quarta-feira, 25 de outubro de 2023

UM AMIGO DE INFÂNCIA

 Humberto de Campos (1886-1934)

 

No dia seguinte ao da mudança para a nossa pequena casa dos Campos, em Parnaíba, em 1896, toda ela cheirando ainda a cal, a tinta e a barro fresco, ofereceu-me a Natureza, ali, um amigo. Entrava eu no banheiro tosco, próximo ao poço, quando os meus olhos descobriram no chão, no interstício das pedras grosseiras que o calçavam, uma castanha de caju que acabava de rebentar, inchada, no desejo vegetal de ser árvore. Dobrado sobre si mesmo, o caule parecia mais um verme, um caramujo a carregar a sua casca, do que uma planta em eclosão. A castanha guardava, ainda, as duas primeiras folhas unidas e avermelhadas, as quais eram como duas joias flexíveis que tentassem fugir do seu cofre.

– Mamãe, olhe o que eu achei! – gritei, contente, sustendo na concha das mãos curtas e ásperas o mostrengo que ainda sonhava com o sol e com a vida.

– Planta, meu filho... Vai plantar... Planta no fundo do quintal, longe da cerca...

Precipito-me, feliz, com a minha castanha viva. A trinta ou quarenta metros da casa, estaco. Faço com as mãos uma pequena cova, enterro aí o projeto de árvore, cerco-o de pedaços de tijolo e telha. Rego-o. Protejo-o contra a fome dos pintos e a irreverência das galinhas. Todas as manhãs, ao lavar o rosto, é sobre ele que tomba a água dessa ablução alegre. Acompanho com afeto a multiplicação das suas folhas tenras. Vejo-as mudar de cor, na evolução natural da clorofila. E cada uma, estirada e limpa, é como uma língua verde e móbil, a agradecer-me o cuidado que lhe dispenso, o carinho que lhe voto, a água gostosa que lhe dou.

O meu cajueiro sobe, desenvolve-se, prospera. Eu cresço, mas ele cresce mais rapidamente do que eu. Passado um ano, estamos do mesmo tamanho. Perfilamo-nos um junto do outro, para ver qual é mais alto. É uma árvore adolescente, elegante, graciosa. Quando eu completo doze anos, ele já me sustenta nos seus primeiros galhos. Mais uns meses e vou subindo, experimentando a sua resistência. Ele se balança comigo como um gigante jovem que embalasse nos braços o seu irmão de leite. Até que, um dia, seguro da sua rijeza hercúlea, não o deixo mais. Promovo-o a mastro do meu navio e, todas as tardes, lhe subo ao galho mais empinado, onde, com o braço esquerdo cingindo o caule forte, de pé, solto, alto e sonoro, o canto melancólico da “Chegança”, que é, por esse tempo, a festa popular mais famosa de Parnaíba:

 

                      Assobe, assobe, gajeiro,

                      Naquele tope real...

                      Para ver se tu avistas,

                               Otolina,

                      Areias de Portugal!

 

Mão direita aberta sobre os olhos, como quem devassa o horizonte equóreo, mas devassando, na verdade, apenas os quintais vizinhos, as vacas do curral de Dona Páscoa e os jumentos do sr. Antônio Santeiro, eu próprio respondo, com minha voz gritada, que a ventania arrasta para longe, rasgando-a, como uma camisa de som, nas palmas dos coqueiros e nas estacas das cercas velhas, enfeitadas de melão São Caetano:

 

                      Alvíssaras meu capitão,

                      Meu capitão general!

                      Que avistei terras de Espanha.

                                 Otolina,

                      Areias de Portugal!

 

A memória fresca, e límpida, reproduz, uma a uma, fielmente, todas as passagens épicas, todas as canções melancólicas e singelas da velha lenda marítima com que o majestoso mulato Benedito Guariba, uma vez por ano, à frente dos seus caboclos improvisados em marujos portugueses, alvoroça as ruas arenosas de Parnaíba. O vento forte, vindo das bandas da Amarração, dá-me a impressão de brisa do oceano largo. O meu camisão branco, de menino da roça, paneja, estalando, como uma bandeira solta. O cajueiro novo, oscilando comigo, dá-me a sensação de um mastro erguido rolando diante de mim, na curva do horizonte, onde o céu e o mar se beijam e misturam, as terras claras de Espanha, e areias de Portugal.

