terça-feira, 24 de novembro de 2009

O HOMEM ABSURDO de Albert Camus

Isaac Melo

"Para Camus, o único problema fundamental da filosofia e, verdadeiramente, sério é: o suicídio, isto é, julgar se a vida merece ou não ser vivida".


Albert Camus (1913-1960) foi um homem de muitas faces: foi jornalista, romancista, dedicou-se ao teatro, foi militante político e polemista. Sua vida e sua obra entrelaçam-se de uma maneira fecunda e criativa. São seus sentimentos que impulsionam sua obra, seu sentir frente a um mundo que lhe era estranho, absurdo, mas também fraternal e cheio de sol. É um mundo do absurdo, num primeiro momento, e da revolta num segundo. Ele não é um filósofo preocupado com definições nem com o rigor conceitual, mas com o simples, cotidianos e profundos problemas da existência.

É em O Mito de Sísifo que o tema do absurdo aparece em toda a sua plenitude no pensamento filosófico de Camus. Agora ele problematizará filosoficamente a vida e refletirá sobre ela. O livro começa colocando o único problema fundamental e, verdadeiramente, sério: o suicídio, isto é, julgar se a vida merece ou não ser vivida. Não tem importância maior saber se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias. Tudo é secundário. O homem se sente estranho porque vê-se privado de repente das ilusões e das luzes. É o encontro do exílio, fuga sem conforto e solução, pois, não se tem esperança de se encontrar a tão querida e desejada terra prometida. O sentimento de absurdo consiste, pois, na afirmação do divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e sua decoração. Camus considera que todos os homens sadios pensam no suicídio. Conclui, daí, que há uma ligação direta, lógica entre esse sentimento e a aspiração ao vácuo, isto é, ao nada.

A revelação da morte tem algo de violento e nos transforma. Chega um dia em que nos damos conta de que o homem morre e de que morremos. Uma vez atingida esta verdade, seremos para sempre sua presa. É pela morte que nossa sensibilidade chega ao absurdo. Só depois de termos sidos atingidos de perto, a grande verdade terá significação e não mais se deixará levar ao desprezo. Ela é o nosso acesso à sensibilidade. A verdadeira expressão camusiana é que os homens não são felizes porque morrem. O fato da morte é repugnante à sensibilidade. Por mais que façamos, a morte não pode ser enfeitada. Será sempre “uma aventura horrível e imunda”. A imagem da “aventura imunda” é uma barreira para que sonhemos uma eternidade. O absurdo sensível não é esta constatação da brutalidade de um termo. Mas é a constatação violando o meu desejo de vida.

A atitude essencial do homem absurdo será a lucidez, isto é, uma consciência que não se quer negar. Por isso, o homem absurdo não foge à luta, não despreza a razão. Acha que reúne todos os elementos, os dados da experiência. Contudo, não está disposto a saltar antes de saber. É resultante de sua lucidez, daí não haver lugar para esperanças. Os homens que acreditam na esperança, para Camus, vivem mal neste mundo.

Na última parte do livro Camus fala do antigo mito grego de Sísifo que tinha sido condenado a empurrar sem descanso um rochedo até o cume de uma montanha, de onde ela caía de novo, em conseqüência de seu peso. Para Camus, Sísifo é o herói absurdo, pelas suas paixões bem como pelo seu tormento. O tormento dele é o preço que é necessário pagar pelas paixões desta terra. Camus nos diz que seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível em que seu ser se emprega em nada terminar.

Sísifo sobe e desce infinitamente, sem nenhuma esperança que isso termine. Camus faz da situação de Sísifo uma analogia com a situação de milhares de operários que devem recomeçar seu trabalho cada dia. Mas Sísifo é lúcido e, embora imponente e revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável condição. É essa condição que Sísifo pensa durante a sua descida, pois, para Camus, a clarividência que devia fazer o seu tormento consome ao mesmo tempo também a sua vitória. Camus nos diz que não há destino que não se transcenda pelo desprezo. Ele conclui afirmando que há só um mundo e que a felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra, são inseparáveis.

Sísifo faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens, e ali é que Sísifo encontra sua silenciosa alegria. Seu destino pertence-lhe e é um destino único e pessoal, pois não há destinos superiores. Isto faz com que Sísifo sinta-se senhor de seus dias.

De acordo com Guimarães, o Mito de Sísifo é de fato uma análise da sensibilidade absurda, uma análise racional, que procurar tirar as conseqüências. O absurdo é um ponto de partida e não um estado. Transformar um sentimento em estado é negar qualquer saída e concordar com o que oprime. Fazer do absurdo uma regra é viver no desespero. Camus anota em O Mito de Sísifo várias possibilidades do surgimento do absurdo, sempre em situações corriqueiras, onde é apenas decisivo o exame da inteligência. A consciência da rotina, seguida da indagação do sentido, leva-nos para a sensibilidade absurda. A inteligência dá-se conta de que a existência faz-se no tempo. Compreende a tragédia de jogarmo-nos, constantemente, no futuro. A cada momento aproxima-nos mais do termo e, não querendo o fim, queremos o futuro. O absurdo é a constatação de que o mundo se nos escapa. O absurdo não é nem o mundo nem a Inteligência, mas a relação entre a inteligência e o mundo.

