sábado, 4 de junho de 2016

ZUNGA E A FIGA

Luiz Felipe Jardim 


Quando Roberto Carlos esteve em Rio Branco, quatro amigos e eu, na condição de membros do Jornal O Pop, participamos de uma entrevista exclusiva que ele deu ao nosso jornaleco do Chico Pop. Logo após o almoço, mas ainda durante a sobremesa, em volta de várias mesas reunidas no hall o Hotel Rio Branco, Roberto e o RC7 nos brindaram com longos mais de trinta minutos (o combinado seriam somente dez) de bom papo e trocas de impressões. 

Entre as duas ou três perguntas que fiz uma permaneceu, por muito tempo, viva em mim. É que num momento bem relax do encontro, perguntei ao Brasa se ele havia feito a música ‘Debaixo dos caracóis dos seus cabelos’ para Caetano Veloso. Roberto mostrou-se um pouco menos à vontade; acendeu e deu uma longa baforada no seu cachimbo; olhou para cima; apontou o dedo para o teto; olhou para mim e, bem sério, falou: ‘Essa música, bicho, eu fiz para um cara que mora ‘muuuiito looonge’. Apontava para o teto como se apontasse para o céu. Falava com a cerimônia de quem falava de Jesus, seu Deus. Me surpreendi com a seriedade que ele assumiu mas, enquanto me surpreendia, de súbito, ele piscou um olho. Piscou o olho e deu um daqueles seus famosos e anasalados sorrisos.

Roberto fora meu ídolo na infância e inicio de adolescência, mas naquele momento já não era mais. Fora substituído exatamente pelos músicos mais afeitos ao ‘ideário’ tropicalista do qual Caetano era protagonista.  Por isso eu precisava daquela confirmação para não ‘matar’ o meu antigo ídolo como queriam meus novos amigos mais ‘politizados’, roqueiros e mpbistas mais radicais. Se ele realmente fizera a musica para o Caetano eu estaria autorizado a intimamente, ainda que menos, cultua-lo congelado na fase ‘jovem guarda’.

E foi a partir dali, dos meus 16 anos, que todas as vezes que eu ouvia a canção Debaixo dos caracóis... eu transformava intimamente a passagem em que ela diz “um dia vou ver você chegando num sorriso” em ‘ um dia vou ver você confessando com um sorriso’.  No meu entender, quando piscou o olho, Zunga dizia que eu estava certo, mas que por algum motivo – talvez pela ditadura, já que Caetano houvera sido exilado - ele não podia confirmar. Aquele olho piscado era, portanto, de cumplicidade. Assim pensando eu estava autorizado a ter Roberto no meu panteão dos ídolos musicais. Mesmo que congelado num passado cada vez mais distante conforme eu escutava a música enquanto o tempo passava.  E foram muitas as vezes que a ouvi. Sempre alterando o sentido naquela passagem. 

E o tempo passou... A ditadura acabou e Roberto falou. Li muitas vezes, aficionado que sou pelas coisas da Jovem Guarda, mas nunca ‘vi’ o Roberto falar de uma forma que gostaria de ver. De ver a tal ‘confissão’.  Até que, depois de tanto tempo... Vi do jeito que eu queria, vi do jeito que eu imaginava. Vi um vídeo em que Roberto ‘confessa num sorriso’ que a música foi mesmo feita em homenagem a Caetano Veloso. 
Foi então que percebi, que quase menino que eu era, não havia percebido o jeito menino com que Roberto resolveu e se saiu de uma aparente inofensiva pergunta que lhe fiz. Ora, naquele momento, por sérios motivos, ele não podia afirmar publicamente a ‘verdade’. Além disso, vivia a fase em que confirmava seu cristianismo compondo músicas como Jesus Cristo, A Montanha e outras assim. Quando Roberto ‘mentiu’ (já que não podia falar a verdade), usou  seu Deus para esquivar-se, para dissimular, sugerindo que fizera a música para Jesus. Isso é falta séria, muito grave para os cristãos: usar a Deus para mentir. Mas ao fazer isso e piscar o olho ele dizia, simultaneamente, não a ‘verdade’, mas que na verdade mentia. Ou seja, ele ‘confessava’ que mentia. De uma maneira transversa, afirmava o que negava. 

O recurso usado pelo Zunga é muito parecido com o que, quando crianças, usávamos (e como usávamos!) quando mentíamos (e como mentíamos!): fazer figa. Simples assim. Como uma piscadela de olho... que, sem dizer a verdade, confessa, dissimuladamente, o contrário do que afirma...
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