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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

ROBERTO CARLOS, JOVEM GUARDA, ACRE, DITAM...

Uma conversa com Luiz Felipe Jardim


Um Rei é pessoa que acumula privilégios. E o maior de todos é realmente o de ser rei. 

Se acumula, o Rei também distribui privilégios. Espalhando guerras ou canções, espada ou emoções, tudo de acordo com a natureza de seu reino e espírito de seu reinado.

Como não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, e nem percorrer muito tempo tantos lugares de um reino tão grande como o do Brasil, o Rei coroa com o privilégio eterno da memória os lugares onde esteve. Os lugares por onde passou.

E o Rei esteve aqui...

Em meados de 1973, naqueles dias do ano em que – durante dias e noites – os dias e as noites são os mais quentes, (eventualmente, também os mais frios), Roberto Carlos apareceu para os acreanos.

Percorria o Brasil numa grande turnê, e quase como que de paraquedas por aqui aportou...

A seguir, você verá é uma entrevista que o Alma Acreana fez com quem, por lá estar, foi viu e... sobreviveu.
AA- Para você, quem são Jovem Guarda e Roberto Carlos?

LFJ- Antes de tudo, é importante lembrar que certas pessoas, por sua importância social, deixam de ser somente elas e passam a ser elas e muito mais. Essas pessoas representam épocas, são parâmetros para a História, Economia etc. Roberto Carlos é umas dessas pessoas. Ou seja, ele é o que ele é independente do que as pessoas acham que ele seja; mas é simultaneamente, tudo aquilo que as pessoas pensam, acham e dizem que ele é.  Portanto, RC é um ser plural: ele é ele mesmo, e muito mais. Aliás, muito mais do que ele mesmo rs.

AA- Em que aspecto pode RC ser parâmetro para a Economia?

LFJ- Veja, RC adentra o cenário cultural brasileiro, no momento em que, nos governos JK, Jânio, Jango e posteriores, a indústria automobilística brasileira se delineava, se enraizava e se consolidava como ponta de lança da economia nacional. Roberto Carlos é um dos arautos desse processo com o seu 'calhambeque', e também com sua Jovem Guarda. Ambos cantavam os carrões, difundindo um fascínio, que se convertia em vontade coletiva, que se convertia em moda e consumo. “Entrei na Rua Augusta à 120 por hr”... “papai me empresta seu carro”... “meu Mustang cor de sangue” são ícones da JG que ilustram bem esse momento.

O sucesso da música Calhambeque trouxe para o mercado uma grif de roupas para rapazes e moças também chamada Calhambeque. Suas calças para rapazes eram bem apertadas, e as saias Calhambeque eram Minissaias. Por que isso?

Em 1961 o governo de Cuba se mudou de mala e cuia para o outro lado frio da Guerra Fria, o lado Soviético. Na mala e cuia de Cuba estava, sua enorme produção de algodão, que até então abastecia parte significativa da indústria têxtil ocidental. Resultado: faltou algodão para todos os do lado da OTAN, principalmente, para o parque têxtil inglês.

Além de redesenhar e redimensionar as áreas de produção de algodão pelo mundo – onde até o nordeste brasileiro tirou uma casquinha revitalizando velhos e moribundos algodoais – outras duas linhas de emergência foram adotadas para superar a crise: intensificar pesquisas e produção de fios sintéticos, e além dos cintos, apertar as calças e diminuir o tamanho das saias do planeta. Lembra da camisa Volta ao Mundo? Da camisa Banllon? Das calças de Tergal? Eram todas marcas de fios inteiramente sintéticos que foram moda no planeta.

É nesse contexto que surge a minissaia. E embora ela tenha promovido uma grande revolução pelo mundo afora, nasceu de uma reação, de uma quase contra-revolução capitalista rsrs. Nasceu da necessidade imposta por uma conjuntura de mercado.

No Brasil, RC e JG estão imersos até o pescoço nesses primeiros 15 minutos de fama da sociedade de consumo brasileira.

Logo depois, já num segundo tempo e na prorrogação da Jovem Guarda, a indústria têxtil ocidental, abastecida e recuperada, vai à forra e aumenta o tamanho das saias e calças do mundo.

Os hippies usavam muita roupa de algodão, como aquelas batas imensas por exemplo.

