terça-feira, 12 de dezembro de 2017

KANARÔ: ENCANTO, SAUDADE E LUTA

Isaac Melo 

O espetáculo teatral Kanarô, em sua primeira temporada, ocorreu em quatro apresentações no mês de novembro de 2017, no Teatro de Arena do SESC, em Rio Branco, Acre. As impressões que aqui vão não são de um crítico teatral, mas de um espectador. A peça é um mergulho no universo cultural e místico indígena, mais especificamente, Yawanawá (o povo da queixada), tendo como referência o mito Kanarô. É Mirini quem nos conduz nesse universo de encanto, magia, luta e transformação.

O espetáculo se inicia na antessala do teatro, onde todos são convidados a tirar os sapatos. O gesto de entrar descalços no teatro é muito significativo, sobretudo para nós amazônidas acreanos. Nos seringais e cidades do interior era falta de educação entrar calçado nas casas. Botas, sandálias, sapatos, etc. todos ficavam do lado de fora, ao pé da escada ou à entrada da porta. Hoje, sobretudo nas cidades maiores, esse costume tem-se esmaecido. Despir os pés é preparar os sentidos para ir ao encontro do outro. É sentir e caminhar em sintonia. Os pés descalços tornam todos aptos a sentir a mesma maciez ou a rigidez do chão, assim como os espinhos ou a poesia suave das folhas. A arte, ao nos despir os pés, despe-nos também a face e, assim, ainda que por alguns instantes, veem-se cair por terra todas as nossas máscaras sociais.

Já todos descalços, uma cuia de garapa (caldo de cana) passa de mão em mão para ser degustada, assim como, em certas aldeias, os indígenas bebem a caiçuma, enquanto dançam o Mariri. É o respeito, é o diálogo, é a união de todos que partilham a mesma cuia, o mesmo espírito. Aliás, é isso que nos remete o nome Yawa. A queixada é forte porque anda sempre em bando. Em bando são indomáveis. A força é a unidade do grupo.

O percurso que se faz da antessala até as cadeiras do teatro nos remete ao sentido de caminhar por um varadouro ou caminhar pela mata. E sentimos o chiado das folhas a beijar nossos pés, o perfume das matas, das plantas, que emana do incenso, tudo embalado pela música dos barrancos de seringal de Antônio Pedro e pela voz Yawanawá a narrar a própria história. Cores, cheiros, sons, sensações e lembranças nos percorrem. E o rio Acre emblemático e interpelador ao fundo.

Mirini vem do alto, porque a jornada é antes de tudo espiritual. É de encontro e reencontro. Na sua caminhada, caminha também o seu povo.  Vem do rio e pelo rio renasce. Aliás, o rio é muito representativo na peça inteira. Não só porque o rio nos lembra da fluidez da vida, da existência, ao mesmo tempo que se transforma, sem deixar de ser o que é, transforma também tudo às suas margens. Mas porque é também um grande elemento agregador dos povos amazônicos. Grande parte nasce nos altiplanos andinos e corta todo o vale até alcançar o oceano atlântico. Quantas vidas, quantas culturas, quantos povos vivem dele e às margens dele há séculos. O espírito do rio no espírito de Mirini.

Um dia a paz dos Yawa fora interrompida. E tiveram que partir, e cruzar o grande rio. E kapatauã, o grande jacaré, se dispôs a levá-los até a outra margem, com a condição que, durante o percurso, não o alimentassem com a carne de seu parente (outro jacaré). Mas, na falta de outro alimento, um dos grupos dos Yawa tiveram que dar carne do parente. Revoltado, Kapatauã afunda, impedindo-os de concluir a travessia. Dessa forma, parte dos Yawa separam-se sem poder cruzar até a outra margem. É quando surge Kanarô, o majestoso pássaro (arara) que conduz notícias dos Yawa de um lado para o outro. Kanarô é a saudade. A saudade dos que ficaram, dos que não estão, a não ser no espírito, no sentimento, na lembrança.