Pouco a pouco, a noite vem descendo. Um véu de cinza envolve docemente os coqueiros dos quintais próximos. Os bezerros de Dona Páscoa berram com mais tristeza. As vacas, apartadas deles, respondem com mais saudade. Os jumentos do sr. Antônio Santeiro zurram as cinco vogais e o estribilho "ípsilon", marcando sonoramente as seis horas. Os do sr. Antonio do Monte, ao longe, conferem e confirmam o zurro, o focinho para o alto, olhando o milho de ouro das primeiras estrelas. E eu, gajeiro de uma nau ancorada na terra, desço tristemente do folhudo mastro do meu cajueiro, sonhando com o oceano alto, invejando a vida tormentosa dos marinheiros perdidos, que não tinham, pelo menos, a obrigação de estudar, à luz de um lampião de querosene, a lição do dia seguinte...

Aos treze anos da minha idade, e três da sua, separamo-nos, o meu cajueiro e eu. Embarco para o Maranhão, e ele fica. Na hora, porém, de deixar a casa, vou levar-lhe o meu adeus. Abraçando-me ao seu tronco, aperto-o de encontro ao meu peito. A resina transparente e cheirosa corre-lhe do caule ferido. Na ponta dos ramos mais altos abotoam os primeiros cachos de flores miúdas e arroxeadas como pequeninas unhas de crianças com frio.

– Adeus, meu cajueiro! Até à volta!

Ele não diz nada, e eu me vou embora.

Da esquina da rua, olho ainda, por cima da cerca, a sua folha mais alta, pequenino lenço verde agitado em despedida. E estou em S. Luís, homem-menino, lutando pela vida, enrijando o corpo no trabalho bruto e fortalecendo a alma no sofrimento, quando recebo uma comprida lata de folha acompanhando uma carta de minha mãe: “Receberás com esta uma pequena lata de doce de caju, em calda. São os primeiros cajus do teu cajueiro. São deliciosos, e ele te manda lembranças...”

Há, se bem me lembro, uns versos de Kipling, em que o Oceano, o Vento e a Floresta palestram e blasfemam. E o mais desgraçado dos três é a Floresta, porque, enquanto as ondas e as rajadas percorrem terras e costas, ela, agrilhoada ao solo com as raízes das árvores, braceja, grita, esgrime com os galhos furiosos, e não pode fugir, nem viajar... Recebendo a carta de minha mãe, choro, sozinho. Choro, pela delicadeza da sua ideia. E choro, sobretudo, com inveja do meu cajueiro. Por que não tivera eu, também, raízes como ele, para me não afastar nunca, jamais, da terra em que eu, ignorando que o era, havia sido feliz?

Volto, porém. O meu cajueiro estende, agora, os braços, na ânsia cristã de dar sombra a tudo. A resina corre-lhe do tronco, mas ele se embala, contente, à música dos mesmos ventos amigos. Os seus galhos mais baixos formam cadeiras que oferece às crianças. Tem flores para os insetos faiscantes e frutos de ouro pálido para as pipiras cinzentas. É um cajueiro moço, e robusto. Está em toda a força e em toda a glória ingênua da sua existência vegetal.

Um ano mais, e parto novamente. Outra despedida; outro adeus mais surdo, e mais triste:

– Adeus, meu cajueiro!

O mundo toma-me nos seus braços titânicos, arrepiados de espinhos. Diverte-se comigo como a filha do rei de Brobdingnag com a fragilidade do capitão Gulliver. O monstro maltrata-me, fere-me, tortura-me. E eu, quase morto, regresso a Parnaíba, volto a ver minha casa, e a rever o meu amigo.

– Meu cajueiro, aqui estou!

Mas ele não me conhece mais. Eu estou homem; ele está velho. A enfermidade cava-me o rosto, altera-me a fisionomia, modifica-me o tom da voz. Ele está imenso e escuro. Os seus galhos abraçam coqueiros, afogam laranjeiras que noivam, ou ultrapassam a cerca e vão dar sombra, na rua, às cabras cansadas, aos mendigos sem pouso, às galinhas sem dono... Quero abraçá-lo, e já não posso. Em torno ao seu tronco fizeram um cercado estreito. No cercado imundo, mergulhado na lama, ressona um porco... Ao perfume suave da flor, ao cheiro agreste do fruto, sucederam, em baixo, a vasa e a podridão!

– Adeus, meu cajueiro!

