domingo, 18 de dezembro de 2022

TRÊS POEMAS DE DORI CARVALHO


Grito calado

 

nos braços da manhã

um corpo de mendigo

 

no berço da tarde

um grito calado

 

na boca da noite

um balaço no silêncio

 

no frio da madrugada

sou inocente metralhado

 

 

O cheiro do povo

 

o povo fede sim

para que os senhores

possam cheirar bem

 

o cheiro do povo

é o cheiro que vem dos senhores

de suas minas e fábricas

caminhões e máquinas

 

para que os senhores

possam cheirar bem

 

 

As tetas do povo

 

fiquem aí os senhores

mamando nas tetas

                                    do povo

enquanto o povo

mama nas tetas das pedras

 

cuidado muito cuidado senhores

qualquer dia

                    as pedras viram armas

qualquer dia

                    a fome vira raiva

qualquer dia

                    a casa cai

 

CARVALHO, Dori. Desencontro das águas. 2.ª ed. Manaus: Editora Valer, 2018. p. 51, 81 E 90

DORI CARVALHO é ator, diretor, professor de teatro, cronista e poeta. Natural de São Joaquim da Barra-SP, vive em Manaus desde 1978. É autor ainda de Meu ovo esquerdo (2012), Paixão & Fúria (2004) e Pequenas conquistas perdidas (Valer, 2021).

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

RECENSEAMENTO DO RIO MURU

Constantino Tastevin

“Ego sum pastor bonus, dizia Nosso Senhor Jesus Cristo, cognosco oves meas et cognoscunt me meae”.

 

“Eu sou o bom pastor e por isso conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem”.

Dessas palavras depreende-se a necessidade para um vigário de conhecer os membros da sua freguesia, tarefa muito difícil e talvez impossível neste recanto da terra onde tudo é anormal.

Procuro pelo menos aproximar-me do ideal, embora de longe, recolhendo certos dados mais significativos sobre a população dos rios a quem levo o conforto de nossa religião.

Costumo sempre encontrar a máxima boa vontade da parte desta excelente população brasileira e é o que verifiquei mais uma vez durante a minha desobriga no rio Muru.

Vai aqui junto com os meus agradecimentos o resultado desse sucinto recenseamento:

Homens – 915, mulheres 345; menores de 16 anos – meninos 370, meninas 349; fazendo um total de 1979, com exceção do seringal “Victoria” e dos do rio Iboiaçú, mais ou menos 300 almas.

As famílias são: 295, das quais 134 pela igreja; 54 só civilmente; 37 amasiadas; 32 indígenas; 29 adúlteras; 5 adúlteras aos olhos da lei; 3 adúlteras e excomungadas; 1 bígamo e adúltero.

Os adúlteros excomungados são aqueles que sendo casados pela religião, atentam o casamento civil com outra pessoa.

Ficam 620 celibatários para 50 celibatárias, das quais algumas passaram de sessenta anos.

Daí resulta o desequilíbrio descomunal de mais de 12 celibatários para 1 mulher celibatária. Desequilíbrio numérico cuja repercussão se faz dolorosamente sentir na moralidade, como se vê no quadro das famílias, ao progresso, na higiene moral e física das nossas pobres ovelhas; e que vai tristemente repercutir, ainda sobre o futuro desta região.

É urgentíssimo que as pessoas de responsabilidade procurem fixar sobre as suas terras e multiplicar as famílias, único elemento estável e progressivo na sociedade.

Devem para isso oferecer-lhes algumas vantagens, facilitar-lhes o acesso à propriedade ou pelo menos seriamente garantir o resultado do seu trabalho agrícola, para que elas se afeiçoem a terra, e aí se desenvolvam.

Os sacrifícios aparentes do primeiro momento serão largamente recompensados quando crescer a nova geração mais numerosa, mais amante ao seu torrão natal, mais adaptada ao meio e, por isso, mais produtora de riquezas, e base de lucros maiores. Caveant consules: o perigo é grande. Basta notar que de 1920, para cá, em 3 anos, a população do Muru tem diminuído da metade.

Padre Constantino

 

Jornal A Reforma, Tarauacá-AC, 16 de março de 1924, Ano VII, n. 295, p. 2.

 

Nota I: O Pe. Constantino (Constant) Tastevin (1880-1962) esteve em Tarauacá, pela primeira vez, em fevereiro de 1923.