Quando RC veio ao Acre, em 1973 já estava desvestido das apertadas calças Calhambeque do seu filme RC Em Ritmo de Aventura, de 1967. Usava, agora, calças bem mais largas, de enormes bocas-de-sino e de tipo toureiro, que iam até o umbigo. Ou seja, muito pano pras mangas para compensar as perdas recentes da indústria têxtil ocidental capitalista.

AA- Muitas análises indicam que a JG foi um movimento da juventude alienada da época. Da juventude que apoiava a ditadura militar e que era contra as revoluções, enfim, que a Jovem Guarda era um movimento de direita, no mínimo, alienado e infantil. O que você acha disso?

LFJ- O Brasil era um país essencialmente rural, mais de 70% de sua população estava no campo. Além disso, era iletrado e tinha taxa de natalidade de quase 6 filhos por mulher em idade fértil. Mas era um pais que mudava. E bem rápido, assim como Brasília nascendo. Havia intensa migração interna, intenso movimento. Aqui e no mundo todo.  Aliás, o mundo estava de mudanças e mudavam pessoas e ideias, por todo o mundo.

RC sai do interior do Espírito Santo e vai para o Rio.  Nunca lera Sartre, Beauvoir ou Jean Genet. Nem Marx, Lenin ou Trotsky. Quem poderia querer que ele fosse um líder revolucionário marxista ou um militante existencialista? Mesmo assim, em diversas medidas, ele contribuiu muito mais para certas mudanças significativas do que muitos discursos e práticas ditas revolucionárias e de esquerda da época. Lembre-se que o uso da guitarra elétrica pelos músicos brasileiros foi duramente criticado e até mesmo severamente atacado por segmentos importantes da nascente MPB, com direito a passeata e tudo o mais, promovida por Elis Regina em SP em 1965, (quem estava à direita e à esquerda nesta questão?). Lembre-se que, de certa forma, a Tropicália só foi possível depois que Caetano Veloso, alertado por Bethânia, sua irmã, compreendeu a importância da JG e a ela se aliou.

Esse maniqueísmo que nos diz que o comportamento da esquerda é assim e o da direita assado, nos impede de compreender coisas simples quando nos impede de ver as coisas com  naturalidade.

Muitas das mudanças que o mundo precisava fazer eram pontuais, não eram necessariamente as mesmas em todos os lugares. Para as mulheres de certos lugares do mundo, o uso de sutiãs poderia ser tão revolucionário como atirá-los em fogueiras em outros. Para os homens, usar cabelos compridos e roupas coloridas no nordeste brasileiro ou no sul italiano, poderia ter a mesma importância ou promover mais mudanças que inúmeras passeatas comunistas em Paris. O Mundo estava de mudanças, e mudava sua fisionomia de acordo com a fisionomia que mudava em cada ponto seu.  Assumindo diversos rostos, diversas formas, diversas expressões de si próprio...

AA- E a infantilidade...

LFJ- Não vejo isso de 'infantilidade' como algo necessariamente negativo. Até vejo como bons olhos esse lado da JG. Uma das qualidades do ser humano é a de ser capaz de levar para a vida adulta características próprias da infância, como a curiosidade, o fascínio pela novidade por exemplo. A isso chamam de neotenia que é algo como a permanência de caracteres infantis em animais sexualmente maduros. Essa característica foi fundamental para o ser humano quando esteve prestes a se extinguir em diversos momentos da Pré História.

A curiosidade, a busca pelo novo, pelo diferente também produz cultura e ciência. O que fazem ator e espectador senão ‘brincar de mentirinha’ do tipo ‘eu finjo que sou e você finge que acredita’? O que faz o milionário jogador de futebol senão ‘brincar de bola’? O que faz o cientista senão ‘olhar nas fendas’ (nas brechas, diria o acreano) da realidade buscando realidades nuas, ocultas ou semiocultas?...

Naquele momento da JG, a juventude do mundo reivindicava ferozmente o direito de ser jovem por mais tempo. Até então em quase todas as sociedades do mundo e em todos os tempos, a passagem da infância para a vida adulta acontecia muito rapidamente. As pessoas se casavam cedo e assumiam papéis de adulto muito cedo porque a mensagem biológica do crescei e multiplicai-vos incrustada no DNA é poderosíssima. Foi essa mensagem que garantiu a sobrevivência da espécie humana adaptando-a a todo o planeta.

