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quinta-feira, 3 de setembro de 2020

DOMESTICAÇÃO DA AMAZÔNIA ANTES DA CHEGADA DOS EUROPEUS*

Evandro Ferreira

Blog Ambiente Acreano

É um fato. Até hoje a maioria das pessoas acredita que as florestas na Amazônia são formações naturais que foram pouco alteradas pelos povos indígenas que as habitavam por ocasião dos primeiros contatos com colonizadores europeus a partir do início do século XVI.

Essa impressão foi reforçada pelos relatos muitas vezes exagerados e confusos dos primeiros exploradores espanhóis que, a partir de 1500, com a descoberta da foz do rio Amazonas por Vicente Pinzón, realizaram 24 expedições de penetrações na região.

Francisco de Orellana, em 1542, e Pedro de Ursúa e Lope de Aguirre, entre 1560 e 1561, percorreram totalmente o rio Solimões-Amazonas. Eles buscavam o reino “El Dorado”, um paraíso de ouro, e o “País da Canela”, onde supostamente abundava uma planta tão valiosa quanto a “Canela da Índia”, uma especiaria que conquistara consumidores europeus fazia poucos anos.

As descrições fantasiosas de Gaspar de Carvajal, padre dominicano que acompanhou a expedição de Orellana, reforçaram a ideia da Amazônia como uma floresta impenetrável, intocada, misteriosa e defendida por guerreiras ferozes (as Amazonas), que abrigava não apenas o reino de “El Dorado”, mas também o “País das Esmeraldas” e a elusiva – e nunca encontrada – cidade amazônica Inca de Paititi.

Nas últimas décadas, entretanto, evidências arqueológicas, botânicas, ecológicas, antropológicas, genéticas e históricas tem demonstrado que os indígenas da Amazônia foram e são como outros povos primitivos mundo afora que construíram (e continuam a construir) seus espaços de vida dentro de ecossistemas locais, modificando-os para que eles atendam aos seus interesses de sobrevivência.

A necessidade de moldar o ambiente às suas necessidades levou à domesticação de espécies de plantas e animais indispensáveis à sobrevivência dessas sociedades. Com o tempo, e o acúmulo de conhecimentos ecológicos que viabilizaram o manejo de ecossistemas do entorno de onde viviam, foi possível a domesticação de paisagens, ou seja, de áreas geográficas nas quais ocorrem interações entre os seres vivos e o meio ambiente e que antes da intervenção dos indígenas eram espacialmente heterogêneas.

Essa domesticação feita pelos indígenas consistia na retirada, por exemplo, de plantas úteis para a sua alimentação, medicina ou construções, diretamente do ambiente natural para cultivo nas redondezas de suas moradias. Foi assim com algumas espécies de plantas importantes para a sociedade moderna, como a mandioca, castanha do Brasil e pupunha.

No processo de domesticação levado a cabo pelos indígenas, prevaleceu a seleção de características genéticas que privilegiavam a obtenção de frutos maiores, com menor número de sementes ou sementes de menor tamanho, de árvores de porte mais baixo para facilitar a colheita, ou mesmo sem espinhos, como no caso da pupunha.

O pesquisador Charles Clement, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia-INPA, acredita que numerosas plantas da flora amazônica foram ou começaram a ser domesticadas há dez mil anos, ou seja, pouco depois da chegada do homem ao continente americano, que se presume ocorreu por volta de 12 mil anos atrás.

Essa crença está baseada em dois aspectos principais. O primeiro diz respeito ao crescente número de sítios arqueológicos indicadores de moradias de comunidades indígenas primitivas encontrados ao longo de quase todos os rios da região amazônica. Esses sítios apresentam um tipo único de solo conhecido como “terra preta de índio”, escuro, muito fértil e de origem antropogênica. Ou seja, que se formou pela intervenção humana via depósito de resíduos de fogueiras, lixeiras e mesmo sepultamentos. Essa terra fértil favorecia o cultivo recorrente de plantas anuais e perenes.

O segundo aspecto está relacionado à composição florística das florestas em volta desses sítios arqueológicos. Levantamento florísticos tem revelado que o percentual de plantas úteis para o homem nestas florestas é muito superior ao observado em regiões mais ermas, distantes das margens dos rios. Aqui também fica claro que a floresta foi modificada para aumentar a disponibilidade de recursos para os habitantes primitivos do entorno dos sítios arqueológicos.