Nota II: “O padre Constant Tastevin, missionário da Prefeitura Apostólica de Tefé (AM) visitou Cruzeiro do Sul (AC) pela primeira vez em setembro de 1911, tendo retornados mais duas vezes, em 1913 e em 1914. No início de 1924, sobe o rio Muru e volta em fevereiro a Seabra (hoje Tarauacá); de 5 de abril até fins de maio, sobe parte do Tarauacá e Jordão. Em junho e julho, sobe o Tarauacá até suas cabeceiras. Visita pelo menos três aldeias kaxinawá que foram "amansadas" e fornecem serviços para os seringais. Até a década de 1980, o que se conhecia linguística, geográfica e etnograficamente do Juruá e do Jutaí reduzia-se essencialmente aos seus trabalhos.”

Nota III: A grafia foi atualizada conforme o acordo ortográfico vigente (2009).

domingo, 20 de novembro de 2022

GUERRILHA DO OZÔNIO: Lando Sampaio

 

GUERRILHA DE OZÔNIO

(Lando Sampaio / Moisés Diniz)

 

Mata sangra enfurecida

tive um sonho e nesse sonho

na usina mais valia

minha prece e rebeldia

transei poemas de liberdade

e os palácios riram de mim

ecologia, degelo e romaria

e o meu verde vai sangrar

 

O amor à liberdade

na guerrilha do ozônio

e o verde escravizado

além do silêncio branco

uma lágrima romaria

um fuzil e um rosário

no orgasmo do meu som

 

Lá no pé da seringueira

meu segredo minha história

a ternura tá na mata

mata, mata o pé invasor

 

A dor da hora morta

nesse verde resistente

juventude verde luto

e abuso do poder

 

Parcela infame do meu corpo

a queimada já queimou

mãos sangradas gritos nulos

na viola libertária

 

 

FICHA TÉCNICA

CD VISÕES (2009)

Rogério Craveiro

 

GUERRILHA DO OZÔNIO

Letra: Lando Sampaio e Moisés Diniz

Intérprete: Lando Sampaio

Bateria: Jorgines Gondim

Baixo: Rogério Craveiro

Guitarra/Violão Aço: Emerson de Rosa

Piano: André Dantas

Sax-Alto: Sandoval Dias

domingo, 13 de novembro de 2022

A CRIAÇÃO DA BAHIA

Mady Benzecry (1933-2003)

E ASSIM,

NO SÉTIMO DIA,

DEUS CRIOU

O CÉU,

A TERRA

E A BAHIA.

 

CLAMOU O SENHOR:

 

Que caia no mar

o reino de Iemanjá.

E na terra,

um pedaço de céu bem brasileiro

aonde habitarão

em suas mansões de ouro e cantaria

meus enviados

2 – E que haja um santo protetor

para cada habitante da Bahia.

 

BAHIA DE TODOS OS SANTOS

CIDADE DE SALVADOR!

 

E MAIS CLAMOU O SENHOR:

 

3 – Agitada por lutas e conquistas,

que seja heroica a sua história

e glorioso o povo de Salvador;

pois sobre a Terra de Santa Cruz

ávidos repousarão os olhos da ambição:

 

4 – Cobiçada será

por sua riqueza,

invejada há de ser

por sua beleza

e escravizado será seu povo

pelos grandes senhores que a dominarão.

 

MALDIÇÃO!

Para os estranhos pés que a calcarem!

E para as mãos infiéis que a profanarem

MALDIÇÃO!

 

E MAIS CLAMOU O SENHOR:

 

6 – Que mar igual não haja

inigualáveis

sejam suas praias e dunas e coqueiros.

Que não se faça mais cor em outras plagas

nem melhor peixe para os pescadores,

nem melhor brisa para os jangadeiros.

 

7 – E que desça Caymi do meu reino,

levando um entardecer, um banco e um violão

e para ele se faça Abaeté,

Amaralina, Rio Vermelho, Itapoã,

e que Caymi me faça adormecer

ouvindo aqui do céu sua canção.

 

E PROSSEGUIU O SENHOR:

 

8 – Que a noite seja do samba

e o dia da capoeira.