Após a chamada Revolução Industrial, as coisas tenderam a mudar. Com o prolongamento da expectativa de vida e o desenvolvimento das ciências médicas, mais remédios e vacinas, etc, as pessoas já não precisaram ter tantos filhos e nem casar tão cedo para ter garantida a reprodução da espécie. Como o número de filhos por casal diminuiu, o homem fez um arranjo na natureza promovendo um prolongamento artificial da infância. Os filhos, cada vez menos, ficavam cada vez mais tempo em casa sob os cuidados dos pais, preparando-se para a vida de adulto. Isto era novo, nunca houvera acontecido na história da humanidade.

Foi então que, na segunda metade do século passado, houve uma ‘explosão de juventude’ no mundo. Nessa explosão os jovens ‘inventaram’ o Rock; com o Rock reinventaram o jeito de fazer música; reinventaram os modos de ouvi-la e dançá-la, e, principalmente, de cantá-la. Cantavam como que com um grito de quem entra em cena aos gritos, como os bebês humanos entram na vida.  Assim os jovens reinventaram a ‘juventude’ e trouxeram novos sons, tons e cores à fisionomia da humanidade. Criando música própria, literatura própria, vestuário próprio etc. E tudo mais de acordo com sua fisionomia, mais de acordo com as novidades que a novidade do ‘prolongamento da infância e adolescência’ podia propiciar.

Os ‘novos jovens’, que já não eram crianças e ainda não eram adultos, gritavam pelo direito de não serem crianças nem adultos, com direito às naturais inconsequências (entrei na R Augusta a 120 ph); à inevitável superficialidade (...que eu não ligo para nada); aventuras (vinha voando no meu carro); divertimento (olha o Brucutu)... ah, e namoro mais livre, já que não havia casamento para agora (casamento, enfim, não é papo pra mim), e ninguém é de ferro. rsrs

AA- E o Acre, mudava também?

LFJ- Claro, claro que sim, e com uma criatividade (desculpe a redundância) bem original.

O Acre fazia-se Estado, havia intensos debates.  Muito calor na vida política; voltavam para cá os primeiros acreanos médicos (Mário Maia), advogados (Lourival Marques, Jersey Nunes), engenheiros, arquitetos (Fernando Castro), sociólogos (Hélio Kury)... O próprio primeiro governador, José Augusto estudara Filosofia no RJ. Essas pessoas teriam importância grande na construção da fisionomia de nosso espírito coletivo. Além delas, chegavam outras pessoas que seriam relevantes naqueles anos e em posteriores, como Aderbal Maximiniano, Abrantes Guedes, Laélia Alcântara, Dom Giocondo, Antônio Anelli, Florentina Esteves e muito mais. Essas pessoas traziam, além de si e de sua jovialidade, ideias, livros, discos, novidades enfim, que alimentavam e realimentavam o panorama de mudanças. Essa fermentação de ideias e cristalização de possibilidades foi o combustível que produziu a FADA (Faculdade de Direito do Acre), que resultou na UFAC.

Se aqui chegavam, daqui também saiam pessoas que voltariam mais tarde e influenciariam sobremaneira as artes, jornalismo, ciência sociais, etc. Gente como Terry Aquino, Elson Martins, Kleber Barros, Robson Braga, Oscenir e Piri Fecury etc. Muitas dessas pessoas, antes de se formarem,  vinham passar férias e traziam livros, discos, roupas da moda, novos passos de dança, cortes de cabelo... Maneiras novas de ver e estar no mundo.

Ao seu tempo, a JG cumpriu muito bem com uma de suas funções, que era a de estimular o fluxo de novidades, ampliar a flexibilização das mentalidades dos interiores do Brasil, preparando-as para as novidades do consumo. Junto com a JG vinha um pacote de vontade de consumo que incluía desde vestuário até eletrodoméstico; desde disco de vinil até poltronas e sofás. Foi aí que a enceradeira elétrica substituiu o escovão colonial, e o fogão a gás o pré- histórico fogão a lenha. O imaginário que a JG trazia e suscitava, impulsionava esse tipo de modernização, promovendo flexibilidade nas mentalidades do Brasil rural, do Brasil do interior... Não se esqueça que em 1966 foi criado o JUVENTUS aqui. O nome diz e explica muita coisa.

AA- Tudo muito paroquial...

LFJ- Sim, sim, mas um paroquial sui generis. Porque éramos os atores das invenções e reinvenções. Éramos assim como um time de futebol que não tem nenhum dos melhores jogadores do campeonato, porém com conjunto e volume de jogo, que estava ao nível dos times onde estavam os melhores jogadores.