O canto, a dança, o cocar, a pintura, assinalam que a menina é agora a Yawa Mirini, em sintonia com as forças naturais e espirituais. Mergulha na sua ancestralidade e compreende todo o processo de afirmação e de identidade dos Yawanawás. E com o fogo, a lamparina, quer dizer, iluminada, pode então clarear o caminho do seu povo. Mirini é muito mais que Mirini. Mirini é o povo Yawanawá em sua secular caminhada pelas matas amazônicas, desde o tempo em que todas as coisas eram gente, em que o céu e a terra era uma coisa só até os tempos conturbados de hoje, do ronco das motosserras e dos empréstimos dos bancos internacionais.
Kanarô é uma peça para sentir. É um deleite para os sentidos. Não há como não se empolgar com a música executada na hora. A melodia da flauta, nascendo da penumbra, nos chega como um abraço, que pouco a pouco nos envolve completamente. E essa simbiose de música com as luzes coloridas nos conduzem a uma miração. A miração da arte. E assim, cada apresentação, ainda que se trate da mesma peça, torna-se única, pois a música é sempre outra, sem deixar de ser ela mesma.

Mas Kanarô não é uma peça ingênua, como ingenuizam a cultura indígena certos trabalhos ditos artísticos, com seus estereótipos e fetiches xamânico-mercantis. O olhar crítico alcança seu ápice no poema de Nani Yawanawá “Tudo está diferente”, acompanhada de uma sequência de imagens contrastantes do Acre e da Amazônia, que nos interpelam e nos sacodem, e questionam o passado, o presente e o futuro, ao pôr em cheque o modelo político e econômico que aos povos amazônicos têm sido empurrados goela abaixo.

Kanarô é essa possibilidade de adentrar no universo e na cultura indígena sem agredi-la, buscando o máximo se distanciar dos estereótipos e clichês. É o respeito pelo outro, que não se quer apenas encenar, mas compartilhar experiências e olhares, criar laços de afinidade, romper barreiras. Na beleza das nossas diferenças, fazemos todos parte da mesma aldeia. A ameaça aos povos indígenas é uma ameaça a todos nós. E mais do que nunca se faz preciso nos indigenizar, isto é, voltar a unidade com a natureza e o cosmo, sentir-nos terra, água, fogo, estrelas, árvores, rios... sentir-nos integrados com tudo e com todos.

Kanarô, com patrocínio do Banco da Amazônia, teve a direção e a música sob a responsabilidade de João Veras, um dos nomes mais importantes da/para a arte nesses últimos tempos no Acre, por sua sensibilidade e capacidade intelectual, demonstrado por inúmeros trabalhos musicais, literários e acadêmicos, como a obra magistral “Seringalidade” (2017). Mirini foi interpretada pela atriz Dani Mirini. Além da beleza física que lhe é peculiar, com seus traços marcantes, seus cabelos longos e negros, seus olhos penetrantes, ela carregou sobre si toda a força da mulher Yawa. Não só interpretou, mas viveu cada passo de sua personagem. Era preciso fôlego, força e domínio para executar a performance no tecido, por exemplo. E assim foi, como também teve competência na voz, ao executar os cantos e falas Yawanawá. Mais uma vez, entre tantas outras, demonstrou a sua competência, domínio e presença de palco. A produção ficou a cargo de Maria Rita, que há anos dedica-se ao teatro, e merece toda a nossa reverência. Demonstrou que o teatro pulsa cada vez mais forte nela. Luiz Rabicó cuidou da iluminação, permitindo que o espetáculo fosse contemplado em todo o seu esplendor. Tudo isso fez com a peça tivesse beleza, leveza, magia e argúcia.
Casa Vivarte - Rio Branco-AC

A peça é uma produção do Grupo Experimental de Teatro Vivarte, que foi criado em 1998, a partir da experiência da professora e também atriz Maria Rita com alunos do ensino fundamental. “A partir daí, Maria Rita deu início a sua trajetória no teatro, através da qual conheceu e se uniu aos demais integrantes. Iniciou assim a trajetória artística do grupo, que hoje acumula 19 anos de experiência, entre o palco e a rua”. E é um dos grupos mais importantes no cenário atual do teatro acreano e o único que conta com um espaço próprio, a Casa Vivarte, inaugurada em 2009, onde ocorrem ensaios, oficinas abertas à comunidade, estudos, laboratórios e pesquisas.
Uma apresentação do Circo Sirin Sirin.