A fidelidade do raciocínio à evidência que o despertou exige a manutenção do absurdo. O salto filosófico é uma empresa condenada. Esta é a lógica que reina no absurdo. A fidelidade ao absurdo é aqui uma fidelidade ao homem. O que obtemos com o salto, aquela certeza de ordem religiosa, ultrapassa a dimensão humana. O homem absurdo quer viver lucidamente. E a lucidez mostra uma realidade que nos rejeita. Rejeitados, talvez seja nossa tarefa rejeitar. Num mundo sem sentido, permanece a exigência humana de sentido. Nada pode ser feito para satisfazê-la. Sou obrigado a manter o caos reinante, mas este caos, este inferno, é meu lugar. Assim me imponho frente a uma realidade que me contraria e frente a qual sou impotente. O confronto do homem com a realidade é favorável ao homem. Ele é o grande inocente.

O homem absurdo tem que viver. Viverá sem apelo, sem esperança. Outra vez não anulará o problema. A tentação seria a negação da consciência: o suicídio. Porém, um absurdo que nasceu da consciência tem que viver como verdade, logo, viver na consciência. A resposta absurda é viver. Viver é então convertido em revolta. A revolta é a manutenção dos dois elementos da questão: considera o real e mantém a consciência. Viver mantendo os dois elementos da oposição é viver a própria oposição. Negando-lhe o que lhe nega, ele se afirma e se faz superior, pois a consciência dá grandeza à revolta.

Sísifo é fiel à sua tarefa absurda. Mas sua fidelidade é consciente e, consciente, faz-se superior aos deuses que o condenaram. Sem esperanças, sem verdades absolutas, sem Deus, o homem é livre. Porém, o homem absurdo se sabe condenado ao que não dura. Aceitando o relativo, aceita a possibilidade. Sua liberdade é disponibilidade, é abertura. A liberdade absoluta será sua criação. Nada se impõe, pois ser livre é criar e examinar todas as soluções.

Por fim, desligado de valores absolutos não será possível procurar viver melhor, mas, unicamente, viver mais. Só o finito da condição pode nos levar a esta paixão. Só a morte justifica o amor intenso pela vida. Viver mais é viver conscientemente. A lucidez faz-nos sentir a vida. Só a consciência conta. Retirados todos os valores, a lucidez é o único valor. Se o absurdo acentua a experiência quantitativa, tal experiência terá que ser qualitativa, consciente, para ser válida. Estão aí as três conseqüências do absurdo: revolta, liberdade e paixão. Três afirmações da vida.



REFERÊNCIAS

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007.

GUIMARÃES, Carlos Eduardo. As dimensões do homem: mundo, absurdo, revolta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1971.

GUTIÉRREZ, Jorge Luis. A revolta do homem absurdo. Revista Ciência & Vida (Filosofia). São Paulo, no. 21, ano II, p. 22-33, 2008.

LEITE, Roberto de Paula. Albert Camus: notas e estudo crítico. São Paulo: Editora Edaglit, 1963.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

LINGUAGEM E CULTURA

Estendo o convite a todo/as a conhecerem o espaço da Profa. Luísa Galvão Lessa, uma das mais competentes estudiosas, na área de linguagem, do Acre. Ela ocupa a cadeira de número 34 da Academia Acreana de Letras. Acreana de Tarauacá, tem Pós-doutorado em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal (Canadá). Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É, ainda,  Membro da Academia Brasileira de Filologia.

Acesse:



Eu ainda sou aquela menina sentada na nuvem, que com flores nas mãos escreve num jardim seus pequenos sonhos. Por tantas vezes se pega sonhando acordada, acreditando que um dia cada sonho se tornará realidade, porque não tem um sonho egoísta, mas um sonho de amor pelo próximo.

Se alguém me perguntasse: “Luísa, como você se define?” Minha pronta resposta seria imediatamente: uma pessoa simples, que sonha e corre atrás dos sonhos. Os meus sonhos começaram quando eu era criança, queria ser professora, conhecer o mundo, andar às margens do rio Danúbio, ter títulos, viajar, ter uma família sólida, unida, feliz. Sonhava em ser independente.Não sonhava somente coisas pessoais para mim, mas sonhava, também, para o mundo! Sei que sonhar não é ficar ali “apenas pensando”, sem fazer nada, esperando que o céu se abra e tudo venha pronto. Sonhar é começar a pensar no que é possível fazer para tornar um sonho, realidade.Isso tenho feito durante a vida. Continuo a sonhar, a procurar realizar sonhos. Afinal, viver é maravilhoso e sonhar é a melhor arma para se obter a felicidade!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O NOME NA PEDRA...

Armando Nogueira *


Eram dois bons amigos. Jogavam futebol todo dia. Ambos atacantes, ambos igualmente bons de bola. Viviam numa fraternal tabelinha, dentro e fora de campo. Tão amigos eram que chegaram a selar um pacto: quem morresse primeiro teria que dar ao outro, com freqüência, notícias lá de cima. Um dia, lá se foi o Amaro, surpreendido no contra-pé por um infarto fulminante, mal saíra de uma pelada.