Não tínhamos televisão nem instantaneidade nos contatos com o mundo lá fora, (a não ser na Radional e no Zé Pinho rsrs), tendíamos a nos fazer mais próximos de como nos víamos, e nos fazíamos mais parecidos com o que éramos realmente...

E éramos pessoas muito legais, divertidas, curiosas, amáveis, receptivas, inteligentes, criativas, modéstia à parte. Por isso fizemos aqui uma Jovem Guarda de responsa. Embalados por conjuntos musicais compostos por gente talentosíssima como Edu e Elísio dos Bárbaros, como Roberto Galo e Roberval dos Mugs. Era realmente um privilégio ouvir essas pessoas nos shows e bailes e tê-las como colegas de sala de aula, como parceiros nas serenatas de adolescentes.  Éramos amigos dos nossos ídolos como Sônia Mubarac, Dadão, Dora, Carlitinho. A gente não só via o Dadão dar shows de bola no Estadium, mas, eventualmente, poderia dar-lhe um chagão no campo de pelada ali ao lado da catedral e ao mesmo tempo, acenar para a Sônia dos Bárbaros que estava cantando com o Marcelo dos Mugs na calçada do outro lado da rua. Isso era realmente fantástico.

E é exatamente por ser tão paroquial que contêm todos os elementos de universalidade possíveis. E coisas assim aconteciam não só aqui, mas em uma quantidade enorme de cidades do Brasil e do mundo.

AA- Bem, chegamos ao momento em que “os microfones estão à sua disposição para as suas considerações finais...” mas antes: gostaria que isso tudo se repetisse?

LFJ- Ah não, isso não, não sou saudosista. Gosto de História por que com ela se pode dialogar com o futuro. Não acho que o objetivo da História seja o resgate do passado, mas algo muito mais ficcional. A História é um instrumental que junto com a física, astrofísica, biologia, biotecnologia etc., etc., levará a humanidade às estrelas... Estamos nos aproximando dos primórdios da ante proto pré história desse processo. Mas daqui já dá para perceber que quando atingimos certo nível de entendimento sobre alguns pontos do passado, nos livramos do peso que eles podem representar para as libertações que a humanidade precisa realizar. Contraditoriamente, quanto mais amamos, conhecemos e entendemos o passado, mais dele nos livramos. Mais livres nos tornamos.  E quanto mais livres ficamos mais ampliamos o sentido de humanidade que existe em nós e que é obrigação de cada ser humano cultivar, nutrir e... curtir, que ninguém é de ferro. E sobre curtição, a Jovem Guarda dá aulas... Não só de História, mas para a História.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

ATAQUE DO RAUL

Luiz Felipe Jardim


Num sei não, cumpadre, mas acho que tô especulando que a comadre Olivia teve um ataque daquele cidadão tenebroso, o Raul, num sabe? O Raul Zaime... Aquele cidadão que faz a gente se esquecer dos acontecimentos acontecidos, se alembra não? Não?

Pois o Raul Zaime - que eu não conheço pessoalmente mas conheço muito de muito dele ouvir falar - é aquele sujeito dos alemão; tinhoso; amedrontoso, que ataca o sistema cerebroso das pessos  da humanidade e faz elas ficar esquecidiça das coisas armazenadas no departamento das lembranças, no setor memorial. Tá lembrado agora?

Pois bem, eu acho que tô achano que a comadre Oivia foi atacada por esse facinoroso insidioso.

É que ela anda com a arrumação de espalhar pelos quatro cantos do mundo que eu dedilhava melodias pra fazer serenata pro filho mais antigo dela - e do cumpadre Teca - ir dormir quando ele era bebê. Já contou pra mais de uma ou duas pessoas essa arrumação.

Mas isso não tá correto não. E por um motivo bem simplificado: é que eu nunca vi nem mesmo um dedinho mindinho do filho mais antigo dela - e do cumpadre Teca - num sabe? Como é que eu podia dedilhar melodias pra ninar ele quando ele ainda tava nos cueiros? Né mermo?

Por isso eu acho que não procede essa arrumação da comadre Olívia.

E também, pela ausência do prumo correto do sistema memorioso dela, eu boto a pulga atrás da orelha e fico suspeitoso de que isso é obra daquele Raul Zaime, sujeito dos alemão, o facinoroso que faz a gente se desalembrar...