Ao longo desses anos, o Vivarte já acumula mais de 13 espetáculos, muitos dos quais, premiados, como os projetos “Circo Sirin Sirin”, de 2014; “Encantoria”, de 2011, “O Casamento da Filha de Mapinguari”, de 2009, que receberam o Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua. Ainda receberam o Prêmio Matias de Culturas Populares, também com o projeto “O Casamento da Filha de Mapinguari” (2010); o Prêmio Caravana Funarte / Petrobras de Circulação Nacional 2006, com a circulação dos espetáculos “Manoela e o Boto” e “Brincando com Cordel” em municípios dos estados do Acre e Rondônia (2006); e o Prêmio Funarte de Incentivo à Produção Artística, pelo projeto “Montagem da Peça Contatos Amazônicos em Terceiro Grau” (2000). 
Maria Rita e Vivarteiros em 2013.

Apesar de todos os percalços de fazer teatro na periferia da periferia do Brasil e da Amazônia, com ínfimos apoios e recursos financeiros, o Vivarte tem sido a resistência e a utopia possível que alimenta a chama da arte e da humanidade. E a cada espetáculo, os sonhos se renovam e o Acre torna-se menos acre, um pouco doce, uma doçura de infância. Viva a arte viva. Vivarte!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

CESAR GARCIA LIMA: alguns poemas

O poeta, jornalista e professor Cesar Garcia Lima é natural de Rio Branco-AC, mas vive no Rio de Janeiro desde 1995. É doutor em Literatura Comparada (UERJ) e mestre em Literatura Brasileira (UFRJ). Atuou em importantes editoras, jornais e revistas do país. Além de trabalhos publicados em antologias, é autor dos livros “Águas desnecessárias” (1997) e “Este livro não é um objeto” (2006), ambos de poesia. Também dirigiu os documentários “Soldados da borracha” e “Onde minh’alma quer estar”. Além de desenvolver oficinas literárias, roteiros para TV e documentários digitais, Cesar desenvolve pesquisa sobre crítica na Literatura Brasileira Contemporânea (UFF), com bolsa de pós-doutorado da FAPERJ.
Visite o site oficial do autor e conheça mais sobre a sua obra:

***


TEMPO DE MANGA

naquela época
as mães dos amigos ainda ficavam grávidas
as crianças menores eram um segredo
as do mesmo tamanho, inimigos em potencial
quando a preocupação era ganhar ou ganhar
e o demônio podia ser qualquer barulho
depois da janta p.15


A PRIMEIRA MORTE

Mãe me chama pra escolher
qual galinha vira almoço.
Choro desapareço.
Protesto em vão contra o holocausto.
Domingo não como. p.17


CALOS DA FÉ

Durmo em pé
minha mãe dá aulas de resistência
eu desconfio de promessas
peço mais evidências aos mártires
faço acordos com a Virgem Maria

Beijar os pés de gesso
do menino Jesus
no entanto
foi demais pro meu asseio
a gota d’água
pra eu desconfiar do catecismo p.20 


ESCAMBO

encontrei sangue na nuca perfeita da deusa
  e chorei meses por constatar a mortalidade de sua paixão.
      ela fez maçãs com seus coágulos
embrulhadas na luz quebradiça de seus cabelos loiros.
  mas não tive escolha senão vendê-las
     e tirar delas o meu sustento. p.31


A SERPENTE DE PEDRA

Impossível roubar as curvas da muralha da China.
É um conforto saber que o rasgo fino dos olhos
aprecia a textura impiedosa da caça.
Na verdade, eles pouco sabem sobre a cor.

