sábado, 3 de janeiro de 2026

POEMAS DE ORIDES FONTELA


TEMPO

 

O fluxo obriga

qualquer flor

a abrigar-se em si mesma

sem memória.

 

O fluxo onda ser

impede qualquer flor

de reinventar-se em

flor repetida.

 

O fluxo destrona

qualquer flor

de seu agora vivo

e a torna em sono.

 

O universofluxo

repele

entre as flores estes

cantosfloresvidas.

 

– Mas eis que a palavra

cantoflorvivência

re-nascendo perpétua

obriga o fluxo

 

cavalga o fluxo num milagre

de vida. p. 14

 

 

FALA

 

Tudo

será difícil de dizer:

a palavra real

nunca é suave.

 

Tudo será duro:

luz impiedosa

excessiva vivência

consciência demais do ser.

 

Tudo será

capaz de ferir. Será.

agressivamente real.

Tão real que nos despedaça.

 

Não há piedade nos signos

e nem no amor: o ser

é excessivamente lúcido

e a palavra é densa e nos fere.

 

(Toda palavra é crueldade.) p. 31

 

 

ODE III

 

Pouco é viver

mas pesa

como todo o ser

como toda a luz

como a concentração do tempo. p. 47

 

 

ALVO

 

Miro e disparo:

o alvo

o al

o a

 

centro exato dos círculos

concêntricos

branco do a

a branco

   ponto

   branco

atraindo todo o impacto

 

(Fixar o voo

da luz na

     forma

firmar o canto

em preciso

silêncio

 

— confirmá-lo no centro

                   do silêncio.)

 

Miro e disparo:

o a

o al

o alvo. p. 76

 

 

REPOUSO

 

Basta o profundo ser

em que a rosa descansa.

 

Inúteis o perfume

e a cor: apenas signos

de uma presença oculta

inútil mesmo a forma

claro espelho da essência

 

inútil mesmo a rosa.

 

Basta o ser. O escuro

mistério vivo, poço

em que a lâmpada é pura

e humilde o esplendor

mais cálidas flores.

 

Na rosa basta o ser:

nele tudo descansa. p. 127

 

 

ODE

E enquanto mordemos
frutos vivos
declina a tarde.

E enquanto fixamos
claros signos
flui o silêncio.

E enquanto sofremos
a hora intensa

lentamente o tempo
perde-nos.
p. 130

 

 

POEMA

 

Saber de cor o silêncio

diamante e/ou espelho

o silêncio além

do branco.

 

Saber seu peso

seu signo

– habitar sua estrela

   impiedosa.

 

Saber seu centro: vazio

esplendor além

da vida

e vida além

da memória.

 

Saber de cor o silêncio

 

– e profana-lo, dissolvê-lo

                        em palavras. p. 144

 

 

POUSO (II)

 

Difícil para o pássaro

                     pousar

                     manso

em nossa mão – mesmo

                     aberta.

 

Difícil difícil

para a livre

           vida

repousar em quietude

                         limpa

                         densa

 

e inda mais

           difícil

– contendo o

          voo

   imprevisível –

 

maturar o seu canto

no alvo seio

de nosso aberto

mas opaco

 

silêncio. p. 147

 

 

CISNE

 

Humanizar o cisne

é violentá-lo. Mas

também quem nos dirá

o arisco esplendor

– a presença do cisne?

 

Como dizê-lo? Densa

a palavra fere

o branco

expulsa a presença e – humana –

é esplendor memória

                                  e sangue.

 

 

                                  E

                                  resta

não o cisne: a

                                  palavra

 

 

– a palavra mesmo

                                  cisne. p. 148

 

 

SILÊNCIO

 

I

 

A madrugada.

Seu coração de silêncio.

 

II

 

O silêncio cheio

de peixes

de irisados peixes

úmidos.

 

III

 

Grandes árvores

ânforas

transbordantes de silêncio.

 

IV

 

Galos

no alto silêncio

impressos

 

seda

translúcida do silêncio. p. 177

 

 

RIO (II)

 

I

 

Águas não

cantam

fluem suaves

fogem.

 

II

 

Fresco silêncio:

a flor não

fala.

 

III

 

Nenhum ruído. Apenas

brancas pétalas

da flor que navega

nas águas

esplêndidas. p. 180

 

 

ERRÂNCIA

 

Só porque

erro

encontro

o que não se

procura

 

só porque

erro

invento

o labirinto

 

a busca

a coisa

a causa da

procura

 

só porque

erro

acerto: me

construo.

 

Margem de

erro: margem

de liberdade. p. 192

 

 

DO ECLESIASTES

 

Há um tempo para

desarmar os presságios

 

há um tempo para

desamar os frutos

 

há um tempo para

desviver

o tempo. p. 195

 

 

O ESPELHO

 

O

espelho: atra

vés

de seu líquido nada

me des

dobro.

 

 

Ser quem me

olha

e olhar seus

olhos

nada de

nada

duplo

mistério.

 

 

Não amo

o espelho: temo-o. p. 201

 

 

HABITAT

 

O peixe

é a ave

do mar

 

a ave

o peixe

do ar

 

e só o

homem

nem peixe nem

ave

 

não é

daquém

e nem de além

e

nem

 

o que será

já em nenhum

lugar. p. 205

 

 

MENSAGENS

 

A cor

alada: borboleta

ou pétala?

 

Fresca asa per

passa

as mãos

abertas.

 

Sussurro

orelha

caramujo

antena

 

os cabelos ao

vento. p. 215

 

 

ODE

 

Neste tudo

tudo falta

 

(neblina)

 

e nesta

falta: eis

tudo. p. 217

 

 

REBECA (II)

 

A moça do cântaro e

seu

silêncio de água

e de barro. p. 230

 

 

ESFINGE

 

Não há perguntas; selvagem

o silêncio cresce, difícil. p. 233

 

 

PARTILHA

 

Partilharemos somente

o que em nós se

continua:

a singeleza

a luta

a esperança.

 

Partilharemos somente

esta maior intensidade:

absoluta palavra

que nos pertence integralmente.

 

Partilharemos somente

o pão unificado

e a água sem face. p. 242

 

 

FONTELA, Orides. Trevo (1969-1988). São Paulo: Duas Cidades, 1988.

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