Ahhhh, mas agora tô me alembrando... Eu conheci mermo de verdade o minino dela - e do cumpadre Teca - sim... Mas quando ele ainda tava na barriga dela, num sabe? Nunca vi o minino pelo lado de fora puxando oxigênio da atmosfera com o própio fole, mas vi ele na barriga da mãe. Sem ver as fucinhas dele, nem ele as minhas, é claro. Mas vi a barriga dele, ou a barriga da mãe? enfim...

Tô me alembrando também que eu mais o Digú, irmão da comadre Olívia - e cunhado do compadre Teca - dedilhamos inúmeras belas vastas páginas musicais do cancioneiro popular, defronte daquela barriga da criaturinha mais antiga do casal.

Então é isso mermo. Vai ver que a arrumação da comadre é essa. Ela tá dizenu que eu mais o Digú, faziamos serenata quando o minino ainda tava lá barriga dela, num sabe? E que o minino ouvia o nosso matracolejo musical e saracoteava tanto lá por dentro que a gente via o rebuliço pelo lado de fora na barriga da mãe se mechendo... rs rs.

E ela despachou pro mundo essa arrumação dela com tanta graça, com tanta suavidencia e delicadez que até arripiou os cabelim do braço de uma moça que tava ouvindo a estória. E que me disse que a comadre contava essa arrumação pronunciando e pintando as palavras com a tinta com que pinta as letras e as figuras dos livros que ela escreve rs rs...

Mas vigie só! rs rs E eu aqui pensando que a coitada da comadre tinha recebido um ataque daquele sujeito dos alemão, daquele desmemoriento, ladrão de pensamento, o, o... Emiaz Luar, não, ao contrário, O, o, Como é mesmo o nome dele? O, o... Mas, sobre o quê você tava falando mesmo? Já faz tanto tempo... Né?

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

CHUVA




Por Luiz Felipe Jardim

FLORA SONORA



 Dvd - Aldeia Sideral (2009)
Vocal: Pia Vila
Guitarra: Charles Sampaio
Violão: Paulo Nobre
Teclado: Fred Margarido
Bateria: Jorge Anzol
Baixo: Arthur Miúda
Composição: Luiz Felipe Jardim, Pia Vila e Beto Brasiliense

domingo, 7 de fevereiro de 2016

BERSERKERS, OS LOBOS DE WOTAN

Luiz Felipe Jardim 



A madrugada já ia alta. Logo o dia nasceria. Clarões da luz do fogo de grandes fogueiras bruxuleavam nas finas folhas da mata densa. Os poucos guerreiros da vila estavam ativos e atentos. Logo estariam em combate com gente que desconheciam, mas que sabiam, de ouvir falar, serem errantes e gigantes, impiedosos, seres descomunais e sanguinários que haviam recentemente surgido por sobre as águas dos mares e dos rios de onde vivia a gente daquela vila e seus parentes com seus amigos e inimigos, já havia longos anos e mesmo séculos. 
 
A gente que estava oculta na floresta era a invasora, vinha do norte gelado para saquear, pilhar, destruir, fazer escravos. Aterrorizar. Já havia destruído algumas vilas e aldeias próximas e aprisionado muitos vizinhos. Por isso, os da vila já haviam ouvido relatos apavorantes e sabiam o bastante para estarem armados com todo o arsenal bélico com que podiam contar. Quem sabe?... Com a ajuda generosa do sempre bom Deus e de alguns Santos...

Mas, quando a deusa Sól em sua carruagem principiou a cruzar os céus cintilando a luz do dia, eles puderam ver... E, com o que viram, ficaram aterrorizados. Gigantes de mais de dois metros de altura, muitos arruivascados, todos seminus, quase todos pintados de preto ou cores escuras. Brandindo enormes espadas, lanças afiadas e pavorosos machados de ferro, bradavam gritos de guerra, vociferavam urros lancinantes que soavam à destruição e evocavam morte.

À frente de todos, no semicírculo que formavam na ampla clareira, estavam os mais assustadores. Eram os mais altos e fortes e os que mais alto e forte gritavam; eram os que mordiam seus escudos com ferocidade e lampejavam olhares de fogo; eram os que espumavam pelos cantos das bocas ao ranger os dentes. Eram, entre todos, os que mais pareciam... endemoniados. Além disso, tinham cabeça e dorso cobertos por peles de lobo, uivavam e ladravam como se lobos fossem e lutavam com a selvageria e a ferocidade dos lobos... Eram os homens-lobo que quase lobos estavam a ser.

