I
E pensar que somos transitórios
um frágil equilíbrio de vida
líquida e efêmera
sobre a linha d'água
fluindo no tempo
finito em nós
III
Teus olhos miram invisível rio
nele palavras que tu nunca disseste
nadam como peixes cegos
famintas
morrendo à mingua
de tua coragem em dizê-las
no leito do rio
um eu nunca dito
naufraga
reverberando teus assombros
e soçobros
IV
Tu olhas para o rio
como se ele fosse teu
não o tens
não podes tê-lo
nem detê-lo
o rio é um instante
que nunca para de morrer
o rio é esse fio líquido
morrendo em si mesmo
nele
cada mergulho
é uma despedida
XV
Silenciosa
a memória corre em teus olhos
lambe as margens
que choram água e sal
no rio de teus olhos
um leito seca de saudade
XVII
Nossa terra
é esse chão molhado de afetos
sob um céu de asas
de voos cumprindo seus ritos de passagem
nosso caminho
é essa estrada líquida
onde as pessoas vão passando
passando
no esquecimento do devir
XXIX
Olha para o rio
o rio dá ao pássaro
mais que sua imagem
no espelho de suas águas
ele dá o peixe em oferenda
e a possibilidade
do voo
XXX
Olha!
um peixe encadeado
cai do céu
ele boia
se apaga
é um anjo
perdeu suas asas
no anzol
XXXV
No repouso da margem
a canoa entristece
sonha e chora
derrama na areia
o testemunho de chegadas
de partidas
de histórias
naufragadas
XLI
Quando sonho o rio
as ausências penetram como lâminas
nos tímpanos do sono
ouço a voz do rio
choro
a dor cabe no rio
o rio cabe nas lágrimas
XLIV
A vida ribeira me ensinou
o rio o rio me ensina o tempo
o tempo me ensina o rio
os dois me ensinam a vida
a vida é esse rio morrendo em si mesmo
XLVI
Pensa que sou água
fio líquido que te desfia
pensa que sou rio
cio correndo livre
em tua geografia
AQUATEMPO
Cai do céu
brota na terra
corre por vigas
veios – veias – vidas
na pedra morre
da pedra vive
líquido chão
indiviso vão
um-sempre-tudo
existe e resiste
vinga - verte corre
na singularidade onde o tempo flui
no líquido espaço onde a vida
toda ela
surge e ressurge
na água
MONTEIRO, Wanda. Aquatempo – Aquatiempo. São Paulo:
Patuá, 2020.
__________________________
Wanda Monteiro, advogada, escritora, nascida na
margem esquerda do rio Amazonas, em Alenquer, no estado do Pará. É autora de O
beijo da Chuva (2008), Duas Mulheres Entardecendo (2014, em parceria
com Maria Helena Latini); Aquatempo (2016); A Liturgia do Tempo e
Outros Silêncios (2019) e Chão de exílio (2025).

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