Passam-se os anos. Amaro não dá o menor sinal de vida – melhor, de morte. Lúcio, cá na terra, já tinha até esquecido um pouco o amigo. Tanto tempo. Cinco anos depois, uma noite, voltando de uma pelada, cai-lhe do céu a voz amiga do Amaro. Batem um papo. Lúcio vai logo contando as boas novas: está namorando uma loura, um avião. A pelada está cada vez melhor e a saúde nem se fala. Saúde de ferro. Lúcio confessa-se em lua-de-mel com a vida.

– Por falar em pelada – disse Amaro – tenho duas notícias pra te dar: a primeira é que vamos inaugurar um campinho aqui no céu. É uma beleza. Grama celestial. Um brinco. Dá gosto de jogar num campo assim.

– E a outra notícia? – pergunta, ansioso, o Lúcio.

– A outra, amigo velho, é que vamos voltar a jogar juntos. Eu vi lá teu nome lá na pedra. Tás escalado na ponta-esquerda do meu time. E o jogo vai ser semana que vem...

*
***
(que situação!!!... risos...)

REFERÊNCIA E SUGESTÃO
NOGUEIRA, Armando. O canto dos meus amores. Rio de Janeiro: Dunya Ed., 1998.

* Obs.: Armando Nogueira é acreano de Xapuri. Jornalista, escritor, apresentador, é considerado um dos maiores cronistas do esporte brasileiro. No Acre, como reconhecimento pelo seu trabalho, seu nome foi dado a uma das escolas modelos do Estado. Logo mais postarei uma resenha sobre o livro citado acima. Aos amantes do esporte, sua leitura é imprescindível.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

SIMPLESMENTE SUBLIME!



Bolero (Boléro, no título original francês), obra mais famosa de Maurice Ravel (1875-1937), é composta de um único movimento. Originalmente composta para um Ballet, a obra, que teve sua première em 1928, tornou-se uma das páginas mais célebres da literatura orquestral do século XX.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

>>>>>>>>>>TERRA ENCHARCADA<<<<<<<<<<

“Não é tristeza o que tenho mulher. É fervor. Fervor com que peço a Deus que nosso filho jamais conheça a afronta e as misérias que recebemos nestas terras encharcadas de água e de ódios e dominadas por homens maus. Que ele o poupe de tais sofrimentos e desenganos!”


Muitos costumam ter uma visão romântica ou até mesmo ingênua em relação à presença do homem na selva amazônica. Primeiro, porque a relação homem/selva nunca foi harmoniosa, pois, até certo ponto, o homem é dominado pela selva enquanto a selva também é explorada pelo homem. Em segundo lugar, devido o fato de que a relação do homem com o outro nos desbravamentos dessas terras se deu sob as mais violentas formas de exploração e injustiças como, muito bem, ressaltou Mavignier de Castro já na década de 50 ao dizer que, ao passo, em que a selva foi despojada pela exploração do homem, o homem também foi explorado por despojar a selva.

Dentre tantas literaturas amazônicas que dão enfoque a essas duas assertivas precedentes “Terra Encharcada” de Jarbas Passarinho desponta como uma daquelas que revelam de forma “realista” e com grande esmero literário o drama do homem com o próprio homem e com o meio em que vive. Diria que Terra Encharcada é o brado do ser humano por aquilo que sempre lhe foi tão caro e sagrado – a liberdade.


Terra Encharcada foi publicado primeiramente no Pará, tendo recebido na época o mais importante prêmio literário do Estado, o Prêmio Samuel Mac Dowell. Em 1968 a Editora Clube do Livro realizava uma nova edição de 30 mil exemplares. Se não é autobiográfico, como ressaltava Israel Novaes, a vivência amazônica do autor garantiu verossimilhança não, apenas, à história: impregnado daquele mundo caótico, barrento, onde, afinal, passou os anos de formação e cruzou de ponta a ponta na vinda inaugural do Acre para Belém.


Jarbas Gonçalves Passarinho nasceu em Xapuri-Ac, em 1920. Ainda pequeno mudou-se para Belém, onde realizou os estudos primários e secundários, e depois transferiu-se para o Sul do país, onde fez Escola Preparatória para Cadetes. Com grande capacidade intelectual Passarinho ascendeu rapidamente na política, tendo sido Governador, Senador e Ministro.

No enredo de Terra Encharcada temos o drama dos retirantes fugindo d’uma terra sem água para uma terra, abundamente, encharcada. Duas situações limites, duas situações extremas. A narrativa gira em torno de Zé Luís, um jovem de 16 anos, que depois de uma série de incidentes, desde a saída do nordeste e o esfacelamento de sua família até sua ida para os seringais, vê-se como “brabo” no meio da floresta amazônica na extração do látex. Como tantos outros, descobre que o mundo que antes se apresentava como uma esperança converte-se, agora, na pior dor humana: a perda de sua liberdade mediante um sistema de exploração e violência, representado pelo seringalista. Embora seja central em Zé Luís, a narrativa, porém, se abre a partir de outros personagens, como é o caso de Cesário, que ocupa, praticamente, boa parte do livro e é responsável pelo ato que culminará com as suas liberdades.