Eram os Vikings e seus ferozes guerreiros, entre eles os guerreiros de Odin, os Berserkers, que, em meados dos anos 800, já invadiam a Europa continental.

Odin para os vikings, Wotan para os germanos, Woden para os anglo-saxões, em qualquer idioma seu nome tem o mesmo significado: fúria. Fúria incontrolável. Era assim, como que com fúria incontrolável, que se movimentavam os vikings naqueles anos que ficaram conhecidos como os da Era Viking.

Odin era um deus de contradições. Impetuoso, irascível; mas, sábio, ponderado. Havia trocado um dos seus poderosos olhos por generosos goles d’água da fonte da sabedoria. Por isso era o soberano da guerra e da morte, mas era, também, o deus, da magia, da sabedoria, da poesia. Sempre tinha perto de si algum de seus animais: os dois corvos, que lhe contavam tudo o que ouviam e viam; o seu cavalo de oito patas, que o transportava voando pelos céus; ou seus dois lobos, Geri e Freki (Glutão e Voraz), que o acompanhavam nas caçadas e lutas. Um deus com tanto poder, e que reinava sobre todos em Asgard, devia ter, na Terra, representantes dignos de sua ira, de sua valentia e força. E os tinha. Eram os berserkers. Um corpo de guerreiros especiais consagrados a Odin.

Assim como os vikings não eram um só povo, mas vários povos aparentados e desaparentados entre si, que se uniam e se desuniam, se amigavam e se inimizavam, mas que se movimentavam juntos, animados por interesses comuns, os berserkers também não eram uniformes, mas uma elite de soldados especiais e ferozes que, desde a infância, rigidamente treinados – inclusive em rituais mágicos e secretos, assumiam as qualidades ferozes e especiais de dois especialmente ferozes animais: ursos e lobos. Havia, portanto, duas categorias de berserkers: os guerreiros-urso, e os guerreiros-lobo. Essa casta de guerreiros magos ganhou muita importância na época das primeiras invasões vikings à Europa e agia como uma espécie de tropa de choque durante os combates. Em cada unidade de combate viking havia, pelo menos 12 berserkers.

Na verdade, os povos europeus da chamada Era Viking nunca conheceram os escandinavos como vikings, estes eram conhecidos como homens do norte e eram assim nomeados em diversos idiomas, como normandos (normandi) pelos francos. Os franceses também os chamavam de piratas e o clero quase sempre de pagãos. O substantivo viking, nas línguas nórdicas, se aplicava a expedição, e quem dela participava era um vikingr.

Vinham da Península Escandinava, das atuais: Noruega, Suécia e Dinamarca, lugares diferentes e distantes, mas próximos entre si pela língua, pela religião, cruzamentos étnicos e costumes de seus povos. Em suas comunidades de origem, eram muito mais livres que seus contemporâneos europeus que viviam imersos em proibições e restrições de toda sorte. A importância que davam à igualdade e à liberdade chamou a atenção de todos os povos dos lugares por onde passavam.

Versáteis, forjados, física e espiritualmente, nas rígidas condições naturais das ante-salas do círculo polar, os vikings eram assombrosamente empreendedores. Agricultores, guerreiros, marinheiros, mercadores, passavam de uma a outra dessas atividades com naturalidade e a exerciam com maestria.

Mas antes de tudo eram marinheiros. Suas experiências e criatividade os levaram já no séc. VIII, a projetar e construir o langskip, conhecido como DRAKAR, dragão, cada um consumia cerca de oitenta árvores, carvalhos de preferência, e pouco mais de um mês para sua feitura. Com as variações e adequações necessárias, o drakar conduziria os vikings por sobre as ondas das águas do mundo por mais de trezentos anos. Para isso, aperfeiçoaram a capacidade de “interpretar as formas e a direção das ondas; a direção das aves migratórias; temperatura e umidade dos ventos; as distintas e sutis tonalidades das águas”. Quando em alto mar, cantavam canções que falavam sobre os seus deuses, principalmente Thor e Odin. Contavam histórias dos antepassados, falavam das genealogias. Instruíam os mais novos, como os de 13 anos que, já adultos, podiam participar das incursões guerreiras. Outros, diziam, sabiam cantar canções ensinadas por Odin que, quando entoadas com a força correspondente, abriam terra, pedras e montanhas. O drakar era uma casa sobre as águas, um companheiro fiel que acolhia após duras jornadas.