Essa “domesticação” do ambiente produziu, na opinião dos arqueólogos, alterações em escala continental na paisagem amazônica e permitiu que a população indígena que habitava a região antes da chegada dos europeus atingisse, segundo algumas estimativas, entre oito e dez milhões de pessoas. Obviamente que a violência militar dos conquistadores europeus e, principalmente, as doenças trazidas por eles levaram a um rápido declínio dessa população indígena.

É importante ressaltar que ecólogos não concordam inteiramente com as teorias defendidas pelos arqueólogos sobre a forma de ocupação da Amazônia. Os arqueólogos defendem que indígenas primitivos modificaram a composição das florestas da região por meio do cultivo e manejo de determinadas espécies de plantas. A castanheira (Bertholletia excelsa), que pode viver mais de mil anos, é um bom exemplo, pois, além de ser frequentemente encontrada em sítios arqueológicos, apresenta uma distribuição em escala continental na Amazônia.

Como os frutos da castanheira são dispersos somente por humanos e pequenos roedores (cotias), a única explicação para a distribuição continental da mesma se deve aos humanos, mais precisamente às práticas de cultivo e manejo realizadas por populações indígenas que habitavam a região antes da chegada dos europeus.

O fato de humanos terem atuado para alterar no passado as florestas na Amazônia tem levado alguns pesquisadores a defender que as atuais florestas da região, em função da intervenção indígena pretérita, deveriam ser consideradas como patrimônio natural e cultural brasileiro e que sua derrubada significa não apenas a destruição de sua valiosa biodiversidade, mas também a perda definitiva deste patrimônio cultural.

 

Para saber mais: “The domestication of Amazonia before European conquest”, de autoria de Charles R. Clement e outros autores, publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society, Biological Sciences, vol. 282, n° 1812, agosto de 2015.

 

*Artigo originalmente publicado no jornal A Gazeta, em Rio Branco, Acre, em 07/10/2019.

Ilustração: Francisco de Orellana's 1541 expedition down the Amazon River, American engraving, 1848. The Granger Collection, New York

sábado, 22 de agosto de 2020

GEOGLIFOS PARA EPYMARÁ E KURAMPURA¹

 Alceu Ranzi² e Evandro Ferreira³

 

Nos escritos deixados por dois estudiosos-aventureiros que andaram pelo Acre na passagem do século XIX para o século XX, o Coronel Antonio Labre (fundador da cidade de Lábrea, Amazonas) e o Coronel inglês Percy Fawcett (que inspirou o personagem “Indiana Jones”), é possível perceber detalhes interessantes sobre Templos, Deuses e Demônios.

Esses personagens mereceram a atenção de muitos estudiosos. O Dr. Hélio Rocha, professor da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), pesquisou sobre o fundador de Lábrea e publicou o livro “Coronel Labre” (Editora Scienza), o qual é recomendo para os pesquisadores da Amazônia Ocidental. De outra parte, sobre o Coronel Fawcett, a literatura está plena de descrições de suas aventuras e artigos técnicos, fruto de suas expedições pelos sertões do Brasil e andanças por tierras no descubiertas para estabelecer os limites da Bolívia com Brasil e Peru.

Em ordem cronológica vamos iniciar em 1877, com o Coronel Labre e sua expedição que varou a pé desde a margem esquerda do Rio Madre de Dios, no atual Departamento de Pando na Bolívia, até chegar na margem direita do Rio Acre, na região da desembocadura do Riozinho do Rola, nas proximidades do atual “Lago do Amapá”, num percurso aproximado de 250 km.

Enquanto Labre caminhava, por bem cuidadas trilhas e varadouros indígenas, ele notou vários campos circulares, com casas e templos. Numa taba Araúna (indígenas que habitaram os rios Abunã e Orton na Bolívia) ele descreveu:

“...vi um pequeno tijupal (palhoça) servindo de templo, onde estavam guardados seus penates (Deuses protetores) ou ídolos”.

Seguindo sua caminhada, o Coronel Labre continuou suas anotações:

“...Boa casa ainda em estado de conservação, um templo e pátio grande e bem limpo...”. “Passamos por três taperas, tendo uma d’ellas grande área aberta em prado com restos de árvores frutícferas”.

“...Casa grande em bom estado de conservação e limpeza, e um templo onde ainda conservam-se os ídolos indígenas (objetos consagrados ao culto), o pátio da casa estava limpo e varrido, confundindo-se com a praça do templo. N’esta povoação houve antigamente uma grande tribo, segundo anuncia a área, em torno da habitação, formando um círculo perfeito (Geoglifo?), com diâmetro de um kilometro...”