Enfim, Terra Encharcada testemunha a condição paradoxal do ser humano: ser de bondade ao mesmo tempo em que não consegue conter o seu instinto “natural” que culmina com as piores formas de crueldade. Como se registra no prefácio da obra, ninguém emergirá incólume destas páginas, pois ganha-se o conhecimento daquela força, que levou Cesário a conduzir para fora do pântano, da miséria e da doença, o esmolambado exército de “brabos”.

---- < Isaac Melo > ----


REFERÊNCIA E SUGESTÃO
PASSARINHO, Jarbas G.. Terra Encharcada. São Paulo: Clube do Livro, 1968.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

CULTURA SINGULAR



O Festival Yawa que se realizou nos dias 25 a 29 de outubro, com 14 etnias indígenas do Acre.

Pinturas representantivas da cultura Yawa são reproduzidas na pele e faz parte do ritual da festa (Foto: Onofre Brito/Secom)

O Festival Yawa tem duas partes distintas: a lúdica e a espiritual, ambas sempre acompanhadas de canções.



FATO MEMORÁVEL

Hoje, o Acre comemora 106 anos da assinatura do Tratado de Petrópolis, documento de intenção que oficializou a permuta e finalizou a disputa entre o Brasil e a Bolívia em 17 de novembro de 1903 pelas terras onde hoje se localiza o Estado do Acre.

Os negociadores do Tratado de Petrópolis, com Barão do Rio Branco ao centro (Foto: Acervo)



Mais aqui.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

3.1 OS ROMANCES E A PERCEPÇÃO DA CRUELDADE

Isaac Melo


Os romances ganham um status de grande relevância no pensamento filosófico rortyano. O pressuposto basilar para se afirmar isso é que, para Rorty, as descrições detalhadas de variedades particulares de dor e humilhação, descritas, por exemplo, em romances ou etnografias, foram as principais contribuições do intelectual moderno para o progresso moral, e não os tratados filosóficos. Nessa perspectiva, ele afirma: “narrativas dramáticas podem muito bem ser, como MacIntyre sugeriu, essenciais para a escrita intelectual” (RORTY, 2002, p. 14). Os ironistas liberais, como já mencionados no primeiro capítulo desta pesquisa, passam mais tempo situando livros do que situando pessoas vivas, reais. Eles não fazem isso com o intuito de isolar-se do mundo, das pessoas, mas porque temem ficar presos a vocabulários que foram criados por apenas uma determinada comunidade, por exemplo. O contato com a literatura permite a ampliação do nosso número de conhecidos e, conseqüentemente nos permite um conhecimento maior sobre nosso próprio caráter e de nossa cultura.

Rorty vislumbra nos romances elementos fundamentais para se discutir questões contemporâneas tanto na filosofia como na vida “prática” da humanidade. Para ele, a literatura não pode ser menosprezada por se tratar de um elemento ficcional ou por não reivindicar o direito à pretensão de verdade universal, e tampouco de elaborar conceitos. Por isso, ele é categórico ao afirmar que uma literatura que não se conecta com alguma coisa, que não tem nenhum assunto e nenhum tema, que não tem uma moral escondida na manga, e que carece de um contexto dialético, é apenas blábláblá. Isto é, sem valor algum.

Os romancistas, para Rorty, são imprescindíveis para a reflexão moral em nossa sociedade, como é o caso de Charles Dickens, George Orwell e Vladimir Nabokov. Acerca de Dickens, Rorty afirma: “O exemplo de Dickens poderia ajudá-los a pensar no romance, e particularmente no romance de protesto moral, ao invés de no tratado filosófico” (RORTY, 2002, p. 97). De acordo com Rorty, o romance é o gênero no qual o Ocidente alcançou a excelência. Por isso, trazer o foco para esse gênero poderia ajudar a ver não a tecnologia, mas, antes, a esperança de liberdade e igualdade como o legado de maior importância do Ocidente.

Rorty pensa no romance como outra possibilidade de se chegar à filosofia. Ele menciona, por exemplo, Milan Kundera, que pensa no romance como o veículo de uma revolta contra o tratado ontoteológico, de uma reação anticlerical contra o predomínio cultural dos padres ascéticos. Para Rorty, Dickens ilustra bem a sugestão de Kundera de que o romance é o gênero característico da democracia, o gênero mais proximamente associado à luta por liberdade e igualdade. Pois, “Kundera transforma o termo “romance”, grosso modo, em um sinônimo de ‘utopia democrática’ – de uma sociedade futura imaginária, na qual ninguém sonha em pensar que Deus, ou a Verdade, ou a Natureza das coisas, está do seu lado” (RORTY, 2002, p. 105). Complementa Rorty que ninguém sonharia com uma tal utopia ao pensar que há alguma coisa mais real do que o prazer e a dor, ou que há um dever imposto para nós que transcende a busca da felicidade. A tolerância e a curiosidade, ao invés da procura pela verdade, seriam as virtudes intelectuais primordiais dessa utopia.

