
Altino Machado

Para Iane Machado, irmã menina. 

Que oculta a menina
quando desmorona sobre a terra
um véu escuro
com rascunho de estrelas e luas
que a dita desenha e não desvenda?

É isto diabruras
amargando o leite
explodindo da mamadeira.

Mas hoje a danada costurou/bordou
enxotou a molecada
falou de sonhos
gritou por fadas
que até chorou.

Tudo era tanto
que de raiva
garatujou no chão
com carvão
animais de rabo e raça
indiscutivelmente o saci-pererê e o cão.

Que teme a menina
quando bate-se sobre seus bonecos
cólicas de fome
que os bonecos libertam
e as bonecas retomam?

É isso mistério!
coisas de criança
pois a danada entra em casa
amaldiçoa bonecos
desdobra lençóis
revê palhaços
e os arremessa na lama:

porém hoje
feito chave
abriu a porta
fechou o quarto
abriu a sala
trancou a casa ( sem esquecer a cozinha)
e suicidou
na fundação do bem estar social.


REFERÊNCIAS
MACHADO, Altino in Algumas Poesias Acreanas. Rio Branco: SESC; Recife: FUNDAJ/Editora Massangana, 1982. p.11
MACHADO, Altino in CARLOS, Jorge (org.). Coletânea de Poesias acreanas. Rio Branco: Cia. Teatro 4.º Fuso, 1981. p.51-52
 
ALTINO MACHADO nasceu em Cruzeiro do Sul, e reside na cidade de Rio Branco-AC. É um dos mais respeitados jornalistas do Acre. Já foi repórter dos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo. Embora não se considere um poeta, Altino fez algumas publicações a partir da década de 1980 em algumas antologias de poetas acreanos. É editor do conceituado Blog do Altino e jornalista responsável pelo site de notícias ContilNet.

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