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terça-feira, 13 de novembro de 2018

DIÁRIO DE BERNARDO SOARES

Há sensações que são sono, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem.
Olha-se, mas não se vê. A longa rua movimentada de bichos humanos é uma espécie de tabuleta deitada onde as letras fossem móveis e não formassem sentidos. As casas são somente casas. Perde-se a possibilidade de dar um sentido ao que se vê, mas vê-se bem o que é, sim.
As pancadas de martelo à porta do caixoteiro soam com uma estranheza próxima. Soam grandemente separadas, cada uma com eco e sem proveito. Os ruídos das carroças parecem de dia em que vem trovoada. As vozes saem do ar, e não de gargantas. Ao fundo, o rio está cansado.
Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. E uma vontade de dormir com outra personalidade, de esquecer com melhoria de vencimento. Não se sente nada, a não ser um automatismo cá em baixo, a fazer umas pernas que nos pertencem levar a bater no chão, na marcha involuntária, uns pés que se sentem dentro dos sapatos. Nem isto se sente talvez. À roda dos olhos e como dedos nos ouvidos há um aperto de dentro da cabeça.
Parece uma constipação na alma. E com a imagem literária de se estar doente nasce um desejo de que a vida fosse uma convalescença, sem andar; e a ideia de convalescença evoca as quintas dos arredores, mas lá para dentro, onde são lares, longe da rua e das rodas. Sim, não se sente nada. Passa-se conscientemente, a dormir só com a impossibilidade de dar ao corpo outra direção, a porta onde se deve entrar. Passa-se tudo.
Que é o pandeiro, ó uso parado?


PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Barueri: Cirando Cultural, 2018. p.80-81

sexta-feira, 28 de julho de 2017

MESTRE, SÃO PLÁCIDAS...

Fernando Pessoa (1888-1935)


Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

12-6-1914

REIS, Ricardo in PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p.253-254

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

NATAL

Fernando Pessoa (1888-1935) 


Nasce um Deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou. 
Temos agora uma outra Eternidade, 
E era sempre melhor o que passou. 

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra. 
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto. 
Um novo deus é só uma palavra. 
Não procures nem creias: tudo é oculto. 


PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p.139

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

BEM, HOJE QUE ESTOU SÓ E POSSO VER

Fernando Pessoa (1888-1935)


Bem, hoje que estou só e posso ver 
Com o poder de ver do coração 
Quanto não sou, quanto não posso ser, 
Quanto, se o for, serei em vão,

Hoje, vou confessar, quero sentir-me
Definitivamente ser ninguém, 
E de mim mesmo, altivo, demitir-me 
Por não ter procedido bem.

Falhei a tudo, mas sem galhardias,
Nada fui, nada ousei e nada fiz, 
Nem colhi nas urtigas dos meus dias 
A flor de parecer feliz.

Mas fica sempre porque o pobre é rico
Em qualquer cousa, se procurar bem, 
A grande indiferença com que fico. 
Escrevo-o para o lembrar bem.

27-7-1931 
PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p.548

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O AMOR

Fernando Pessoa (1888-1935)


O amor, quando se revela,
Não sabe se revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr’a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p.513
p.s. título do blog.

domingo, 19 de outubro de 2014

“CRUZ DO MEU PENSAR”

Fernando Pessoa (1888-1935)


Mundo, confranges-me por existir.
Tenho-te horror porque te sinto ser
E compreendo que te sinto ser
Até às fezes da compreensão.
Bebi a taça [...] do pensamento
Até o fim; reconheci-a pois
Vazia, e achei horror. Mas eu bebi-a.
Raciocinei até achar verdade,
Achei-a e não a entendo. Já se esvai
Neste desejo de compreensão,
Inalteravelmente,
Neste lidar com seres e absolutos,
O que em mim, por sentir, me liga à vida
E pelo pensamento me faz homem.
...................................................................
...................................................................
...............................E neste orgulho certo
Fechado mais ainda e alheado
Me vou, do limitado e relativo
Mundo em que arrasto a cruz do meu pensar.


PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p.454

terça-feira, 14 de outubro de 2014

CANSA SENTIR

Fernando Pessoa (1888-1935)


Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo –
Ah, nada é isto, nada é assim!)


PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p.163-164

quarta-feira, 29 de maio de 2013

AUTOPSICOGRAFIA

Fernando Pessoa
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.



PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 164-165.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

ODE DE RICARDO REIS


Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
            Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
            Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
            Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
            Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
            Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

27-9-1931



PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 286

segunda-feira, 11 de março de 2013

LEMBRANDO RICARDO REIS


O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.



PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.