Matias Aires (1705-1763)
Caminhamos com pressa e com gosto para o fim;
semelhantes aos rios, que apressadamente correm para o mar, donde perdem a
doçura, e a acabam. (...) O homem muda de lugar, mas não muda o ser de homem; em
toda a parte é o mesmo, em nenhuma é mais nem menos; pode parecer maior, mas
ser, não. O sol ao meio-dia brilha mais, não porque deixe de ser o mesmo, nem
porque então tenha mais luz, mas porque esta faz mais efeito em um lugar, que
em outro; no ocaso, e no oriente é o mesmo sol e a mesma luz, mas não parece o mesmo.
Assim são os homens: em qualquer parte que os ponham, todos são iguais e uniformes;
a diferença que há entre eles, não tem outro fundamento que o que vem da
preocupação e do conceito; são duas coisas, e ambas vãs, porque nenhuma tem realidade.
A fortuna pode armar o homem com hieroglíficos e adornos figurados, mas não o
pode armar senão por fora; quem levantar as roupas, há de ver o engano e a suposição:
não há de achar mais do que um homem como os outros, cujo ornato é pura fantasia,
arbitrária, artificial e separável; a fortuna pode vestir, não pode formar;
sabe fingir, mas não sabe fazer. O mesmo obséquio todo se compõe de um cerimonial
imaginário, mudável, de instituição nacional e variante. O incenso que algumas
vezes é símbolo da vaidade e da lisonja, primeiro que exale o seu perfume,
arde, e no ar se extingue e se consome. Tudo o que nos recreia e nos atrai é
exalação e fumo; por isso o emprego da vaidade toda consiste em dar substância
às vozes, entidade ao modo, e corpo ao vento.
AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.92 e 95
AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.92 e 95
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"Quando se sonha só, é apenas um sonho, mas quando se sonha com muitos, já é realidade. A utopia partilhada é a mola da história."
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