Que as mais faceiras mulatas

ao estremecer de pandeiros,

de berimbaus e violas,

usando sandálias douradas

colares e batas rendadas,

imitem peixes do mar

bamboleando as cadeiras.

 

9 – E que vá Ary Barroso

à rampa do Pelourinho

e ao som de mil cavaquinhos

abafe no mundo inteiro

com “A baixa do sapateiro”

bem informando ao Além

“O que que a bahiana tem...”

 

E MAIS CLAMOU O SENHOR:

 

10 – Preciso de um escrivão.

Que seja homem de letras

além de ser gente “bem”.

Alguém que esteja por dentro

do “modus vivendi” do povo,

que siga “Os pastores da noite”,

que faça farra com Oxum,

que pegue santo em batuques,

que tome pinga com Ogum.

 

11 – Alguém que abrande Iemanjá

em noites de tempestades,

que vibre com atabaques,

que farte a mesa de Exu,

que seja Ogã de terreiro

no reino dos candomblés.

Um escrivão? Ah! Já sei...

 

SARAVÁ JORGE AMADO!

SARAVÁ MEU IRMÃO!

 

E PROSSEGUIU O SENHOR:

 

12 – Para cevar este povo

não pode ser com o “maná”,

envio minha preta Eva

(não Eva mulher de Adão,

mas Eva mãe de um negão

mais forte que Oxumaré)

Chamei-a Eva porque

seu leite materno é de coco,

seu sangue, azeite de dendê.

 

13 – Que chame-se “Estrela do Mar”

à sua casa de pasto

e seja Maria São Pedro,

(que deve ser qualquer coisa

pra Pedro meu bom porteiro)

aquela que deve ocupar

da minha Eva o lugar.

 

14 – E mandem-me a preta de volta,

meus anjos irmão buscar

pois já no céu ninguém passa

sem seu efun-oguedê,

quibebe, acarajé,

efó, caruru, abará.

 

Perdoa, minha preta velha,

tão boa! Mas teu lugar,

não é na terra é no céu,

pra minha mesa fartar.

 

E CONCLUIU O SENHOR:

 

Daremos cor à Bahia.

 

15 – Que acham do azul do céu,

das nuances do entardecer,

das pálidas madrugadas,

do branco-prata da lua,

do límpido alvorecer?

 

Toda essa policromia,

é fria para a Bahia?

 

16 – Vejamos a cor da flor,

dos mornos raios de sol

num cálido meio-dia.

(Mais quente, somente o sangue

do negro ou da Gabriela...)

“Gabriela cravo e canela”,

já li o livro, ela é fogo!

(afiançou-me o escrivão)

 

Gabriela! Até que enfim,

achei a cor que queria!

Vá lá, mestre Carybé,

capaz só você seria;

arranque do fogo as tintas,

do diabo empreste os pinceis,

esboce o “que” desta gente,

pincele o dengo bahiano

e dê a cor À Bahia.

 

E fé, mestre Carybé!

(Perdoa-lhe Santa Maria)

Somente com muita fé!

 

E assim,

NO SÉTIMO DIA,

DEUS CRIOU

O CÉU,

A TERRA

E A BAHIA...

 

 

 

 

 

 

 

                                                      E viu Deus tudo o que fez e eis

                                                      que era muito bom. E foi tarde

                                                      e foi manhã do sétimo dia.

 

                                                                                (GÊNESIS)

 

 

BENZECRY, Madi B.,. Sarandalhas (poemas). Rio de Janeiro: Editora Pongetti, 1967. p. 9-19

* Mady Benoliel Benzecry, artista plástica e poeta amazonense. Nascida em 1933, em Manaus, Mady radicou-se, aos 30 anos, no Rio de Janeiro, onde faleceu, em 2003. Era casada com o entalhador pernambucano Eugênio Carlos de Almeida Barbosa. Seu primeiro livro foi "De todos os crepúsculos", publicado em 1964.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

CRONOLOGIA DAS EFEMÉRIDES QUE SE RELACIONAM COM A HISTÓRIA DO JURUÁ FEDERAL/CRUZEIRO DO SUL

Vista de Cruzeiro do Sul, Acre, 1906. Arquivo Nacional. Afonso Pena.

1560. - Segundo historiadores, é assassinado por dois companheiros, na bacia do Juruá, o explorador Pedro de Ursúa e sua mulher Inez.