Construída em horas tristes
   dias incandescentes
a muralha agrega sementes
trazidas pelos pássaros
em tempos que o calendário não registra.

Há o consolo azul do anis
lembrando estrelas
e uma estrada sempre reta
que endireita a muralha.

Mas a muralha não é assim.
Segue os contornos imprecisos da garganta indócil
dos habitantes cegos de suas redondezas.

Nem isso consegue fazer esquecer o sabor
das especiarias tiradas das dispensas dos deuses. p.34


ÁGUAS DESNECESSÁRIAS

o que nos é dado por acréscimo
o que nos é tirado sem explicação p.59


TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA

Os mares, Critilo, jamais descansam
Nem um grama de ouro da derrama
Esclarece ao futuro
Os dotes do teu desterro.

Os mares, Critilo, jamais descansam
E não recitam a intenção dos teus gestos
Ouvidor rebelado
Perdido entre a lira e o poder.

Os mares, Critilo, jamais descansam
Nem tuas artimanhas de Galileu conjurado
No espectro em que se confundem
O medo, a moral e o amor-próprio.

Os mares, Critilo, jamais descansam
E quem sabe revolvam
Onde ficaram teus escrúpulos
Após o excesso de sol em Moçambique.


VESPERAL

Te conheci ontem
e já comemorava
bodas de prata com
poemas impressos.
Hoje me premias com tua ausência
e volto ao deserto.
Te poupo explicações:
mortos não comparecem a encontros.


BONANÇA
Encosto a cabeça
No teu peito
E ouço o mar



LIMA, Cesar Garcia. Águas desnecessárias. São Paulo: Nankin Editorial, 1997.
p.s. alguns poemas foram retirados do site do autor. E a foto, da página Caderno Lírico, também do autor.

O QUE É PARADIGMA?

Inês Lacerda Araújo
Filosofia de todo dia

O termo “paradigma” se tornou um desses muito usados e mal compreendidos.
Há um emprego genérico para significar mudança no modo de ver ou entender algo, quase sempre com uma conotação de transgredir uma situação e adotar outra digamos, mais apropriada ou mesmo revolucionária. Inclusive por detrás desses usos há certa inclinação a considerar a mudança de paradigma como algo necessário até mesmo benéfico.

Nada contra essa concepção. Mas propriamente dito, o conceito é muito mais específico. Refiro-me a Thomas Kuhn e sua obra “A Estrutura da Revoluções Científicas” publicada no longínquo ano de 1962, fruto de monografia quando estudante de Física em Harvard.

O primeiro mito que Kuhn derruba é o de que as ciências naturais (Física e Química) retratam a realidade mesma dos fatos, que suas teorias são comprovadas e que por isso sua verdade é inquestionável.

Se assim fosse, a ciência não progrediria, as atuais teorias seriam definitivas. Mas como foi possível que antes outras teorias fossem consideradas como comprovadas e mais tarde questionadas?

Então não seriam teorias científicas e sim mitos?

Para solucionar esses impasses, T. Kuhn considera que as ciências naturais não acumulam verdades, elas fornecem modelos, paradigmas aceitos e praticados por uma comunidade de cientistas. Os paradigmas funcionam regularmente por fornecerem diretrizes metodológicas que conduzem a contento as experimentações e com as quais se chega a resultados. Praticar a ciência é propor questões, solucionar problemas, usar os meios apropriados (laboratórios, pesquisas, artigos científicos, conjunto de leis e teorias) para chegar a resultados. Esse corpo de estudos e de práticas, forma o paradigma e quando ele é bem sucedido, a ciência progride rapidamente, pois o paradigma enseja coletar ainda mais fatos por meio das experiências, inclusive inventar instrumentos, aparelhos, e permite precisar cálculos.

Ora, quanto mais aprofundadas essas pesquisas maior a probabilidade de encontrar “furos”, o que pode levar a dúvidas, e ou o paradigma aceito e praticado soluciona o problema, ou ele se torna mais difícil e pode levar a rompimento com as regras que norteavam o paradigma aceito.