 

CAMPOS, Humberto de. Memórias: primeira parte 1886-1900. São Paulo: W. M. Jackson Inc. Editores, 1954. p. 235-242

Cajueiro plantado por Humberto de Campos nos últimos anos do século XIX em Parnaíba, no Piauí. Tombada pela lei do patrimônio histórico de Parnaíba. Foto: dinodealcantarablog.wordpress.com

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

A LEI SERGIO TABOADA E AS VELHAS ARMADILHAS DOS (E)VENTOS

 João Veras, 12.10.23

 

“E o tal ditado, como é? Festa acabada, músicos a pé, músicos a pé, músicos a pé, músicos a pé!” (Cantando no toró, de Chico Buarque)

QUANDO O SERGIO SOMOS NÓS - Na foto acima estamos em primeiro plano Chico Chagas, na sanfona; Sergio Taboada, no violão; Césio Medeiros, na percussão, e eu na flauta só pensando. Era um dos tantos shows que fazíamos na década de 80, quando a música acreana urbana emergia como uma invenção social, estética e política de força potente, expressiva e singular. Chico, exímio instrumentista, teve que sair do Acre para poder viver de música. Sergio, que sempre viveu a música sem precisar viver dela, faleceu precocemente ano passado em São Paulo onde morava. Césio desistiu cedo, foi cuidar da vida. E eu aqui ainda insistindo em existir me expressando com a escrita e outros instrumentos do meu pensamento musical.

Conheci Sergio nesse período da foto. Os dois com seus vinte e poucos anos. Ali vivíamos um período de intensa criação artística e luta política em Rio Branco. Era tudo junto. Foi a partir daí que construímos parcerias artísticas, políticas e de afetos. Nossa luta no campo da música, como tem sido a luta de cada compositor local, sempre foi a de tocar/cantar, ser tocado, ser ouvido, portanto, de existir. Ninguém deseja cantar para ouvidos moucos. Principalmente aquela geração filha de festivais tão compromissada com questões e temas locais, cuja audição/atenção desejada ia/vai muito além da função e objetivo estéticos musicais.

Venho já há algum tempo observando, pensando e espalhando que - a depender das políticas de educação e cultura, do mercado cultural e da sociedade que disso tudo se alimenta - continuamos na lida a cantar e tocar para ouvidos moucos. É por isso que não duramos como um valor próprio para essa estrutura de existência social colonial/colonizada em que vivemos. Tem sido assim, mas não sem a nossa resistência, que é a resistência da criação!

A LEI SERGIO TABOADA - E eis que uma notícia alvissareira veio ao mundo local na semana passada. A da promulgação de uma lei estadual que se propõe a alterar essa realidade. Coloquei a minha fiel pulga de estimação atrás da orelha e corri para ver se é isso mesmo.

A Lei é a de nº 4.176, de 5 de outubro de 2023. Ela foi batizada de Lei Sergio Taboada. Projeto de autoria do deputado Edvaldo Magalhães, a norma institui a Semana da Música Acreana, a ser comemorada por ocasião da primeira semana do mês de agosto, cabendo à Fundação Estadual de Cultura, em parceria com a Associação dos Músicos do Acre, promover, durante os sete primeiros dias de agosto, atividades culturais como shows, saraus e workshops.

Pelo seu conteúdo, a lei intenta fortalecer a música autoral acreana no Estado. De forma pragmática, diz como isso pode se dar: pela obrigação de que a apresentação dos trabalhos dos artistas participantes nos eventos da semana deverá ter no mínimo 80% de autoria própria. A pulga atrás da orelha não se segurou e gritou no meu ouvido: Vão adotar sempre o mínimo! Esse povo não vive sem querer ser o outro! Por que não logo os 100%? É só uma semaninha anual... Tá escrito que os outros vão levar os 20%. Eu só pedi calma, por enquanto.

DE BOAS INTENÇÕES... - A homenagem ao Sergio é justa e merecida. Ele de fato simboliza o(a) compositor(a) acreano(a) urbano(a) padrão, aquele(a) célebre desconhecido(a) que não circula em lugar nenhum no território acreano, tampouco fora dele. Taboada, apesar de ignorado, não reconhecido, nunca deixou de resistir como criador. Fato que o fez deixar um legado artístico, cujo registro se deve tão-somente à sua iniciativa, às suas próprias custas, prazer e dor. Eu poderia citar mais nomes que estiveram e estão na mesma condição. Mas Sergio, nisso a lei acerta, os representa muito bem no sentido que estou aqui a tratar.