1568. - Pelo vigário José Monteiro de Noronha, é narrada a versão de índios de cauda, no Juruá. A referida versão é posta em foco ainda, outra vez, em 1847, pelo naturalista CASTELNAU.

1857. - O diretor de índios João da Cunha Correia, faz a primeira expedição no alto Juruá e alcança a confluência do Juruá-Mirim.

1867. - O geógrafo inglês, Willian Chandless, faz a primeira exploração científica no Juruá chegando até a foz do Campinas.

1870. - Segundo narração do Pe. Dr. Constantino Testevin, terrível epidemia dizima os índios que habitavam o local onde hoje se acha a cidade de Cruzeiro do Sul, obrigando os remanescentes buscarem o Peru através dos altos rios.

1870. - Penetração brasileira no alto Juruá alcança as barras do Amônea e do Tejo.

1872. - Exploração científica, por Augusto Hiliges e Lopes Neto, alcançando a foz do Breu, cujo curso ficou servido de limites entre o Perú e o Brasil.

1877. - Levas de nordestinos, acossados pelas secas naquela região, buscam os altos rios da Amazônia, completando assim o povoamento do alto Juruá.

1889. - O Mundurucús, primeiro barco a vapor que sulcou as águas da região, regressa do lugar que tomou o seu nome, muito acima da cidade. No baixo Juruá a navegação fora iniciada pelo vapor Jurupecem em 1870.

1891 - Balduino de Oliveira e João Dourado, chefiando uma expedição, expulsam os peruanos, subindo o Juruá até a foz do Dourado, no Peru.

21/10/1902 - Brasileiros, sob a direção de Carlos Eugênio Chauvin, expulsam os peruanos que se haviam estabelecido na foz do Amônea, território explorado pelos brasileiros.

15/11/1902 - Os peruanos, tendo à frente Carlos Vasques Quadra, voltam à foz do Amônea, acampando em Minas Gerais, de Luiz Francisco de Melo, instalando um posto militar e uma repartição aduaneira, dando ao lugar o nome de NUEVO IQUITOS, atual Vila Thaumaturgo.

07/09/1904 - Circula o primeiro número do Jornal O Progresso, editado no Amônea.

07/09/1904 - Pelo Decreto Federal n.º 5.188, que deu a primeira organização ao território do Acre, é criado o Departamento do Alto Juruá.

12/09/1904 - O Prefeito Gregório Thaumatugo de Azevedo inaugura a sede provisória do Departamento do Alto Juruá, no lugar "INVENCIVEL", na foz do rio Moa.

28/09/1904 - NO LUGAR "CENTRO BRASILEIRO" PROPRIEDADE ADQUIRIDA DE ANTÔNIO MARQUES DE MENEZES, É FUNDADA POR GREGÓRIO THAUMATURGO DE AZEVEDO A SEDE DEFINITIVA DO DEPARTAMENTO DO ALTO JURUÁ, COM O NOME DE CRUZEIRO DO SUL.

04/11/1904 - São aprisionados por forças brasileiras do 15.º Batalhão de Fronteiras, sob as ordens do Ten. Guapindaia de Souza Bregense, o cobrador de impostos peruanos Alferes Manoel Severo Ramirez e os soldados que o acompanhavam. Os prisioneiros eram funcionários do Posto Militar peruano de Nuevo Iquitos, atual Vila Thaumatugo.

05/11/1904 - Após um combate que durou 22 horas de cerrado fogo, soldados do 15.º Batalhão de Fronteiras reunidos aos seringueiros do local, são derrotadas as forças peruanas do Posto Militar do Amônea, sendo as perdas - nove peruanos mortos e vários feridos; um brasileiro morto e diversos feridos.

08/11/1904 - É instalado o Posto Fiscal Brasileiro na foz do Amônea.

01/0111905 - Fundação de Vila Thaumaturgo.

03/05/1905 - Criação das Vilas Andrada e Feijó, hoje cidade Tarauacá e Feijó.

03/05/1906 - Inauguração da Luz Elétrica e circula o primeiro número do jornal - CRUZEIRO DO SUL - orgão oficiaI.

31/05/1906 - Cruzeiro do Sul elevada à categoria de Cidade.

19/12/1907 - Fundação da loja Maçônica.