“...Passamos por um campinho de 1.500 metros de circunferência, que disseram os Guarayos (indígenas do rio Abunã) ser lugar de plantações antigas”.

“Esta povoação…tem uma área de campo aberto, perto de 5 kilometros em circunferência, tendo de diâmetro 1.500 metros”.

“...eram pequenos prados naturaes ...o maior d’elles poderia ter 5 kilometros de comprimento, com uma largura de 2 kilometros na parte central”.

“Mamuyeçada é uma maloca de 100 e tantos a 200 habitantes; tem forma de governo, templos, culto e religião ...(mulheres)... sendo-lhes prohibida a entrada no templo e obrigadas a ignorar os nomes e formas dos ídolos, que não tem forma humana, são figuras geométricas, feitos de madeira polida. O maioral ou pai dos deuses chama-se Epymará, tem forma elipsoide e poderá ter em dimensão de 35 a 40 centímetros”.

A citação acima, do Cel. Labre, mereceu a atenção de Denise Schaan, principal estudiosa dos Geoglifos do Acre: “Ali (Labre) aprendeu que aqueles povos adoravam deuses de formatos geométricos, esculpidos em madeira”.

Trinta anos depois de Labre, em 1907, passando pelas mesmas trilhas, nas proximidades da atual cidade de Capixaba, região conhecida por antigos campos naturais e com muitos Geoglifos plotados, o Coronel Fawcett fez as seguintes anotações (tradução nossa):

“Acampamos em um lugar chamado Campo Central, com a missão de encontrar as nascentes de alguns rios e anotar suas posições. Enquanto realizávamos o trabalho, observamos enormes campos circulares, de uma milha ou mais em diâmetro (aproximadamente 2 mil metros), o local há poucos anos passados era uma grande aldeia dos Apurinãs. Alguns desses índios ainda vivem num lugar chamado Gavião. Esses índios, haviam se submetido à civilização e pareciam contentes o suficiente, exceto pela malícia de um espírito chamado Kurampura”.

Ainda no Acre, Fawcett observou que, “aqui e ali um tronco havia sido esculpido no formato de um cone de 30 a 35 cm de altura, provavelmente com motivo religioso”.

Assim, podemos inferir, pelas observações dos desenhos representados pelos Geoglifos (círculos, quadrados, hexágonos e octógonos) e pelos Deuses e ídolos em formato de elipsoide e/ou cone, que os antigos habitantes do Acre faziam parte de um povo que dominava a geometria ao ponto de suas aldeias e seus Deuses serem representados em formas geométricas.

Sobre o olhar respeitoso que devemos ter para com os Geoglifos, vale lembrar o alerta do ex-governador Binho Marques: “Será necessário um esforço de todos - Estado, empresas, comunidades - para a conservação dos Geoglifos, para pesquisá-los e conhecê-los melhor, para incluí-los no nosso sonho de um desenvolvimento econômico social e ambientalmente sustentável. Queremos disseminar um sentimento de responsabilidade sobre essa riqueza tatuada na pele de nossa terra. É necessário que cada acreano veja e reveja o solo sagrado onde pisa”.

 

Para saber mais:

Fawcett, P.H. 2001. Exploration Fawcett. Phoenix Press, London.

Labre, A.R.P. 1889. Colonel Labre’s exploraƟ ons in the region between the Beni and Madre de Dios rivers and the Purus. Proceedings of the Royal Geographical Society and Monthly Record of Geography, v.11, p.496-502.

Marques, B. 2010. A força das imagens. In: Schaan, D.P.; Ranzi, A.; Barbosa, A.D. (Org.). Geoglifos: Paisagens da Amazônia Ocidental. Rio Branco: Editora GKNoronha. p. 7.

Rocha, H. 2016. Coronel Labre. São Carlos: Editora Scienza. 234p.

Schaan, D., Ranzi, A., Barbosa, A.D. 2010. Geoglifos: Paisagens da Amazônia Ocidental. Rio Branco: Editora GKNoronha. 100p.

 

¹Artigo originalmente publicado no jornal A Gazeta, em Rio Branco, Acre, em 05/08/2020

²Alceu Ranzi é Paleontologia, ex-professor da Universidade Federal do Acre-UFAC

³Evandro Ferreira é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia-INPA e do Parque Zoobotânico da UFAC.