Kuhn chama a esse problemas de anomalias, pois fogem às exigências teóricas do paradigma que vinha sendo praticado.

As mudanças de paradigma são as revoluções científicas. Assim, por exemplo, a teoria da relatividade revolucionou a Física e a anterior concepção de Newton sofreu abalos.

Como se vê, os paradigmas podem mudar, o que não significa que devam mudar. E quando mudam, muda a imagem de mundo, muda todo um quadro teórico e prático de referências.

Então não posso confiar na atual teoria porque ela poderá mudar?
Claro que não, se a pesquisa dá resultados confiáveis, ela vale. Mas não é simplesmente verdadeira, definitiva ou absoluta.

Conclusão: se você considera que pode apoiar suas ideias e crenças em teorias científicas, saiba que é próprio da ciência mudar de modelo. Já ideias, crenças, fundamentos religiosos, éticos ou filosóficos não são regidos por paradigmas. Não busque respostas para o sentido da existência do homem ou do cosmo na ciência.

domingo, 10 de dezembro de 2017

IPHAN CONCEDERÁ MEDALHA MÁRIO DE ANDRADE A TRÊS ACREANOS PELOS TRABALHOS DE PRESERVAÇÃO E VALORIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO

Felipe Hid - IPHAN

Prêmio é uma homenagem às pessoas que contribuíram nessa trajetória de 80 anos do órgão federal

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) irá conceder a Medalha Mário de Andrade a três acreanos que contribuíram para a preservação e valorização da história e da cultura do estado do Acre: os indígenas Benki Piãnko e Joaquim de Lima Kaxinawá - que receberão as medalhas em uma data e local a serem marcados de acordo com as suas preferências e disponibilidades - e o filósofo Isaac Melo, que foi premiado nesta semana após cerimônia ocorrida na sede do instituto em Rio Branco-AC. A medalha Mário de Andrade homenageia a determinação e a dedicação de muitas pessoas, técnicos e servidores, sociedade civil e instituições públicas que estiveram junto ao Iphan nessa trajetória de 80 anos do órgão federal.
Jorge Mardini e Isaac Melo
“Este é um prêmio simbólico importantíssimo porque é o prêmio que representa os 80 anos do Iphan. A medalha Mário de Andrade foi entregue aos brasileiros que possuem projetos relevantes e são referências tanto dentro da comunidade a que pertencem como em todo território nacional. Estas três grandes personalidades foram agraciadas pelos belos e enriquecedores trabalhos prestados ao Estado e ao Patrimônio”, enfatizou Jorge Mardini Sobrinho, superintendente do Iphan-AC, ao entregar a honraria ao filósofo acreano.

CONHEÇA OS PREMIADOS

BENKI PIÃNKO nasceu em 24 de fevereiro de 1974 na Terra Indígena Apiwtxa, na cidade de Cruzeiro do Sul, no estado do Acre. Representante político dos povos Ashaninka (Xamã) e agente agroflorestal, ele luta contra a exploração predatória nas terras indígenas. A sua liderança junto às comunidades o transformou em uma referência de luta pela preservação das aldeias e do meio ambiente, buscando resolver a situação sempre de forma pacífica, o que lhe garantiu dois prêmios relacionados aos Direitos Humanos: um internacional na cidade de Weimar (Alemanha) e o outro nacional.

Primeiro índio a receber o título de doutorado em linguística pela Universidade Nacional de Brasília (UNB), o professor doutor JOAQUIM PAULO DE LIMA KAXINAWÁ, nasceu na Aldeia Indígena Praia do Carapanã, em Tarauacá, no Acre, no dia 11 de janeiro de 1963. Com o título “Para uma gramática da Língua Hãtxa Kuin”, a tese de doutorado do acreano defende a importância de criar um programa que ensine, mantenha e valorize a língua nativa dos povos indígenas. Joaquim Kaxinawá luta pela preservação da origem linguística dos índios para que país não se limite apenas ao português perdendo, desta forma, uma grande riqueza cultural pertencente a dezenas de povos.