01/02/1908 - Inauguração do Liceu Afonso Pena, que foi extinto em 30/06/1911.

06/06/1909 - Fundação do Centro Operário Beneficente.

08/09/1909 - Tratado de limites com o Peru.

01/06/1910 - É deposto pela revolução autonomista, o Prefeito João Cordeiro. O governo autonomista durou 100 dias.

28/09/1911 - O Prefeito Pedro Avelino inaugura o Mercado Público.

21/06/1912 - Inauguração da 1.ª estação telegráfica de ondas largas.

13/06/1912 - Chega o Engenheiro Alberto Masô para fazer o levantamento e o mapa da região.

07/09/1912 - Inauguração do cais do porto.

28/09/1912 - Inauguração do obelisco comemorativo da cidade e que foi reformado em 28/09/1931.

23/10/1912 - Criação do Departamento de Tarauacá.

13/02/1913 - Instala-se a Intendência com o nome de Cruzeiro do Sul.

12/03/1913 - Instalação do Tribunal de Apelação na cidade, sendo Presidente e Desembargador Elizário Távora onde mais tarde falecerá.

24/05/1913 - Instalação do 1.º Conselho Municipal.

06/08/1916 - TEM INÍCIO O PRIMEIRO NOVENÁRIO DE N. S. DA GLÓRIA, PADROEIRA DA CIDADE.

                      Primeira Guerra Mundial - Apresentaram-se dois voluntários: João Tibúrcio da Silva e Francisco Valeriano da Silva, porém não foram aproveitados.

28/09/1920 - Inaugura-se a atual Cadeia Pública.

06/03/1921 - Visita do Governador Epaminondas Jácome.

03/09/1923 - Falece na cidade o Cel. Absolon Moreira.

19/08/1923 - Falece o Vogal Alfredo Teles.

02/09/1923 - Fundação da União Agrícola do Juruá.

28/08/1924 - Fundação da Santa Casa de Misericórdia.

15/08/1926 - Inauguração da Igreja de N. S. da Glória, cujo início de construção data de 1924.

09/20/1927 - Cria-se um abrigo para os leprosos, hoje, o atual Leprosário.

07/09/1931 - Falece em Belém o Cel. João Bussons.

14/07/1931 - Retira-se da cidade o Dr. José Moreira Brandão Castelo Branco Sobrinho onde vivera muitos anos, com real proveito para a região.

24/10/1931 - Inaugura-se o obelisco em memória de João Pessoa.

1933 - Inaugura-se o Correio e Telégrafo.

06/09/1934 - Falece em Alagoas, João Craveiro Costa, que na cidade viveu 16 anos, como Educador, político, jornalista e historiador.

14/10/1934 - Primeira eleição para deputados acreanos.

06/11/1935 - Inauguração da estação telegráfica de ondas curtas.

13/04/1936 - Chega à cidade D. Henrique Ritter, 1.º Bispo Prelado do Juruá.

11/05/1936 - Chega à cidade o engenheiro Pedro Moura, e técnicos para pesquisas de petróleo do Môa.

14/05/1939 - Chega o primeiro avião brasileiro "GETÚLIO VARGAS" do governo do Acre.

12/05/1942 - Falece o Maj. Odilon Augusto de Moura, jornalista e advogado de renome.

20/06/1942 - Falece em Manaus D. Henrique Ritter.

01/03/1943 - Inaugura-se a Agência do Banco do Brasil S.A.

01/01/1944 - O Município de Juruá passa a denominar-se município de Cruzeiro do Sul.

26/06/1944 - Realiza-se aqui o 1.º Tríduo Eucarístico no Acre.

18/10/1944 - Falece o Pe. Agostinho Haberkorn.

                     Segunda Guerra Mundial - Foram convocados pela classe 80 filhos de Cruzeiro do Sul, que seguiram até Manaus, onde foram inspecionados no 27.° Batalhão de Caçadores, dispensados e considerados SOLDADOS DA BORRACHA, face trabalharem em área considerada de guerra pela colaboração no Esforço de Guerra. Combateram no Teatro de Operações de Guerra na Itália só dois: Euribíades Rodrigues de Carvalho e Nicomedes Corrêa Lima.

18/06/1947 - Batismo com água do Juruá, do avião "JURUÁ" em presença do Governador que o havia adquirido para a ligação inter-Municipal, pelo deputado acreano José Guiomard dos Santos.