 

Fonte da Imagem: Antonio Labre, 1889.

Artigo disponível aqui:

http://ambienteacreano.blogspot.com/

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

QUEM EXTINGUIU A MEGAFAUNA SUL-AMERICANA?

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano 


A data da chegada dos primeiros humanos ao continente sul-americano é motivo de grande disputa entre pesquisadores, com alguns sustentando que esse evento aconteceu há quase 50 mil anos, e outros estimando a data em pouco mais de 10 mil anos.

Mesmo que a data de chegada tenha sido a mais recente, o certo é que aqui nossos ancestrais encontraram um conjunto de animais de grande porte numeroso, com porte e peso similar aos grandes animais que ainda hoje vagueiam pelas savanas africanas.

Entretanto, esses grandes animais, também conhecidos como “megafauna”, logo desapareceram do nosso continente e hoje o maior mamífero terrestre que encontramos em nossos campos e florestas é a anta, que dificilmente ultrapassa os 300 kg de peso. Apenas para comparar, na África alguns elefantes podem pesar até 5 toneladas!

Entre os grandes animais extintos, destacavam-se os mastodontes, antepassados dos elefantes, as preguiças gigantes de cinco toneladas e os gliptodontes, ancestrais dos tatus que atingiam o tamanho de um pequeno carro. Antes da chegada do homem o principal predador da megafauna sul-americana era o tigre dentes-de-sabre, que, como o nome indica, possuía dentes caninos superiores avantajados que mediam até 30 cm de comprimento. Com até 3 m de comprimento e cerca 300 kg de peso, ele era maior e mais robusto do que a onça e os leões da atualidade. O desaparecimento da megafauna em nosso continente também causou a extinção desse magnífico predador.

Mas o que levou ao desaparecimento da megafauna sul-americana?

Uma das teorias mais difundidas e aceitas é a que aponta o dedo para o homem. Foi ele, segundo essa teoria, que caçou esses grandes animais até a sua completa extinção. Essa teoria se sustenta em achados de pinturas rupestres em cavernas mostrando cenas de caçadas aos grandes animais e em ossos dos mesmos fraturados por armas humanas primitivas.

Embora baseada em provas concretas e com uma lógica quase incontestável segundo a qual a caça de animais de grande porte que se moviam lentamente e formavam grandes bandos era uma tarefa relativamente fácil para os nossos ancestrais armados com ferramentas de caça primitiva, alguns pesquisadores não acreditam que o homem foi o único responsável pela extinção da megafauna sul-americana.

Segundo novas proposições, as mudanças climáticas causadas pela alternância de períodos de aquecimento e resfriamento do nosso planeta foram elementos determinantes para essa extinção.

A chegada do homem na América do Sul aconteceu no final do Pleistoceno, uma época geológica que se estendeu entre 1,8 milhões e 11 mil anos atrás. Durante esse período ocorreram pelo menos vinte glaciações, ou seja, períodos durante os quais ocorria o resfriamento do planeta, o avanço das calotas polares sobre os continentes adjacentes e uma diminuição na quantidade de água circulante no planeta, que ficava retida na forma de gelo. A restrição na quantidade de água afetava o regime de chuvas nas regiões tropicais – aonde o gelo não chegava – e causava a sua diminuição. Isso provavelmente provocava secas espetaculares nos trópicos e causava a retração das áreas cobertas por florestas e favorecia o avanço das savanas. 

Ao final de cada glaciação ocorria a retração do gelo e a liberação da água para circular em terra e na atmosfera. Essa situação se mantinha até que uma nova glaciação se estabelecesse novamente. Nesse período entre as glaciações – ou período interglacial – a elevação da umidade favorecia, nas regiões tropicais, o avanço das florestas sobre as savanas.

Na atualidade vivemos um período interglacial, iniciado há cerca de 11 mil anos, uma época geológica batizada como Holoceno.  Para os que acreditam na ação climática como fator determinante para a extinção da megafauna sul-americana, uma quantidade acima do normal de água caiu sobre os continentes americano e africano, cuja maior parte do território está localizada na zona tropical do planeta.

