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sábado, 1 de outubro de 2016

ENGANOS DE AMOR

Mário Chamie (1933-2011)


Não se engana
a si o amor
que não nos damos.

Engana o outro amor
que no outro já perdemos,
se de nosso amor
o outro amor
se afasta em prantos.

Só o amor engana
o outro amor
de nosso sonhos,
se o amor
do outro amor que temos
não sonha
o amor sonhado
que sonhamos.


CHAMIE, Mário. Horizonte de esgrimas. Ribeirão Preto: Funpec, 2002.

sábado, 4 de junho de 2016

VAMOS POETIZAR O POEMA

Mário Chamie (1933-2011) 


Vamos poetizar o poema
e perfumar a sua flor
que por dentro
do poema
é flor isenta.

Coisa pétrea
ou coisa seca,
vamos perfumar
essa flor
na placenta do poema
que a penetra como luz
que por dentro
se arrebenta.

A luz do poema
é a voz
que o poema inventa.
Vamos poetizar
essa voz
que a luz do poema
engendra.

Não há toureiro
que toureie
sem sua capa
vermelha.
O sangue de sua espada
é sua palavra-poema.
Vamos poetizar a palavra
com sua capa toureira:
as vísceras da metáfora
na sua espada vermelha.

Sangue e areia,
vamos perfumar
a flor neutra
na placenta do poema
que, na arena da tourada,
ao poema se assemelha.

Flor neutra
ou flor isenta,

voz caprina
ou voz cabrália,
vamos poetizar
o poema

contra o não
da pedra árida.


CHAMIE, Mário. Horizonte de esgrimas. Ribeirão Preto: Funpec, 2002.

domingo, 2 de agosto de 2015

PEQUENA CONDIÇÃO HUMANA

Mário Chamie


Quando cortaram
o tentáculo
do mal,
não fez sentido
o bem caído.

Quando cortaram
os testículos
do bem,
o mal se pôs
erguido
em seu estrito
sentido.


CHAMIE, Mário. Caravana contrária. São Paulo: Geração Editoria, 1998. p. 74

sábado, 15 de fevereiro de 2014

SÁBADO NA HORA DA ESCUTA

Mário Chamie (1933-2011)


por fora
nesta hora
estou estamos na poltrona.
o sábado:
seu macio beladona
nos prende na onda
no baixo letal veneno da sombra
cômoda.

na poltrona do sossego
estou estamos no centro
das ondas longas
das ondas curtas
da língua suja
da mesma fria
NOTÍCIA
com sua asma
com seu fantasma
de sentença coletiva.

estou estamos na ilha
sob os raios de rádium
onde estando estamos
com o rádio de pilha.

seu reino avança.
indefesos
presos
estou estamos no centro.
dentro
a enguia fria da NOTÍCIA
lança a lança em onda de onde
está estando em sombra.

pois esta é a sombra.
esta, a cômoda.
este, o letal concêntrico
veneno
em volta da poltrona.

estou estamos.
no centro por dentro da ilha
sob as águas, no meio das ondas
o rádio de pilha
está onde estamos
– sombra e escudo –
quando mudos
na sombra
ouvimos o que não muda
e manda.



CHAMIE, Mário. Sábado na hora da escuta: antologia. São Paulo: Summus, 1978. p.115-116

quinta-feira, 2 de maio de 2013

COM TEXTO DE BORRACHA

Mário Chamie (1933-2011)


1.

passo comprido/ o tropeço
no elástico do passo
o tombo e seu preço

: borracha no lombo.

nos tempos desiguais
a via láctea/ os olhos siderais
do amo sem sono
                                   : o dono de escombros
                                     com passo nos paços.

nos tempos seringais:
a vida láctea/ o corte no tronco
                                   : a lâmina/ o aço
                                     nos ombros.

embalde o elástico do passo
se no balde bagaço
se na gota da goma
                                   o homem
                                   com olhos tracoma.

2.

mas passo cumprido
                                   : com texto a borracha.
                                     consciência elástica.

pois a borracha do texto/ não a borracha da fábrica
com a forma do medo/ nem a goma arábica

mas a máquina da fábrica/ a outra trama láctea
na prática da tática/ não a trama flácida da graxa

porque
na fábrica = o medo da tática em marcha.
porque
na tática = o medo da fábrica em massa.

3.

com passo comprido
com passo cumprido
sem medo do tombo
ou borracha no lombo:

a consciência elástica
no contexto e sua prática.


CHAMIE, Mário. Objeto Selvagem. São Paulo: Quíron, 1977.