07/08/1947 - Viagem inaugural do Correio Aéreo Nacional.

09/11/1947 - Chega a cidade D. José Hascher, 2.° Bispo prelado do Juruá, tendo grandiosa recepção.

12/01/1948 - Falece em Rio Branco, o Prefeito da cidade, Alfredo Pereira Sales.

10/07/1948 - Falece no Rio, o seringalista e comerciante Luiz Antônio Meirim Pedreira.

11/08/1949 - Inauguração do Grupo Escolar "Braz de Aguiar" e escola "Gov. Hugo Carneiro".

        /1950 - Início da construção do prédio Instituto Santa Terezinha, pelo Rvmo. Sr. Bispo Prelado D. José Hascher.

27/07/1950 - Falece o coronel Mâncio Agostinho Rodrigues Lima, pioneiro do Juruá, figura de maior vulto nos meios sociais e políticos e cidadão benemérito do Município.

10/12/1950 - Cola Grau a 1.ª Turma de Normalistas do Colégio S. Terezinha, da cidade.

25/01/1951 - Inauguração da Linha Aérea da PANAIR DO BRASIL ligando Manaus a Cruzeiro do Sul.

09/02/1951 - Inauguração da Cruzeiro do Sul, Linha Aérea.

02/03/1952 - Falece o Dr. Mário Lobão, jornalista, farmacêutico e figura de alto reIevo social, Prefeito por duas vezes.

02/03/1952 - Inauguração do Educandário Cruzeiro do Sul, com a presença de Da. Eunice Weaver.

20/08/1952 – Visita oficial do Dr. João Kubitschek de Figueiredo, governador do Território, que foi até Vila Japiim.

31/01/1953 - Fundação do Jornal O Juruá.

02/08/1953 - Inauguração da Agência do Banco de Crédito da Amazônia S. A.

28/09/1954 - Inauguração dos bustos de Gregório Thaumaturgo de Azevedo e Cel. Mâncio Agostinho Rodrigues Lima.

28/09/1954 - Inauguração da Praça da Bandeira.

25/06/1956 - Viagem de uma equipe do INPA ao Alto Juruá até limites com Peru para estudos geológicos e zoológicos do município, chefiados por Dr. Lelewellyn Ivor Price.

27/04/1957 - Inauguração dos prédios do Aeroporto, Armazém do Porto, Correios e Telégrafos e Posto de Saúde Dr. Acrízio Bezerra.

15/08/1957 - Lançamento da pedra fundamental da Catedral de N. Sra. da Glória.

10/12/1957 - Criação do Ginásio Cruzeirense.

08/07/1960 - Entra no ar pela 1.ª vez, em caráter experimental a Rádio Difusora de Cruzeiro do Sul.

29/11/1967 - Visita do Rei Leopoldo da Bélgica em excursão científica pela Amazônia. Visitou Cruzeiro do Sul, coletando e pesquisando a piscicultura local, especialmente no Igarapé São Salvador, que passa na Olaria e Sangrador da Foz do São Francisco.

Março de 1969 - Começou a funcional a Escola Técnica de Comércio “Prof. Flodoardo Cabral”.

17/07/1969 - Instalação do 7.º BEC.

09/07/1971 - Instalação do Campus Avançado de Cruzeiro do Sul, da Universidade Estadual de Campinas.


Referência

A cidade e a História. Anais do VII Simpósio Nacional dos Professores Universitários de História. Organizado pelo Prof. Eurípedes Simões de Paula. Volume III. p. 1864-1869

sábado, 8 de outubro de 2022

O homem que vio o Mapinguary

Franco Cispeira

 

Sim ! Foi na Terra-Firme-Geral, na matta bruta, im-

pe-

ne-

tra-

vel !

( Não fosse eu magro e audaz como um seringueiro flagellado,

Chegado ao Barracão depois de quarenta duas de viagem,

A bordo da lancha “Soberana”,

Sentindo no estomago uma grande, enormíssima

Saudade da Carne de Sol! Não fosse eu

                                                              esguio

                                                                  como um fio

                                                                       de agua de gente

                                                                                quente,

                                           combatendo a desgraça frente a frente!