O efeito desse excesso de umidade na América do Sul foi um avanço das florestas e uma diminuição nas áreas de savanas (ou cerrado). As áreas de savana/cerrado que persistiram nos locais aonde a floresta não conseguiu se estabelecer – por razões climáticas – passaram por mudanças que resultaram no adensamento arbóreo, se tornando quase uma extensão das florestas adjacentes. Com isso, as extensas áreas de campos naturais vitais para a manutenção da numerosa megafauna sul-americana, foram drasticamente diminuídas, inviabilizando a manutenção desse grupo de animais. 
Na África, o excesso de umidade favoreceu a transformação de áreas de campos e cerrados da região central do continente em florestas. Mas ao mesmo tempo transformou áreas antes ocupadas por desertos nos extremos sul e norte do continente em novas zonas de vegetação aberta – campos ou savanas. A mudança climática favoreceu a megafauna africana, que migrou para as novas áreas e conseguiu persistir nelas desde então.

E o homem? Porque não atuou para extinguir os grandes animais africanos da mesma forma que fez na América do Sul? O que podemos especular é que tendo surgido na África, o homem moderno, ao tomar ciência da realidade ambiental em que vivia, aprendeu a conviver e se aproveitar de modo mais racional dos recursos oferecidos pela megafauna que o rodeava.

Mas afinal, foi o homem ou o clima que exterminou a megafauna sul-americana?

Em uma tese de doutorado defendida em 2013 na Universidade Federal do Goiás o pesquisador Matheus de Souza Lima Ribeiro concluiu que se o homem foi o responsável, o modelo estatístico que ele utilizou suportou a ideia de que a extinção resultante da matança promovida pelo homem ocorreu em um período de aproximadamente 1.000 anos.

Quando Ribeiro avaliou os efeitos climáticos e a ação do homem para ver quem foi mais determinante na extinção da megafauna, ele observou que juntos eles respondem por cerca de 50% da variância na data de extinção, mas o efeito individual da caça humana explica uma proporção maior (38%) que o clima (7,4%). Assim, persiste a ideia de que a nossa megafauna foi extinta pelos nossos ancestrais.


Para saber mais: Ribeiro, M. S. L. 2013.Mudanças climáticas, colonização humana e a extinção da megafauna na América do Sul. 177 f. Tese (Programa de Pós-graduação em Ecologia & Evolução/ICB/UFG), Universidade Federal de Goiás.

Fontes das imagens:

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A OCORRÊNCIA DE FLORESTAS ESTACIONAIS NO ACRE

Evandro Ferreira 
Blog Ambiente Acreano

 
Os livros didáticos e mesmo o Zoneamento Ecológico do Estado (ZEE) classificam todas as florestas acreanas como sendo do tipo tropical úmida, ou seja, tecnicamente nossas florestas são, para essas publicações, ‘ombrófilas’. Essa palavra de origem grega significa ‘amigo das chuvas’ e sugere que nossas florestas sobrevivem e são dependentes de um clima majoritariamente chuvoso e com altas temperaturas médias anuais.

De fato, quem estuda o mapa da vegetação acreana produzido pelo ZEE (Acre, 2006) verificará que o tipo de vegetação predominante no Acre é a ‘Floresta Ombrófila Aberta’. Este tipo de vegetação, segundo o Manual Técnico da Vegetação Brasileira (IBGE, 2012) - referência oficial adotada no país para a classificação da vegetação nativa - é considerado como uma transição entre a floresta amazônica típica e outras vegetações extra-amazônicas e ocorre em locais em que a temperatura média anual pode chegar a 25 °C e o período de estiagem estende-se entre 2 e 4 meses por ano.

Essas informações oriundas da referência obrigatória para a classificação da vegetação brasileira denota que possivelmente um equívoco deve ter ocorrido na classificação da vegetação acreana durante a elaboração do ZEE. Vejamos.

A região leste do Acre, assim como todo o Estado, apresenta altas temperaturas médias anuais que podem variar entre 23,7 °C em junho e 26 °C em novembro (Duarte, 2006) e se qualifica como tendo condições térmicas para abrigar a vegetação do tipo ‘Floresta Ombrófila Aberta’. Entretanto, o mesmo autor afirma que o período chuvoso na região leste do Acre se estende entre outubro e abril e concentra 83% do volume anual de chuvas. Sobram, portanto, para os outros cinco meses do ano (maio a setembro) apenas 17% do volume de chuvas anuais.

Diante disso não é exagero dizer que a extensão do período seco na região leste do Acre (cinco meses), combinada com o baixíssimo índice pluviométrico ocorrente durante o mesmo (menos de 1/5 do total anual) desqualifica, sob o ponto de vista hídrico, essa parte do Estado para abrigar florestas do tipo ‘Ombrófilas Abertas’. Por isso, como se pode observar facilmente no entorno de Rio Branco no auge do período seco, “nossas” florestas Ombrófilas submetidas a períodos secos prolongados tendem a apresentar comportamento estacional. Na prática, observa-se que os indivíduos arbóreos de maior porte permanecem nessa condição quando o déficit hídrico atinge o seu ápice entre os meses meados de agosto e setembro.

