quarta-feira, 1 de julho de 2026

MARIA LÚCIA MEDEIROS

ZEUS ou A MENINA e os ÓCULOS

Maria Lúcia Medeiros

 

Passeava pelas mesas nos fins-de-semana apenas. Só aos sábados penetrava no cenário das toalhas xadrez, dos pratos de rosinhas, dos copos coloridos de suco.

Antes disso, guardava qualquer cenário dentro da pasta escolar, junto às canetas, aos cadernos e aos papéis coloridos de “sonho de valsa”.

Desenhava, cantarolando, as espessas sobrancelhas da professora, debruçada na carteira da escola. Enjoava. Entediava-se.

Não acreditava no Arroio-Chuí. Não conseguia viajar pelos afluentes da margem esquerda nem atravessar depois para a margem direita. A professora era feia. A cor da saia da professora era feia. O giz colorido era úmido e não desenhava o cachorro de coleira e sapatos.

Voltava pra casa com o sol a pino, suor escorrendo pelas costas, vontade de fazer xixi, em meio às pastas, sacolas e folhas de cartolina, no meio dos irmãos, no banco traseiro, no volkswagen azul do pai.

Gostava de banana quando ela já ia ficando passada com uns pontos pretinhos na casca. Ficava mais doce, mais cheirosa, mais macia. Mas gostava de banana assim, sem entusiasmo, como ouvia as conversas à noite na cozinha. Sem entusiasmo.

Roía as unhas nem que estivessem pintadas com o esmalte da empregada. Roía o esmalte, sim.

Foi por essa ausência de entusiasmo que começou a passear por entre as mesas, aos sábados.

Oferecia seus préstimos e a mãe, atarefada com os fregueses esperando, aceitava que ela passeasse por entre as mesas ajudando, conversando.

Equilibrando bandejas de fayança ela trazia os sucos e anotava as preferências: limão, abacaxi, limão de novo, laranja...

Botava também o aventalzinho xadrez, like mumie, e passeava.

O senhor grisalho que perguntava seu nome, o outro que queria saber o que ela já havia aprendido de matemática, e a moça loura que brincava beliscando, de leve, o seu braço: “Oi menina!”.

E os copos tilintando, derramando, coloridos, gelados no calor de sábado.

Longe no pensamento, agora ocupado, ficava a professora, ficava a escola, o olho azul do menino que sentava ao seu lado nas aulas.

Agora reinavam as mesas, o xadrez das toalhas, o barulho da registradora. O cenário perfeito.

As pessoas perfeitas. O sábado perfeito. - Qual o suco por favor? E a voz cálida, suave, vinha do freguês que tinha muita pena da menina que trabalhava aos sábados como gente grande.

Uma vez uma mulher espigada achou de lhe fazer perguntas: Qual a capital da Checoslováquia?

E da Turquia? Qual o rio que banha Porto Alegre?...

Mas ela não ligava. Nem pras perguntas (que ela não sabia) nem pra mulher, nem pra nada.

Ninguém ia saber daquele cenário preferido. Ninguém ia saber do sabor que tinha esperar o sábado sem aulas, sem notas, sem a chatice de ir e vir, sem vontade.

Para o sábado ela se guardava se dava inteira, menina ainda. Ninguém desconfiaria que a menina antes de penetrar no cenário tirava os óculos e, míope, percorria as mesas, vendo as silhuetas dos fregueses, não vendo nariz nem cílios.

Ninguém saberia que ela usava óculos de lentes claras e que ela dispensava a nitidez e algumas formas. Que era como se visse tudo pelas suas próprias lentes e mergulhasse assim no cenário agradável com cheiro de sábado, com barulho de sábado, com imagem não muito nítida que ela recobria do jeito que bem entendia e queria, sem medo, sem óculos, ela que os usara sempre desde muito tempo, para ver melhor...

 

MEDEIROS, Maria Lúcia. Zeus ou a menina e os óculos. 2ª ed. Belém: Maria Lúcia Medeiros, 1994. p. 27-29

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Maria Lúcia Medeiros nasceu em 1942, em Bragança, Pará, e lá viveu até os 12 anos de idade. Em Belém, foi professora da Universidade do Pará e consultora da Casa da Linguagem da Fundação Curro Velho. Seu primeiro trabalho publicado foi na antologia Ritos de Passagem da Nossa Infância e Adolescência, organizada por Fanny Abramovich em 1984. Depois vieram Zeus Ou A Menina e Os Óculos (1988), Velas Por Quem? (1990), Quarto De Hora (1994) e Horizonte Silencioso (2000). Seu último livro, Céu Caótico foi lançado em 2005, logo após seu falecimento.