Por trás dessa discussão está o desejo de Rorty de superação da tradição da metafísica Ocidental, que faz alusão a uma descrição verdadeira que exibe o padrão subjacente em detrimento da diversidade. E afirma ainda, que “todos têm o direito de ser entendidos, mas ninguém tem o direito de ditar regras” (RORTY, 2002, p. 106). Para ele, onde quer que haja um pensador ou poeta, a vida humana está justificada, pois aí algo inteiramente outro toca e é tocado. Onde não houver um pensador ou um poeta, aí o deserto cresce. Essa imagem, precedente, Rorty a empresta de Kundera. Para este, “o romance conhece o inconsciente antes de Freud, a luta de classes antes de Marx, ele pratica a Fenomenologia (a busca da essência das situações humanas) antes dos fenomenólogos” (KUNDERA, 1988, p. 34). Para Rorty, está clara essa insistência de Kundera quanto ao fato de que o romance não possui uma natureza, mas apenas uma história. Para Kundera, o romance é uma seqüência de descobertas: “o romancista não é nem historiador nem profeta: ele é um explorador da existência” (KUNDERA, 1988, p. 43).

Rorty defende, ainda, que muitos elementos de moral podem ser retirados dos romances. Segundo ele, uma sociedade que tenha retirado seu vocabulário moral dos romances, ao invés dos tratados onto-teo-lógico ou ôntico-morais, não colocaria para si mesma questões sobre a natureza humana, sobre o cume da existência humana, ou sobre o significado da vida humana. Ao contrário, ela se perguntaria sobre o que nós podemos fazer para prosseguirmos lidando uns com os outros, como nós podemos arranjar as coisas para nos sentirmos confortáveis uns com os outros, como as instituições podem ser alteradas de modo que o direito de cada um de ser entendido tenha uma melhor chance de ser satisfeito.

Em toda e qualquer era despontam-se a glória e a estupidez, e o trabalho dos romancistas, conforme Rorty, é o de nos manter em dia com ambas. Ao descreverem situações reais ou aqueles que um dia podem vir a ser, os romancistas apontam para muitas situações de sofrimento, dor ou humilhação que a sociedade, muitas vezes, não vê, ou ignora. Por isso, a generosidade da fúria de Dickens, Stowe e King, afirma Rorty, se apresenta como suposição de que as pessoas não precisam passar por uma reestruturação total de seu aparato cognitivo para ser capazes de lidar com o sofrimento alheio. Mas, o que é necessário “é simplesmente que as pessoas voltem seus olhos para aqueles que estão sofrendo e notem os detalhes desse sofrimento” (RORTY, 2002, p. 111). Faz-se necessário perceber o sofrimento alheio, sobretudo para poder evitá-lo.

Nessa discussão acerca dos romances, Rorty se volta novamente para a teoria. Para ele, romancistas como Orwell e Dickens estão inclinados a ver a teoria como algo que está sempre em segundo lugar, ela nada mais é que um propósito particular, a saber, o propósito de contar melhor uma história. Dizer que a teoria é a mais frutífera que a literatura é apenas dizer que, quando nós pesamos o bem e o mal que os romancistas produziram, nós nos descobrimos desejando que tivesse havido mais romances e menos teoria. Nesse sentido, Rorty afirma: “Nós desejamos que todos os líderes das revoluções bem-sucedidas tivessem lido menos livros que lhe dessem idéias gerais e mais livros que lhe dessem a capacidade de se identificar imaginativamente com aqueles que eles têm de governar” (RORTY, 2002, p. 111).


Obs.: excerto do meu trabalho de conclusão de curso intitulado "Richard Rorty: ironia e solidariedade como bases da cultura liberal".

P.S. A primeira imagem faz alusão ao personagem do livro 1984 de George Orwell (1903-1950);
A segunda imagem é do grande romancista inglês Charles Dickens (1812-1870).

sábado, 14 de novembro de 2009

O BREGA POP

Com uma cabeleira pink com mechas multicoloridas e roupas exóticas com fivelões pendurados, broches, e uma brilhante coleção de cintos o paraense Wanderley Andrade é um cara, no mínimo, exótico e um dos cantores mais apreciados no mundo prega pop na região Norte e Nordeste. Lembro que no Acre, um tempo, só ouvia o "Traficante do amor". O programa Global "Ó pai ó", nesta sexta-feira passada, botou um sucesso do exótico Wanderley Andrade, o que me fez lembrar dos velhos tempos do Acre, nem tão velhos assim. Pessoa eclética, ouço de tudo um pouco pra não dizer que sou arrogante. Mas um breguinha de vez em quando, não faz mal a ninguém! (risos).



sexta-feira, 13 de novembro de 2009

ALGUNS OLHARES


Entardecer na Aldeia Nova Esperança, onde é realizado todos os anos o Festival Yawanawá promovido pela comunidade indígena do mesmo nome. A festa marca a reestruturação e valorização da própria cultura pelos índios Yawanawá do rio Gregório e se transforma em um dos principais roteiros etnoturísticos do Acre. (Foto: Onofre Brito/Secom)
*