A ideia da lei parece ser bem intencionada e necessária por razões óbvias. Já falei. É que a música acreana tem sido tratada como um fenômeno cultural que quase ninguém sabe que existe, justamente no lugar de sua criação. Não toca no rádio, na televisão, nas casas de shows, bares, teatros, nos supermercados, nas redes sociais... Não frequenta as escolas, não é referência, não tem passado, presente, futuro. Já reclamei, tentando salvá-la pelo menos do futuro, um Museu da Imagem e Som. De nada valeu aos ouvidos moucos das sucessivas gestões culturais desse eterno presente.

A música acreana passou a ser uma daquelas expressões cada vez mais raras, para poucos. Quase feita para não permanecer. E assim vai sumindo. Noutros tempos tinha ao menos um festival anual, o FAMP- Festival Acreano de Música Popular, que levava o seu nome e lhe dava status de uma certa existência. Hoje nem isso. Minto. Agora teremos uma semana anual com direito a se chamar de sua. Mas só em 80%, grita a pulga lá atrás!

AS VELHAS ARMADILHAS - Diante deste quadro histórico, não se pode afirmar que esta lei não pareça ter importância e não seja oportuna. Já disse. É. O problema é que porta um importante problema. É que ela não só cai na armadilha do evento como a justifica e a reforça. Nesse quadro, vira instrumento a serviço do encobrimento e desvio de uma questão de fundo determinante. É sobre isto que quero tocar por aqui na sequência.

Falo de evento no sentido de algo episódico, passageiro. Uma brisa que passa. O contrário das ideias de estrutura, sistemático, permanente. Porque, nesse sentido, o que essa Lei diz é que antes e depois da Semana da Música Acreana tudo se manterá como sempre se manteve nesse campo. O legislador sem ter consciência disso (ou tendo) pode estar querendo dizer e diz que nos outros 358 dias do ano continua liberado que se continue ignorando a expressão musical local.

O QUE SERIA UMA POLITICA DE CULTURA NÃO EVENTUAL - Penso que uma lei que busque de fato fortalecer a música acreana, ao invés de obrigar a Fundação de Cultura a realizar evento de uma semana, deveria impor ao órgão de cultura que cumpra a sua obrigação constitucional e legal, que faça o que nunca fez que é adotar políticas programáticas permanentes de fomento, de valorização, de difusão, de registro e de guarda da cultura musical acreana e do seu produtor.

Que sejam políticas programáticas que não se reduzam aos editais e realização de eventos tão-só, mas que enfrentem a raiz da questão. Para tanto, que envolvam as redes de ensino estadual e municipais, a Escola de Música do Acre e o curso de Música da UFAC, todos núcleos fundamentais para a formação, a pesquisa, a difusão, o registro e guarda, portanto, para a valorização da música local. Instituições estas, algumas das quais que atuam como centros de culto e difusão da técnica (especialmente da reprodução), que passem a atuar também como centros de difusão, valorização, proteção e criação, jamais desconsiderando este território geocultural Acre.

Nesse mesmo sentido, a lei deveria envolver o sistema de comunicação do Estado como núcleos fundamentais de divulgação das expressões culturais locais em todo o território acreano.

Envolvimentos esses que possibilitem que as escolas adotem em seus currículos disciplinas e programas sobre a música acreana, suas estéticas, seus compositores e suas histórias. E que possibilitem que as redes de comunicação estatais e privadas adotem cotas de difusão diária da música acreana.

Estou apontando onde se encontram, no território geocultural do Acre, os eixos centrais da formação, manutenção e valorização do gosto estético musical. O gosto que ignora o que fazemos é o mesmo gosto que consome e endeusa o que os outros fazem. São os dois lados da mesma moeda colonial.

Sabemos que as demais áreas artísticas passam pela mesmíssima situação. A diferença a partir de agora é que só a música tem a sua semana. A pulga exclama: E daí??

Não se trata de obrigar a gostar do que fazemos, tampouco não gostar dos que os outros fazem. Nem de longe é isso. Trata-se de alterar essa política que nos impede de existir. É uma questão de escolha política. De política pública de cultura, de política pública de educação, de política pública de comunicação. Uma semana resolve? Óbvio que não!