                                           – Lá não teria entrado! )

“A casa de Flora era um sonho confuso,

A trama de um Averno de arvores enormes,

Ataviadas de Timbó-assú,

                                     Timbótitica,

                                                Tiririca,

                                                      Unha-de-gato

                                                                 Espera-ahy,

                                                                         Pente-de-macaco,


                                                     
 Muratinga,

                                                                Bico-de-tucano,

                                                                Tudo balouçando,

                                                                E se entrelaçando,

Homenagem a Mario Andrade
na passagem por Manaos

Como se fosse os grandes fios

do cabelo verde

da Yara de olhos amarelos,

Que carregou

para o fundo do Rio Negro

o guerreiro Jaguarary...

 

“Sim! Creiam,

almas envenenadas de malicia !

Eu vi

O bicho Mapinguary...

 

“Os meus olhos

sahiram três quilômetros

Além das orbitas sangrentes !

E os meus cabelos, wagnerianamente agitados e rebeldes

Ao pente,

                                                      Subiram,

                                            Subiram,

                                  Subiram,

A três mil e quinhentos metros de altura,

Batendo o record da ascendência do Pavor!...

“Hon ! Hon ! Hon ! Hon-Rhiiiiiiu ! Hiu ! Hiu ! ! !”

Era ele! Um bicho assim do

Tamanho do

Mario

Andrade

E da grossura do constitucionalissimamente senador

                                               Lopes

                                               Gon-

                                               çalves...

Com um olho só, muito redondo e perquirente

                                               No meio

                                               da testa!

Feio ! Feio ! Feio !

Horripilantemente tremebundo,

                     Grunhindo, guturalmente,

                              Saxofonicamente :

                                             Hon !

                                             Hon !

                                             Hon !

 

“Era ele! (Sem duvida!) O terror dos Seringueiros do Paiz das Amazonas!

Cabeludo, de pernas curtas, bracilongo... (Até parece

Um urso; mas, segundo opiniões abalizadas, há de ser algum

Raro exemplar do Dinothério ou Megathério, com a idade

– mais ou menos –

Do meretissimo senhor desembargador Ataulpho de Paiva,

Servindo-se do aplomb do Firmissimo

Senhor deputado Dorval Porto ).

 

“O Mapinguary! (Senhor Deus recei a Alma do vosso Servo !

 

“A seu lado – as carcaças de uns trinta jacarés do tamanho de um bond

grande da Ligth,

Minutos antes devorados!

                    E mais oito onças

                    Bem creadas,

                               Espostejados, talvez, para a merenda do Bruto...

( Afora as embiraras arquejantes... )

E o animal comia

                    comia

                    comia

Com tanta gana engulia,

                    Que parecia

Ter no estomago de Moloch todas as grandes fomes que assolaram o Ceará

Nestes quatro séculos! (Vide as obras do Barão de Studart

E “Seccas contra as Seccas”, do desembargador

Britto

Guerra)

 

“Pois bem: – apezar de manjares tão fartos, o

Mapinguary, quando me vio

Abriu um boccão

– Deste tamanho ! –

                               Hon ! Hon ! Hon ! E deu um pulo

                               Pra riba de muá, como quem diz:

                                                                        “Eu te engulo,

                                                                                        Chico !”

“Considerei a gravidade do momento. ( E

Quasi sou victima de um parto prematuro – eu que tenho no prelo

Um livro de versos! )

Num milesimo de segundo,

Comprehendi toda a grandeza, toda a magnitude do Viver!...

A vida!... Oh! A Vida... A Vida é bella!...

E a Perfeição

Deve

Ser leve

Como a neve

Breve!...

 

“Diante do bicharoco, eu senti a

Agrada-

Bilissima

Im-

Pressão

De ser flú...

                  flú...

                         flúido...

 

 

( Na verdade, eu não me apercebia do pezo da materia,

Nem tinha a noção do que fosse

A ossatura

Humana...

“Homem-Sonho ! homem-Volatização!...

Que bom !

Eu – Poeira Impalpavel, ourejando ao Sol de um Medo Heroico !

Eu – Lembrança Vaga de mim mesmo !

Eu – Desejo Incontido de Não Ser !

– O Homem-Renuncia que perdeu as pernas, atravessando as Nuvens,

Seguindo a Cavalgada das Walkyrias !...