Obviamente que se as florestas ‘Ombrófilas’ perdem as folhas durante uma parte do ano por razões climáticas elas não poderão continuar a ser formalmente classificadas como tal. Na literatura, florestas com esse comportamento são geralmente chamadas de estacionais. E florestas desse tipo geralmente ocorrem em regiões com clima sazonal (estações chuvosas e secas bem definidas). Além disso, no período de maior deficiência hídrica as árvores de médio e grande porte dessas florestas perdem suas folhas em percentuais que podem variar entre 20% (mínimo) a mais de 50% (em situações extremas).

No Manual Técnico da Vegetação Brasileira as florestas com comportamento estacional são classificadas como semidecidual se o percentual de árvores que perdem as folhas na estação seca situar-se entre 20% e 50% do total. Se o percentual for superior a 50% elas são classificadas como decíduas. As formações florestais que apresentam menos de 20% de indivíduos desfolhados no período seco são consideradas “sempre-verdes” (ou perenifólias) e nessa categoria estão incluídas as ‘Florestas Ombrófilas Abertas’ indicadas pelo ZEE como ocorrentes na região leste do Acre.

O Manual da Vegetação Brasileira indica que a ‘Floresta Estacional Semidecidual’ ocorre no Acre em áreas aluviais presente nas planícies e em alguns terraços mais antigos das calhas dos rios e em áreas de terras baixas sobre solos sedimentares até 200 m de altitude. Ele até indica algumas espécies encontradas nesse tipo de floresta, com destaque para a cerejeira (Amburana acreana), os ipês (Handroanthus spp.) e o pau pombo (Tapirira guianensis). De uma maneira geral florestas estacionais apresentam menor altura, biomassa e riqueza florística em relação às florestas tropicais úmidas em razão da forte influência da sazonalidade climática (ver Nogueira et al. 2008).

É importante ressaltar que as florestas estacionais acreanas não devem ser entendidas no sentido estrito da palavra, pois apenas o componente arbóreo emergente apresenta comportamento estacional. As palmeiras, o bambu (Guadua spp.) ou uma combinação de ambos, por exemplo, são perenifólios e dominam o sub-bosque de grande parte das florestas estacionais do leste do Acre.

As florestas com comportamento estacional encontradas na região leste do Acre estão geograficamente no limite sul do domínio da floresta Amazônica ‘Ombrófila’ (perenifólia). Elas predominam na região de cabeceira e no médio curso do rio Acre, estendendo-se também para a região ocupada pelo Parque Estadual Chandless.

Na Estação Ecológica Rio Acre, próximo de Assis Brasil, um inventário florístico de revelou que 70% das plantas encontradas integravam o estrato intermediário e o subosque florestal (Ferreira et al., 2011). Essa dominância relaciona-se com o comportamento decidual das árvores maiores, que perdem as folhas no período mais seco do ano e permitem que mais luz chegue ao interior da floresta, favorecendo o desenvolvimento das plantas de pequeno e médio porte.

Essa condição também torna as florestas estacionais do leste do Acre naturalmente mais secas e vulneráveis ao fogo (proposital ou acidental), especialmente no auge da estiagem entre os meses de julho e setembro, quando as folhas caídas das árvores maiores formam um colchão de material seco e inflamável sobre o solo.

Por isso, delimitar a extensão das florestas estacionais do leste do Acre é uma prioridade, pois ajudará a identificar áreas mais vulneráveis a incêndios florestais e contribuirá para minorar os prejuízos ambientais e econômicos que esses desastres representam para a economia local.

