TEMPO
O fluxo obriga
qualquer flor
a abrigar-se em si mesma
sem memória.
O fluxo onda ser
impede qualquer flor
de reinventar-se em
flor repetida.
O fluxo destrona
qualquer flor
de seu agora vivo
e a torna em sono.
O universofluxo
repele
entre as flores estes
cantosfloresvidas.
– Mas eis que a palavra
cantoflorvivência
re-nascendo perpétua
obriga o fluxo
cavalga o fluxo num milagre
de vida. p. 14
FALA
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será.
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.) p. 31
ODE III
Pouco é viver
mas pesa
como todo o ser
como toda a luz
como a concentração do tempo. p. 47
ALVO
Miro e disparo:
o alvo
o al
o a
centro exato dos círculos
concêntricos
branco do a
a branco
ponto
branco
atraindo todo o impacto
(Fixar o voo
da luz na
forma
firmar o canto
em preciso
silêncio
— confirmá-lo no centro
do silêncio.)
Miro e disparo:
o a
o al
o alvo. p. 76
REPOUSO
Basta o profundo ser
em que a rosa descansa.
Inúteis o perfume
e a cor: apenas signos
de uma presença oculta
inútil mesmo a forma
claro espelho da essência
inútil mesmo a rosa.
Basta o ser. O escuro
mistério vivo, poço
em que a lâmpada é pura
e humilde o esplendor
mais cálidas flores.
Na rosa basta o ser:
nele tudo descansa. p. 127
ODE
E enquanto mordemos
frutos vivos
declina a tarde.
E enquanto fixamos
claros signos
flui o silêncio.
E enquanto sofremos
a hora intensa
lentamente o tempo
perde-nos. p. 130
POEMA
Saber de cor o silêncio
diamante e/ou espelho
o silêncio além
do branco.
Saber seu peso
seu signo
– habitar sua estrela
impiedosa.
Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.
Saber de cor o silêncio
– e profana-lo, dissolvê-lo
em palavras. p. 144
POUSO (II)
Difícil para o pássaro
pousar
manso
em nossa mão – mesmo
aberta.
Difícil difícil
para a livre
vida
repousar em quietude
limpa
densa
e inda mais
difícil
– contendo o
voo
imprevisível –
maturar o seu canto
no alvo seio
de nosso aberto
mas opaco
silêncio. p. 147
CISNE
Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
– a presença do cisne?
Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e – humana –
é esplendor memória
e sangue.
E
resta
não o cisne: a
palavra
– a palavra mesmo
cisne. p. 148
SILÊNCIO
I
A madrugada.
Seu coração de silêncio.
II
O silêncio cheio
de peixes
de irisados peixes
úmidos.
III
Grandes árvores
ânforas
transbordantes de silêncio.
IV
Galos
no alto silêncio
impressos
seda
translúcida do silêncio. p. 177
RIO (II)
I
Águas não
cantam
fluem suaves
fogem.
II
Fresco silêncio:
a flor não
fala.
III
Nenhum ruído. Apenas
brancas pétalas
da flor que navega
nas águas
esplêndidas. p. 180
ERRÂNCIA
Só porque
erro
encontro
o que não se
procura
só porque
erro
invento
o labirinto
a busca
a coisa
a causa da
procura
só porque
erro
acerto: me
construo.
Margem de
erro: margem
de liberdade. p. 192
DO ECLESIASTES
Há um tempo para
desarmar os presságios
há um tempo para
desamar os frutos
há um tempo para
desviver
o tempo. p. 195
O ESPELHO
O
espelho: atra
vés
de seu líquido nada
me des
dobro.
Ser quem me
olha
e olhar seus
olhos
nada de
nada
duplo
mistério.
Não amo
o espelho: temo-o. p. 201
HABITAT
O peixe
é a ave
do mar
a ave
o peixe
do ar
e só o
homem
nem peixe nem
ave
não é
daquém
e nem de além
e
nem
o que será
já em nenhum
lugar. p. 205
MENSAGENS
A cor
alada: borboleta
ou pétala?
Fresca asa per
passa
as mãos
abertas.
Sussurro
orelha
caramujo
antena
os cabelos ao
vento. p. 215
ODE
Neste tudo
tudo falta
(neblina)
e nesta
falta: eis
tudo. p. 217
REBECA (II)
A moça do cântaro e
seu
silêncio de água
e de barro. p. 230
ESFINGE
Não há perguntas; selvagem
o silêncio cresce, difícil. p. 233
PARTILHA
Partilharemos somente
o que em nós se
continua:
a singeleza
a luta
a esperança.
Partilharemos somente
esta maior intensidade:
absoluta palavra
que nos pertence integralmente.
Partilharemos somente
o pão unificado
e a água sem face. p. 242
FONTELA, Orides. Trevo (1969-1988). São Paulo: Duas
Cidades, 1988.

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