Imagem aérea do fotógrafo Sérgio Vale faz um registro da região central de Rio Branco onde as construções, novas e antigas, se fundem com a massa verde. A ocorrência de árvores no centro da cidade é devido, principalmente, ao tradicional cultivo de frutas nos quintais e da manutenção de espécies centenárias que ali estão desde a fundação da cidade (Foto: Sérgio Vale/Secom)
*


A terceira maior cidade do Estado, Sena Madureira, está localizada às margens do rio Iaco e fica a apenas 140 quilômetros da capital, Rio Branco. O município que já demonstra crescimento expressivo recebeu no início da sua formação muitos migrantes nordestinos e tem como principais atividades a agricultura, extração de produtos madeireiros e não madeireiros e começa a ver o desenvolvimento se acelerar com a proximidade de conclusão da BR 364 (Foto: Sérgio Vale/Secom)
*

Localizado no Vale do Acre, Santa Rosa do Purus tem em torno de 3,8 mil habitantes e tem como principais atividades econômicas o extrativismo vegetal e a pesca e limita-se com os municípios de Manuel Urbano e Feijó e faz fronteira com a república do Peru (Foto: Gleilson Miranda/Secom)


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

À MESTRA COM CARINHO

Externo aqui o meu profundo agradecimento à orientação da Profa. Dra. Inês Lacerda Araújo que me acompanhou na elaboração de meu Trabalho de Conclusão de Curso, onde recebi nota máxima, com o tema "Richard Rorty: ironia e solidariedade como bases da cultura liberal", o primeiro trabalho de TCC da PUC-PR a abordar a filosofia de Richard Rorty. A professora Inês Lacerda sempre foi uma exímia pesquisadora e uma das mais competentes filósofas do Paraná. A mim foi um privilégio tê-la como mestra.

*

Confira alguns de seus livros:

Foucault e a crítica do sujeito

Neste trabalho constam: de uma introdução para situar suas ideias e sua vida; uma primeira parte em que sãoexpostos e analisados seus principais escritos, num arco que compreende desde História da Loucura na Idade Clássica até os três volumes de História da Sexualidade; o leitor encontrará uma síntese e um comentário crítico de cada uma das obras fundamentais de Foucault. Na segunda parte é mostrada sua filosofia como uma crítica à noção de sujeito de tipo cartesiano, o que demandará apresentação do seu método e do conceito de discurso; na terceira parte é focalizado sua contribuição para o desmonte da ideia de que o poder limita-se a reprimir recorrendo à temática da sexualidade que leva à subjetividade e, surpreendentemente, à da ética; na quarta e última parte é analisado seu pensamento através sobretudo da crítica de Habermas, que é considerada a mais consistente.

Introdução à filosofia da ciência

Suprindo uma carência de bibliografia específica para a disciplina que recebe nomes como Introdução à Metodologia Científica ou Filosofia do Método Científico, Inês Lacerda, professora de Filosofia da UFPR, apresenta aqui uma explanação sobre a filosofia da ciência. Após uma introdução, na qual discute o que é ciência, discorre sobre as correntes da filosofia da ciência contemporânea: neopositivista, dialético-marxista, funcionalista, estruturalista. Também discute como tais correntes abordam a ciência e a relação entre ciência e ideologia, considerando a contribuição de Habermas, Ricoeur, Feyerabend e Foucault para este embate. Por ser obra introdutória, sua linguagem prima por ser de claro entendimento.

Do signo ao discurso
Introdução à filosofia da linguagem

Como as palavras se relacionam com o mundo? Eis aí o velho problema da referência que, desde Platão até Davidson, tem perturbado filósofos, lingüistas, teóricos da comunicação.
Do signo ao discurso – Introdução à filosofia da linguagem aborda as questões, os autores e os temas essenciais para compreender a relação entre linguagem e realidade, palavras e coisas, o problema do significado, de como com as palavras dizemos algo a alguém e somos compreendidos, o papel dos jogos de linguagem e dos atos de fala nos processos comunicativos, a questão da fala como prática humana entre outras práticas. Esses temas são analisados em diferentes perspectivas, autores e escolas de pensamento, num arco histórico que se inicia com a virada lingüística em fins do século XIX e vem até nossos dias, com as teorias do discurso.

*
Livros em parceria:
*

Richard Rorty
filósofo da cultura

Richard Rorty é um dos maiores filósofos da contemporaneidade. Seguindo a disposição democrática dos filósofos pragmatistas que lhe precederam, Rorty não ´elege´ seus temas segundo seu grau de proximidade com a temática filosófica, muito pelo contrário, acredita que não necessitamos hoje em dia desta distinção entre ´temas filosóficos´ e ´temas não-filosóficos´. Tal distinção é propugnada principalmente por filósofos acadêmicos, que cultuam a proximidade entre filosofia e ciência e rejeitam a proximidade da filosofia com temáticas sociais ou contingentes. Para Rorty, e outros filósofos contemporâneos, essa proximidade entre filosofia e ciência mostra-se mais do que esgotada. Sua proposta de filosofia é a de uma filosofia da cultura, na qual o filósofo esteja disposto a dialogar com várias áreas das chamadas ciências humanas, mas, principalmente, com a literatura e a história. O presente livro almeja contribuir para a reflexão em torno do impacto da filosofia rortyana na agenda da filosofia contemporânea. Os autores apresentam diversas facetas do pensamento rortyano, sua discussão com a filosofia da ciência, com a literatura, com a filosofia heideggeriana, com a contracultura, com a educação. O livro fecha com uma tradução de artigo inédito do próprio Rorty acerca da relação entre Wittgenstein e a virada lingüística.