Jovem filósofo de formação, o taraucaense ISAAC MELO, de 32 anos, é dono de um blog que recorda, a partir de imagens e textos históricos, o cotidiano dos habitantes do Acre nas primeiras décadas do território que posteriormente se tornaria um estado do Brasil. O Blog Alma Acreana - acessível à população desde 2008 - apresenta também crônicas, versos de músicas e poemas de diversos artistas acreanos devidamente publicadas e creditadas pelo filósofo. O blog é uma ferramenta para ajudar pesquisadores, professores e outras pessoas que tenham interesse pela cultura, história e Patrimônio da amazônica, e se tornou uma referência a estudantes, sendo citado em vários trabalhos acadêmicos.

“Acredito que cada um de nós deveria se preocupar com a nossa cultura e com a nossa história, da cidade, do estado, do país e da humanidade, no qual somos partes integrantes. Foi uma surpresa receber essa honraria do Iphan, que é tão importante naquilo que faz pela preservação do nosso patrimônio. Fica como um incentivo e uma responsabilidade a mais. O Acre tem uma história que precisa ser conhecida como qualquer outra história. Já que vivemos as margens do Brasil e por muito tempo também vivemos as margens da história, mesmo com toda essa história que tivemos e temos, então acredito que nós precisamos cada vez mais somar forças para divulgá-la. É uma função que procuro fazer por meio da literatura e desse instrumento que é o blog, instrumento simples que está à disposição de todos. Por quê que não tornar esse instrumento um serviço à cultura e à história? Se há uma honraria esta é para todos aqueles que constroem a história deste país, deste estado e desta cidade. Fico extremamente lisonjeado e contente”, comemorou Isaac Melo.

A fonte mais antiga do Blog Alma Acreana é do ano de 1903, quando o Acre estava em estado de litígio (era ocupado por brasileiros, mas diplomaticamente não tinha uma definição). No mesmo ano, após o tratado de Petrópolis (Brasil e Bolívia), o Acre passou a ser incorporado ao Brasil como um território. “No blog encontra-se todos os períodos desde a década de 10, início da colonização do Acre, até os autores contemporâneos de hoje, assim sendo, está contemplada as etapas de toda a história acreana no que diz a respeito da literatura”, concluiu o premiado filósofo.

Foto: Felipe Hid

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

ILSON NASCIMENTO E O RÁDIO

Gilberto A. Saavedra – Rio de Janeiro


O jornalismo acreano perde no início da noite desta quarta-feira (06/12), Ilson Nascimento, um dos mais aplicados e conceituados jornalistas do rádio do Acre.

Ilson Maninha dedicou-se durante quase 30 anos aos segmentos das informações pelas ondas sonoras da Rádio Difusora Acreana, transmitindo diariamente ao grande público da Voz das Selvas, notícias factuais e atualizadas.

Ilson tinha o respeito e o carinho de todos; iniciou sua carreira na imprensa escrita em 1972, como colaborador do jornal o Rio Branco na função de redator, com o jornalista José Chalub Leite, o qual mais tarde, já como diretor do departamento de jornalismo da Difusora, convida-o para fazer parte da equipe.

Na emissora oficial, logo ganha o apreço dos profissionais dos sem fio acreano.

Como produtor do programa “Gente em Debate” com o jornalista Washington Aquino, fazia um trabalho sério e competente com toda a equipe, com as informações estaduais e oficiais. Ilson amava o rádio.

De 1995 até 2004, quando reintegrei-me ao sistema público de rádio do Acre, como Correspondente colaborador do Rio de Janeiro para o “Gente em Debate”, tive o privilégio de manter o contato diário com esse competente profissional.

O papo se dava pelo telefone antes de editar minhas informações da cidade Maravilhosa; os assuntos era os mais diversos: queria saber notícias da minha terra e ele às do Rio de Janeiro.