Referências:
- Duarte, A. 2006. Aspectos da climatologia do Acre, Brasil com base no intervalo 1971-2000. Rev. Bras. Meteorologia, 21: 308-317.
- Ferreira, E.J.L.  et al. 2011. Aspectos florísticos e fitossociológicos de uma floresta aberta com comportamento caducifólio e sub-bosque dominado por Rinorea viridifolia Rusby (Violaceae) no Leste do Acre. In: X Congresso de Ecologia do Brasil, 2011, São Lourenço-MG.
- IBGE. 2012. Manual Técnico da Vegetação Brasileira. Rio de Janeiro: IBGE. 271p.
- Nogueira, E.M. et al. 2008. Tree height in Brazil's ‘arc of deforestation’: Shorter trees in south and southwest Amazonia imply lower biomass. Forest Ecology and Management, 255: 2963-2972.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

FOSFOETANOLAMINA SINTÉTICA: GLÓRIA OU DRAMA? (*)

Evandro Ferreira


Nestas últimas semanas o debate sobre o uso da substância fosfoetanolamina sintética em tratamentos de câncer foi intenso nos sites de notícias e nas mídias sociais. E a polêmica aumentou desde que o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu, no dia 08/10, decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) que impedia o fornecimento da substância produzida pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), em Rio Claro, para uma paciente com câncer do Rio de Janeiro.

Mas qual a razão para tanta discussão e debate? Que milagres contra o câncer a fosfoetanolamina sintética pode operar?

Quem se detém nas notas generalistas dos sites de notícias e em postagens inflamadas nas mídias sociais tem a impressão que a substância é ‘tiro certo’ para a cura do câncer. E vou além. Postagens nas mídias sociais conseguiram transformar os responsáveis pela produção da fosfoetanolamina na USP em quase ‘heróis nacionais’. Segundo alguns, os pesquisadores brasileiros são ‘cientistas tupiniquins que lutam bravamente contra a manipulação de multinacionais que querem, a todo custo, impedir a produção da substância milagrosa’. Tem até quem afirme que ela, a fosfoetanolamina, foi invenção desses ‘Dom Quixotes’ brasileiros.

O primeiro aspecto que contribuiu para a grande visibilidade adquirida pela fosfoetanolamina foi, obviamente, o seu potencial de uso contra o câncer, uma doença com alta taxa de mortalidade que não discrimina sexo, idade e classe social e que afeta anualmente aproximadamente 14 milhões de pessoas no mundo, causando, direta ou indiretamente, a morte de mais de 8 milhões delas. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), nos próximos 20 anos espera-se que o número de casos anuais da doença aumente 70%, para mais de 23 milhões.

Apesar de ser uma doença antiga, reportada desde 2500 anos antes de Cristo, e dos avanços fabulosos da medicina nas últimas décadas, a busca da cura para a maioria dos tipos de câncer não produziu resultados tão espetaculares como nos casos de numerosas doenças infecciosas como a AIDS, tuberculose, poliomielite, meningite e malária. Por isso, novidades no tratamento da mesma tem a capacidade de atrair tanta atenção.

No caso da fosfoetanolamina sintética, um fator contribui sobremaneira para a sua popularidade: a divulgação irresponsável de que a mesma pode aliviar, fazer rescindir ou mesmo curar alguns tipos de câncer em humanos sem que testes clínicos rigorosos tenham sido realizados.

A substância não é nova para a ciência e foi isolada pela primeira vez há quase 80 anos (1936). Desde então centenas de estudos já foram realizados e se descobriu, entre outros aspectos, que ela está relacionada com a ocorrência de convulsões epiléticas e Alzheimer. Em sua forma orgânica foi verificado que apresentava concentração 10 vezes acima do normal em tumores, levantando-se a hipótese de um possível papel na defesa celular.

Diante do seu potencial, um grupo de pesquisadores da USP, liderados pelo químico Gilberto Chierice, conseguiu sintetizar a fosfoetanolamina em laboratório e resolveu testar a mesma em células cancerígenas. Os ensaios efetuados até agora foram in vitro e in vivo. No primeiro, células cancerosas são tratadas em garrafas de vidro ou plástico e no segundo os estudos são feitos em animais vivos (in vivo). Neste caso tumores humanos são colocados em ratos e a substância é aplicada para avaliar o potencial de reduzir os tumores sem ser tóxica a ponto de causar a morte dos animais.

Os resultados alcançados na USP foram promissores. A fosfoetanolamina se mostrou eficaz contra o melanoma, câncer de mama, leucemia e como inibidor da metástase de alguns tipos de câncer. Entretanto, o fato de uma substância ser capaz de matar células cancerosas in vitro ou em animais de laboratório não é o suficiente para que possa ser considerada eficaz em humanos. A água sanitária, por exemplo, pode matar células cancerosas, mas sua injeção no corpo humano tem o poder de matar o seu receptor. Por isso, depois das fases experimentais in vitro e in vivo em animais de laboratório, é indispensável realizar testes clínicos em humanos para conhecer sua eficácia e toxicidade.