Temas de Ética


A coleção Filosofia, organizada pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR, tem por objetivo levar a público alguns ensaios relevantes para a ampliação do debate filosófico, a partir de pensadores como Aristóteles, Al-farabi, Kant, Schiller, Nietzsche, Freud, Popper, Apele Habermas.


 
Temas de Epistemologia
 
Temas de Epistemologia dá seqüência à Coleção Filosofia. Neste volume, colaboram professores e pesquisadores do curso de Filosofia e do Programa de Mestrado em Filosofia da PUCPR, com suas reflexões e análises acerca do conhecimento em geral e do conhecimento científico, em especial. Como se chega à verdade, como validar e justificar o conhecimento, qual é sua gênese?
Como se verificam, se legitimam e são utilizados os enunciados? Essas questões são abordadas por meio das diferentes perspectivas. Ascísio dos Reis Pereira apresenta a relação entre moral e conhecimento em Locke; Jair Barbosa mostra a diferença entre a ciência e a filosofia segundo Schopenhauer; Francisco Verardi Bocca analisa a estruturação do psiquismo infantil na perspectiva de Freud; Cleverson Leite Bastos enfoca a semântica extencional de Frege; Bortolo Valle destaca o papel que Wittgenstein dá à linguagem; Inês Lacerda Araújo explica a noção de paradigma de Kuhn; e César Candioto enfoca a questão da verdade para Foucault.


***

Os Livros podem ser adquiros nos seguintes sites:

Editora da UFPR
Parábola Editorial
Editora Champagnat (PUCPR)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

FLORENTINA ESTEVES: DIREITO E AVESSO DO MUNDO

“Florentina conhece o Acre. Não apenas por ser acreana
mas por compreendê-lo, interpretá-lo, por amá-lo”

Robélia Souza


Poucos são os escritores que nos causam calafrios quando os lemos. Florentina Esteves se inscreve no rol destes. Alguns de seus textos são tão instigantes, que possibilitam ao leitor vibrar com a própria personagem, sentir suas emoções, angústias, dores, alegrias, à medida que se avança na narrativa.

Um exemplo, nesse sentido, é quarto conto do livro Direito e Avesso, intitulado “O pensamento”, quando Juvenal “pensou o pensamento”, isto é, vê-se em confronto com seu próprio pensamento. Já possui sete filhos, e pensa que seria melhor que o oitavo, que a mulher está a esperar, morresse. Ele abomina esse pensamento, mas ao mesmo tempo não consegue fugir dele. Encontra-se num embate interno, meio psicológico. Para piorar a situação seu filho mais velho (Joel), que tanto lhe auxilia, cai doente e não quer que este morra de modo algum. Viaja à Rio Branco em busca de remédio para o filho. Nos últimos momentos do conto Juvenal sente seu coração acelerar, descompassadamente, quando do retorno, depara-se com cheiro de velas vindo de sua casa e no varal roupas de criança estendida. Angustia-se. Nenhum som provém da casa. Ao voltar o olhar para o interior de sua habitação, ver apenas seu filho Joel a balançar a rede: dentro dela seu irmão recém-nascido. Porém, ele, Juvenal, já não tem mais esposa.

Direito e Avesso (1998) é o segundo livro de contos de Florentina Esteves, e reúne 32 narrativas. Nesta obra, Esteves “conta diversas histórias do povo da mata, com destaque para as personagens femininas. Histórias da floresta e da cidade, registrando os costumes e crendices do Acre”. Na importante obra de autoria da profa Dra Margarete E. P. de Souza Lopes, Motivos de Mulher na Amazônia, esta faz uma importante análise da obra de Esteves focalizando de modo especial a questão da mulher. Todavia, os contos vão muito além da discussão mulher/sociedade, pois abre-se num caleidoscópico de emoções, possibilidades, angústias.

Como leitor, não vejo na obra de Esteves sentimentalismos. E sim, a realidade, muitas vezes, nua e crua, tal como é. Não há moralismo, há situações em que o ser humano deixa entrever seu lado sórdido. E seus contos estão repletos de experiências humanas, por isso, belas e trágicas. É impossível adentrar nos escritos de Esteves e não compreender um pouco mais do que é o ser humano, aquilo que o meio torna-o e as circunstâncias modelam.

Além do mais, Esteves escreve com uma propriedade estrondosa sobre a realidade do Acre: o linguajar, as lendas, e tantas outras coisas próprias da cultura acreana. Em muitos de seus contos temos como que uma pintura da realidade transposta em palavras. Assim é Florentina Esteves, redatora das coisas bonitas de sua terra, sua gente e sua cultura, sem saudosismo ou melancolismo, mas de forma lúcida e instigante, em que a vida sempre se afirma mesmo tendo que transpor os balseiros do sofrimento.