 

“E decido-me a defender a Vida-Boa!

 

... Oh! Nunca!... Nunca!

Ser comigo, assim, na matta; assim,

Bestialmente, por um animal que veio ao Mundo

Antes do Diluvio ! (Coragem! Coragem!

– Dizia uma voz enérgica, escondida no meu abdômen: –

Banca o Valente que ele acaba dando

                                                          – o fora –)

 

“Falei: – Mapinguary! Está escripto: – o morrerás!

                                       Prrrááá!

                                       Prrrááá!

                                       Prrrááá!

                                       – Trez

                                       Tiros

                                       De

                                       Rifle

                                       Calibre

                                       44!

Bala na agulha novamente...

O bicho guincha, pula, abre o bocão...

Tremem

As arvores e a Terra...

Pela espinha dorsal dos paranás, das aguas-paradas, passa um calafrio...

O rifle engasga.

E o Mapinguary

                     ri,

                     ri,

                     como um palhaço sentimental, comendo fogo

                                                                      num circo de cavalinhos.

E avança, feio e forte, na minha direcção.

 

Jogo-lhe o rifle á cara.

...E o monstro engole a Winchester, como se a arma fosse

                                                                                   – um pirolito !

“Que me restava, então? Morrer !

                           Morrer!... “quando este Mundo é um Paraizo!...”

E resolvi morrer de pé. Fiquei firme, o olhar duro, o coração

                                                                                 Tuco-tuco!

                                                                                 Tuco-tuco!

                                                                                 Tuco-tuco!

 

“O Mapinguary, estacando a dez passos, olhou-me

                                          alto

                                            a

                                          baixo,

Formaliza-se,

                    Perfila-se,

Como faz um recruta no exercício, em frente do sargento-instructor,

Commissionado no posto de

2.º Tenente,

Por serviços relevantes prestados á Legalidade...

E marcha esticadíssimo,

                             Marcialissimo,

                                          Na minha direção...

 

Fiz o Tom-Mix da Indifferença que espia de soslaio...

E á proporção que o bicho avança,

No seu passo-de-ganço ameaçador,

                                                               Eu berro, lembrando

                                                                        “O Alto”

                                                                               Um-dois! Um-dois!

 

Um-dois! Um...

 

“O Terror dos Seringueiros das Mattas do Rio das Amazonas,

Ouve a extranha voz, assusta-se e estaca,

                                                                      intrigando...

                                                                      Um-dois!...

                                                                            Um!...

E baixando o longo pêllo negro da pupila sobre o olho único,

Redondíssimo, que

Possue no

                                               meio

                                                 da

                                               testa,

Fica sem saber em que terra nasceu. Encabula !

 

Gloria ao Homem ! A melhor obra de cerâmica

Da Creação !...

                     Um-dois!

                                  Um-dois!

                                               Mapinguary inquieta!

                                                                                Um...

Dois-tres-quatro-cinco-seis...

                                              Mapinguary tremendo...

                                                                                 Dois

Um-dois ! Um-dois !

                            Mapinguary rodando nos pés redondos...

Um-dois-um-dous ! Um

                            Mapinguary entrando, com todos os diabos

Pela matta a dentro, derrubando as sumaumeiras,

                                                                    as castanheiras

                                                                    os taxizeiros

                                                                    os mulateiros,

Fazendo um estrepido de Fim de Mundo !

                                                                    Um-dois ! Uuum !

                                                                    Dôôôôôôis !

Oh ! vivam os meus suores frios da Alegria da Ressurreição !

                                                                    Uuuumm-Dôôôôôôis !

Conheceu, papudo ?

 

“Eu vi... Eu vi

                       o Mapinguary

                                            Hon ! Hon ! Hi ! Hi !”

 

... E o homem do tapery solitário mordeu o pedaço

De Lua que estava pendurado no Céu Amarello

                                                                      Da Terra-Verde...

 

Franco Cispeira



CISPEIRA, Franco in CLOS, Daioneta; SILVEIRA, Oldovar. O Homem que engoliu o próprio sonho. Manaus: Typographia da papelaria velho Lino Local, 1927. p. 13-18

Nota: o contexto do folheto é a passagem do escritor modernista Mário de Andrade, que esteve no Amazonas em 1927, na sua famosa viagem etnográfica pelo Brasil.