Infelizmente não tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, porém, é como se assim fosse, pois nasceu uma grande amizade.

Ilson Nascimento ultimamente vinha enfrentando sérios problemas de saúde. Na quarta-feira, o quadro se agravou e à noite, infelizmente ele faleceu.

O sepultamento do jornalista foi realizado nesta quinta, (8) e contou com a presença de autoridades, amigos, familiares e muitos admiradores.

ATAQUE DO RAUL

Luiz Felipe Jardim


Num sei não, cumpadre, mas acho que tô especulando que a comadre Olivia teve um ataque daquele cidadão tenebroso, o Raul, num sabe? O Raul Zaime... Aquele cidadão que faz a gente se esquecer dos acontecimentos acontecidos, se alembra não? Não?

Pois o Raul Zaime - que eu não conheço pessoalmente mas conheço muito de muito dele ouvir falar - é aquele sujeito dos alemão; tinhoso; amedrontoso, que ataca o sistema cerebroso das pessos  da humanidade e faz elas ficar esquecidiça das coisas armazenadas no departamento das lembranças, no setor memorial. Tá lembrado agora?

Pois bem, eu acho que tô achano que a comadre Oivia foi atacada por esse facinoroso insidioso.

É que ela anda com a arrumação de espalhar pelos quatro cantos do mundo que eu dedilhava melodias pra fazer serenata pro filho mais antigo dela - e do cumpadre Teca - ir dormir quando ele era bebê. Já contou pra mais de uma ou duas pessoas essa arrumação.

Mas isso não tá correto não. E por um motivo bem simplificado: é que eu nunca vi nem mesmo um dedinho mindinho do filho mais antigo dela - e do cumpadre Teca - num sabe? Como é que eu podia dedilhar melodias pra ninar ele quando ele ainda tava nos cueiros? Né mermo?

Por isso eu acho que não procede essa arrumação da comadre Olívia.

E também, pela ausência do prumo correto do sistema memorioso dela, eu boto a pulga atrás da orelha e fico suspeitoso de que isso é obra daquele Raul Zaime, sujeito dos alemão, o facinoroso que faz a gente se desalembrar...

Ahhhh, mas agora tô me alembrando... Eu conheci mermo de verdade o minino dela - e do cumpadre Teca - sim... Mas quando ele ainda tava na barriga dela, num sabe? Nunca vi o minino pelo lado de fora puxando oxigênio da atmosfera com o própio fole, mas vi ele na barriga da mãe. Sem ver as fucinhas dele, nem ele as minhas, é claro. Mas vi a barriga dele, ou a barriga da mãe? enfim...

Tô me alembrando também que eu mais o Digú, irmão da comadre Olívia - e cunhado do compadre Teca - dedilhamos inúmeras belas vastas páginas musicais do cancioneiro popular, defronte daquela barriga da criaturinha mais antiga do casal.

Então é isso mermo. Vai ver que a arrumação da comadre é essa. Ela tá dizenu que eu mais o Digú, faziamos serenata quando o minino ainda tava lá barriga dela, num sabe? E que o minino ouvia o nosso matracolejo musical e saracoteava tanto lá por dentro que a gente via o rebuliço pelo lado de fora na barriga da mãe se mechendo... rs rs.

E ela despachou pro mundo essa arrumação dela com tanta graça, com tanta suavidencia e delicadez que até arripiou os cabelim do braço de uma moça que tava ouvindo a estória. E que me disse que a comadre contava essa arrumação pronunciando e pintando as palavras com a tinta com que pinta as letras e as figuras dos livros que ela escreve rs rs...

Mas vigie só! rs rs E eu aqui pensando que a coitada da comadre tinha recebido um ataque daquele sujeito dos alemão, daquele desmemoriento, ladrão de pensamento, o, o... Emiaz Luar, não, ao contrário, O, o, Como é mesmo o nome dele? O, o... Mas, sobre o quê você tava falando mesmo? Já faz tanto tempo... Né?