Nos meados dos anos 800 as temperaturas médias globais, que haviam caído muito durante os estertores do Império Romano, e que foram causa dos deslocamentos de alguns povos ‘bárbaros’ – voltavam a subir significativamente. As florestas setentrionais europeias, que haviam crescido nos espaços abandonados a uma média de 300 metros ao ano, estavam agora repletas de árvores, animais, boa água, enfim, continham o combustível necessário, para a diversificação das atividades econômicas, para o crescimento demográfico, para as inovações técnicas que as populações europeias iriam desenvolver então.

Se, somente durante os últimos 100 anos produzimos mais alimentos do que toda a humanidade em 10.000 anos, por volta dos anos 1000 não era tão fácil produzir alimentos. A invenção do arado de ferro, a rotação trienal de culturas, a utilização do cavalo na agricultura (com o confortável bônus do recém-inventado estribo) trouxeram mais fartura à mesa europeia. Como consequência, a população aumentou significativamente em todo o continente muito embora a esperança de vida tenha permanecido na faixa de 35, 30 anos, com uma taxa de mortalidade entre 30/40 por mil habitantes adultos e entre 100/400 por mil crianças.


“Um baño al año no hace daño – Pero es mucho mas saña una ducha por semana”. Esse ditado parece um dialogo entre uma ‘viking’ e uma ‘francesa’. A grande maioria dos europeus realmente não tomava lá muitos banhos. Geralmente o seu primeiro banho do ano acontecia em maio, quando as temperaturas aumentavam com a primavera. A maioria dos casamentos era realizado no mês de junho, quando o tempo estava um pouco mais quentinho. Ainda assim, procurava-se perfumar as igrejas com incensos e com flores (inclusive a própria noiva) para melhorar o... astral dos noivos.

Os nórdicos tinham costumes diferentes. De um modo geral tomavam um banho por semana, geralmente no sábado, mas a primeira regra de cortesia para com um convidado era oferecer-lhe um banho. Depois o levava para um lugar de honra e ouvia atentamente suas histórias e...

...

O povo daquela vila não tinha a menor capacidade para resistir ao assédio viking e foi totalmente massacrado. Os guerreiros nórdicos abateram-se sobre ele como raios de Thor e fulminaram-lhe a existência. Os escandinavos estavam somente de passagem, iriam saquear Paris. Daquela vila queriam pouca coisa: algumas vacas, ovelhas, e mais algum ou outro alimento para reforçar a despensa. Ali não havia metal e não estavam interessados em fazer escravos naquele momento. Por isso mataram a todos que encontraram, indistintamente, para que as vozes e as palavras daquele dia assustassem a todos os que delas viessem saber. Mataram, saquearam, pilharam e se foram... Floresta adentro... Rio Sena acima.

Naquele dia algo insólito aconteceu: um berserker tombou. Já havia sido ferido na batalha, mas, como todo guerreiro-lobo, nada sentira. Havia lutado com afinco, partira um oponente do crâneo ao umbigo com um só golpe de espada. Matara crianças a machadadas enquanto gargalhava para suas mães, depois matara as mães gargalhando e uivando em direção ao templo cristão. Havia cantado canções mágicas que paralisam armas de adversários. Também havia uivado a canção ‘sob os escudos’ que imuniza e dá força aos companheiros. Havia pronunciado palavras que se transformam em lava de vulcão no peito dos oponentes. Havia mesmo sentido a honrosa presença de Odin, já que sua espada, por alguns instantes, ganhara vida e abatera dois inimigos sem que ele sentisse o seu peso. Havia lutado como um berserker, enfim, como o feroz homem-lobo que sabia ser.
 Mas a batalha havia sido muito breve. A pobre gente da vila logo estava trucidada. Os guerreiros vencedores selecionavam os despojos, regozijavam entre si, incendiavam as casas e voltavam para os seus barcos enquanto um solitário berserker voltava para a floresta. A batalha havia sido muito breve para sua fúria, para seu ‘berserkergang’, o estado alterado de estrema ferocidade que os caracteriza em combate. Nessas horas o berserker deve arremessar sua fúria, o acúmulo de força sólida, sobre árvores, pedras ou animais, longe de seus companheiros para evitar feri-los. E foi assim que aquele fez. Golpeou árvores e pedras durante horas, até quase o anoitecer.