Anualmente dezenas de substâncias promissoras contra o câncer são testadas em condições de laboratório, muitas delas mais promissoras que a fosfoetanolamina. Entretanto, em média apenas uma de cada 25 substâncias promissoras mostram-se eficientes no tratamento do câncer em humanos.

A fosfoetanolamina sintética estudada pelos pesquisadores da USP nunca chegou a ser testada em humanos e está sendo distribuída de forma irresponsável– já faz alguns anos – para ‘voluntários’ que se apresentam na porta do laboratório de química que o produz. Esta situação é uma aberração ética e científica indescritível para a qual cabe perfeitamente a abertura de investigação policial por charlatanismo.

A situação, entretanto, ganhou notoriedade apenas quando a USP proibiu a distribuição do ‘remédio’. Pessoas desesperadas apelaram para a justiça e, acreditem ou não, nossa maior instância judicial, o STF, ‘liberou’ para a população uma substância que sequer pode ser chamada de remédio, pois nem licença de venda possui.

Isso foi suficiente para a imprensa investigar o caso. Questionado, o professor Gilberto Chierice fez declarações que só pioraram a situação, afirmando à revista ÉPOCA que achava que a fosfoetanolamina ‘é uma cura para o câncer’. Ao portal de notícias G1 ele declarou que o ‘remédio’ ainda não chegou ao mercado por ‘má vontade’ das autoridades e afirmou, laconicamente que ‘se não for possível aqui – a produção da forma medicinal da fosfoetanolamina – a melhor coisa é outro país fazer porque beneficiar pessoas não é por bandeira. A humanidade precisa de alguém que faça alguma coisa para curar os seus males’.

Alguém discorda disso? Eu não. Mas confesso que não consigo entender porque, com uma substância tão promissora, o professor e seus colegas da USP não formam uma equipe multidisciplinar para realizar os testes clínicos e desenvolver o produto no Brasil. Um médico pesquisador brasileiro se propôs a ajuda-lo e foi, discretamente, recusado. Afinal o que ele quer fazer? Quer ir avante e desenvolver o remédio ou não?

Tinha que ser no Brasil! Um enredo tão promissor para contar de forma gloriosa os passos de um avanço científico grandioso para a ciência brasileira corre o risco de se transformar em um enredo para descrever o drama de um fracasso.


Para saber mais:
Ferreira, A. K.; Santana-Lemos, B. A. A.; Rego, E. M.; Filho, O. M. R.; Chierice, G. O.; Maria, D. A. Synthetic phosphoethanolamine has in vitro and in vivo anti-leukemia effects. British Journal Of Cancer, v. 109, n. 11, p. 2819-2828, nov 26 2013.

Ferreira, A. K.; Meneguelo, R.; Pereira, A.; Filho, O. M. R.; Chierice, G. O.; Maria, D. A. Synthetic phosphoethanolamine induces cell cycle arrest andapoptosis in human breast cancer MCF-7 cells through the mitochondrial pathway.Biomedicine & Pharmacotherapy, v. 67, n. 6, p. 481-487, jul 2013.

Ferreira, A. K.; Freitas, Vanessa M.; Levy, D.; Maria Ruiz, J. L.; Bydlowski, S. P.; Grassi Rici, R. E.; Filho, O. M. R.; Chierice, G. O.; Maria, D. A. Anti-Angiogenic and Anti-Metastatic Activity of Synthetic Phosphoethanolamine. PLoS One, v. 8, n. 3 mar 14 2013.

Ferreira, A. K.;  Meneguelo, R.; Navarro Marques, F. L.; Radin, A.; Filho, O. M. R.; Claro Neto, S.; Chierice, G. O.; Maria, D. A.  Syntheticphosphoethanolamine a precursor of membrane phospholipids reduce tumor growthin mice bearing melanoma B16-F10 and in vitro induce apoptosis and arrest inG2/M phase. Biomedicine & Pharmacotherapy, v. 66, n. 7, p. 541-548, oct 2012.

Ferreira, A. K.; Meneguelo, R.; Pereira, A.; Filho, O. M. R.; Chierice, G. O.; Maria, D. A. Anticancer Effects of Synthetic Phosphoethanolamine onEhrlich Ascites Tumor: An Experimental Study. Anticancer Research, v. 32, n. 1, p. 95-104, jan 2012.

*Artigo originalmente publicado no diário 'A Gazeta', n. 8.805, p.2, de 20/10/2015.