Por uma política cultural nos moldes aqui propostos, não tem como não alterar o status em que se encontra a expressão musical local.

Não estou a tratar de uma política de cultura que faças vistas grossas à força do mercado cultural, com seus produtos de massa produzidos no sudeste do país a ocupar os ouvidos locais como a referência da qualidade não só mercadológica, mas também estética-musical. Estou falando – não de evento – mas de uma ação que busque frear a sanha colonizadora pela qual institui a falsa crença de que o que é bom é sempre obra do mercado e do que as mídias e academias eurocêntricas e brasilcêntricas dizem ser, lugares em que a música acreana tem sido sistematicamente barrada e aos quais ela deva se pautar, se reduzir, se dobrar como cópia do padrão, digo de novo, sob pena de não existir.

PRECISAMOS ENXERGAR OS SIMULACROS NOS SILÊNCIOS DAS NOTAS - Que efetiva eficácia social terá uma lei se não significar fazer do seu sujeito/objeto uma realidade no mundo social e cultural para a qual foi criada? Para que serve uma homenagem (pela homenagem) se não – este é o caso em questão - significar tirar o homenageado, sua obra e sua história, da condição nada gloriosa de ignorado justamente dentro do próprio território cultural de criação? Que valorização é essa, a da letra da Lei, senão um evento chamado simulacro!

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

BENEDICTO MONTEIRO: O Cancioneiro do Dalcídio

Benedicto Monteiro (1924-2008), numa intertextualidade com fragmentos dos romances de Dalcídio Jurandir (1909-1979), compõe o seu “O Cancioneiro do Dalcídio”. Um livro cheio de delicadezas e encantos.

Tenta recordar noites, serões, em que a mãe, com ele no colo, costurava à luz da lamparina. Não via senão a mãe, à janela, com o farol sobre a enchente, a apanhar da água com a zagaia a toalha da mesa. Ou naquela noite em que Merência paria no curral, ao pé do atoleiro e quando a Felicia, no chalé sabrecada, levantou o rosto, ou a aflição do mundo?

Dalcídio Jurandir, Primeira Manhã, p. 131

 

 

RECORDAÇÃO

 

Ao recordar noites

vê a mãe

com ele no colo

costurando

à luz da lamparina.

 

Vê só a mãe à janela

com o farol sobre a enchente

a apanhar da água

com a zagaia

a toalha caída.

 

Enquanto no curral

pare uma vaca

ao pé do atoleiro

Felícia

a meretriz

levanta o rosto

com toda a aflição do mundo. p. 37

 

 

Andou pela beirada do rio, saltando nos barcos podres, trapiches velhos, espiou o estaleiro do mestre Afonso. Arqueado no mangue, o navio morto varava a noite com um chaminé de aflição e ferrugem.

[...]

Lá no fundo, a lamparina clareia-não-clareia o joguinho de cartas, gente ou meios fantasmas? e as coisas, tão nenhumas, ao som de um pássaro-preto na gaiola debatendo-se.

Dalcídio Jurandir, Primeira Manhã, p. 135/136

 

 

CEMITÉRIO DE NAVIOS

 

Arqueando no mangue

encharcado de lama

o navio morto

varava a noite

com uma chaminé de aflição

e ferrugem.

 

Vomitava escuridão.

 

E inchava tudo

de silêncio.

 

havia gentes

ou meios fantasmas?

 

As coisas

tão nenhumas

ao som de um pássaro-preto

na gaiola

              de – ba – ten – do – se p. 39

 

 

A montaria avançava sobre a lua agora solta e alva como uma garça.

Dalcídio Jurandir, Três Casas e Um Rio, p. 36

 

 

NOTURNO DO RIO Nº 1

 

A montaria avançava

sobre a lua

agora solta e alva

como uma garça

 

A linha dágua

era um horizonte reflexo

tanto a lua navegasse

como a montaria voasse

a garça iluminava

o voo da noite

na curva do rio. p. 65

 

 

A água se arrepiava de sardinhas e matupiris que catavam o farelo do pão e dos beijus de tapioca.

Dalcídio Jurandir, Três Casas e Um Rio, p. 43

 

 

A ÁGUA E O MENINO

 

A água se arrepiava

de sardinhas

matupiris e maparás

quando se jogava farelo de pão

e beijús de tapioca.