REFERÊNCIAS E SUGESTÕES

ESTEVES, Florentina. Direito e Avesso. Rio de Janeiro: Oficina do Livro,1998.
LOPES, Margarete Edul Prado de Souza. Motivos de mulher na Amazônia: produção de escritoras acreanas no século XX. Rio Branco: EDUFAC, 2006.

*
Sobre O EMPATE leia aqui.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

LUNDU MARAJOARA

Lundu é uma dança de origem africana, assim como seu canto, trazida pelos escravos bantos. O Lundu, do mesmo modo que o "maxixe", eram danças que possuíam uma forma "branda" e a uma forma "selvagem". Essa última, tinha como tema da dança, o convite feito pelo homem à mulher para um encontro sexual. A dança desenvolvia-se, a princípio, com a recusa da mulher mas, ante a insistência do seu companheiro ela termina por ceder. A movimentação era tão carregada de sensualismo e lubricidade que, ao tempo, a Corte, ao tomar conhecimento do fato, solicitou às autoridades a proibição da dança.

No Brasil, com as adaptações locais o "Lundu" sofreu diversas modificações, principalmente na indumentária. Ao contrário do primitivismo africano, apresenta todas as características marajoaras, razão por que passou a ser chamado de "Lundu marajoara". As mulheres se apresentam com lindas saias longas, coloridas e bastante largas, blusas de renda branca, pulseiras, colares, brincos vistosos e flores no cabelo. Os homens vestem calças de mescla azul-claras e camisas brancas com desenhos marajoaras. Os pares se apresentam descalços.

***

Saiba mais aqui.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

EM TRAÇOS E CORES

Uelinton Santana, nasceu em Sena Madureira e passou a morar em Rio Branco desde o primeiro ano de vida. Entrou para o mundo das artes aos 16 anos. Tem orgulho de dizer que vive exclusivamente da sua arte. Uelinton já foi presidente da AAPA - Associação dos Artistas Plásticos do Acre. Expôs mais de 40 vezes em Rio Branco, em diversos espaços. Expôs também em Brasília, Belém e outras capitais. O artista possui obras no Canadá, EUA, Argentina e desenvolveu em Rio Branco diversos cursos de desenho e pintura.









sábado, 7 de novembro de 2009

O ACRE "EM PÍLULAS"

"Ele não é somente um blog acreano. É uma verdadeira biblioteca, é uma fascinante exposição de raridades sobre o assunto, é um riquíssimo acervo do presente e do passado, é o Acre "em pílulas". Alguém deve acordar e republicar tudo, reunindo e transformando tudo isso numa rica coleção literária da memória acreana".

Gostaria, por meio destas palavras, acima, do poeta Anchieta Batista, a quem muito admiro, agradecer a todo/as aquele/as que tem visitado este blog. Sempre recebo mensagens de apoio, agradecimento, sugestões, dúvidas, de afetuosidade etc. Isso não serve para alimentar meu ego (às vezes, sim, rsrsrs...), mas demonstra que nosso trabalho de formiguinhas está no caminho certo. Gosto de literatura, filosofia, das variedades de culturas, de gentes, lugares; do chão onde nasci: desta terra tão sofrida em suas origens e que, hoje, olha com orgulho para seu passado, embora saiba que este, também, está tingido de sangue e sacrifícios.

*
***
Obrigado.
Gracías.
Thank you.
Grazie.
Danke.
Merci.
Gràcies.
Tack.
谢谢.
متشکرم.
Tänan teid.

***
*

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O BRADO DE AUGUSTO MEIRA

A causa acreana, da luta pela incorporação ao Brasil até a sua Autonomia política, despertou as mais diversas opiniões, desde simples seringueiros a ilustres personagens de nossa história, como Rui Barbosa. O ilustre jurisconsulto, estudioso e homem de Letras da Amazônia, Augusto Meira, lançava em 1913 uma obra intitulada “Autonomia Acreana”, talvez um dos mais lúcidos e bem argumentados trabalhos em prol de nossa autonomia. De modo categórico, Meira bradava:

“Quando mesmo viesse algum onus maior, as immensas vantagens recolhidas tudo, em centuplo, compensariam. Isto sóbe de ponto quando é certo que o Acre tem condições de em 10 annos fazer muito mais do que alguns dos nossos Estados tem feito desde 1500” (p. 76).

E mais adiante arrematava:

“A autonomia do Acre é uma necessidade inadiavel. Ella ahi está. Ao governo cumpre respeitar o valor real de seus títulos. Autonomia não quer dizer divórcio da Patria. É a dignificação de um povo que dignificou e que dignificará a patria” (p. 76).

A autonomia, porém, não veio tão fácil. Todavia, é inegável o quanto somos gratos a Augusto Meira, por, antes de tudo, ter compreendido o quanto o povo acreano padeceu pelo chão que hoje calcamos. E que nossa história, não nasceu do arroto de Buda.


Referência e sugestão:

MEIRA, Augusto. Autonomia Acreana. Belém: Typ. Da Livraria Escolar, 1913 (Edição fac-similada, 1983).

Nota: Citações obedecendo a ortografia da época.