Quando o estado de furor cessava, o berserker podia entrar num estado de torpor, de esgotamento que o fazia extremamente vulnerável. Era o único momento em que podia ser facilmente vencido. E foi nesse momento que uma lança o feriu mortalmente. Veio por suas costas, atingiu-lhe o coração. No mesmo instante soube que morreria, e estava enormemente alegre por isso. De súbito soltou um uivo lancinante e partiu para cima dos três guerreiros que o feriram. Sua espada novamente ganhara vida e abateu os celtas com a fúria de Wotan.

Depois, o homem-lobo tombou sobre uma grande pedra na floresta densa.
Incontinente, agarrou com força o colar com o martelo de Thor que trazia no pescoço e que ganhara de sua mãe quando lhe nasceu o primeiro dente. Era Gunnar Ericson (Guerreiro Filho de Eric), depois chamado de Gunnar o Andarilho, por ser tão grande e musculoso que nenhum cavalo era capaz de conduzi-lo. Tinha 32 anos, nascera em uma das ilhas da Noruega.

Numa noite do inverno dos seus quatro anos recitou o seu primeiro poema, era tão meigo e atraente que todos queriam ouvi-lo, e a todos ele atendia. Aos sete anos matou o seu primeiro adversário, um homem que ousou ofender sua mãe quando seu pai caçava baleias em alto mar. Aos oito anos bebera sangue de lobo pela primeira vez e aos nove comeu-lhe as carnes. Fez-se um berserker. Era excelente companheiro e notável cantor, tanto de sagas como de canções mágicas. Conhecia com precisão as histórias e as genealogias dos clãs com os quais se relacionava. Todos queriam estar no barco em que estaria, pois era certeza de ótima companhia. Sua espada de noventa centímetros, fora presente de Odin ao mestre do guerreiro-mago que lhe iniciou e só sua lâmina de dois gumes valia mais de vinte vacas de leite, ademais tinha empunhadura de ouro e prata ricamente decorada com pássaros e serpentes acrescentadas pelos três guerreiros que a possuíram. Odin tinha por ela grande apreço, já que eventualmente a manejava em combates, como naqueles últimos em que Gunnar participou.

A vida de cada pessoa é um fio no tear das Nornas, as deusas que tecem o destino dos humanos. O tamanho de cada corda é a duração da vida da pessoa a que corresponde. O tamanho da corda de Gunnar era aquele: ia da noite do seu nascimento, até àquele momento.

Ofegante sobre a pedra, Gunnar o Andarilho viu o Arco-Íris aviventar-se nos céus. Sobre a ponte colorida e brilhante viu as Valkírias que vinham escolher os guerreiros mortos que levariam para o salão de Odin, o Valhala. Sentiu mãos suaves e firmes que o tocavam. Tão suaves e ternas como só as suaves mãos divinas sabem e podem ser. Sobre o cavalo branco de uma Valkíria subiu aos céus e atravessou o Arco-Íris. Chegou ao Valhala, o Salão de Odin. Não era mais um berserker, agora era um Einheirar, um guerreiro morto em combate que lutaria ao lado de Odin no dia do Ragnarok, o dia da Grande Batalha, A Batalha Final.
Recebidos pelos filhos de Odin, os guerreiros eram conduzidos até o trono do deus Pai que os saudava tecendo elogios ao seu valor. Mas, quando um dos seus guerreiros prediletos chegava a Asgard, Odin se levantava de seu trono e ia recebê-lo na grande porta do Valhala para dar-lhe as boas vindas. Gunnar o Andarilho teve essa honra, foi recebido pessoalmente por Odin... Woden... Wotan... A Fúria incontrolável...

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Na floresta, logo após a morte do berserker, quando a lua cheia já apontava no horizonte, uma sacerdotisa celta sobrevivente, movida pela magia dos seus deuses – vizinhos dos deuses e dos céus vikings – se acercou do corpo do guerreiro caído sobre a grande pedra. Ao tocá-lo um raio abateu-se sobre os dois. Ambos desapareceram. Nunca mais foram vistos. Mas sabe-se como sempre viveram desde então. Mesmo que ninguém os veja, todos sabem que são um casal de lobos e que seu eterno ofício é o de reunir ossos, ossos de lobos enterrados nas florestas ou espalhados sobre o chão. Quando os ossos reunidos completam o esqueleto de um lobo, estes ganham carne, pele e alento. E correm para o mundo para serem lobos, o que sempre foram e sempre serão... Lobos como em Asgard são Freki o Voraz, e Geri o Glutão... Os lobos de Wotan. 


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