 

Se arrepiava

por alguns instantes

um peixe talvez

um sopro de vento

um vago reflexo

ou tremeluzir das estrelas

no espelho tranquilo

ao pé do menino. p. 67

 

 

Que delícia ver a terra desalagada, se enxugando.

Dalcídio Jurandir, Três Casas e Um Rio, p. 78

 

 

VÁRZEA

 

Que delícia

ver a terra desalagada

se enxugando.

 

Colhe-se barro

como se fossem flores

a terra brota também

do seio das águas

como se fossem plantas

desabrochando

em gretas e raízes. p. 73

 

 

Num luar, surpreendeu o rosto do chalé com os seus quatro olhos fechados sem aquele ar um tanto carrancudo. Estava adormecido, porém satisfeito com os seus habitantes. De ordinário, era aquela cara cheia de reflexões, as quatro janelas olhavam o rio com visível desdém. Havia, com efeito, uma espécie de conflito entre o rio e o chalé.

[..]

A água descia vagarosamente sobre a lama, arrastando resíduos misteriosos, uma pena de pássaro, uma asa, pequenos náufragos como formigas, sapinhos, mosquitos acompanhando o curso, folhas, reflexos e vozes de outros países diluídas naquele murmúrio leve, por vezes indistinto.

Dalcídio Jurandir, Três Casas e Um Rio, p. 149/150

 

 

NOTURNO DO RIO Nº 2

 

Numa noite de lua

surpreendeu o rosto do chalé

com seus quatro olhos

fechados.

 

É que havia

uma espécie de conflito

entre ele e o rio.

 

Mas mesmo assim

a água descia vagarosamente

sobre a lama

arrastando resíduos misteriosos

uma pena de pássaro

às vezes até uma asa

pequenos náufragos

como espinhos

                 mosquitos e formigas

e reflexos e vozes

de outros países

diluídas em murmúrios

que corriam e escorriam. p. 79

 

 

No faz de conta de Alfredo, eram ondas, vagalhões do mar nunca visto. Ali estavam muitos mares e muitas matas submersas. Transatlânticos e boiunas circulavam nas profundidades e correntezas daquela água rasa, quieta e transparente. Quando banhava o rosto suado, sentia o sal do mar que nunca provara. [...] Uma e outra vez passava, lá pelo fundo ou rente do degrau, um jeju lento. E aí então voltava a água às suas proporções reais. [...] Ali estava um habitante típico da inundação, vejam o olhar, o rabo, como volteia amorosamente entre os morurés, como espia para cima e boia e desce e vem, circula e some, sutilmente, sem um borbulho, no seu silêncio de peixe, com um tênue movimento da água menos que um estremecimento. Alfredo ficava, depois, mirando-se naquele espelho, sentia-se um outro naquela sombra sua movendo-se, a dissolver-se na extensão e intimidades da enchente.

Dalcídio Jurandir, Três Casas e Um Rio, p. 27

 

 

CAROÇO DE TUCUMÃ Nº 2

 

No-faz-de-conta

do mar nunca visto

estavam muitos mares

e muitas matas submersas.

 

Na correnteza

daquela água rasa

quieta e transparente

transatlânticos e boiunas

circulavam

Mas um jeju

lento e arisco

dava à água a proporção de água

e o seu silêncio

o silêncio de peixe

trazia à tona

a intimidade da enchente. p. 81

 

 

Mas ao guardar a medalha entre as roupas deixadas pela irmã na mala grande, estremeceu: deveria ter dito a Mariinha que o que enterrara, naquela tarde, era uma borboleta e tinha sido malvado, traindo ao mesmo tempo um juramento. Dissera-lhe que plantava uma semente. Que semente? perguntara-lhe Mariinha. Ele respondeu: Mistério.

Estaria ela sabendo agora o mistério?

Dalcídio Jurandir, Três Casas e Um Rio, p. 215

 

 

O ENTERRO DA BORBOLETA

 

Era uma louca ideia

enterrar no chão a borboleta

as cores

as asas

e todo o movimento.

 

Cavou o buraco

jogou dentro o inseto

mas na hora de responder

à sua mãe

disse que tinha enterrado

no chão

uma semente.

 

Que semente ?

 

Não, mamãe

não foi uma semente

foi um mistério. p. 87


MONTEIRO, Benedicto. O Cancioneiro do Dalcídio. Belém: Falangola; Rio de Janeiro: PLG Comunicação, 1985.